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Salvamentos

 Há poucos dias passou mesmo aqui por cima , baixinho, um helicóptero da Força Aérea, ia para Oeste . Como a Oeste daqui é mar até à América e olhando para o tempo que tem estado no Atlântico Norte era fácil de perceber que iam para alguma evacuação.

Foi uma operação grande , foram resgatadas as tripulações de  5 veleiros em dificuldades , evacuaram –se 12    pessoas e perdeu-se uma menina que não sobreviveu a 7 horas na água.

Primeiro , a satisfação de saber que a Marinha e a Força Aérea portuguesas , apesar  da falta de meios crónica , sabem e conseguem  estar à altura do que se lhes pede.  Não havia possibilidades humanas de salvar aquela criança a partir da altura em que abandonaram o veleiro ,  e essa decisão foi do skipper .

Segundo , cada ano que passa me convenço mais de que os mares estão cheios de navegadores que deviam era ficar em casa , ou em todo o caso não deviam empreender navegações oceânicas.  Hoje em dia a tecnologia oferece aos navegadores de recreio uma sensação de segurança que é tudo menos verdadeira , as dezenas de gadgets que a indústria inventa e vende servem para criar uma confiança que se esfuma quando o  que está pela frente não se compadece com engenhocas , por exemplo vagas de dez metros e ventos de cinquenta nós. Mais do que uma questão técnica a sobrevivência no mar é uma questão psicológica , e não há aparelho electrónico nem ligação satélite que vença o medo nem que avise “agora tens que fazer isto”.

Destes cinco veleiros socorridos só um , o da menina que acabou por morrer , deviam ter sido abandonados.  Isto por causa de um princípio muito antigo e sólido como rocha que se ensina em qualquer escola de marinharia decente : um barco só se abandona se estiver a arder ou a afundar . Os outros quatro , que nesta altura derivam pelo Atlântico um bocado danificados mas a flutuar , e inteiros , tinham segundo os relatos mastros partidos e falhas de leme.Ora isto não são causas de abandonar um barco e muito menos de lançar um Mayday , o pedido que quer dizer que há perigo iminente de morte ou perda do barco. Não havia , mas ainda assim estes navegadores agiram como se houvesse e desviaram assim 3 navios mercantes da sua rota , tiveram uma corveta e um navio hospital da marinha em manobras e a Força Aérea a voar dezenas de horas , para os tirar do desconforto. Chateia-me um  bocado  , uma pessoa vai para o mar conscientemente e com responsabilidade e não deve contar com o sacrifício e risco de terceiros para a salvar , como dizia o Blondie Hasler ,  meio a brincar ,deve afogar-se como um cavalheiro.

Todos estes barcos têm comunicações satélite , porque é importante dar a conhecer ao mundo as suas aventuras em tempo real e contactar com todos como se estivessem em casa. Se calhar gastam mais banda a actualizar o blog e a ver  fotos dos netinhos do que a ver que tempo é que os espera , e quando o tempo lhes cai em cima aguentam pouco ,  sabem que carregando no botão lá vem o helicóptero. Dissessem a toda esta geração ( na qual me incluo)  de navegadores pós GPS , telefones satélite e radio balizas 406mhz que não podiam navegar a menos que aceitassem total responsabilidade e que não esperassem que ninguém os fosse lá buscar e era ver os números  de iatistas a encolher drasticamente. Mas a tendência não é essa , é a contrária , cada vez há mais gente a comprar um barco em vez de uma casa ( decisão que eu aplaudo) e a fazer-se ao mar  sem estar verdadeiramente preparada para isso .Dito isto, em 1996 comprei um veleiro a meias com um amigo , foi o primeiro barco à vela em que pus os pés , e zarpámos com a firme intenção de dar a volta ao mundo munidos de conhecimentos exclusivamente teóricos , pelo que  não sou propriamente a  pessoa  indicada para criticar estes aventureirismos e impreparações.

Anteontem , depois de ler as notícias da operação de salvamento , fui ao porto , estava lá um iate de uns 36 pés , mastro partido. Pensei que tivesse sido um dos evacuados que tinha depois sido rebocado para aqui. Andei lá de volta a apreciar e acabei por conhecer o dono,  um   francês a navegar sozinho com o seu cão que  me contou sobre o tempo , a quebra do mastro , como o recuperou da água , armou um aparelho de fortuna e navegou tranquilamente até às Flores. Sozinho , sem nunca lhe ter sequer passado pela cabeça pegar no rádio.  Contava-me isto como quem conta que na tarde anterior foi às compras e depois viu um programa de televisão interessante.

Ainda não sei se vou atravessar o Atlântico este ano  mas tenho a impressão , reforçada pelo que leio dos meteorologistas e gente que segue estas coisas cientificamente , que  vai ser  mais tormentoso que a média , e parece-me que a Força Aérea e a Marinha vão ser testadas mais frequentemente.  Antes que alguém levante a objecção esclareço que acho bem que se peça auxílio , mas se o barco está a flutuar  , ainda que sem capacidade de manobra e numa impossibilidade prática de ser rebocado ou reparado ,  pode-se aguentar e ser evacuado no fim da tempestade , com menos risco , custo e  dificuldade para todos os envolvidos.

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