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Nassau

Bahama Route

Capital das Bahamas. O nome “bahamas”  vem do que lhe chamavam os espanhóis , os primeiros europeus que por aqui andaram , no século XVI : Gran Baja Mar . É um arquipélago rasteiro , só se vêm as ilhas quando se está mesmo quase em cima de uma , o ponto mais alto talvez tenha dois metros  e há milhares de quilómetros quadrados de recifes . Já se cultivou açúcar, já foi um centro de pirataria e contrabando, hoje só se cultiva  turismo.

Além do turismo a  ilha de Andros ainda é reputada por albergar boa parte do pessoal que trabalha no abastecimento de cocaína à Florida , sempre é outra actividade económica.  Os grandes navios de cruzeiro atracam aqui regularmente , e os pequenos também , cruzeiros de fim de semana que partem de Miami ou Fort Lauderdale . Há centenas de praias de areia branca e águas turquesa ,  muitos resorts  e bom tempo todo o ano ,  um pouco menos no Verão quando está acima dos 32 graus . E há mosquitos , legiões de mosquitos infernais  que nunca aparecem nos folhetos turísticos.

Levámos 7 dias para cá chegar , sem grande história. Parte do caminho o piloto automático não funcionou pelo que se governou muito à mão, tanto é uma seca como uma maneira de os quartos de vigia passarem mais depressa. Gostei de navegar sem electrónica além do meu etrex e da sonda , faz bem voltar ao básico mas navegam-se mais umas quantas milhas porque sem cartas e instrumentos sólidos tem que se dar mais resguardo ,  voltas maiores para se ter a certeza de que se está em segurança . Há plotters  como o que tinha nos últimos barcos cujo preço chegava para eu comprar um barco inteiro ,  coisas muito curiosas. Tive alguns problemazinhos  técnicos esperados em barcos desta idade e história , um dos motores tem uma fuga no equivalente ao radiador e sobreaquece , o outro tem os filtros de gasóleo nojentos  e  puxa mal (o indígena em Tortola aldrabou a revisão dos motores como é normal) e ainda parti uma peça na ponta da retranca , fica condizente com o estado geral do barco. Estou com curiosidade para saber quem é que comprou isto e por quanto.

A tripulação francesa sai aqui , foram quase dois meses , se estiverem tão cansados de mim como eu deles não é um dia cedo demais. Convidei-os a ambos para uma próxima, que é possível neste Inverno, porque posso estar farto deles mas eu estou farto de toda a gente  e o que é certo é que como tripulantes estiveram sempre bem , não podia pedir muito mais. Daqui a dois ou três meses já podia embarcar com estes outra vez, mesmo com o  mais novo que…bom , como se costuma dizer , se parece um pato , anda como um pato e grasna como um pato o mais provável é que seja mesmo um pato.

Saem estes e já cá me esperava o Bruce , um dos meus melhores amigos e meu  sócio nos tempos em que vivia na Florida, vem-me  ajudar a levar o Red Stiletto , não o vejo há uns dois anos e temos  muito que conversar. É das melhores pessoas que já conheci na vida , um tipo verdadeiramente formidável , estou radiante por o poder encontrar e navegar de novo com ele. Claro que quando digo que estou farto de toda a gente há que notar as excepções , talvez meia dúzia , ele é uma delas.

Antes de chegar a Tortola o patrão acenou-me com um Privilege 56 da Turquia para Tortola no Inverno , eu disse que em princípio sim , mas trabalho para ele há tempo demais para saber que ele gosta de nos pendurar à frente um trabalho doce para nos manter motivados nos últimos dias de uma viagem (mesmo que depois o trabalho desapareça por alguma razão desconhecida), porque sabemos que o próximo trabalho depende sempre do último. É uma das razões pelas quais me rio , com escárnio , quando  corporações como a dos professores resistem  ao máximo a terem o seu desempenho  avaliado. Nós somos avaliados a cada trabalho que fazemos , com uma escala  clara e objectiva , quer tenhamos 20 quer 2 anos de carreira , por seja quem for que recebe o barco, ou seja , pelos  clientes ,  e  essa avaliação  condiciona todo o trabalho futuro . Se toda a gente fosse obrigada a trabalhar assim aposto que as coisas funcionavam melhor,  claro que ia haver muitos incompetentes desempregados , e isso , por alguma razão que desconheço ,  não pode ser.

Em Tortola o chefe da base disse-me que têm encomendados mais três L450 novos que vêm de França este Inverno e que provavelmente  um deles é para mim e disse-me também que achava que em Fort Lauderdale me iam pedir para trazer  para baixo um Gemini 35. Eu disse que podiam pedir à vontade que eu não lhe tocava , o Gemini é muito engraçado, já naveguei bastante neles  mas não é para fazer mil e duzentas milhas contra o vento na estação dos furacões , arranjem outro. Estão lá dois à espera de capitão  , não me espanta . Acho que vão ter muito que esperar até encontrar alguém suficientemente desesperado, ignorante ou maluco.

E já a meio caminho de Nassau outra mensagem do patrão ,a perguntar  se queria voltar imediatamente  a Tortola para trazer um Belize 43 para Fort Lauderdale . Já é um barco que aguenta bem um temporal e o caminho já não é contra o vento , mas declinei. Já tenho o bilhete de Boston para as Flores, estou cansado, tenho tantas saudades do meu cão e tanto   que fazer em casa que a ideia de pegar noutro barco e em outros  dois desconhecidos e partir para mais dez  dias de mar já de seguida não me apela  mesmo nada. Levo este até  Fort Lauderdale e encerro a época , já tenho a subsistência assegurada para o resto do ano e um pouco mais além e sei que posso continuar a trabalhar para esta companhia indefinidamente , ou até meter a pata na poça a uma tal profundidade que me mande para uma lista negra, é improvável.  Não era isto que era planeado há quatro anos quando fui buscar o meu Rofe cachorrinho e me dizia retirado da navegação, mas os melhores planos são os que são flexíveis e um gajo tem que fazer o que um gajo tem que fazer. Ainda assim não passa um dia que não me entristeça a pensar no cão  lá sozinho à porta e queria ver se isto não continuava assim por muito mais tempo.

A última vez que estive em Nassau fomos beber uns copos ao bar mais popular da cidade , estava repleto de estudantes. Uma  boa selecção dessa juventude americana , moças cheias de saúde , já com o discernimento um bocado toldado pelo álcool e  com morais questionáveis de origem  , disse-nos que gostariam muito de vir conhecer o barco. Era um Leopard 58 , uma coisa suficientemente impressionante e com condições para dar uma bela festa. Tive que dizer que não , os donos estavam a bordo e nem pensar em trazer convidados. Desta vez o barco não é tão impressionante mas ainda assim é o bastante , está só e apenas às minhas ordens e como não é novo até podia levar uma data de gente daqui para ancorar à beira de uma dessas tais praias dos postais e passar uma bela tarde.

Claro que o bar estava vazio

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One thought on “Nassau

  1. Mais um excelente capítulo, como parece que foi ontem que ficaste com o cão e gosto particularmente dessas moças cheias de saúde.
    Saúde tb pra ti bons ventos e óptimo regresso.
    keytas

    Gostar

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