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Vai ou Racha

Andei a rever o que escrevi aqui antes sobre a Grécia , à procura de sapos para engolir .
Acreditava que para evitar uma desgraça maior o novo governo grego ia fazer umas piruetas , moderar a retórica , perceber que quando se depende da ajuda de terceiros não convém insultar os mesmos , que chamar-lhes vilões em casa e parceiros lá fora não cai muito bem . Pensava que iam fazer umas contas e ver que para levar a cabo medidas que custam dinheiro há que ter esse dinheiro , que para nos emprestarem dinheiro é preciso que confiem em nós , coisas assim básicas.
Pensava que iam ter um choque de realidade na sua volta pelas chancelarias europeias , quando finalmente vissem como é a vida fora das universidades e longe da adulação dos correligionários , quando falassem com gente que tem muitos anos de governo e gestão de coisas públicas e gente que foi eleita primeiro para defender os interesses dos seus cidadãos , depois para ajudar os vizinhos. Achava que iam perceber que solidariedade é uma coisa , carta branca é outra. Que deviam primeiro mostrar que queriam reformar a Grécia , lutar contra os cancros antigos que impedem a competitividade do país e que começam e acabam no Estado. Pensava que ganhas as eleições iam deixar de culpar a Alemanha por todos os seus males e tentar fazer ver aos próprios gregos que se calhar até era possível que eles tivessem alguma responsabilidade como povo e que a vida ia continuar austera por mais uns anos até reformarem mesmo o país , reformas que não se podiam limitar a combater a evasão fiscal dos ricos mas a evasão fiscal generalizada que lá não só continua como se agravou depois das eleições , que iam reformar o sector público e acabar com as poucas vergonhas que todos conhecemos e que só mesmo lá.
Não, continuam a querer expandir o Estado e a querer gastar dinheiro que não sabem como vão arranjar a menos que lho emprestem , continuam a publicar caricaturas nojentas dos alemães , continuam a gemer de dor pela segunda guerra mundial , trauma que esteve curado enquanto o dinheiro fluía para voltar quando parou o crédito . Continuam a acreditar que a Europa lhes deve €750 de salário mínimo , reformas aos 55 e confortáveis empregos públicos para quem os queira. Não dão sinais de vergar perante a realidade , esse sapo já engoli.
Por cá o dr Louçã diz que é o governo grego que nos representa na Europa , mostrando mais uma vez a sua concepção particular de democracia , o PS é Syriza uns dias e nos outros é outra coisa qualquer ainda indefinida , o Cavaco é criticado se não diz nada e criticado se diz evidências como “Portugal já ajudou bastante a Grécia” . O Passos disse uma das poucas coisas realistas que ouvi de políticos nacionais sobre os planos do Syriza : são um conto para crianças . Não foi o único a dizer algo realista , o PCP , que continua a ter coluna vertebral , acha que os Syrizas são uns meninos por não mandarem tudo ás malvas , saírem do Euro de uma vez e instalarem a ditadura do proletariado em vez de andarem com estes choradinhos e negociações.
O Bloco e outros proto Syrizas de trazer por casa acham que é positivo e possível pedir dinheiro emprestado sem aceitar condições , ou escolhendo as próprias condições , gostava de ver esse pessoal quando vai ao banco tratar do crédito à habitação. Acham que o facto de a Europa em peso ter sérias dúvidas sobre a viabilidade e bondade dos planos do Syriza não quer dizer nada , são 18 países equivocados , cegos e escravos da alta finança a opôr-se aos iluminados redentores da Grécia , país que já demonstrou várias vezes a medida em que se pode confiar e depender deles no que toca a contas . Acham que os mil e tal milhões que já saíram do nosso orçamento para a Grécia devem ser perdoados , ou então passam por cima desse detalhe , até porque o BPN custou-nos mais. Oh pá sendo assim o BPN passa a ser o padrão e se há para o BPN tem que haver para o resto , mesmo que seja para os delírios revolucionários de outro país. Como se não bastassem os nossos corruptos e malucos , querem que paguemos pelos malucos e corruptos dos outros.
Fiquei a saber , sem ter ficado muito surpreendido , que a Grécia inicialmente vetou a entrada de Portugal na UE em 1986  , obstáculo que se resolveu dando-lhes mais dinheiro , devia ser uma objecção de alto princípio. Claro que não foram “os gregos” a achar que Portugal não devia aderir , era só uma dúzia ou quê que estava no governo e que não tinha nada a ver com os gregos em geral nem representava a abordagem grega à construção europeia.
Mas então eles não votam livremente há uns 40 anos ? Foram os alemães que os forçaram a eleger 40 anos de governos incompetentes e corruptos , querem ver? Foi preciso uma “catástrofe humanitária”  para elegerem um governo de ruptura e mudança , para verem que estavam a gerir mal o país? Isto não quer dizer nada sobre os gregos?
O Syriza chega e quer fazer de todos parvos , somos uns tansos que aqui andamos por querer equilibrar as contas , aumentar a produtividade , pagar as dívidas , honrar acordos , consumir menos e exportar mais e melhor . Ganham uma eleição com 36% de votos de eleitores gregos desesperados e acham isso é um mandato para “mudar a Europa” , como orgulhosamente proclamaram em cartazes as moças do Bloco que se deslocaram logo a Atenas para celebrar a mudança e se colarem à vitória , presumo que tenham sido parcas nos abraços e selfies com a direita nacionalista e xenófoba com quem o Syriza se coligou, pormenor que simplesmente desapareceu do debate.
Mas quem é que lhes deu algum mandato nosso ? Nem em casa conseguem ter maioria e arrogam-se  a força de mudança para a Europa , é preciso ter lata . Alguém perguntou aos portugueses o que acham do Syriza? E não estou a falar da opinião do  intragável prof. Marcelo sobre a opinião dos portugueses , estou a falar de perguntar numa sondagem ou num plebiscito . É que a última vez que se mediu , o “partido irmão” do Syriza convenceu aí 5% dos portugueses , o resto das cómicas tendências , plataformas e movimentos juntará outro tanto pelo que este basqueiro todo é um bocado ridículo , a menos que me queiram convencer que ser contra a austeridade equivale a apoiar o Syriza , é um grande salto de raciocínio.

Já não espero acordo nenhum da Grécia com o resto da Europa , já me mete uns certos nervos esta história de se achar que a vontade de 18 tem que se submeter à de um e já me falha a paciência para os que reclamam consenso como se consenso fosse esses mesmos 18 países cederem  às pretensões extravagantes  de  uma minoria ( não esquecer , 36%) de um país , ainda por cima quando esse país tem uma história pouco recomendável e é liderado por gente que acha que o Chavez era um modelo e o Putin é um estadista respeitável.
Já chega , agora só espero que os gregos dêem o tal murro na mesa e digam “basta” , mas a sério , não é como um garoto a fazer birra , é “basta” como dizem os que realmente estão saturados , sabem o que vão fazer a seguir e têm a coragem de assumir as escolhas , não como aqueles palhaços que dizem “vocês agarrem-me senão eu vou-me a ele!”
A Grécia deve finalmente pôr-se de pé e dizer que não aguenta mais , que não está para receber ordens de ninguém , que não vai pagar uma dívida imoral e injusta nem ser forçada a seguir políticas contra as quais os eleitores já votaram. Dizer claramente que quer a sua soberania , que tem a liberdade de seguir o caminho que escolher e não quer mais jugos estrangeiros. Se como eles dizem foi o Euro ,  a União e a troika que os desgraçaram , oh pá resolva-se já o raio do problema , já se alteraram tantos tratados e mudaram tantas cláusulas que com certeza se pode devolver a soberania e liberdade aos gregos sem grandes convulsões.
O resto da Europa ficava com um calote grego , mais um , e eles iam à sua vida , começar de novo com o seu dracma e todas as coisas boas que têm , livres , independentes , dignos e soberanos , rumo ao socialismo ou seja lá o que for que eles acham que vai resultar . Ia terminar a desejar-lhes boa sorte mas estou farto de hipocrisias. Aguentem-se como nós nos aguentamos com os que elegemos.É a democracia.

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4 thoughts on “Vai ou Racha

  1. Embora seja menos previdente e convicto que tu, também achei que eles iam ceder 60%, os alemães 40%, e no fim iam todos reclamar vitória. Mas parece que não. Vamos ver. Se tiverem mesmo tomates para fincar pé…apróximam-se tempos interessantes.

    Consigo imaginar uma vacina anti aventurismos de esquerda caviar (porque se saem do euro aquilo vai mesmo sofrer ainda mais a sério) a resvalar para aventurismos de de direita nacionalista e xenofoba (lá, na França…). E algo isso é ir de mal para ainda pior. ou se calhar é a mesma coisa exactamente…

    agora sim a novela promete.

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    • Diz que têm até sexta. Havia aqui mesmo uma oportunidade real de mudar muita coisa que está mal , mas o Syriza achou que era mais fácil mudar a opinião de 18 países do que eles cederem um bocado e garantirem o guito para fazer as suas reformas. Ando parvo com isto , como é possível um governo jogar assim com uma coisa destas , não compreendo , não consigo perceber qual é o plano deles se renegarem a dívida e saírem do euro.

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  2. Acho que não tinham nenhum plano. Os partidos do contra sistema (direita ou esquerda) são sempre muito bons a dizer que está tudo mal, mas nunca apresentam soluções. Isso acontece até no centro. Nas extremas mais ainda, porque nem esperam chegar ao poder. Até duvido que cheguem ao fim do ano, por este caminho.
    Eles até agora não eram culpados de nada de que se passou e passa de mau na Grécia. Ainda vão acabar como bodes expiatórios de tudo…

    Fizeram aqueles populismos de andar em economica e não usar frota e roupas do Estado, o que é um moralismo no bom sentido, num país a precisar de moralizar-se ( e nós somos muito parecidos). Agora no que conta mesmo…vamos ver. Já vi por aí muito economista responsável, desde portugueses a ingleses e americanos, a dizer que o melhor qu epodem fazer é sair do Euro, com ordem, e temporáriamente. Talvez seja isso. Até em POrtugal há quem defenda isso para nós, e não é pessoal de esquerda. Sei lá…já não percebo nada.

    Mas foram eleitos (dois partidos) para governar. São legitimos. Que governem consoante o que disseram. E até agora não defraudaram.

    A seguir vêm os neonazis…

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