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Chateemos então mais um bocadinho as pessoas com um texto longo , cheio de palpites e de informação dúbia sobre a política grega actual.

No dia a seguir às eleições gregas ia escrever alguma coisinha sobre o fim da austeridade quando vi que o Syriza constituiu governo coligado com a direita nacionalista xenófoba , só parei de me rir quando ouvi o novo ministro das finanças a garantir que não tinham a intenção de interferir com a gestão dos bancos . Isto  veio a seguir a uma retirada massiva de depósitos , a maior desde 2012 quando o euro estava por um fio , que mostrou bem que 36% dos eleitores podem ter confiança no Syriza mas isso nem chega a metade dos gregos e há uma parte muito considerável que tem medo , muito medo daquela rapaziada , se calhar por terem bem presente que de boas intenções está repleto o inferno.

O ministro das finanças , o mesmo que dizia no seu blog  que o programa do Syriza estava cheio de coisas que não eram para cumprir , muito menos o fim da austeridade , e que com o Che Tsipras chegou ao governo mentindo como os melhores , informou que podemos descartar a conversa de nacionalizações que se ouvia há uns meses. Lembrei-me de que na história que eles costumam contar a explicar a crise , Syriza e  seus semelhantes europeus , a culpa dos males modernos é em primeiro lugar da Alta Finança,  cujo braço operacional é o sistema bancário , pelo que seria de esperar que a cruzada pela mudança e justiça social começasse pelos bancos , aquela história de pôr os bancos a trabalhar para as pessoas e não o contrário. Afinal não , não foi na estrada para Damasco , foi na estrada para o palácio do Governo que o Syriza se converteu e afinal aceita as operações dos seus bancos como estão . Lindo.

Por cá houve uma avalanche de ridículo , o PASOK , partido irmão do PS ( pelo menos era na última vez que ganhou eleições) , foi pulverizado , mas o PS não se pronunciou sobre isso , o internacionalismo socialista já não é o que era e o fracasso é como uma peçonha , preferiram alegrar-se com a vitória do Syriza , que prometeu e propõe coisas que o PS rejeita liminarmente mas isso são pormenores insignificantes a que ninguém liga .
O Bloco achou que a coligação com a extrema direita ( agora já não é extrema direita como há 3 meses , claro, e trabalha-se afincadamente em novos qualificativos) foi “o possível, mas não o desejável “, mostrando que o seu entendimento e tolerância do que é possível é muito mais agudo no estrangeiro do que em Portugal e há muito mais coisas possíveis para os nossos amigos do que para os nossos adversários. Além do mais ficamos logo a saber que o Syriza pode fazer coisas indesejáveis , vai dar um jeitão para comentar o resto da legislatura . Se o Passos ouve que o Bloco compreende que se façam coisas que são possíveis mesmo que não sejam desejáveis vai ganhar outro alento. Agora a extrema esquerda portuguesa tolera o que no mês passado era extrema direita com a justificação , entre outras , de que há lá outra extrema direita , essa sim mesmo extrema , pelo que estes até são aceitáveis , é possível trabalhar com eles ainda que não fosse desejável .  Grande ginástica.  Ainda ontem ouvi um tempo de antena do Bloco em que a sua porta voz dizia que “o Syriza provou que é possível uma alternativa à austeridade” . A mim parece-me que a única coisa que o Syriza provou até agora é que é possível ganhar eleições fazendo campanha contra a austeridade , daí a ter provado que há uma alternativa viável vai uma distânciazita que demorará um pouco mais do que uma semana a percorrer , mas a Catarina Martins tem noções diferentes das minhas sobre o significado de palavras como “prova” e “realidade” .

E o resto da Europa , a mesma que se estão lembrados aqui há uns anos ostracizou a Áustria porque esta se atreveu a eleger um governo de extrema direita , ou de uma coligação que incluía a extrema direita , encolhe os ombros , espera para ver e senta-se à mesa para ouvir os gregos a explicar porque é que não só não devem pagar o que devem como lhes devem dar mais se não querem a implosão da Grécia e consequentemente , do euro. Há quem lhe chame chantagem , mas esse é outro termo cujo significado depende sempre de quem o pratica : se é a Grécia a dizer que ou dão mais dinheiro ou o euro vem abaixo , é negociação , se é Bruxelas ou a Alemanha a dizer que ou cumprem as regras ou acaba-se o dinheiro , já é chantagem .
Acho particularmente engraçado lembrar esse episódio da Áustria , país rico , que não devia nada a ninguém e funcionava …como a Europa do Norte , que teve a temeridade de numa eleição livre dar poder à extrema direita , aqui d’el rei , golpe de estado , inaceitável , os austríacos tinham sido enganados e manipulados e o resultado das eleições não se podia aceitar, e não se aceitou . Desta vez variaram as regras , os gregos que em agregado são trafulhas , caloteiros e indigentes como Estado ( sim sim , estou a generalizar e a ser preconceituoso , tenho o mesmo direito que os outros , ou mais , dado que não sou figura pública , e pelo menos admito a falha ) , elegem a extrema esquerda que não só não quer pagar como quer receber mais , é a legitimidade democrática a funcionar e um prenúncio de mudança . Que categoria.

Gostava que me explicassem porque é que a direita radical não podia  ser governo na Áustria e a esquerda radical pode ser governo na Grécia , continua a haver certos radicalismos que passam melhor que outros . Tsipras e Iglésias , radicais bons , Le Pen e não me ocorre mais nenhum , radicais maus. Se em França a Frente Nacional estiver para ganhar vai cair o Carmo e a Trindade , é uma ameaça à Europa , haverá coligações nacionais e internacionais para afastar os fascistas do poder. Entretanto na  Grécia a extrema direita chega ao poder mas como vai à insólita boleia da extrema esquerda , é só o processo democrático em actividade . Isto é muito interessante , se bem que um pouco confuso.

Enquanto escrevo isto ouço um programa de debate na A1A chamado Frente a Frente ( que só vale a pena ouvir quando falam de questões regionais ) em que está um economista a expor a sua visão sobre a situação na Grécia. O Professor Doutor não sei quantos diz que a União Europeia não tem interesse em que se cumpra o programa do Syriza , senão os países como Portugal e a Irlanda iam exigir as mesmas condições , pelo que a Grécia está isolada e “sem apoio vai ser muito difícil realizá-lo”. Depreende-se desta análise que o programa do Syriza , assim condensado , se resume a  pedir mais dinheiro à UE para o gastar como entender,  e a UE não quer ( nem pode) fazer isso senão tinha que financiar indefinidamente todos os investimentos e gastos , mais ou menos delirantes , dos países que não se financiam sozinhos , como o nosso.
Nesta perspectiva é só por isso que o “programa” vai falhar , e assim se justifica já o mais do que provável desconjuntar do carro alegórico do Syriza logo à saída do pavilhão , com a falta de apoio da Europa , não será por as politicas serem radicais , populistas  e impossíveis de financiar e por a Grécia ser largamente irreformável e vastamente corrupta , quando falhar vai ser por falta de apoio , justificação aceitável para o fracasso de uma equipa de futebol de salão que não arranjou patrocínios mas que não se pode admitir para justificar o falhanço do governo de um Estado soberano. Por outro lado , se por absurdo a UE anuísse às  pretensões do novo governo  , passasse mais uns quantos cheques de 10 dígitos e rasgasse as facturas antigas teríamos assistido a um triunfo do povo grego .

Mas ainda não houve falhanço nenhum e estes são dias muito interessantes , eu continuo a admitir a possibilidade de estar errado e de a “solução para a Europa” estar nas mãos e ideias de grupos como Syrizas e Podemos , tenho é que ser convencido e estou muito longe disso.

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