O guru

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 “A vida é uma longa peregrinação” , ora  aí está uma metáfora que poucas pessoas na História devem ter imaginado , a vida como uma viagem , uma peregrinação.  Mágico, profundo e original , nada que nunca tivesse ocorrido a ninguém desde , sei lá , a invenção da escrita …e das peregrinações.

O ponto de partida para esta peregrinação figurada  não é afinal  o nascimento , é o medo. O medo como ponto de partida , medo  que se calhar esteve sempre por perto na infância  do Paulo Coelho ,  talvez se referisse ao medo que sentirá a mãe  ou ao medo que ele imagina que as crianças sentem ao nascer , no começo da tal peregrinação .Seja como for é idiota.

O ponto de chegada é o amor, não pensem que a peregrinação acaba com a morte , como se esperaria se equiparamos a peregrinação à vida , mas se calhar não li que chegue e ele acredita e defende que a Vida não acaba com a Morte.

No que toca a autores este homem é talvez o maior charlatão que a humanidade já conheceu , é o rei dos lugares comuns , eu não me devia ralar nada com isso mas de cada vez que vejo coisas como essa  foto com essa frase  tão profunda a aparecer na capa de perfil de uma pessoa que conheço no Facebook fico agoniado.

O Paulo Coelho é perito em traduzir para donas de casa  alguns pontos mais básicos das filosofias e religiões orientais e depois apresentar o resultado filtrado como produto da sua mente esclarecida. É nisso e só nisso que está alguma originalidade que o homem possa ter. Podemos em cinco segundos encontrar frases mais profundas e com significado real sobre a Vida como Peregrinação , como esta de um líder espiritual hindu do século passado , S.Siwananda :

A vida é uma peregrinação. O homem sábio não descansa nas estalagens do caminho, ele marcha directamente para o domínio ilimitado da beatitude eterna , o seu destino último”.  Ora isto já se aceita melhor  como metáfora  ( e se calhar já foi copiado algures pelo Paulo Coelho) , já dá que pensar um bocadinho , já apresenta um apelo , mostra alguma direcção. Ao contrário de dizer que o ponto de partida da vida é o medo e o da chegada é o amor , frase que  no fundo não quer dizer nada .

A sério , às almas mais sensíveis , mesmo aos mais poéticos , mesmo se até têm lá em casa  livros do Paulo Coelho , mesmo aos que sempre odiaram Filosofia , ou simplesmente pensar muito , e especialmente aos que até gostam do Paulo Coelho e agora  me estão a insultar , peço um grande favor:  leiam outra vez , com muita calma , essa frase.

Faz algum sentido? Se responderam sim , agradecia-vos do fundo do coração e sem ironia nenhuma que mo explicassem , que não o encontro .A menos que o sentido seja  o que cada um lhe quiser atribuir , o que é uma belíssima licença para escrever seja o que for à sombra de um nome feito porque há-de fazer sentido para alguém,  e eu é que sou estúpido porque por mais voltas que dê à frase só a consigo perceber alterando tudo o que eu entendo por Vida.  Se calhar é esse o truque para o perceber , deixar de lado  preconceitos como a gramática , a semântica , a lógica e o  vocabulário estabelecido e percebermos  que qualquer merda pode querer dizer outra merda qualquer.

PS: O título  deste post era para ser “morre , cretino”  mas depois acalmei-me. Ouvi um  murmúrio do mais profundo do meu ser a chamar-me a uma razão perdida no Tempo , como um sopro distante da sabedoria dos antepassados que conheciam o meu íntimo melhor do que eu próprio e me queriam revelar o Segredo , o Segredo da Paz interior , se ao menos eu abrisse as minhas portas da percepção e o meu coração à Luz , se eu tivesse a coragem de abandonar a raiva ,  olhar o futuro que está dentro de mim e pela acção do  Amor puro  conseguir transformar-me num Guerreiro da Luz.

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3 thoughts on “O guru

  1. Opá, há uns 15 anos li um livro (académico), onde, no pósfácio, o autor contava algumas lendas populares, e uma delas, penso que era polaca, ou algo assim, era precisamente a mesmo do “Alquimista”, o primeiro e maior exito do Paulo Coelho. Só que a lenda estava contada em meia página… Mais tarde li precisamente o Alquimista (lê-se em 3 horas ou pouco mais) e… “surpresa”. Mas até gostei do livro…

    Acho que o talento dele (só li aquele, não sei os outros) é precisamente o que identificas-te: desidratar conceitos de filosofias, religiões, contos e proverbios populares universais e recontá-los em forma light. E é incrivel a ressonância que isso tem tido…

    A título de curiosidade o indiano que referiste foi um dos gurus de yoga/advaita vedanta mais conhecidos e influentes, não só na Índia mas também no ocidente. Para eles aquilo era religião pura, para nós passou a ser, na maioria dos casos, “espirititualidade new age”.

    E já que vamos em “espiritualidade new age”… ontem, uma pessoa 110% new age explicou-me que, segundo a “numerologia intuitiva” (!!!) o próximo ano – 2015 = 2+0+1+5=8 – é um ano “8”, e que isso significa que é um ano de realizações! E é isso que te desejo, secundado pelo cosmos (que é amor). Muitas realizações, ou seja, muito amor! Amor é plenitude, o oposto do medo, uma caminhada das trevas à luz….algo por aí …(na semana passada fui ver o Hobbit, um mega exito, e tem menso argumento que um livro do Paulo Coelho!!!).

    Grande abraço! 🙂

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