Início » Islamismo » Medo

Medo

Sendo o objectivo do terrorismo aterrorizar , parece-me que os fundamentalistas estão a ganhar . Se o cidadão comum não tem razões para temer ser perseguido (e aproveito para dizer que apesar do que escrevi no ultimo post se por absurdo implausível viessem buscar a minha pele não iam ter dificuldades de maior) , as pessoas que pelo seu trabalho ou função confrontam publicamente o Islão , ou são apercebidos como seus inimigos , têm várias razões para ter medo no seu dia a dia , mesmo que não vivam em regiões de grande população  muçulmana.

O “cidadão comum”  não teme ser perseguido por gozar com o Islão mas deve ter algum receio de viver num sítio em que ataques como o de ontem e hoje  acontecem e vão voltar a acontecer. Quem não sente algum medo ao ver tropas na rua não está a prestar muita atenção , deve ter medo senão pela sua segurança física pelo menos medo das coisa más que se estão invariavelmente a passar e pela segurança de outras coisas , especialmente as intangíveis como a liberdade.

Os muçulmanos têm medo de serem mal tratados por represálias e têm medo da desconfiança e discriminação que sofrem . Os judeus têm o medo a que estão acostumados , ainda hoje lhes deram mais uma razão muito clara e imediata para continuarem a ter medo.

Eu sei que um lisboeta , e provavelmente  um parisiense , corre menos riscos de morrer num atentado terrorista do que atropelado mas há  o medo do que a presença deste risco nos faz como indivíduos e sociedade.

Muitas pessoas normalmente tolerantes e ponderadas começam a perder a tolerância e ponderar ideias que se calhar há dez anos achavam inaceitáveis. Caminha-se velozmente sobre a linha entre a vigilância e a liberdade , até onde se pode vigiar ( e como) sem infringir liberdades que temos por fundamentais ? E no lado prático , é possível vigiar eficazmente todos os suspeitos? E o que é que faz de uma pessoa suspeita?

Tenho medo que os meus próprios preconceitos me toldem o julgamento nesta matéria , mas felizmente é matéria na qual não tenho voto . Por  vezes confundo-me a mim próprio porque  há estratégias ou métodos que defendo para tentar lidar com isto que entram em conflito com coisas em que acredito. E no fundo tenho medo porque acho que sem nos desintegrarmos como Civilização , chamemos-lhe isso , não vamos conter a ameaça islâmica , a longo prazo . Quando digo nós quero dizer Europa e nada mais.

Daqui a uma semana já não ouço falar em  Charlie Hebdo , não havendo mais nenhum massacre entretanto  isto passa , felizmente tenho mais que fazer e em que pensar do que em islamismo , mas hoje estou com  medo.

Anúncios

14 thoughts on “Medo

  1. Parece-me que não me contradigo em nada , e certamente que não mudei de ideias , se for alguma coisa ainda me sinto pior e a detestar mais o que detestava antes deste atentado. Ainda bem que a formulação deste post foi mais macia , redondinha e caiu melhor.

    Gostar

  2. 😀 não é uma questão de contradição, é uma questão de postura. Neste post tu dizes exatamente o que sentes, não é apenas um despejar de ódio, raiva e de nervoso, ainda que com argumentos lógicos, that’s the tricky thing :p

    Gostar

  3. Jó tu dizes que estamoS em guerra, que é preciso fazer alguma coisa, e por isso vamos berrar ódio e segregação aos muçulmanos etc…

    Mas eu pergunto-te, como é que escolhes um lado, quando “estamos” (a Europa , EUA…o “ocidente”) na cama com a Arábia Saudita, o país muçulmano mais radical de todos, que anda a financiar o radicalismo Islamico sunita por todo lado (incçusive o 11 de Setembro), financia o ISIS, e que faz coisas destas na boa, publicamente, para dar o exemplo:http://www.publico.pt/mundo/noticia/blogger-saudita-que-insultou-o-islao-fustigado-com-50-chicotadas-1681778

    Afinal de que lado estamo”s”?

    Quando o Timothy Mcveigh explodiu um edificio do GOV dos EUA, ou o gajo da Noruega assassinou dezenas de socialistas, declaramos guerra à extrema direita fundamentalista cristã? Quando os putos de Columbine (e outras escolas americanas) sacam de metrelhadoras e assassinam colegas proque a vida é non sense…declaramos guerra aos ateus e agnósticos, ou ao grunge? Quando os Israelitas bombardeiam mais uma escola cheia de putos palestinianos declaramos guerra aos judeus? Quando os hindus desfazem mais uma mesquita declaramos guerra aos hindus?

    Resisto à ideia de estar em guerra, em embarcar no jogo do ódio com esta gente odiosa. Se alguém começou estas guerra (ovo ou galinha..), certamente não fui eu, e espero muito sinceramente não ter de me envolver nela…

    Relaxa meu, estás numa ilha de “monocultura cristã ocidental”, no meio de flores e mar, com ovelhas e um belo cão…se alguém não tem do que se sentir ameaçado serias tu! 🙂

    Gostar

  4. Tó , desculpa lá mas onde é que eu disse ou escrevi “que é preciso fazer alguma coisa, e por isso vamos berrar ódio e segregação aos muçulmanos etc…” ?
    E já disse mas repito as vezes que forem precisas : estou do lado do Ocidente , mesmo com os seus podres e hipocrisias. Posso?
    Já te felicitei uma vez por conseguires pairar acima destas coisas e não escolheres lado nenhum , não te felicito por não veres as diferenças.
    Se os nossos governos , ou partes deles , decidem e agem de maneira que achamos má , péssima mesmo , isso não nos torna menos cidadãos , habitantes , parte integrante disto.
    Enumera-me aí as ameaças , teóricas e concretizadas , dos fundamentalistas cristãos , hindus , judeus , dos aborígenes ou de quem tu quiseres , ameaças à Europa e a coisa que acarinhamos como a liberdade de expressão , e depois comparamos a lista com as muçulmanas a ver se alguma coisa salta á vista.
    Não me sinto fisicamente ameaçado mas sinto muitas coisas que me são caras e próximas ameaçadas , e senti-lo-ia se a “invasão” muçulmana da Europa estivesse a decorrer sem um único tiro ou explosão , percebes? Desculpa lá , o tom nestes dias tem sido pior do que o costume mas como te disse no outro dia ando agoniado com isto. Abraço.

    Gostar

  5. Nao pairo sobre nada. Se fizerem ai uma guerra mundial ou que venha bater a minha porta sou afectado como os outros. Se isto se transformar num regime autoritário e religioso também. Se nao escolho um lado é porque ser europeu nao me define. Nem sei o que isso é. E duvido que tu saibas. Se ser ocidental é ser aliado do estado islamico mais radical e que mais financia o terrorismo entao nao sei que lado é que escolhes. Pedes que os muçulmanos moderados e manifestem (mais), entao porque nao pedir que os governos que nos representam sejam menos hopocritas?

    Gostar

    • Mas desde quando é que é a política externa que define um estado?
      Agora todo o edifício europeu de Liberdade , tolerância , diversidade , respeito pelas minorias , progresso intelectual , cultural , científico e artístico , tudo isto não é distinto e não vale nada , não lhe pertences nem te identificas com isto porque se compra petróleo e vendem armas à Arábia Saudita? Porque o governo é hipócrita?
      Mas onde é que está a nação impoluta que pesa sempre exactamente o bom e o mau dos seus actos e que põe altos valores éticos acima dos seus interesses particulares e imediatos?
      Ser ocidental é mais ser aliado da Arábia Saudita ( e esta aliança como lhe chamas será verdade para os EU mas não é assim para a Europa) do que ser herdeiro do Galileu e do Voltaire , queres ver?
      Parece que ser europeu é mais pertencer ao continente onde há empresas que exploram desgraçados do que pertencer ao continente onde nasceram a Cruz Vermelha e os Médicos sem fronteiras.
      É mais pertencer à sociedade que permite que haja sem abrigo a dormir nas ruas do que pertencer à sociedade que acolhe e sustenta dezenas de milhar de imigrantes e refugiados de todas as guerras do mundo.
      Ser europeu é mais ser do continente que vende armas a miseráveis do que do continente que deu ao mundo a representatividade democrática e a pratica como consegue. É mais ser do continente alienado em big brothers e deboches de toda a ordem do que ser do continente onde as artes estão por todo o lado, até aqui no meio do Atlântico. É mais ser continente que assobia para o ar quando os israelitas bombardeiam Gaza do que do continente que pára os jhiadistas no Mali , ajuda as vítimas do tsunami ou acaba com a selvajaria na Serra Leoa. É mais ser do continente onde há corrupção a todos os níveis do que que do continente que investiga , persegue , julga e condena corruptos.
      Todos os porcos e os podres servem e são chamados para ilustrar esta Europa que muitos renegam e dizem que nem sequer se pode definir , ao passo que os anjos e as glórias são sempre ou muito poucos , ou muito tarde , ou por remorso , ou muito vagos , ou muito antigos ou muito isolados ou muito inconsequentes . Por outro lado nos outros países todo o nojo e miséria são sempre culpa de alguém externo , se não é da Europa é dos Estados Unidos .

      Não te pergunto então o que te define , há muitas pessoas que levam vidas alegres, felizes e cheias sem nunca sequer pensarem nisso ou sentirem a necessidade de se definirem. És um Homem e isso basta-te. Óptimo. A mim não me basta , porque para além da natureza e características biológicas que partilho com todos os outros Homens há mais alguma coisa que me define : a minha origem , a minha educação , as minhas crenças , os meus hábitos e as minhas convicções. Que não são Chinesas nem Hindus nem Americanas , são Europeias. E podes começar com a minúcia de distinguir entre um Polaco e um Italiano , ambos europeus e diferentes , mas se vais chegar aí é porque o que eu tentei explicar não passou.

      Gostar

  6. Entao se te defines como europeu aceitando isso em toda a abrangencia, contradicoes e pluralidade aceita também as tuas raizes arabo islamicas, porque enquanto portugues tens muitas, tanto historicas como actuais, desde os nomes de pessoas e lugares, a comidas ( os doces) , os azuleijos, a numeracao etc. Como europeu portugues estas pelo menoa tao proximo de marrocos como da alemanha ou inglaterra em termos culturais.

    Gostar

    • Basta olhar para a minha fronha para ver que hei-de ter sangue árabe e provavelmente judeu lá nos ancestrais e caramba , não fôssemos de Al – cobaça só para dizer uma de mil. Nunca neguei essas raízes , nem sequer a possibilidade de ter mesmo sangue africano , possibilidade de que que nenhum Português está “isento”. Como pessoa que gosta de História não tenho sequer a possibilidade de ignorar toda essa herança do tempo do domínio muçulmano na Península. Acabou há 500 anos , desde então ficámos com os nomes das coisas , os cavalos , os azulejos , precisamente a herança , sempre achei que o fado andava pertíssimo dos cantos dos muezzins a chamar à oração. Aceito e aprecio a nossa herança árabe , sabendo que foi temperada e diluída em 500 anos de outras coisas , que passámos pelo Renascimento que falta aos muçulmanos hoje em dia e hoje é só isso , uma herança e uma influência remota , como a dos visigodos ou romanos.

      Em termos culturais pessoais , por exemplo se for ver as minhas estantes , os meus hábitos pessoais e as minhas crenças e a minha educação , estou muito mais próximo de um inglês que de um marroquino.

      Gostar

  7. Nunca me viste a dizer que a Europa são só coisas más ou que somos os culpados de tudo. Isso é discurso de uma certa esquerda europeia , a qual não me identifico. Somos e fazemos muitas coisas boas, e más, que gosto e não gosto, obviamente. Não somos responsáveis de tudo de mal que acontece, nem somos vitimas inocentes quando acontece algo de mal. Não somos nem melhores nem piores que os outros. Na minha opinião…

    os meus valores são muito basicos e simples, muito por falta de fés maiores. Se é bom para mim e para as pessoas que eu gosto, apoio, se não, não apoio. É meio egoista, vago, e para ver caso a caso, e mesmo assim nem sempre é facil. Neste caso parece-me que embarcar em ódios e guerras não é bom nem para mim nem para as pessoas que gosto (familia e amigos) e por isso evito…só isso.

    Gostar

  8. O problema é quando embarcam em guerras e ódios sem te pedirem opinião nenhuma mas é embrulhado no processo na mesma . Tenho-me lembrado muito de um texto que publiquei aí há uns meses de um alemão a explicar que os Alemães também não era todos Nazis , os Russo não eram todos todos Bolcheviques , os Chineses não era todos Maoístas, antes pelo contrário , a maior parte era gente de paz , como os Muçulmanos , como os Homens. Depois há uns poucos que se apoderam dos muitos e começa a desgraça.Acho que estamos a ver isso hoje .

    Gostar

  9. Também me parece, e é assustador. Estou a tentar resistir a embarcar nisso, sabendo bem que nesses processos, a qualquer momento, poderei tornar-me um fervoroso e radical defensor de um lado qualquer sem me dar conta nem saber bem porquê… mas até lá resisto.

    Liked by 1 person

Responder

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s