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Casa à venda

Há uns 3 anos deu aqui à costa um casal com dois filhos pequenos, vinham num Swan , os Swans são tipo os BMW’s dos veleiros . Tinham um estilo muito descontraído , eram pessoas simpáticas e fizeram logo muitos amigos entre a comunidade estrangeira que cá vive e visita .Ele é sul africano , ela americana , passadas umas semanas nesse Verão , como acontece dezenas de vezes todos os anos , apaixonaram-se pela ilha e declararam a intenção e vontade de cá viver .

Passado pouco tempo compraram uma casa que estava fechada e pertencia à câmara , uma casa grande que eles trataram de tornar ainda maior , mandaram vir um contentor de coisas entre as quais um tractor com uns 50 anos que veio da África do Sul , uma recordação de família e de um país e passado que não voltam mais , coisa óptima para a maioria dos sul africanos mas bastante desgostosa para uma minoria. Como recordação um tractor é uma coisa pouco prática mas pelo menos mostrava que havia vontade de cá se instalarem , e meios para isso.

As demoras e peculiaridades de uma instalação , legalização e reconstrução de uma casa aqui frustraram-me um bocado, e eu sou português , para eles , como para os europeus do Norte , pode ser quase um desespero .

O homem começou cedo a apontar e comentar os problemas da ilha e de Portugal em geral , e eu apesar de os achar simpáticos comecei a duvidar de que durassem cá muito , a achar que o futuro que eles estavam a imaginar aqui dependia de haver cá muito mais gente como eles , coisa que até será possível mas não é para breve.

Preocupado com as vistas fez com que a Câmara lhe passasse uma declaração em como nunca iam permitir construções nas terras entre a casa dele e o mar e que ele tinha opção de compra , uma das muitas coisas que lhe fizeram e nunca lhe fariam em mais lado nenhum , e mesmo assim havia sempre queixas. Achavam as pessoas muito fechadas e desconfiadas , às vezes perguntavam-me isto ou aquilo ( logo a um gajo muito aberto e confiante , e ainda por cima de fora) , eu sugeria coisas tipo não ir às sopas do Espírito Santo com a roupa com que se andou a cavar na horta e aprender português.

Depois de meses em que de vez em quando explicavam , criticavam , propunham ideias e planos inexequíveis para “re-vitalizar” a ilha , nos quais tinham o apoio incondicional dos semi hippies que vivem nas nuvens e as dúvidas dos cépticos que vivem nas Flores foram percebendo que viver aqui não é o que parece numa bela manhã de Agosto sentado à beira mar ou a passear pelas canadas.

Acho piada a pessoas que dizem coisas como “ a ilha devia ser só alimentada com energia hídrica e eólica , não deviam ter feito uma central a gasóleo , e novinha ainda por cima!” , como se cá nunca ninguém se tivesse lembrado disso ou como se tivesse havido escolha . Houve escolha , mas não foi feita na ilha nem foi há meia dúzia de anos , e de resto nunca vi nenhum gerador éolico ou painel solar na casa dele.

Conseguiu ensarilhar o processo de autorizações de residência , da importação do barco e das licenças de obras , muito por falta de atenção e excesso de confiança. Sempre que nos víamos contava-me mais uma história relativa à burocracia portuguesa , a dada altura eu disse que conhecia a África do Sul , que lá tinha estado várias vezes e tinha ideia de como lá se lidava com barcos estrangeiros , e assim deixei de ouvir queixas relativas à importação do barco. Lamentei que tivessem encontrado um advogado incompetente e que não dissessem uma palavra na língua do país no qual queriam residir , dois obstáculos importantes. “Nunca tive problemas nem complicações destas quando fui viver para os Estados Unidos” , disse-me um dia , eu disse que acreditava perfeitamente , dado que ele se casou com uma americana , se se casar com uma portuguesa tudo se torna mais simples , dão-lhe a autorização de residência num instante .

O processo alongou-se , e depois havia o pormenor do Inverno. Para se poder dizer com convicção que se quer viver aqui não é preciso só passar cá o tempo suficiente para perceber “como é que isto funciona” , é preciso passar um Inverno . Só um chega bem para se saber se sim ou não , mas tem que ser inteiro.

Foram-se embora , voltaram no Verão seguinte e continuaram a frustração com  as obras e as burocracias. Um dia disse-lhe que a meu ver o problema principal dele é que estava a tentar obter o estatuto de residente  sem ter sequer a intenção de ser residente.

É estranho uma pessoa queixar-se da lentidão e complicação de um processo de autorização de residência num país quando se passa muito pouco tempo nesse país e é natural  que a Câmara tenha mais pressa em mandar uma carrada de areia a quem vive cá do que a alguém que está a fazer a casa de férias. Porque é disso que se trata.

Ele ficou a olhar para mim calado bastante tempo , depois disse “obrigado” . Parece que ninguém lhe tinha dito isto antes , entre advogados , oficiais do SEF , da AT , funcionários da Câmara , amigos portugueses sempre prontos a deitar Portugal abaixo e amigos estrangeiros sempre dispostos a compartilhar as suas experiências , entre esta gente toda com quem ele discutia os seus trabalhos nunca ninguém lhe tinha dito : Um residente é uma coisa , um visitante é outra , não se podem querer privilégios e direitos de um sendo outro e isto vale desde o BI azul até à tal carrada de areia.

Estão nesta altura a caminho de Cabo Verde para depois atravessar o Atlântico e a casa está à venda , aliás , ouvi dizer que já está vendida . Espero que regressem um dia porque são boas pessoas , generosos , alegres , simpáticos e cosmopolitas , e sem dúvida que continuam a gostar muito da ilha … mas não o suficiente.

Outra casa que está à venda é do meu vizinho e amigo , é essa da foto aí em baixo e aqui têm um vídeo muito completo de apresentação com os contactos e as vistas todas  , ponho-o aqui porque ele tem muita urgência na venda e pede para divulgar ao máximo . Quase que aposto que vai ser vendida este Verão para ser  mais uma casa de férias . 

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