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Martinique

Não era para esta ilha que eu queria vir mas teve que ser , não é que  fosse preciso mas mais uma vez se prova que nestas viagens nunca se sabe bem como vai ser.

De Las Palmas de Gran Canária a Tortola , Ilhas Virgens Britânicas , vão 2700 milhas náuticas , 5000 quilómetros. Este barco   a plena velocidade à vela faz 12 nós , que são 22 quilómetros por hora. Se as condições são de modo a surfar uma vaga grande pode ir aos 17 , já fiz 18 e meio mas isso são picos , nunca são velocidades sustentadas , a velocidade média normal é 7 nós ,   13  km/h.  Se o mar fosse como uma estrada em que se percorrem as distâncias medidas e mais nenhumas e em  que a velocidade é função da pressão que fazemos no acelerador, demorava 16 dias a atravessar o Atlântico. Sucede que no mar nem a velocidade é constante nem  a distância mais curta entre dois pontos é sempre a linha recta e nem sempre podemos ir na direcção que desejamos. Fruto de vários factores que vão desde a curvatura da Terra às veleidades do Vento acabámos por  fazer  mais de 3000 milhas e demorar  20 dias na travessia, e isso até à Martinica , onde tive que arribar por falta de vento e de gasóleo.

Todas as viagens envolvem escolhas e decisões , estratégicas e tácticas , não só antes da viagem , no seu planeamento , como durante , adaptando-se às circunstâncias . Muitas vezes as escolhas são simples apostas , uma pessoa pega na informação que tem ,  junta-lhe os “conhecidos desconhecidos” como dizia o Rumsfeld , faz a sua escolha e rola os dados . A minha aposta  foi  não perder tempo com ventos fracos entre Cabo Verde e a proximidade das Caraíbas , na zona que costuma estar sob a influência do nosso anticiclone nesta altura do ano , nunca descer dos 6,5 nós mesmo que tivesse que queimar a maior parte do  gasóleo , porque , dizia-me a experiência passada , chegados a 50 graus Oeste , umas 1400 milhas de Cabo Verde e 800 de Tortola , há sempre vento. Exemplo claríssimo de uma generalização grosseira e extrapolação baseada numa dúzia de observações mas que eu tinha como certa.

O Verão , no Atlântico Norte tropical , é a época dos furacões. Todos os anos entre Julho e Outubro  se criam e crescem aqui 15  tempestades tropicais , das quais 7 se tornam furacões , em média . Ninguém no seu perfeito juízo quer estar perto de um furacão  , muito menos num barco , e é  fácil de perceber que em 20 dias não tive uma hora acordado em que não pensasse na possibilidade de ser  apanhado num  .  O Florêncio às tantas comentou que tinha vindo na esperança de ver um furacão , eu disse-lhe que pensava que tinha deixado bem claro logo no  recrutamento que ia fazer tudo o que estivesse ao meu alcance e mesmo tentar fazer coisas que talvez não estivessem ao meu alcance para não ver nem sinais de um. Também lhe  expliquei o que é que tinha a fazer se queria mesmo ver um ao vivo ,  a cores e em estereofonia  , é mais simples do que parece e é principalmente questão de ter tempo, paciência e desapego à vida. Não duvidei que ele estivesse a falar a sério , há gente para tudo .

A tecnologia moderna permite  que se consiga monitorizar a actividade meteorológica a partir do espaço , criar modelos de previsão bastante exactos e ter comunicações em tempo real para qualquer ponto do globo. Por isso ia sendo informado do que se passava nas zonas de actividade ciclónica tropical  e do que era esperado passar-se. Essa informação é crucial mas só por si não  nos ia bastar para sair  do caminho de um furacão , por isso são 20 dias  com  a possibilidade real   de sermos varridos da face da terra. Quando era mais novo  fazia isto ( esta foi a minha 25ª travessia oceânica , mas quem é que está a contar…)  cheio de tesão de mijo , perdoem-me a linguagem , convencido de que se viesse , vinha , e íamos aguentá-lo . Depois vi um de perto  , fiquei  quase aterrorizado e agora de cada vez que faço esta  viagem  no Verão faço-a com bastante receio , algo assim entre a apreensão ligeira e o real cagaço  ,  passo   horas a pensar para que lado é que vou conseguir fugir melhor e que voltas é que tenho que dar para reduzir ao mínimo os probabilidades de apanhar um.  Como com outros assuntos , passo tempo demais a pensar nisso , muito para lá do que é razoável ou contribui para uma solução, mas o que é que eu hei-de fazer.

Desci muito mais a Sul do que seria normal , passei rentinho a Santo Antão em Cabo Verde e fui mais a Sul ainda ,   carreguei provisões que me permitiam passar mais de um mês no mar se fosse preciso. Aguardava as informações meteorológicas  como quem espera ouvir uma revelação  e cheguei aos tais 50 Oeste,  800 milhas de Tortola , com  as reservas de gasóleo perigosamente baixas para não encontrar nem   sinais de vento. Nem nos 50 nem nos 55 , e foi muito desconfortável porque não só é desmoralizante passar horas e horas à deriva à espera como me encontrava a boiar na carreira de tiro , se por infortúnio uma tempestade se levantasse nesses dias o seu caminho , em geral, é mesmo por onde nós estávamos , sem vento nem gasóleo para fugir. Seguiu-se quase uma semana daquelas que põem à prova uma pessoa , a tentar retirar décimas de nó de zéfiros inconstantes , a medir e calcular o gasóleo restante para conseguir manter a voltagem das baterias em ordem , a baixar velas e voltar a içá-las assim que soprava uma aragem , a passar muitas horas simplesmente à deriva , a fazer o  melhor por manter a moral da tripulação .  Pensava no quase fiasco da viagem do Verão passado , em que estive em circunstâncias semelhantes , mas desta vez havia duas grandes diferenças : a primeira é que onde estava o ano passado os ventos dominantes eram sempre adversos , aqui são sempre favoráveis , podiam  fazer-se rogados  mas mais tarde ou mais cedo   iam soprar. A segunda é que estávamos numa situação difícil mas não por erro ou falha minha , apenas por uma aposta legítima que tinha tantas hipóteses de correr bem como mal ,  não havia danos nenhuns no barco e ainda estávamos bem dentro de todos  os prazos, as boas velocidades da primeira parte da viagem a compensar pelas velocidades confrangedoras da parte final .

Ao fim de uns cinco  dias de arrastar penoso decidi arribar à Martinica , retirava perto de 150 milhas à viagem , o rumo para lá permitia-me aproveitar melhor os zéfiros que não havia meio de refrescarem   , fazer 3,5 em vez de 2,5 nós  e mesmo que o vento nunca mais se mostrasse sério  podia parar , meter o gasóleo suficiente para chegar sem problemas às Ilhas Virgens em dois dias e seguir viagem.

Quando ao  fim de 20 dias de Oceano  vimos  a ilha da Martinica respirei fundo ,  já estava feito , estava safo e tinha passado outra vez , senti um alívio ,  leveza e  satisfação que é bastante difícil de explicar. Impossível de explicar .

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