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100 Vacas

Esse edifício é um posto de recolha de leite , existe um idêntico ou semelhante em cada freguesia . Tinham lá dentro tanques de temperatuIMG_20100105_233509ra controlada e os lavradores iam lá duas vezes por dia deixar o leite das ordenhas. Ao fim do dia uma camioneta/tanque passava pelos postos todos , recolhia o leite e leváva-o para a fábrica , onde era transformado em queijo , manteiga e iogurtes.

O meu caminho para casa , uma canada , começa por detrás desse e é onde deixo o carro todos os dias. Quando cá cheguei e comecei com o meu projecto da microcervejaria nunca me passou pela cabeça a possibilidade de usar aquele edifício , até que há dois anos estou a chegar a casa e vejo que estão a retirar os equipamentos lá de dentro. O posto ia fechar , os lavradores das Lajes que se continuavam a dedicar ao leite passavam a ir deixá-lo a outra freguesia .

Fiquei logo entusiasmado , o edifício não só cumpria os requisitos todos para trabalhar em produtos alimentares como a localização era ideal , e não apenas por ser mesmo ao pé de casa.

Fui falar com o presidente da cooperativa , que me disse que sim senhor , estava fechado e estavam abertos a negociar a venda daquilo e eu seria o primeiro a saber de qualquer decisão. Isto foi vai para dois anos. Sendo uma cooperativa , a questão tinha que ser levada a assembleia geral. Houve uma , fui saber os resultados , o presidente disse-me que havia sócios que se opunham a vender património. Sim senhor , compreende-se bem , que não se venda , arrendem-no , assim não só o património fica como o edifício não se degrada , não seria o valor do arrendamento que ia salvar a cooperativa mas era alguma coisinha. Ia falar disso na próxima assembleia. Passaram os meses e nada. O presidente não me atendia o telefone , até que soube ( pela rádio…) que se tinha demitido , agora era outro. Isto já foi há perto de um ano. Fui falar com o novo , nunca tinha ouvido falar no assunto em assembleia nenhuma, disse-me que em princípio concordava com o arrendamento ou venda e em breve me dizia alguma coisa. Passaram os meses , não só não me dizia nada como não atendia o telefone. Fui falar com o presidente da Câmara , expliquei-lhe a minha ideia em 2 minutos e o que lhe pedi foi que quando tivesse oportunidade dissesse ao presidente da cooperativa “ veja lá se diz alguma coisa a este gajo” , não é nenhum favor especial , é porque as pessoas geralmente prestam mais atenção se for um presidente de câmara a dizer alguma coisa. O presidente lembrou o outro presidente de que eu estava aqui com um projecto de investimento para as Lajes , pode ser quase insignificante mas é um projecto, à espera que falassem comigo , sim ou não. Recebeu-me muito cordialmente , em Novembro passado, explicou-me que não atendia o telefone porque todos os dias o bombardeavam com pedidos e exigências relativos à cooperativa sobre os quais ele não podia fazer grande coisa e disse-me que a direcção estava de acordo em arrendar ou vender o posto. A questão era o processo em curso para avaliar e organizar todos os activos e património da cooperativa , havia questões pendentes sobre a situação do edifício , desse e de outros , e havia advogados a trabalhar no caso, esperava-se uma conclusão para o fim de Janeiro , depois podíamos tratar disso. Bom , mais 3 meses menos 3 meses ao fim de 3 anos , esperava bem.

Ora já há muitos anos que os laticínios dos Açores , apesar de poderem ter qualidade superior , subsistem à conta de subsídios , isto não é contestado em lado nenhum , é uma realidade. Apesar disso as coisas vão-se complicando de dia para dia , primeiro com o fim das quotas leiteiras que asseguravam mercado para esses produtos , depois com a subida enorme dos custos dos lavradores , que mesmo com subsídios mal conseguem rentabilizar o seu trabalho , e por fim as sanções aplicadas à Rússia que encaminharam para a Europa ocidental os laticínios , por exemplo polacos , que eram vendidos lá e fizeram tombar os preços por cá. Olhando para estas coisas todas podiam-me perdoar por pensar que os laticínios dos Açores não eram propriamente um sector cheio de futuro . Logo da primeira vez que cá vim , em 1998 , algumas mentes mais esclarecidas já falavam do problema da monocultura da vaca e de como era necessário diversificar e inovar. Desde 1998 para cá investiram-se dezenas de milhões nos laticínios dos Açores em dinheiro público e privado ainda que se continuem a ler e ver todos os dias histórias sobre os problemas do sector. Lembremos aqui que a região é governada por socialistas , pessoal cujo principal reflexo perante um sector em crise é mandar dinheiro público para cima do sector em crise na esperança de que mais dinheiro resolva o problema. Não resolveu , se cessassem os subsídios aos produtores de leite dos Açores o sector fechava as portas e pronto , é provável que o governo ache que as coisas devem ser assim , que é saudável subsidiar actividades económicas permanentemente deficitárias .

Perante este cenário e sabendo , por falar com lavradores e ver de perto a situação , pensava que os dias da cooperativa estavam contados. Isso não me deixava contente , longe disso. Há uma fábrica , há muitas explorações e dezenas de pessoas e famílias que dependem disso , há os produtos que eu próprio compro sempre e prefiro aos “importados” , o queijo , a manteiga e os iogurtes , e seria verdadeiramente triste e mau para a ilha se a cooperativa tivesse que fechar.

Talvez não tenha  que fechar , talvez consigam inventar um queijo diferente, caramba , há queijarias particulares na ilha que fazem queijos óptimos , superiores aos da cooperativa , porque não a cooperativa pegar nessas receitas e métodos , juntar-se com esses particulares e lançar um queijo excepcional com volume que possa ser vendido em Lisboa e no Porto a bom preço? Ou quem sabe contratar um especialista a sério , como os jovens enólogos que salvaram e relançaram tantas vinhas e casas agrícolas por este pais fora ? Tinha , e ainda tenho esperança que isso aconteça, mas de qualquer maneira achava que o modelo dos postos de recolha espalhados pela ilha estava acabado , até porque a maior parte , como este ao pé de minha casa , já estava encerrado e vazio , que uma recuperação da cooperativa não ia certamente passar pelo posto do leite das Lajes e que era bom para toda a gente se a cooperativa me alugasse aquilo para eu manter o edifício , criar um posto de trabalho , quem sabe até dois ou três a médio prazo , criar uma actividade económica nova e tão necessária nesta ilha , por pequenina que seja a empresa.

Acabou Janeiro , os advogados já deviam ter o património da cooperativa organizado e na primeira semana fiquei à espera do telefonema . 8 dias e nada, fui à fábrica , o presidente não estava , deixei-lhe uma nota “conforme a nossa conversa….” e tal , a pedir-lhe que me ligasse . Nada . Fiquei um pouco chateado porque acho que mesmo que tivesse havido atrasos , problemas ou dúvidas era de esperar um telefonema a explicar-me precisamente isso , chama-se consideração , mas pronto , eu é que sou talvez mais esquisito que a média. Passaram mais uns dias , estava para ir acampar para a fábrica até poder falar com o homem quando por acaso me dizem que se está a trabalhar na importação de 100 vacas leiteiras .

Pensei que não estava a ouvir bem , mas estava . Trabalha-se num plano de recuperação da cooperativa , que queria 250 vacas para poder pôr a fábrica a laborar a 100% , mas parece que o governo só está disposto a pagar 100 vacas . O governo. Mais 100 vacas , em 2015 , com o sector leiteiro a cair aos pedaços , o governo acha boa ideia comprar 100 vacas para as Flores.

Respirei fundo , ainda não digeri muito bem esta informação. Claro que agora , com a perspectiva de virem mais cem ou duzentas vacas leiteiras para a ilha , o posto do leite pode voltar a ser usado para a sua função original. É mais do que típico do nosso país , especialmente em coisas que envolvem o governo , fecha-se hoje mas pode abrir-se amanhã , gastando-se dinheiro nas duas operações , como se fosse assim que as coisas devem funcionar.

Claro que me alegro se o sector leiteiro se revitalizar na ilha , eu quero é que aqui haja trabalho e produção , e se o que é preciso para isso é o governo comprar 200 vacas , vamos embora , há coisas mais estúpidas e mais graves a passarem-se todos os dias e não é por aí , mas estou abalado porque aquele edifício é simplesmente ideal para os meus fins e agora , na última volta deste projecto que já deu tantas , é outra vez impossível.

Entretanto vou outra vez à fábrica , sentar-me à porta até poder falar com o presidente , que não me deve absolutamente nada e está a cumprir a sua função o melhor que pode , para me confirmar estes desenvolvimentos , para saber se é melhor finalmente tirar dali o sentido e se se pensa em reactivar todos os postos do leite da ilha ou se há outro dos que estão fechados e a degradar-se que eu possa arrendar .

Começo a perder o ânimo , mas quem deixa isso acontecer nunca vai a lado nenhum.

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