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Até Cascais

No dia da partida fui comprar a imprensa , é uma espécie de vício velho que a possibilidade da leitura online não apagou e que viver num sítio onde não há jornais à venda só veio agravar. Gosto de comprar os jornais no estrangeiro não só pela informação e pela tal prática da língua  como para ter uma perspectiva melhor sobre o país onde estou. Há muitas pessoas que não só visitam um país mas depois escrevem sobre ele sem nunca se darem ao trabalho de ler a imprensa e assim tomar de certa maneira o pulso ao sítio. Até em sítios como a Turquia , em que conheço  para aí uma palavra em  100 , compro o jornal . Adivinha-se , descobre-se , conjectura-se , especula-se e inventa-se mas nem que seja por  ver como o jornal é organizado aprende-se sempre alguma coisinha.

Gosto de ver as estantes repletas nas tabacarias e a multiplicidade de títulos, só revistas de história desta vez contei oito, vi três dedicadas à filosofia  e de náutica são pelo menos meia dúzia . As revistas de interesses femininos são às dezenas e sinceramente não percebo bem o que distingue umas das outras, mas também é verdade que só vejo as capas.  Pelo menos em Portugal não tenho pena de não ter dinheiro para assinar  revistas , a oferta nos campos que me interessam  é quase nula , para não dizer nula mesmo.

Comprei o Le Monde , o Figaro, o Le Point , L’Express e a  Marianne , e um dos meus tripulantes  disse que nunca tinha visto ninguém comprar imprensa de esquerda e direita ao mesmo tempo. Eu disse que gosto de ter perspectivas equilibradas  e que ainda estou à espera de que em Portugal os nossos jornais se assumam claramente , escolham uma linha e trabalhem nela em vez de tentarem ser tudo para todos e acabando por não ser nada de jeito . Ainda há muita pedra para partir até vermos , se é que vamos ver , a imprensa portuguesa a escolher e apoiar declaradamente um determinado candidato  ou programa em vez de o fazer constantemente pela calada, reclamando  uma fictícia independência jornalística que só existe na imaginação das pessoas.  É como esperar que um jornalista desportivo , alguém que por definição adora o futebol , consiga escrever e reportar sem se deixar influenciar pelo lado para o qual tende o seu coração.

Bom , de todas estas leituras de editoriais, reportagens e crónicas o  que ficou , além do reforço dos meus preconceitos ,   é que para o mês que vem vai sair uma nova história do Corto Maltese. É verdade , o Hugo Pratt morreu há que tempos mas os seus amigos e herdeiros , em todas as acepções da palavra , decidiram que ainda havia histórias para contar. Atentos então ao “Sob o Sol da Meia  Noite”, em Setembro  Corto vai andar pelo Klondike em busca de tesouros reais e sonhados , acompanhado pelo Rasputine , o seu camarada psicopata.

A passagem para Cascais durou 4 dias e não poderia ter sido muito melhor . Vi-me obrigado a andar a motor durante muitas horas apesar de ter 18 e mais nós de vento , isto porque a razão da paragem em Cascais é apenas a realização da primeira revisão aos motores por um agente oficial da marca, e esta primeira revisão necessita que os motores tenham  pelo menos 30 horas. Ora cheguei à latitude de Pontevedra   com cinco em cada motor e o vento não amainava , lá descemos a costa na situação um bocado ridícula de ter uma brisa fresca e favorável a apesar disso ir a motor, teve que ser , para não ter a situação ainda mais ridícula de passar  um dia inteiro  na doca com os motores a trabalhar para fazer  horas. Tenho a certeza de que se tivesse restrições ao gasóleo e nenhuma questão com as horas não havia vento  para ninguém.

Estou muito satisfeito com a tripulação , Patrício e Florêncio, o primeiro tem 60 e tal anos , serviu na Marinha e trabalhou o resto da vida  na construção naval e muitos anos em sítios interessantes como a Guiana e a República Dominicana e agora dedica-se a navegar assim, só pelo prazer. Sabe mais do que o suficiente sobre isto e é um tipo simples , discreto e tranquilo.  O Florêncio é um rapaz novo , nem tem 30 anos , tem o seu barquinho à vela no Mediterrâneo, já fez alguns cursos e , convenientemente , já foi tripulante numa viagem num barco idêntico a este. É educado, simpático, activo e prestável e tem também o que na minha terra se chama um piquinho a azedo, coisa que não me incomoda, tenho vários defeitos mas entre eles não está a homofobia , desde que nos respeitemos  uns aos outros e nos lembremos das regras  a convivência é sempre boa. Não me costumo enganar nestas coisas mas é sempre possível, logo verei em Las Palmas, cidade que tem uma rua cheia de bares e casinhas onde decorrem actividades que muita gente acha objeccionáveis e que eu gosto sempre de visitar com as tripulações, mesmo quando a única coisa que acontece é galhofa.

Cheguei esta manhã à Baía de Cascais com um cachecol do Sporting no topo do mastro e dei uma volta à baía antes de entrar na marina. Os tripulantes  ligam zero ao futebol , tive que lhes explicar que em ocasiões como a de ontem  ( para outros que não ligam nada informo que o Sporting ganhou a Supertaça ao arqui-rival  ontem à noite) é fundamental não só partilhar a alegria com  os nossos  como irritar os adversários.

O barco está amarrado  , limpo e arrumado e agora vamos a Lisboa ,  contribuir com mais dois turistas para o congestionamento e descaracterização da capital , os lisboetas que me perdoem , prometo que não vamos gastar muito dinheiro e desculpem lá a intrusão.

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