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Festa

Este foi o fim de semana da Festa do Emigrante , o ponto alto do calendário nas Lajes, a única altura do ano em que há realmente algum movimento na vila , e  não me estou a queixar da falta de movimento usual, quando chega a segunda feira já começo a pensar “mas esta gente toda nunca mais se vai embora?…”

A festa é na avenida , a única avenida da vila e que estica um bocadinho a definição de “avenida” , compõe-se de três grandes tendas que são bar e restaurante , duas mais pequenas , uma banca de ciganos a vender roupa e algumas roulottes e carrinhos de cachorros quentes e essas coisas. Este ano havia iluminação nova , houve  um torneio de futebol de salão ,  uma exposição de pintura de um artista local , outra com arte sacra , houve a apresentação de 3 livros sobre a ilha ( este anos a vila das Lajes celebra 500 anos) à qual não fui mas vou comprar  os livros , pelo menos um que promete ser muito interessante porque é sobre naufrágios nas nossas costas.

Logo na sexta andou por aqui o presidente do PSD a distribuir acenos e sorrisos , eu estava num canto num dos bares e o homem olha para mim e cumprimenta-me   como se me conhecesse de algum lado , fiquei sem reacção a pensar que realmente a primeira qualidade necessária para um político é a lata . Hoje vem o PS , que nesta altura é governo , é a visita estatutária. Não sou adepto de uns nem de outros e desconfio sempre de todos mas a Visita Estatutária é das poucas coisas boas que existem na política regional  : o governo  todos os anos visita as ilhas todas por um ou dois dias e entre os beijinhos aos bebés , almoçaradas e frases feitas há uma coisa boa: dispõem-se a ouvir a população. Na semana passada lá tinha na caixa do correio o convite para  ir à sessão e apresentar as questões que entendesse . Não me ocorre nada , nada que eles pudessem resolver, mas gosto muito de ter essa possibilidade , inexistente no continente.

Outra parte grande da festa é o  folclore , género ao qual eu nunca passei cartucho antes de vir para aqui mas agora vou sempre ver , veio um rancho de S.Miguel e actuaram os ranchos de cá , mas cá não se chamam ranchos. Também há marchas , outra manifestação cultural que sempre me foi indiferente mas aqui já não , deve ser pela proximidade , por conhecer toda a gente nem que seja de vista e gostar de ver a filarmónica , a única que resta na ilha.

Há música  à noite , escolheram uma artista  indescritível , chama-se Rosinha , é uma versão feminina do Quim Barreiros e o seu  principal sucesso  chama-se  “eu levo no pacote” , não consigo perceber como é que não se encontrou um artista popular que não fosse ordinário , eu não sou propriamente um gajo púdico mas aquilo incomoda-me , ou incomodar-me-ia se fosse ver , mesmo com o toque de classe das duas bailarinas gajas de biquini a saltitar.  Também percebi depressa que a escolha da artista só me fazia confusão a mim , o resto das pessoas não só achava que sim como parece que se divertiu , é o que importa . As mesmas pessoas que estiveram numa sessão solene da igreja matriz a mostrar a sua devoção foram também aplaudir canções como “eu lavo a ameijoa” , as pessoas são mesmo muito estranhas.

Vieram os Mesa no dia seguinte , banda da qual eu conhecia uma só canção , uma banda de pop nacional que foi ainda mais desadequada que a Rosinha no nosso ainda mais desadequado palco , construção que deixa os artistas a quatro metros de altura e dez de distância de um público que se conta em algumas dezenas  , é muito esquisito. Também houve  DJ’s , fiz um esforço mas não dá , se não estiver intoxicado não tenho nenhuma tolerância para aquilo . Veio  uma banda da Terceira , de versões de rock , acho , que é mais a minha praia mas no dia em que tocaram não fui ver. No último dia , ontem , tocou uma banda local de miúdos que gostei bastante de ouvir , versões muito….prometedoras de bandas como 3 Doors Down ou Kings of Leon e clássicos como Jorge Palma e Xutos , os moços não só se esforçam como têm bom gosto .

A minha parte preferida , além de beber copos com amigos e conhecidos , ver gente diferente e não ter que cozinhar durante 4 dias , é o desfile etnográfico , que também se chama outra coisa que não me ocorre. As freguesias constroem carros alegóricos sobre pedaços da vida antiga na ilha , este ano a Fajã Grande trazia um barco de pesca que até tinha um mergulhador agachado a apanhar sargaço , o Mosteiro trazia um tear e mulheres a cardar e fiar lã , a Lomba trazia uma sala de estar autêntica de uma casa dos anos cinquenta , até vieram porcos e ovelhas e um dispositivo que se usava para entrançar cordas nos tempos de antes do plástico , o clube naval trazia modelos de baleeiras e miúdos com placas com os nomes dos antigos botes da ilha. As pessoas vestem-se a rigor , até aos cigarros de barbas de milho e as tamancas , quando não vão descalços se o traje não é o de Domingo. Não varia assim muito todos os anos mas gosto sempre de ver o desfile , há sempre alguma coisa nova. Este ano estava a ver ao lado de um vizinho meu , velhote , e disse-lhe “o senhor lembra-se bem deste tempo…” . “Fome , Jorge , muita fome“.

Houve uma tentativa de regata de botes baleeiros , havia dois do clube naval de cá e veio um do Faial. Digo tentativa porque parece que o clube acha que se pode participar numa coisa dessas em Julho começando um programa de treino semi aleatório em Maio. Um dos nossos botes partiu logo uma verga assim que hasteou a vela e o outro virou numa cambadela mal feita , os do Faial nem uma volta completa  deram às bóias e voltaram ao porto , tive muita pena. Gastou-se uma fortuna naqueles botes e não se  organiza um calendário sério de treinos para aproveitar a sabedoria que ainda há cá sobre a navegação neles e não se fazerem figuras assim quando se compete com outras ilhas. O objectivo não pode ser ganhar mas caramba , brio e vontade não basta , é preciso trabalho , organização e treino. Ofereci-me para participar , estou sempre a ouvir dizer que falta gente , eu nunca andei num bote baleeiro mas sei alguma coisinha de barcos e vela e se me ensinarem consigo ser um membro da companha , mas estou à espera de nova direcção no clube , o actual presidente é uma pessoa que se refere aos continentais como portugueses e tem outras características que me fazem não querer ter absolutamente nada a ver com ele. Não me espantava que encontrasse ou inventasse uma regra a dizer que só Florentinos de origem podem andar nos botes.

Come-se mero , cabrito bravo , lapas e outras coisas excepcionais , e outras menos  excepcionais tipo favas e frango assado e bebem-se quantidades grandes de cerveja mas  a parte principal da festa não são as atracções , a comida ou a música , são as pessoas , é para isso que toda a gente sai , para se encontrar seja com vizinhos seja com pessoas que não vê há anos. Vêm dezenas de emigrantes , e os encontros entre eles , entre os que foram e os que ficaram ,  sejam família ou amigos , são do que  mais gosto de ver .

Esta manhã já se desmonta tudo , o ferry já partiu no Domingo , a avenida volta à pacatez vazia do costume , para o ano há mais .

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2 thoughts on “Festa

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