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A Escala em Lisboa

Assim que o barco estava amarrado , arrumado e registado na marina metemo-nos  no comboio de Cascais para Lisboa , eu como sempre satisfeito por mostrar a minha terra , em sentido lato , a estrangeiros que nunca cá tinham estado. Fomos a pé do Cais do Sodré à Praça do Comércio  , cruzámo-nos com uma manifestação que eu pensava ser do  Sindicato Nacional dos Manifestantes para protestar contra isto que não se aguenta mas afinal eram as pessoas que foram enganadas e roubadas pela família Espírito Santo e seus acólitos . Tenho pena  da maior parte dessas pessoas mas não me parece que seja responsabilidade do Estado ressarcir vítimas de burlas e publicidade enganosa. Os abutres repelentes que enganaram estas pessoas são mesmo isso , e quem dava as ordens de “vendam este produto assim assim” também merecia , a meu  ver , passar uns anos bons na cadeia , mas o que é certo é que as pessoas assinaram contratos legais e correram o risco , voluntariamente , e isso tem consequências. Foram vítimas da própria ignorância e da falta de escrúpulos de alguns  empregados do Salgado  ( que recebeu no outro dia a visita do Soares , não tem nada que enganar , ambos asquerosos ) , isso não os torna elegíveis para serem ressarcidos pelo Estado. Se me dizem que o Cavaco tem muita culpa porque pouco antes do BES ter rebentado andava a dizer que o banco era saudável , eu respondo que quem toma  declarações públicas de políticos para  guia das suas decisões financeiras está  a pôr-se  a jeito .

Rua Augusta fora , parámos para beber uma cervejinha  e provar alguma coisa  tipicamente portuguesa  , o mais adequado por ali pareceu-me  uma casa dedicada ao pastel de bacalhau , não têm os melhores pastéis de bacalhau que já comi mas são honestos e genuínos que chegue e podem-se apresentar a estrangeiros  como iguaria tradicional sem problema nenhum. Fazem  pastéis de bacalhau com queijo , não provei  , para mim o pastel de bacalhau já está inventado há muitos anos e não se pode melhorar , senão é outra coisa diferente . Como  uma  alheira de Mirandela ou , sei lá , as tripas à moda do Porto , o pessoal não hesita perante nada e está sempre a inventar  , já espero ver alheiras de chocolate  ou tripas com natas . Divirtam-se.

Havia pouca animação na baixa  , só me tentaram vender droga uma vez e os romenos  que tanto enriquecem e contribuem para a nossa sociedade  primaram pela ausência . Havia como habitualmente os vendedores de coisas sem jeito nenhum e menos utilidade ainda ,  falsificações  de vária ordem ,  um homem estátua e apenas um músico.  Li recentemente que “se um músico de rua te faz parar , deves-lhe uma moeda ” , achei que era justíssimo e não me esqueço. Este não me fez parar.

Os tripulantes  tinham ouvido falar  dos elevadores , os mundialmente  famosos elevadores e eléctricos amarelos, eu disse que a menos que quisessem passar uma hora ao sol  numa fila à espera para pagar uns dois euros para subir uma ladeira  apertados numa cabine contra duas dúzias de turistas suados  deviam era  tirar uma fotografia e ir a pé.

Fui à Praça da Figueira ter com um amigo que podia estar por lá , conduz um dos infames tuk tuks ,    lá estava . Despedi-me dos   tripulantes informando  que subindo aquela colina iam ter ao Castelo, subindo aquela do  outro lado iam ter ao Chiado e ao Bairro Alto , se voltassem para o rio e virassem à direita iam até Belém e que para quem só tem uma tarde e noite até à uma para estar em Lisboa não precisavam de mais opção nenhuma , tirando a opção de não ir para lado nenhum e sentarem-se mesmo ali a beber cerveja e a ver passar o Mundo. Para voltar a Cascais era só  meterem-se no mesmo comboio e só sair no fim da linha , qualquer coisa telefonem-me e até logo ou até amanhã , conforme nos corressem as coisas.

O meu amigo estava para mudar de sítio e claro que aproveitei a boleia  no tuk tuk . O  que ele conduz é eléctrico , e é uma das  únicas restrições  que eu poria a estas maquinetas , tinham que ser eléctricos e que ser conduzidos  por pessoas com noções básicas sobre Lisboa . Circulam tuk tuks a gasóleo conduzidos por brasileiros que nunca ouviram falar no Panteão , por exemplo , e é um bocado mau. Agora que descemos a níveis inauditos de  parolice  metendo fadistas e futebolistas no Panteão, aquilo é uma atracção cada vez maior. Nem sei porque é que não puseram lá o Saramago , talvez  pelo pormenor do renegar a pátria por despeito sobre um concurso .Vi no jornal que deitaram abaixo uma parede com um mural dele e da sua mulher , sem dúvida uma perda irreparável para a capital , era um desenho deles dois e dizia “Chegamos sempre onde nos esperam”. Não , não chegamos . Chegamos muitas vezes  onde ninguém nos espera e esperam-nos muitas vezes onde nunca  chegamos , mas a literatura é um mundo à parte, e quando se é um grande escritor pode dizer-se seja o que for   que as pessoas  aplaudem  ,  repetem e veneram  , independentemente de fazer sentido ou não.  Nunca entrei no Panteão  e  não  faço tenção de  entrar ,  nunca percebi bem o apelo que tem ver o túmulo de uma figura qualquer , sabemos que quando  abertas as caixas ninguém distingue entre os ossos do rei e os do criado  , devem honrar-se as memórias e legados que o merecem e não os resíduos físicos.

Ficámos  um bocado pelo jardim de S.Pedro de Alcântara numa conversa que quase parecia  a continuação directa da que interrompemos há dois meses , este meu amigo é licenciado em direito e além disso  dedicou-se a mais estudos avançados sobre coisas que lhe interessam mas por alguma razão não estranho vê-lo ali a fazer aquilo , estranhava muitíssimo mais se o encontrasse de fato e gravata a caminho de um escritório. Lá o deixei  à espera dos próximos clientes e desci pelo Carmo até ao Rossio , onde comprei  quatro jornais incluindo dois desportivos , não por sede de notícias mas porque as capas e destaques me apelaram especialmente. Sentei-me numa esplanada  a saborear as análises dos especialistas sobre o triunfo desportivo da noite anterior e o desconforto dos nossos rivais , mais uma vez se prova que  um homem sozinho pode fazer a diferença na vida e perspectivas de uma instituição e de centenas de milhar de pessoas. Um café numa esplanada na praça mais nobre da capital ainda custa o mesmo  que um café na tasca mais banal de Les Sables D’Olonne , há que notar.

A seguir meti-me no metro e fui  para Telheiras , onde fica claro que a explosão turística diz sobretudo respeito à Baixa , pode andar-se por lá que tempos sem cruzar um turista ou  um tuk tuk . Uma visita rápida à minha irmã ,  um pouco da conversa em dia   e de volta ao metro e comboio, agora só até Carcavelos para jantar com outros amigos , uma churrascada na praceta onde se junta parte da vizinhança e se passam belas tardes   e noites de Verão de volta do grelhador. Tinha pensado que  se dissesse a esse meu amigo que achava que um dos tripulantes era um bocadito amaricado nunca mais ia ouvir o fim da coisa , iam  ser horas de piadas e bocas  pelo que nem ia referir isso , mas bastou dizer “são dois franceses”. “Dois franceses ?! Oh pá tu vê lá isso , olha que cá para mim…” e pronto , muita risota se seguiu , podiam não ser  piadas do melhor gosto mas há coisas que podiam ser  ofensivas entre desconhecidos  mas que entre velhos amigos são do mais engraçado que há.

Fez-se tarde , levaram-me a Cascais , os tripulantes  já estavam a bordo , sóbrios e tranquilamente de volta da internet , eu já não estava assim muito sóbrio e a pé há quase 24 horas , dormi  o sono dos justos.

Na manhã seguinte fomos ao supermercado  completar os abastecimentos , terminar a papelada relativa ao serviço dos motores que tinha sido feito no dia anterior e zarpámos  ao meio da tarde , com óptimas perspectivas para a passagem de 700 milhas até  Las Palmas de Gran Canária, onde estamos agora depois de 5 dias de viagem .

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