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Nantes

Isto não começou lá muito bem . Logo no Sábado ao fim da tarde , pouco depois de ter escrito aqui coisas simpáticas sobre a amizade entre o meu cão e os outros bichos , chego a casa e encontro   o carneiro com o focinho todo desmanchado a sangrar .  Saltou uma cerca , quis passar mas o cão não deixa passar ninguém , independentemente da capacidade de marrar ou da força.

Logo na véspera de me ir embora , logo num Sábado ao fim do dia. Só no Domingo consegui encontrar um veterinário , no caso veterinária , que sem o ver me disse que mesmo que pudesse ser suturado , o que não era certo, tinha , para se safar , que ser medicado durante bastante tempo. Ora eu posso pedir a pessoas que me olhem pelos animais mas medicar e mudar pensos já não , mesmo que a ferida eventualmente sarasse. Não sei, não fui capaz de olhar com muita atenção , fez-me muita impressão e fiquei desgostoso. O carneiro , mesmo com as vezes todas que me tinha marrado , as árvores e outras plantas que comeu e o mau feitio que tinha , era de estimação , teve que ser abatido, fiquei  triste . Uma pessoa  pensa que  com os animais é que sim mas às vezes esquece-se dos desgostos que também se sofrem por causa deles.

No Domingo lá fui fazer o circuito das ilhas para chegar a Lisboa , desta vez só com duas escalas , nem foi muito  mau. Achei piada na Terceira quando nos fizeram entrar num autocarro à saída do avião para ir para a gare , uns  100 metros que das outras vezes todas se faz a pé e em muito menos tempo do que leva a entrar e voltar a sair do autocarro.

Chegada tardia a Lisboa , a um aeroporto a rebentar pelas costuras , para quem não vive em Lisboa ou ainda não se deu conta , é mesmo verdade que a capital transborda de turistas. Parece que há quem não goste , como não podia deixar de ser . O meu argumento preferido é o de que muitos turistas descaracterizam Lisboa. Eu lembro-me bem como era a Lisboa característica nos anos 80 , a javardice , a pelintrice , a degradação , a poluição , a baixa deserta depois as 8 , a oferta cultural só para as elites , enfim coisas que o boom turístico combate e de cuja melhoria é ao mesmo tempo causa e efeito. Aos lisboetas agastados pelo excesso de turismo recomendo que se mudem para outra capital que ainda não seja descaracterizada pelas hordas de turistas, tipo Londres . No dia em que os números do turismo começarem a cair vamos  ouvir  lisboetas a lamentar que não se fez o suficiente pelo turismo. É claro que há um problema potencial , o excesso de oferta ,  não sei se fazem  falta 700 tuk tuks ou 35 hostels por quarteirão , mas o mercado tem esta beleza : se a oferta é em excesso os preços baixam , o consumidor beneficia e quem não pode baixar os preços sai do mercado. Não esperem , por favor , é que seja o governo a vir dizer quantos tuk tuks ou quantos hostels podem operar.Ou a junta de freguesia de não sei das quantas.

Hoje de manhã regressei  ao aeroporto e senti-me mal , o congestionamento era enorme (não , não acho que devam fazer um aeroporto novo) , era uma multidão. Só há uma ocasião em que estou bem no meio de uma multidão , é no estádio e seus arredores em dia de jogo,  isto porque eu e a multidão temos um claro identificador comum . Somos  muito diferentes mas apoiamos o mesmo clube e estamos lá para o ver , isso torna-nos todos  iguais e tolero toda a gente só porque levam um cachecol como o meu. No aeroporto não é assim , não tenho paciência nenhuma  para a massa de turistas , para gente que fala alto , para bebezinhos barulhentos e crianças irrequietas ,  para velhotes desorientados , para adolescentes  excitados , para casalinhos românticos , para grupos de excursionistas , para a família Prudêncio , enfim , fico cheio de mau feitio e o processo cansa-me sempre, as horas e horas em filas e filas e esperas e mais esperas. Ponho os auscultadores já mais para abafar o som circundante do que para ouvir música .

A moda é outra coisa que acho curiosa , as tendências e a necessidade que as pessoas têm de se vestir de modo semelhante a outras pessoas. O must deste Verão é o calçãozinho justo um palmo acima do joelho , com a bainha para fora , e a camisinha salmão, amarela ou outra cor assim fresca . Só à estalada , especialmente se o dito calçãozinho justo é acompanhado de uma barba à  lenhador , tornando o ensemble ainda mais incongruente. Mas tem o seu valor cómico, por isso , moços modernos , todos aos calçõezinhos de rapaz que cresceu demais no inverno passado , às camisas  justinhas de cores alegres ( como no antigo sinónimo de alegre em inglês) como o rosa , o verde vivo e  o azul cueca , e não se esqueçam do chapelinho , que a malta tem que se rir ,  isto não está fácil.

O avião para Nantes atrasou , perdi o comboio que me devia levar a Les Sables ainda com luz do dia por isso agora estou na gare semi deserta à seca mais uma hora para chegar lá para as 11. Já me vieram pedir dinheiro duas vezes , andam aí montes de vagabundos , tudo pessoal com bom corpo mas pouca vontade de trabalhar , mais amigos do tintol , das ganzas , dos rafeiros piolhosos e das tardes passadas estirados nos parques e passeios e incomodar os passantes com o cheiro e os batuques do que de um horário das 9 ás 5 . Vítimas da sociedade. Agora em França têm esta designação para abarcar todos estes freaks , vagabundos  e ciganos em geral : gens du voyage , um eufemismo ridículo que mostra que este pessoal pode passar o resto da vida a viver de esmolas e subsídios públicos de toda a ordem  sem ninguém lhes dar um berro e dizer que as escolhas de estilo de vida devem ser absolutamente livres mas deve-lhes corresponder a responsabilidade de as manter sem depender dos outros.

Ainda esta  noite em Les Sables vou encontrar um americano que não vejo há muitos anos , sem nenhumas saudades , um gajo que a dada altura contei entre os meus amigos mas hoje não lhe confiro a distinção, é um cromo , um tipo muito complicado e com pelo menos tantos defeitos com qualidades. É ele que me vai entregar o barco , lá aproveitou a companhia dele ter comprado meia dúzia de Lagoons novos para vir passar umas férias a França , embebedar-se como os clássicos e chatear pessoas diferentes.   Haverá histórias.

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2 thoughts on “Nantes

  1. “outra cor assim fresca” olha, há muito tempo que não soltava uma gargalhada como a que dei com esta frase. Nem mesmo com o hit da Rosinha… Quanto ao post abaixo, e imagino que seja algo de que já desconfies, não esperes que mulher nenhuma deste mundo, nem mesmo as protetoras dos animaizinhos e amantes da natureza, te entre em casa enquanto haver o risco de lá entrar um rato, seja que tipo de rato for… #Justsayin… Boa viagem.

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