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A Magia da Rádio

Sou do tempo de ficar a ouvir rádio com uma cassete no deck à espera de gravar músicas que procurava ou gostava .Ouvia o Som da Frente e o Lança Chamas mas também ouvia o Oceano Pacífico. Havia dois canais de televisão e duas horas de telediscos ao Domingo , havia um entusiasmo enorme e antecipação de meses quando algum músico estrangeiro se dignava a vir tocar a Portugal , eram poucos. Havia o Blitz para onde se mandavam Pregões e Declarações a dizer  que quem não gosta de Joy Division deve morrer , ou  vi-te no metro do Saldanha , levavas uma T-shirt dos Marillion e tens cabelos comprido, sei que lês o Blitz!” .

Tive a oportunidade de trabalhar na rádio , primeiro como colaborador que “animava” duas horas ao Sábado das onze à uma da manhã na Rádio Cister , no tempo de levar vinis de casa porque ainda tinha poucos CD’s . O último vinil que comprei foi o Nevermind dos Nirvana , e será tema de outra conversa este revivalismo e apego ao vinil como suporte de som , é uma coisa que não compreendo , para além do hipsterismo.

Como programa de rádio aquilo era muito mau , nem era um programa , como sequência de músicas até nem seria mau para as pessoas que partilhassem o meu gosto musical , mas ainda por cima quase sempre eu enchia duas horas com músicas dedicadas à minha ex namorada e ao meu coração partido , numa altura em que não havia separadores , promos , jingles e outros sons automáticos para aligeirar , eu falava bastante mal e  quando não era deprimente era muito acelerado, tanto dava para Leonard Cohen como para Ramones e sinceramente não estranhei nada quando  me disseram para parar com aquilo.

Fiquei com gosto por fazer rádio e com  amigos profissionais  , e uns anos mais tarde voltei à Rádio Cister para trabalhar na informação . Já havia internet , telemóveis e programas informáticos como o Sound Forge , a rádio tinha sofrido uma verdadeira revolução desde que eu lá tinha andado a passar vinis e a fazer sinal ao senhor Mário na cabine para rolar o indicativo.

Fiz uma formação do Cenjor , calculo que fosse a mais breve e básica de todas as disponíveis na época , formação relâmpago de umas 8 horas ou nem isso , pela qual me deram um certificado . De certa maneira fiquei  mais próximo de ser um jornalista depois  dessa formação , quanto mais não fosse porque tinha um papel de um centro de formação de jornalistas com o meu nome.

O meu trabalho era assegurar os boletins informativos , cinco da parte da manhã ou cinco da parte da tarde , de cerca de cinco minutos , à hora certa. A cidade é pequena e uma das vantagens é que na rádio ninguém nos vê ,  lembro-me de uma vez ter acordado às 7 e 50 e ao sinal horário das 8 lá estava ao microfone a dizer “Bom dia , são oito horas , estas são as notícias” . Impagável a cara do locutor no estúdio.

Tinha a imprensa do dia e os boletins da Lusa , de onde saíam as notícias de actualidade nacional e internacional , e depois havia a actualidade local ,  mais importante . Já implicava ter uma agenda ( no sentido de calendário com apontamentos , não como programa…)  , fazer uns telefonemas , umas deslocações , seguir alguns temas. Quando havia um político qualquer na cidade tinha que se lá ir marcar presença e “recolher declarações” , declarações que a maior parte das vezes requeriam  esforço para extrair 10  segundos relevantes. Era muito interessante , o ambiente era bom e parecia-me bastante fácil , não estava lá para começar uma carreira no jornalismo , era temporário como toda a gente sabia ,  que me lembre nunca houve reclamações nesse ano e tal em que fiz papel de jornalista ,e aprendi bastante .

E fiz mais do que os boletins , durante os meses de  Verão propus à direcção fazer as tardes de Sábado , das três às seis , com um verdadeiro programa,  sem me pagarem mais , um bocado por achar que me estavam a pagar demais para o esforço que eu realmente fazia e por outro por querer muito fazer um  programa à minha vontade e se pedisse mais dinheiro para o fazer diziam-me que não . Fiz dez , cada um tinha um tema , “desporto” , “ciência” , “política” , “futuro” , “viagens”, tópicos assim . Escolhia músicas relacionadas com o tema , juntava factóides  e referências , escrevia umas coisas , havia linha aberta , convidados em estúdio , fazia antecipadamente entrevistas por telefone a pessoas que achasse interessantes , até tinha um segmento em que se fazia uma entrevista fictícia a alguém fictício , pedia a amigos para gravarem e tentava ser engraçado. Nunca cheguei a receber críticas , nem boas nem más , mas foi das coisas mais recompensadoras que já fiz , e das que fiz com mais gosto. Guardo os amigos desses tempos e sempre que estou em Alcobaça tenho o rádio em 95.5.

Nas viagens marítimas também ouço rádio, estações que emitem em alta frequência , dantes era mais para apanhar os boletins meteorológicos de alto mar que a RFI emitia mas também me entretinha a sintonizar estações aleatórias , tipo Radio China Internacional  . A aproximação da costa é sempre sinalizada pela recepção de estações FM , que eu sempre gostei de ouvir a chegar a um país , faz parte da aclimatação.

Desde que moro aqui que só apanho a Antena 1 Açores e a Antena 2 , a dois tem coisas muito boas mas não dá para estar o dia todo a tocar , a A1A lá vai servindo.Tem dois locutores que eu acho muito bons mesmo e  com o resto , se mandasse lá , sentava-me com tempo a uma mesa a arranjar maneira de as coisas melhorarem. As pessoas fazem rádio há tantos anos com um estatuto tão alto que desenvolvem uma opinião das suas habilidades e valor  que depois as deixa ficar mal , por deixarem de querer melhorar , mais ainda quando o patrão é o Estado .

Ouço os noticiários da A1A diariamente há mais de 3 anos , salve um mês ou outro fora. Todos os dias , várias vezes ao dia e parece-me que os conseguia fazer sozinho da minha sala se tivesse banda larga , um computador sério , a lista de contactos deles e pudesse dizer “daqui fala da Antena 1”. Chateia-me que não se exija mais dos jornalistas e locutores , querem concorrer com a oferta imensa que há hoje em dia mas do mesmo modo que o faziam há 15 anos. Calculo que não recebam o ordenado mínimo como eu em 98 , mas produzem o mesmo e alguma coisa está mal.

E outras coisas estão bem , a Antena 1 tem um programa chamado A Vida dos Sons , transmitido pela A1A aos Domingos e disponível online  , que é verdadeira excelência radiofónica . O programa percorre os arquivos imensos da RDP , enquadra a época e os períodos abrangidos em cada episódio em  e apresenta clips e gravações contemporâneas , tudo muito bem produzido .

Quando ouvi pela primeira vez na promoção do programa um clip do Salazar num dos seus discursos a dizer “Está tudo bem assim e é preciso que nada mude” deu-me um arrepio na espinha. Não me lembro de ter ouvido alguma vez a voz dele ,  ouvir aquilo dito assim pelo homem “em pessoa”  levou-me a um passado que  nunca vivi , de uma maneira que nada do que li dele e sobre ele alguma vez me tinha levado. É a magia da Rádio.

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