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Leituras Atlânticas

Estou no aeroporto de Boston a apanhar uma seca de 12 horas , amanhã à tarde já estou em casa , onde pelos vistos chove que é uma coisa séria.

Não me ocorre nada para escrever aqui pelo que publico um texto longo que já tinha guardado há uns tempos , sobre os livros que li nesta viagem que está quase a terminar com a chegada ao ponto de partida dois meses depois.

Leituras Atlânticas

O meu leitor electrónico , a melhor engenhoca pessoal que alguma vez tive ,   está recheado de livros que ainda não li. Grande  parte deles  foram-me  oferecidos , aproveitando uma das vantagens enormes desses dispositivos: podemos oferecer livros e ficar com eles à mesma, é brilhante. Outra vantagem enorme é que se pode ler à noite só com a luz interna , que permite não precisar de luzes acesas que nos prejudicam a visão nocturna. Outra ainda é que quando começamos um livro não lhe tomamos o peso , pesam todos o mesmo e assim não se sente aquela intimidaçãozinha como quando se pega num calhamaço tipo Guerra e Paz nem sentimos aquela impaciência quando vemos que estamos a poucas páginas do fim.

Tenho lá muitas dezenas  , desde a  Súmula Teológica do S.Tomás (nem perguntem) até à obra completa do meu autor preferido de sempre, Patrick O’Brian  , e de vez em quando vou à procura de edições electrónicas à borla , uma pessoa hoje em dia pode ter uma biblioteca de dezenas e dezenas de clássicos sem pagar nada  . Há uns meros dois séculos ou três os portugueses que  tinham  Cícero , Séneca  , Heródoto  ,  Aristófanes , Espinosa  e estão a ver onde vou com isto  podiam talvez contar-se em  centenas e eram uma elite restrita. Hoje qualquer pessoa  os pode ter de graça , e toda a gente sabe ler , mas parece que o mundo está perdido. É uma das coisas que me faz  mais confusão , a facilidade com que se  descartam os avanços formidáveis da Humanidade desde a Revolução Industrial para carpir   os problemas , como se pudesse haver benefícios sem custos. Vivemos numa época fantástica em que as portas do conhecimento estão escancaradas para quem as quiser  franquear em vez de escolher passar o tempo a lamentar-se , a exigir, a consumir  e a  alienar-se. Há mais oportunidades e possibilidades para a “pessoa média” hoje do que havia nos sonhos mais loucos dos seus avós, mas o que ouvimos dizer é que somos uns escravos,  que isto está muito mau e que o capitalismo é terrível. Faz-me confusão.

 O  leitor electrónico é uma  das pequenas amostras desta época , porque se temos tecnologia   de utilidade no mínimo dúbia , tipo  o relógio apple ou pára brisas que detectam a chuva e se limpam automaticamente (finalmente terminou a maçada de ter que reparar que estava a chover e pressionar um botão) , temos coisas quase mágicas  como câmaras que permitem ver dentro de corpos humanos  ou telefones que nos dão acesso a qualquer informação prática , em qualquer lado.  Em menos de dois anos encontrou-se uma vacina para o ébola mas muitas pessoas , em vez de dizerem “formidável!”,  preferem observar que levou dois anos porque tardou a ameaçar brancos. Copo meio cheio, copo meio vazio , e se por um lado é óptimo termos acesso a tanta informação, cultura e conhecimento , também é verdade que se perdem um bocado os filtros e somos cercados  por informação , cultura e conhecimento de nível  esgoto. É a democracia .

Mas divago ,  isto era  sobre livros. O único livro de papel que trouxe nesta viagem foi o Livro do Desassossego , que nunca consegui acabar e  ainda não foi desta. Isto por causa de um problema sério que tenho com  o Fernando Pessoa : pego num livro dele , seja qual for ou  de “quem” for , começo a ler e a cada cinco minutos ou menos impeço num parágrafo  , pouso o livro e fico a olhar para o Vazio , atingido  por uma frase que me deixa estúpido durante uns bons minutos. Pego no livro outra vez , recomeço, tento apanhar o fio à meada , passam umas páginas e mais um minutos e tumba , outra frase dá-me em cheio , volto a pousar  o livro e ali fico , assoberbado  a pensar naquilo. Não é maneira de se ler um livro , mais ninguém no Mundo me consegue fazer isso  ,fico desconcertado  ,  como é que é possível   não só pensar assim , ver assim , perceber assim mas depois pôr tudo em palavras , assim , é simplesmente  incomparável.

Em Las Palmas os tripulantes foram comprar  livros , presumivelmente  não trouxeram os suficientes de casa  porque não sabiam bem  a falta que fazem .  O Florêncio apareceu-me com , entre outros , as Cinquenta Sombras de Grey. Perante o meu olhar incrédulo disse-me sem grande convicção e um sorriso amarelo que era o livro ideal para perceber as mulheres. Fiquei sem resposta , a achar que era provável que ambos quiséssemos perceber as mulheres mas por motivos diferentes. A meio da viagem peguei no livro , primeira linha : “Olho-me ao espelho e franzo o sobrolho , frustrada. Que nojo de cabelo. Não tem remédio”. Pousei o livro, para lhe pegar outra vez quando tivesse  lido todo o resto a bordo , incluindo as caixas de cereais e os manuais dos motores.

 O Patrício tinha gosto mais apurado e fala castelhano suficiente ,  um dos que comprou foi “La Sombra Del  Viento” , de Carlos Ruiz Zafón . Fala ,  para pedir emprestada a voz  do personagem principal , de livros malditos , do homem que os escreveu , de uma personagem que se escapou das páginas de uma novela para a queimar , de uma traição e de uma amizade perdida.É  uma história de amor , de ódio e dos sonhos que vivem na sombra do vento. Deixou-me cheio de vontade de ver Barcelona , mesmo que se passe  entre os anos 20 e 50 do século passado e como tal a Barcelona de que fala já desapareceu. Adorei a história e o estilo do homem e não resisto a deixar aqui outro  parágrafo , de  amostra: “(…) o colégio de San Gabriel  foi nos seus dias uma das mais prestigiosas  e exclusivas instituições de Barcelona. No tempo da República tornou-se menos porque os novos ricos da época , os novos industriais e banqueiros  a cujos filhos  tinham negado lugar durante anos porque os seus apelidos cheiravam a novo, decidiram criar as suas próprias  escolas onde fossem tratados com reverência e onde pudessem negar lugar aos filhos dos outros.”

Outro    que apareceu a bordo  foi “Death in the Afternoon” ,  o livro do Hemingway sobre  touradas. Nunca gostei muito do Hemingway , nunca li nenhum livro dele com verdadeiro prazer e a  qualidade que lhe reconheço e admiro  é a economia da escrita , não usa seis  palavras se consegue dizer o mesmo com duas .  Isso e a coragem física , mas essa qualidade também a têm outros fanfarrões da mesma espécie , machos alfa que se sentem em  plena forma  quando estão a perseguir e matar alguma coisa e que encontram beleza na violência.  Acredito  que uma das melhores medidas do grau de civilização de um homem ou sociedade é o modo como trata as bestas ,  matar e fazer sofrer animais por entretenimento e espectáculo é para mim uma das maiores aberrações e anacronismos que ainda temos que aturar neste século.   As touradas tal como as conhecemos hoje  só vão  acabar quando os filhos dos nossos filhos olharem  com nojo e repulsa para a prática de torturar bichos em arenas  e forem ao Museu da Tauromaquia como se iria hoje ao Museu da Inquisição , passe a analogia exagerada.

Este livro é então uma longa exposição em estilo jornalístico sobre as touradas em Espanha nos anos 30.Logo na primeira página, primeiro capítulo , lê-se : “suponho que , do  ponto de vista da moral moderna , isto é ,da moral cristã, as touradas são indefensáveis”. Segue-se uma  longa  e minuciosa defesa  das touradas .  Nunca refere as corridas à Portuguesa porque um dos objectivos , e gostos , declarados dele é ver e analisar a morte violenta , o que diz muito  sobre o carácter da criatura e é prenúncio do seu fim. Passou meses e meses em Espanha absorvido e encantado com o  enfernizar dos touros mas nunca se deu  ao trabalho de ir  ver uma corrida a Portugal , não haveria  sangue e violência que lhe chegassem.

Lá para o fim , na legenda de uma fotografia de um touro de língua de fora e espada cravada no cachaço a sangrar até à morte na arena , o homem escreve  : O escritor olha para os cavalos e o público olha para o touro. É a falta de compreensão deste ponto de vista do público que torna  as touradas inexplicáveis aos não espanhóis. Isto de um americano  que acabou de encher 300 páginas a  querer explicar as touradas aos não espanhóis.  Se tivesse dado um tiro nos cornos  na cabeça em 1920 em vez de 1961  tinha visto logo mais de perto a morte violenta que tanto o encantava e tinha-se  evitado toda a enfatuação com  as touradas  que este livro causou.

Em Tortola trouxe da estante de trocas um livro chamado “The Road” , do Cormac McCarthy. A primeira objecção , estúpida , é : que raio de nome é “Cormac” e de onde é que apareceu a mania irritante de dar nomes andróginos às pessoas, tão popular nos EU? Até sei, é a velha vontade de ser original, conheço bastante gente assim . Este McCarthy é,  a julgar pelas críticas  nas capas e contracapas do livro  , o Mestre contemporâneo da literatura americana , é de genial para cima e este The Road é “o seu livro mais legível e a sua obra prima”. Sendo assim nunca mais pego em nada do homem , se é este o mais legível faço ideia do resto. Não gostei nada da história nem da maneira como ele a conta : um pai e um filho esfomeados e andrajosos atravessam uma paisagem pós apocalíptica. Não sabemos  nada do apocalipse , como , onde , porquê nem há quanto tempo nem durante quanto tempo eles andam , só sabemos que eles aí vão e pronto . Desolação , sofrimento , medo , angústia , fome , pestilência , horror ao ponto de haver bebezinhos a assar no espeto . Tudo queimado , tudo coberto de cinza. Chegam ao mar . O pai acaba por morrer de subnutrição e uma flecha na perna , o filho sobrevive e é recolhido por um homem que diz que é dos bons . Fim . Tudo doentio e medonho. Calculo que seja  pelo domínio da linguagem e pela originalidade do estilo que lhe chamam mestre , espero que não seja pelo enredo , senão convenço-me de que sou bastante fraco a apreciar literatura.

Entre outros que não merecem referência ainda  li 3 livros do Philip Roth , que eu desconhecia até há dois meses e entrou directamente para a lista dos meus escritores mais admirados. Quem conhece a América  um bocadinho para além de Hollywood e  lê inglês tem na obra dele um dos testemunhos mais poderosos que pode encontrar sobre Os Americanos . “Portnoy’s Complaint” , “The Human Stain” e “American Pastoral”. Brilhantes , especialmente os dois últimos. Outro grande retrato de uma América agora perdida e obra fundadora da chamada contracultura que reli foi o ”On the Road” , do Jack Kerouac , livro que inspirou uma geração inteira e que entre outras coisas me lembrou de que óptimo reler aos 40 livros que lemos aos 20 , sobretudo  porque aos 20 pensamos que sabemos muito e percebemos tudo e na realidade sabemos pouco e não percebemos nada.

Para terminar , li  “The Shipping News” , que comprei porque me lembrava  do filme ( e estava em saldos)  , por alguma razão qualquer a ideia do gajo de coração partido que  vai viver para uma ilha remota apelou-me. Como é costume, o livro é muito melhor do que o filme , incomparavelmente melhor ,  e não devia ter ficado surpreendido quando vi que  no livro o personagem principal é um gordo mal acabado e a personagem principal é uma viúva de aspecto  banal e um bocado gasto. Hollywood aplica-lhe o Kevin Spacey e a Julienne Moore e assim perverte logo com o elenco a essência da história. Vamos lá a ver , o aspecto físico das pessoas condiciona a sua vida toda , independentemente do que possam defender alguns líricos e  ingénuos.  Condiciona o seu crescimento e desenvolvimento pessoal , o seu trabalho , as suas relações , a sua interacção com os outros . Não podemos pegar num galã para contar a história de um besunta e pretender que se mantém a beleza e originalidade do enredo  . Mas é o que faz Hollywood  , constantemente  , e é uma das razões pelas quais não ligo quase nada ao cinema. É verdade que há mais cinema para além de Hollywood , mas eu sou mais dos livros.

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