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Política , política , política

Tenho demasiado tempo nas mãos e é por isso que acabo por falar aqui mais de política do que seria talvez desejável. Já não tenho trabalho de navegação desde o Verão , nem perspectivas , por isso não há histórias de viagens e vela .

Crónicas sobre a ilha , hão-de compreender que nem sempre é fácil. Experimentem , os que gostam de escrever , começar a escrever sobre o que se passa na vossa rua ou bairro sabendo que todos os vizinhos vos conhecem e que as probabilidades de chegarem a ler ou saber do que escrevem são reais. Dá que pensar , há coisas que podem fazer rir uma pessoa e ofender outra e nas terras pequenas onde o anonimato não existe aprende-se depressa a pesar as palavras que se dizem em público . Uma pessoa pode ser mal interpretada , em actos ou intenções , e um problema que surge porque alguém simplesmente não percebeu ou não apreciou um simples parágrafo no seu contexto pode durar anos.

Além do mais não sou daqueles abençoados com o dom de conseguir encher páginas sobre pouco ou nada , ainda ontem li uma crónica do JL Peixoto na Visão , era uma página inteira a propósito de ter perdido o seu bloco de notas e sobre blocos de notas em geral , é sem dúvida um ponto de partida válido que nos leva a pensar na nossa própria relação com os blocos de notas e a sua função mas eu não tenho essa capacidade de por exemplo olhar para o meu cão aqui a dormir aos meus pés e a partir disso escrever uma página ou duas. Ou melhor , se calhar até era capaz , mas tinham que me pagar .

A política é sempre aquele manancial inesgotável de assunto , especialmente em tempos tão interessantes e “velozes” como os que vivemos , tenho que fazer um esforço para não publicar duas ou três coisas por dia e assim alienar de vez a duzia de leitores que me resta . E se escolho mais moer a esquerda e o socialismo real ou imaginado isso deve-se às dissonâncias , paradoxos , contradições , e simples estupidez que ouço e leio todos os dias , que têm o condão de me enervar mesmo ao fim de tantos anos a interessar-me por politica . E as injustiças sociais , as desigualdades e a pobreza que aumenta , as contradições da direita , não são um assunto bom , não te enervam? Enervam-me menos , primeiro porque sou um gajo cínico (apesar de viver com menos do que o ordenado mínimo em 30m2 um bocado esquálidos no meio de um campo , nem internet ter em casa e me faltarem muitas coisas que se calhar deviam ser direitos constitucionais como poder almoçar fora de vez em quando ou uma reforma para a eventual velhice ) e depois porque são problemas que acompanham as Sociedades desde que são sociedades , em toda a Terra , se deixarmos de lado tipo os Yanomanis e outras sociedades que ficaram na paz e pureza do neolítico . Na minha perspectiva as tentativas de corrigir esses problemas pela esquerda tenderam a longo prazo a agravar a situação e não reconheço às pessoas que barafustam todo o dia pela Esquerda capacidade para resolver esses problemas , admitindo que têm solução. Podem ter , mas para mim não é a que eles preconizam e defendem . Além do mais vejo essas histórias de desigualdades e pobreza numa vista global , e estas décadas que viram a consolidação do capitalismo e das democracias parlamentares trouxeram mais progresso e levantaram mais pessoas da pobreza do que todas as revoluções , ao passo que os países onde a Esquerda mais ou menos dura governou livre  ….bom , acho que não é preciso ir por aí.  A alternância à volta do “centrão” pode não ser muito satisfatória mas ao menos foi permitindo   ir um pouco por este lado  e um pouco pelo outro  e assim pelo menos ir gerindo as coisas sem dramas , mas não há falta de pessoas que anseiam por convulsões e dramas para provar o seu ponto , por exemplo há muitos que aplaudiam os motins na Grécia porque iam trazer uma revolução ( não trouxeram nada a não ser prejuízo , a mudança veio com eleições , já podemos fechar esse dossier?) e há muitos que aplaudem esta revolução política em curso porque querem ver aquilo mesmo a arder para provar que a ideologia do Syriza não pode funcionar. Eu não quero ver aquilo pior , não quero ver ninguém pior , por isso é que espero que se consiga negociar pragmaticamente  mas estou a ver o caso muito mal parado e as coisas a extremarem-se a cada dia . Cá menos que lá , felizmente.

Se calhar estou enganado mas parece-me que se vive mais e melhor em Portugal hoje do que em 1980 , não obstante coisas como a política de extermínio do ministério da saúde ( ouvi ontem na rádio) , mas a memória é curta , as expectativas são enormes e a insatisfação é permanente, depois dá nisto .

Este fim de semana o economista Vitor Bento publicou um ensaio em que demonstra que a Europa está pior em tudo desde 2008 para cá , ergo , a austeridade não está a resultar.  Quem sou eu para questionar os números , análise e conclusões dele , mas obriga-me é a pensar no que o país melhorou desde a adesão até 2008 , e essa melhoria incontestável deveu-se a transferências directas de dinheiro da Europa do Norte e condições de crédito que Portugal nunca teria por si só. Ora este surto de crescimento e subida enorme do nível e condições de vida parece que ou não conta para nada , ou era-nos devido por sermos europeus , ou não tinha factura , era ao tal almoço grátis que toda a gente sabe , ou devia saber , que não existe.

Que se responsabilize  quem gastou mal esse dinheiro e não aproveitou as décadas fáceis , Estado , empresa ou indivíduo , para se melhorar e preparar , é mais do que legítimo , é necessário , mas que se esqueça esse desenvolvimento ou se descarte como detalhe na narrativa da crise não pode ser. Como na Grécia , onde ouvindo algumas pessoas falar dá ideia que tudo seguia em paz ,  bem gerido , produtivo e sem desequilíbrios nem problemas estruturais nenhuns até que a troika invadiu aquilo , enfiou-lhes os empréstimos pela goela abaixo e destruiu o país.

Quanto às desigualdades em particular , a mim não me faz diferença absolutamente nenhuma que haja gente imensamente mais rica do que eu se eu puder ter o que preciso , felizmente é pouco , e viver em paz .O capitalismo , obrigando a consumir e exibir , cria a insatisfação permanente . Para alguns essa insatisfação leva a um esforço acrescido para melhorar a sua situação individual , para outros leva à reclamação de que alguém o faça. Os críticos acérrimos do capitalismo deviam começar por o negar como indivíduos antes de nos quererem convencer a renegá-lo como sociedade , mas isso é pedir muito.

A maneira de alargar o bem estar ao máximo número não é ir tirar aos ricos nem espalhar o que uns produzem pela generalidade , é dar a todos maneira de lá chegarem , aceitando que nem todos lá chegam. A pessoa que se queixa na Europa de que os ricos têm tudo e não nos deixam nada tem invariavelmente mais bens e serviços que uma pessoa do Mali e não é por isso que vão tentar encurtar essa diferença nem consideram que são “maus” e deviam pagar mais impostos porque têm 50 vezes mais do que um maliano . Ás vezes a fronteira entre a indignação com a desigualdade e a inveja é ténue.

Finalmente , escrevo muito sobre política  também esperando  que alguém me diga “olhe que não , olhe que não !” e me faça ver que estou enganado , coisa que admito sempre como provável , porque não tendo com quem discutir estas coisas de viva voz (e já tendo perdido há anos o hábito e a perícia da conversa ) , ou escrevo ou atrofio.  As minhas convicções não estão gravadas na pedra , por exemplo aqui há 3 ou quatro anos achava que se deviam deixar as touradas em paz , hoje defendo que se acabe com isso , uma pessoa evolui e muda mas raramente o consegue isolada.

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3 thoughts on “Política , política , política

  1. 🙂 para o último parágrafo. Quando estiveres 5 minutos na farmácia a falar com as farmacêuticas, como as velhas que se sentam num banquinho e passam lá a manhã, ou a primeira palavra que te sair da boca às 5 da tarde sair com voz de quem acabou de acordar, só que não, fala comigo :p

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  2. Jo, sou um dos teus leitores assiduos, e com muito gosto. E embora goste mais de discordar, porque aprendo mais, neste post não consigo, porque percebo e concordo com tudo. E acho que não deves reprimir a expressão das tuas tendencias e manias, às quais tens todo o direito e não ofendem ninguém que as lê, antes pelo contrário.

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