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De Adra ao Adriático

Provando a validade de certas superstições , estávamos a ver a  Sicília ,  decidi começar a adiantar serviço e  escrever umas coisas antecipando uma tirada directa  até à Croácia quando a guarda costeira italiana emitiu um aviso de temporal e eu , muito menino , decidi procurar abrigo.Agoirei a viagem e estamos agora no belo porto que serve Roccella Ionica  , na Calábria , pelo que já não há tirada directa mas como não quero desperdiçar trabalho e o título soa bem , aqui vai na mesma . De Adra ao Adriático…. Vão cerca de 1600 milhas náuticas , ou melhor , vai essa distância até Split , menos até à entrada  do Adriático. “Entrada” é uma forma de expressão , no Mar não se chega a uma curva ou cruzamento e há um sinal a dizer  “Bem vindo ao Tirreno”  ou  “Obrigado por visitar o Mar das Caraíbas” , estas fronteiras e demarcações  são bastante fluidas, excepto em sítios como o estreito de Gibraltar , onde se sabe claramente que se sai ou entra no Mediterrâneo.

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Ao fim de  dois dias em Adra tinha visto as previsões  de várias fontes , com a margem de erro habitual diziam-me que podia fazer  40 milhas até ao Cabo de Gata com 20 nós de vento mesmo  no nariz mas chegando lá  por volta da meia noite o levante começava a acalmar e a rodar mais para Norte, permitindo-me fazer rumo ESE , que não era ideal mas já servia .  O barco estava pronto , já tínhamos ido ao supermercado comprar duas ou três coisitas , já tinha feito o que tinha a fazer na internet , tinha pensado partir depois das cinco mas eram duas e como tinha tudo pronto e estava a ficar inquieto decidi zarpar.

Ainda mal tinha saído a barra e já estavam ondas de quase dois metros e o vento acima dos vinte nós. Os dois motores a rotação baixa e uma velocidade de cerca de três nós , que seria o que nos levava ao Cabo de Gata pelo meio da noite. Mais duas milhas e o vento nos vinte e cinco , aumentar a rotação dos motores para manter os tais três nós e o plano a começar a desconjuntar-se.  Mais uma hora e o vento já estava nos 30 nós e cheio de mau aspecto , dei  a volta. Já voltei  para trás várias vezes  ,custou-me sempre , já houve vezes  em  que devia ter voltado e não voltei e custou-me mais ainda , decidi que não fazia sentido nenhum  fazer aquilo , era um desperdício de combustível e uma pressão desnecessária sobre o barco e sobre nós  . Tinha-me enganado e  falhado , mesmo que as condições observadas  correspondessem exactamente à previsão tinha sido uma má decisão largar àquela hora .

Passada meia hora estava a re-entrar em Adra e não foi sem dificuldade que parei o barco num pontão deserto , coberto com uma camada espessa de merda de gaivota, o mais distante de todos e o único em que tinha conseguido acostar debaixo daquela ventania.  Se tivesse voltado para o Real Náutico tinha havido lá quem nos ajudasse na manobra mas o único sítio onde cabia era apertado demais para o meu gosto , e além disso vi depois que já não estava vago. Fiquei menos mal  disposto  por ter voltado para trás e satisfeito por ter atracado sem dano nenhum , qualquer problema que tivesse havido seria  directamente atribuível à minha decisão de sair com mau tempo. Chegou um polícia marítimo à porta do pontão mas não conseguiu abrir a porta, chamou-nos. Tínhamos que ir aos escritórios do porto comercial , do outro lado da baía .

-E como é que saímos daqui…?

-Saltem a vedação….

-Se é a polícia que mo diz….

Lá fomos , uns dois quilómetros a pé , eu chateado comigo a pensar em quanto é que me iriam cobrar e quando é que poderia sair , o Miguel a tentar descobrir do polícia porque é que aquele porto parecia meio abandonado e estava tão vazio. Acho que foi mais um daqueles belos programas de investimento  que se fazem porque há fundos comunitários e beneficiam empreiteiros de boas ligações políticas e autarcas que medem o  mérito da sua gestão em obras. Ofertas que se criam sem saber antes  se há procura, e porquê ralarem-se com esses detalhes se o dinheiro não é deles?

Sentei-me no escritório do director do porto  e comecei  a debitar o discurso:

-Saímos há pouco do Náutico  mas encontrámos condições difíceis , só queremos parar umas horas…

Levantou a mão para me calar enquanto olhava para os cartões de identidade.

-Portugueses . Não te vou cobrar nada, não te preocupes ,  fiquem lá o tempo que quiserem. De onde são?

– Aqui o Miguel é de Lisboa , eu sou de Alcobaça…

-Alcobaça , ao pé de Aljubarrota , onde foi a batalha da independência , D.João I e  o condestável  Nuno Álvares Pereira , 14 de Agosto de 1385!

Dizer que fiquei surpreendido é pouco.

-Eu tinha a RTP internacional , e gostava de ver o futebol , já estive muitas vezes em Portugal , vi um jogo Salgueiros – Sporting em 1996…

-O  Sporting é o meu clube…

-Esforço , dedicação , devoção e glória!

Inacreditável. Levantou-se , agitado e entusiasmado  , e  contou-nos o jogo que tinha visto em que por culpa de um frango monumental do Ivkovic o Sporting  perdeu com o Salgueiros sem este ter rematado uma vez só à baliza , e saiu connosco para nos ir levar ao barco já com as chaves do pontão. Durante a mais de meia hora de caminho não se calou um segundo a falar sobre futebol português e sobre todas as terras de Portugal que conhecia , com um sorriso e um entusiasmo que me deixava sem palavras. Até ditados populares sabia ,  conhecia os partidos políticos , o governo , comidas , bebidas , músicos ,  programas de Tv , mas o forte era mesmo o futebol.

-…. E estava a passar por Aveiro , vi o estádio e disse logo “aqui joga o Beira Mar  , que equipa de preto e amarelo”.

Chegámos enfim ao pontão , as chaves que tinha trazido não  serviam , voltou para trás a ver se encontrava outras , passados três quartos de hora voltou , sem chave , só para dizer que podíamos ficar o tempo que quiséssemos e qualquer coisa que ele pudesse ajudar , era só dizer. Não me lembro de em todas as minhas viagens ter alguma vez encontrado alguém com uma afeição e conhecimento tão grande de Portugal.

No pontão ainda se apanhava a wifi do clube e ali fiquei , sem moral nenhuma , a pensar que pelo menos naquele pontão estava 200 metros mais perto de Split do que nessa  manhã. Ao cair da noite o levante rodou para Sudoeste com uma violência incrível , passou dos 45 nós e o barco que até aí tinha estado encostado pelo vento Leste ao pontão passou a ficar pendurado pelas amarras na outra direcção. Passei mais dois cabos a terra e fiquei contente por o pontão ser novo e grande, o vento uivava e enchia tudo de areia ,  durou umas horas e  perdi assim toda e qualquer ideia de sair antes do nascer do dia. O patrão quebrou a série de 7 mensagens a dizer ok com uma que dizia  ok , obrigado , e fui-me deitar a pensar que no  grande esquema das coisas mais um dia menos um dia não faz grande diferença , tinha errado em sair tão cedo mas tinha feito a coisa certa voltando para trás.

Fica aqui este vídeo  para verem Adra e o porto municipal, vão-me desculpar a qualidade  confrangedora , não tenho  jeitinho nenhum para  o audiovisual … Vê-se ao fundo o edifício do Real Náutico e as montanhas , esta foi  a última vista de Al Andalus que teve Boabdil , o último rei Mouro da Península Ibérica, foi deste porto que partiu em 1492  concluindo  assim 7 séculos  de presença  muçulmana . Acabou em Adra.

Saímos a meio da manhã seguinte sem vento nenhum e com o mar  calmo , a vincar ainda mais a falta de senso da saída do dia anterior.

Com uma tripulação de dois o dia divide-se em 5 quartos , parece um contrasenso porque em princípio não pode haver cinco quartos de coisa nenhuma mas em linguagem náutica um quarto não  significa necessariamente uma quarta parte mas sim um período de vigia. Há outras divisões possíveis do dia mas a minha quando somos só dois é : das 0600 ao meio dia , do meio dia às 1800 , das 1800 às 2200 , das 2200 às 0200 e das 0200 às 0600. A pessoa que faz o quarto do meio dia às seis da tarde faz o jantar e janta-se a essa hora , a única altura do dia em que se passa um bocado maior de tempo em companhia. De resto só nos encontramos nas mudanças de quarto ou por ocasião de alguma manobra  mais exigente , ou quando sou chamado por uma razão ou outra . São por isso dias de muita paz e tranquilidade , até porque  estar de vigia não implica necessariamente estar seis horas de olhos fixos no mar , uma pessoa pode ler , escrever ou ouvir música desde que a todo o momento esteja ciente de tudo o que se passa em volta.

Os cinco dias até vermos a Sicília passaram sem novidade nenhuma , a maior parte a motor a uma distância confortável da costa da Argélia . No dia 20 vimos a costa da Sicília , lamentei não ter razão válida para parar em Palermo , para esticar as pernas , apreciar as muitas belezas naturais e fazer trocadilhos infantis tipo  “estamos em Palermo seus palermas” e “viemos aqui tratar de uma coisa nossa”.  Depois de um dia tranquilo a passar a costa norte da ilha entrámos no Estreito de Messina já ao fim do dia , esforcei-me por chegar ainda com luz porque queria ver os redemoinhos. Passei  lá  pela primeira vez há 15 anos e fiquei impressionado, os redemoinhos são  verdadeiros , enormes e fortes o suficiente para fazer um barco girar , soube depois que este estreito e essas correntes foram  a origem do mito de Cila e Caribdis , mostrando a propensão dos Antigos para inventar assim que eram confrontados com fenómenos naturais que não sabiam explicar. Gostava de um dia voltar aqui com tempo  para conhecer a Sicília e principalmente as ilhas Eolias , mesmo ao pé , e alimentar o meu fascínio por ilhas pequenas.

O tempo manteve-se estável e os ventos bonançosos , este barco leva uma tonelada de gasóleo que lhe dá uma autonomia  de umas 1600 milhas, é curioso notar que o antecessor deste tinha sensivelmente o mesmo comprimento e tonelagem mas cerca de metade da capacidade de combustível, isto mostra o caminho que as coisas levam e pode dar que pensar a quem se interessa por estes temas. Aqui há uns dez anos levei para a América um barco deste estaleiro , era o primeiro híbrido produzido , anunciava-se o futuro limpo da motorização auxiliar na náutica. Hoje duplica-se a capacidade de gasóleo e já ninguém fala em híbridos.

Estamos agora então em Rocella Ionica , encantados , e amanhã zarpamos esperando em três dias estar em Split onde sei que me esperam coisas extraordinárias.

PS: falo aí de um video de Adra que não cheguei a pôr , não há  internet que chegue , fica para outro dia

4 thoughts on “De Adra ao Adriático

  1. Xor, estarás por onde se andam a afundar barcos todos os dias, e a morrer centenas no mar, daquele pessoal que enche barcaças para vir para a Europa. Aqui só se tem falado disso.

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    • Mais uma vez tive a sorte de passar por “zonas críticas” e não ver nada disso , sempre que ando por aqui penso no problema que seria , quer encontrar um desses barcos do diabo a navegar quer encontrar um em dificuldades e ter que lhes tentar ir prestar assistência.
      Faço ideia das aleivosias que se devem estar a dizer na imprensa , calculo que a culpa dos naufrágios seja dos europeus que devessem talvez estabelecer uma linha de ferries entre o Norte de Africa e a Europa para transportar toda a gente que o queira mesmo que não tenha documentos ,perícias ou futuro na Europa. E claro que parte da culpa também será dos Americanos , uns malvados por tolerarem antigos ditadores e uns malvados por permitirem que fossem derrubados. Não há paciência.

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  2. Não tenho seguido, só visto por alto. Mas creio que não é esse o tom. Só se tem falado dos numeros. E parece que há qualquer coisa sobre fazer algo nos países de origem. Parece que há centenas de milhares a emigrar assim todos anos, e morrem milhares. A semana passada virou-se um com quase mil a bordo, até houve um barco portugues no resgate. Ainda bem que passas ao lado, deve ser terrivel encontrar uma situaçao dessas. boa viagem.

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