Não há muitas actividades tão dependentes do tempo como a navegação à vela, até a moderna navegação marítima comercial está mais ou menos isolada das variações do vento.Tal como a aeronáutica ,  está sujeita  a atrasos ou cancelamentos apenas em caso de tempo quase extremo.  Por outro lado num veleiro uma variação de quarenta graus na direcção do vento ou de dez nós na sua força pode facilmente significar vários dias de atraso e a diferença entre uma viagem rápida e confortável e uma tirada lenta e dura.

Há dois meses fiz uma viagem idêntica à que empreendo agora, a única coisa que mudou foi o tripulante , a diferença principal deste em relação ao outro é  que o anterior era meu amigo , recente mas amigo , e temos várias coisas em comum  , com este não tenho quase nada mas isso não é obstáculo a que o serviço se faça bem e a tempo e que haja harmonia e boa disposição a bordo.  Não se pode atribuir à diferença de tripulante o facto de entre Les Sables e Gibraltar , de onde mando  isto , ter feito um tempo inferior em 72 horas com menos cerca de 15 horas em cada motor , dois indicadores que me deixam bastante contente, e quando lhe junto o facto de a lista de excepções  e danos estar vazia e de estar algumas centenas abaixo das despesas  da última ainda fico mais satisfeito.

Da última vez tive por exemplo que ficar dois dias em Cascais e mesmo assim não partimos na altura ideal, apenas por causa da direcção e força do vento, é fácil de calcular a importância que a sorte tem nestas andanças.  Ainda assim pouco mais de 24 horas em Cascais foram uma escala quase perfeita.Recebi a visita da minha irmã e do meu sobrinho mais velho, lembrámos a altura, faz quase 18 anos, em que o levámos de colo a ver o meu primeiro barco e ele abriu o berreiro e recusou-se a  sequer  aproximar-se do barco , hoje estuda engenharia naval no Técnico. Outros amigos me foram ver, entre eles um que eu não via há uns 20 anos, há 30 éramos melhores amigos, nunca me engano na data porque passámos a abertura do Mundial do México 86 na sala dele à espera que voltasse a mãe, eu com o braço e o pulso partidos por causa de uma expedição clandestina  que tínhamos feito no carro da família e que correu mal. Quando nos faz encontrar um amigo de 30 anos que não víamos há 20 o facebook compensa os quilómetros de estupidez  e parvoíce que  comporta diariamente.

Pela primeira vez não trouxe um único livro de papel numa viagem, é um risco calculado. Tenho GPS’s e leitores de cartas electrónicos mas continuo a trazer sempre as cartas náuticas  em papel , como manda a regra e o bom senso , mas no que toca a leituras  desta vez pus a confiança toda no kindle e  poupei  os cerca de dois kgs de livros que uma viagem deste tamanho me obrigaria a trazer para manter a sanidade mental.  Reli o Superfreakonomics , que não posso deixar de recomendar o mais vivamente possível , tal como o anterior , Freakonomics, livros que trazem uma perspectiva original, muitas vezes insólita , sobre fenómenos sociais modernos à luz da economia , não da economia que nos zumbem aos ouvidos os mói almas com agendas políticas, percentagens , fracções e definições abstrusas , mas de uma economia digamos , descomplexada , que não tem medo de propor por exemplo a seguinte hipótese :  a legalização do aborto nos Estados Unidos foi em parte responsável pela quebra enorme da criminalidade cerca de 18 anos após a sua entrada em vigor. O racional? Crianças indesejadas têm muito mais possibilidades de ter infâncias e juventudes problemáticas e enveredar pelo crime. Ousado e controverso mas que faz sentido para muita gente.

Também li “The Demon Haunted World , Science as a Candle in the Dark”, do gigante Carl Sagan , um livro que é um consolo para ateus , amantes da Ciência e para todos os que se exasperam com extraterrestres , fantasmas , creacionismo , milagres , astrologia , percepções extra-sensoriais , conspirações globais , enfim ,  superstições , ignorância e  obscurantismo de toda a ordem. Já no princípio dos anos 90 Sagan lamentava a decadência do espírito crítico, do método científico, da capacidade de pensamento independente e a proliferação de charlatões e manipuladores, e isto antes da explosão da internet, acho que se o homem fosse vivo hoje sentava-se num canto a chorar ao ver a difusão acrítica e generalizada de tanta mentira e propaganda, ao ver a opacidade crescente dos sistemas políticos, a idiotia da comunicação social e o aumento do fosso entre as elites educadas e as massas acéfalas.

Agora estou a ler o Nome da Rosa e volta e meia a lutar com um livro que  se chama “Basic Writings of Nietzche”  para ver se  abandono o número enorme daqueles que  dizem  que o conhecem  e no fundo não sabem  grande coisa sobre o pensamento dele.

Passando de assuntos superiores para assuntos rasteiros, cheguei a Cascais três ou quatro dias depois do Caso Jorge Jesus , chamemos-lhe assim. Imagino que o nosso lamentável  jornalismo tenha tido dois ou três dias monotemáticos e que exércitos de comentadores tenham dito muitas coisas.  Como sportinguista e gajo que também gosta de dizer coisas, digo que lamento o modo pouco digno como se despediu um treinador  que honrou o clube e conseguiu uma época que para mim foi de sucesso. Também lamento  que daqui em diante seja um burgesso  que assassina o Português a cada frase que diz e que tem a categoria de um taxista que vai  falar pela minha equipa em público, vou ter que ouvir as suas calinadas todas as semanas , vai doer. Mas prontos, a gente lá teremos que se habituar-nos a situações assim concretas referentes a isso , as coisas serem mesmo assim.

Estou agora na doca de combustível de Gibraltar a atestar os tanques com o belo gasóleo a 47 cêntimos o litro, tenho o barco aprovisionado para as 1600 milhas que nos separam de Split e a esperança firme de conseguir fazer tudo numa só tirada, assim o vento continue favorável.

O Cabo de S.Vicente e a Ponta de Sagres na Terça Feira pela manhãzinha:

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