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Le Castella

Como a paragem  em Gibraltar não conta como escala , dado que é uma hora na doca do combustível e nem se desce a terra , cumprimos dez dias de navegação ininterrupta , já faltavam 300 e poucas milhas para Split quando veio o avisi di burrasca e lá procurei um porto. Eu conseguia bem habituar-me a esta navegação semi costeira onde se está quase sempre a distância razoável de um abrigo, por  oposição à navegação de alto mar em que  tem que nos passar mesmo tudo por cima.

Estava radiante porque em vias de conseguir fazer Cascais-Split sem parar e sem danos, marca que não interessa a ninguém a não ser a mim,  o único que está a contar estas coisas. Ainda assim deixámos para trás e bem para trás 3 outros L450 a caminho da Croácia, dois deles tendo saído de Les Sables bem antes de mim e outro exactamente ao mesmo tempo. Ora isto nunca  é uma corrida e é sempre uma corrida, e os outros 3 não ficaram para trás por incompetência ou porque eu sou melhor, foi só questão de escolhas e sortes diferentes  mas ainda assim fico muito contente . Nem o patrão nem o dono do barco se impressionam ou interessam muito com estas contas, desde que o barco chegue no prazo acordado, impecável e sem despesas acrescidas é-lhes indiferente se parei seis vezes ou nunca parei , se andei dias e dias a fazer 9 nós a surfar ou andei dias e dias a queimar hectolitros de gasóleo por não estar para me chatear com velas.O barco está, até ver, impecável . A minha lista compõe-se de um buraquinho de meio centímetro quadrado no gelcoat da ponte  causado por uma manivela de guincho que levantou voo , em 10 minutos fica novo. Só tenho que aguentar isto assim mais três dias e vou pisar as docas de Split com mais um palmo de altura.

 Ainda assim ao fim dos dez dias estava cansado e não hesitei  em  entrar num porto quando ouvi o aviso , até porque seria impossível entrar no Adriático amanhã , o canal de Otranto estava fechado por  vinte e cinco nós de vento NNW. Queria parar em Santa Maria de Leuca , mesmo na ponta do tacão da bota de Itália , por essa particularidade geográfica  e por gostar do nome , mas  Le Castella estava mais perto , e quando vi a fortaleza a dominar a costa ficou claro que não ia mais longe.

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Barco amarrado e formalidades   feitas (compostas por um recibo passado á mão no carro do encarregado da “marina”)  saímos para ver Le Castella e beber umas merecidas cervejas , a história não tem nada de novo e passa-se sempre da mesma maneira , é sempre o mesmo processo e obviamente obtêm-se sempre os mesmos resultados. Às tantas mostrei ao Ricardo um vídeo da minha casa que tinha no telefone, apareceu o meu cão e fiquei com um nó na garganta , quando voltei para o barco parei  para fazer festas e falar com todos os cães vadios no caminho , e não eram poucos. Por incrível que pareça os cães italianos percebem muito bem o português , eu fico frustrado por perceber bem o italiano mas ser virtualmente incapaz de dizer alguma coisa que seja  além do bom dia boa noite obrigado e tal , começo a misturar com espanhol e a emperrar em tudo mas sei bem que se passasse aqui umas semanitas a coisa dava-se , especialmente se me esforçasse mais por falar com pessoas em vez de cães.

Esta manhã fui com a ressaca da ordem visitar a fortaleza  e deixar a minha imaginação , que tanto é o meu pior inimigo como o meu consolo , levar-me um bocadinho até às guerras do século XIII com os sarracenos . Daí para a praia  , ou melhor , a esplanada sobre a praia , que eu não gosto muito de areia. A terra é pequena e vê-se em meia hora , a característica que notei mais foi a proporção impossível de casas inacabadas , o pessoal constrói mansões mas depois o dinheiro não chega para a tinta , é muito curioso. De qualquer maneira a Calabria é uma região lindíssima que dá cartas  em matéria de arquitectura clássica e vestígios arqueológicos .

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Zarpamos daqui a pouco , ao fim da tarde , faltam só  320 milhas  , mais milha menos milha , já disse ao patrão que espero chegar Sábado ao fim da tarde mas tanto posso acelerar para chegar Sábado de manhã como abrandar para entrar Domingo, é à vontade do freguês. Calha bem porque o Ricardo faz anos no Domingo e é sempre melhor celebrar em terra do que no mar e porque tudo indica que vou regressar a Lisboa a tempo de não perder o meu bilhete de volta para as Flores dia 25.

50 horas para Split ,e que não haja novidade.

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2 thoughts on “Le Castella

  1. será que é como no Brasil? Se puseres a tinta, pagas como casa construída e assim não? mora lá gente? já vi pelas fotos que não. No Basil dá pra morar sem janelas, na Itália, ainda que no sul, deve ser difícil. Adorei o relato 🙂 Boa viagem, boas brejas.

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    • Há muitas em que mora gente , vasos de flores e roupa a secar e tudo. É muito provável que seja por causa dessa história dos impostos , a casa fica permanentemente inacabada e não paga tipo imi ou isso. não me tinha ocorrido.

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