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O caminho de Split

Voltando então à costa Norte da Sicília aqui há uma semana , lá ia muito contente a pensar na possibilidade de fazer o Mediterrâneo quase todo de uma tirada , que do ponto de vista profissional fica sempre bem , e contente por não ir do lado Sul da ilha  onde pelos vistos agora há naufrágios de clandestinos dia sim dia também , quando a senhora da voz mecânica no canal 16 dá um avisi di burrasca , força 7 de Noroeste para o Tirreno , onde estávamos , e para o Jónico , para onde íamos.

Considerei tudo durante bastante tempo e decidi parar em Messina , que não só tem  uma marina como é uma terra bastante bonita . Entrámos no estreito ao pôr do sol , vimos os famosos redemoinhos e marrámos contra seis nós de corrente que asseguraram que quando chegámos  à entrada de Messina já era noite fechada. Ninguém respondia pelo rádio , preparei-me para fazer como de costume nestas circunstâncias , entro e amarro  onde couber , se estiver mal, mudo-me . Vem ao nosso encontro um tipo num botezinho , eu todo contente a pensar , olha , não só temos quem nos ajude a amarrar como temos piloto para entrar e tudo , mas não , vinha dizer que não , mi dispiace mas um catamaran daquele tamanho não pode amarrar lá , tinham  “problemas”.  Em Reggio Calabria , do outro lado do estreito , havia outra marina. Lá fomos, eram só cinco milhas.

Reggio Calabria é um porto comercial ,  a primeira coisa que vimos foi uma grande traineira com nome árabe, provavelmente  um desses barcos do diabo que traficam gente e que tinha sido ali apresada. Um molhe de combustível , cimento, com duas almas penadas à pesca e sem vedação de espécie nenhuma. Uma marinazita com outro cais manhoso onde o barco talvez coubesse e dois mitras de bicicleta a aproximarem-se a grande velocidade. A cinquenta metros uma linha do comboio e aquilo tudo no meio de uma paisagem desoladora de prédios sujos e cinzentos. Não havia condições para ficar ali, consultei as cartas ,  a próxima marina era a 60 milhas , mesmo que o temporal destrancasse entretanto havia tempo   de lá chegar , e assim entrámos no Mar Jónico e rumámos a Roccella Ionica.

Subi ao convés às seis da manhã para o meu quarto ,  íamos perto da costa a umas quinze milhas do porto, um alvorecer lindo e nenhum sinal de borrasca nenhuma. Aproximei-me mais de terra , vi esta vista e fiquei logo feliz da vida , se me querem ver contente  mostrem-me um castelo no alto de uma colina sobre o mar . Entre parar contra um cais ao pé  da linha do comboio num subúrbio sujo e cheio de mitras e parar ao pé de uma vila junto  à praia com castelo e tudo , a escolha não é difícil ,  resultou bem.

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Às oito e meia já estávamos amarrados no nosso pontão , contentes da vida numa paisagem linda , prontos para ir a terra explorar e espairecer , sendo explorar subir ao castelo e espairecer passar a tarde a beber cerveja numa esplanada estratégica  a  ver passar o trânsito. A moça do escritório da marina reparou no facto de sermos dois marinheiros que vêm de 8 dias no mar , espantou-se de virmos do Sul de Espanha directos e corou até à raiz dos cabelos , estava um bocadito encavacada ,  deve ter sido  pelos olhares , porque  apesar de tudo ainda somos os dois cavalheiros , a maior parte do tempo , e nunca nos passaria pela cabeça dizer alguma coisa que não fosse apropriada. É engraçado como uma semana no mar transforma em beldade qualquer moça que tenha um sorriso e que não seja disforme, é quase como beber uma caixa de cerveja. Se se juntam as duas , o proverbial marinheiro bêbado , é fácil   imaginar  as desgraças que podem resultar.

Fomos a pé pela marginal até à vilória , os bares da praia começam a preparar-se para a época balnear  , a terra é bem pequena e tirando o castelo não tem nada de excepcional , e mesmo o castelo não é nada de excepcional considerando que estamos em Itália. Abancamos na praça principal para umas pizzas e uma cervejas , era meio dia e o movimento compunha-se principalmente de miúdos da escola . O trânsito à balda , nem um terço  das pessoas usa cinto de segurança , os carros todos batidos , a preocupação das pessoas com a bella figura . Decidimos ir  ver o castelo antes que seja tarde e vamos por ali acima . O castelo está em obras , não se pode entrar. As obras estão a ser feitas por três gajos , um deles o supervisor , dado o tamanho da coisa têm ali para muitos anos . Como com a maior parte destes castelos , o melhor é a vista , mas não ficamos muito tempo , voltamos a descer e escolhemos outra esplanada onde passamos o resto da tarde ao sol até ser hora de voltar a bordo , mudar para uma roupa menos vagabunda e regressar na esperança de que a noite de Roccella Ionica tivesse alguma coisa para oferecer aos marinheiros de passagem. Não tinha.

Zarpámos ao fim da manhã do dia seguinte ,um tipo da marina veio ajudar-nos mas por excesso de inciativa e  falta de explicação clara da minha parte largou-nos primeiro a amarra que devia ser a última e assim encazinei  a manobra e raspei com o davit no cais , dano pequeno mas  que me enervou deveras , tinha que ser logo no último porto .  Anunciavam-se 25 nós de vento Sul que por acaso chegaram a 30 mas não houve problema nenhum , velas reduzidas , vento a favor e arrancámos para a tirada final rumo ao Adriático em grande velocidade, chegando a picos de 16 nós , que é valente por qualquer medida menos a dos malucos da Volvo Ocean Race e coisas assim. Está aqui um videozinho da máquina em andamento , mais bem realizado  que o último :

O Miguel tem uma coisa qualquer com o 25 de Abril , tipo tradição ou hábito de passar a data em terras estranhas e estava a acarinhar a esperança de chegar a Split nesse dia , eu não , não só porque o vento que nos lançou a dez nós quase dois dias inteiros ia acabar-se como para chegar lá ainda no Sábado à noite era preciso meter máquinas a fundo. Ora , gasóleo havia , e a ideia de Sábado à noite em Split tinha muito apelo , mas do ponto de vista profissional não caía nada bem , no fundo ia-se esforçar o barco e queimar recursos tendo como objectivo principal um entretenimento nocturno de maior qualidade para a tripulação…não podia ser . O director da companhia a quem levo este barco não só o conhece como nos acompanhava a posição a cada seis horas e sabe ver a meteorologia, ia logo perceber a ideia e nunca podia ficar contente. Por isso as últimas milhas foram  com calma,  de maneira a entrar em Split na alvorada de Domingo , deixando-nos o dia inteiro para adiantar serviço e  a possibilidade de ter o barco pronto para entregar formalmente na Segunda .

Nos  próximos capítulos , a chegada à Baía de Split , os primeiros contactos com os Croatas e a cidade  e , espero bem , coisas interessantes e dignas de registo além do táxi para o aeroporto e os cinco ou seis aviões de regresso à ilha.

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