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Movimentos

O meu vizinho está há uns bons meses a planear regressar à sua Bélgica natal depois de uns 30 anos na ilha , questão da diferença entre prestações da Segurança Social cá e lá. Anda a arrastar o processo porque não tem vontade absolutamente nenhuma de se ir embora , a única motivação é mesmo o cheque , já não tem nada nem ninguém na Bélgica e quase todos os dias lhe chega  alguma notícia perturbadora , a maior parte delas ligadas aos árabes que por lá pululam , e o pulular é o menos , o que perturba é ver esse pessoal a exigir e conseguir ter pela sua fé e hábitos culturais o respeito que não concede à fé (ou falta dela) e hábitos europeus.

Gosto de pensar que se algum grupo  em Portugal viesse protestar contra expressões públicas de “Feliz Natal” (como em Inglaterra e na Bélgica , por exemplo) seria recebido  com risos  , e ainda está longe a directiva do governo para que apenas se desejem “boas festas” para não ofender susceptibilidades . Lá a demografia dói mais nesse aspecto e os últimos governos belgas têm-se revelado invertebrados , ao mesmo tempo que acedem a todas as pretensões dos muçulmanos nunca se lembram de dizer , por exemplo, “tudo bem , limitámos a expressão pública do Natal cristão para não vos ofender , agora vão trabalhar dia 24 e 25 já que a data não vos diz nada”.

Em Liège  há ruas que todas as sextas feiras são fechadas ao trânsito porque há lá mesquitas que já não comportam todos os fiéis , que têm que vir ocupar a rua para rezar . Poucos belgas têm a temeridade de protestar em público contra isso ( os que o fazem são logo carimbados de nazis ) , mas os presépios em lugares públicos já são uma questão que preocupa governantes  e exige medidas para que não se ofendam os muçulmanos com uns bonecos a representar o nascimento do menino Jesus. Isto está bem encaminhadinho.

Voltando ao meu vizinho , anteontem  mostrou-me  uma “notícia” no facebook : o governo da Bélgica vai proibir os desempregados de ter animais de estimação.  Qualquer pessoa com dois neurónios para esfregar um no outro e um bocadinho de atenção vê que é ridículo , impossível , que não faz sentido absolutamente nenhum , simplesmente não pode ser. O meu amigo mostrava-me a “notícia” com  milhares de “gostos” , partilhas e comentários indignados. “Já viste , agora quando chegar vão-me querer tirar a Lola porque não tenho emprego?!!” Disse-lhe que tinha quase a certeza absoluta de que era impossível , mas ele não ficou completamente convencido e o debate na internet sobre a iniquidade do neo liberalismo belga prosseguiu feroz.

Milhares de pessoas que se acreditam informadas nem pararam para pensar que seria uma medida absolutamente contraproducente , impossível de implementar e controlar e de uma malvadez que nem o verdadeiro neo liberal mais acérrimo se lembraria de inventar? Não cabe na cabeça de ninguém mas se aparece no facebook é capaz de ser verdade. Quando voltei a casa dele  ontem  a primeira coisa que me disse foi que afinal sempre era mentira. Sucede que houve uma greve geral na Bélgica e os activistas , aqueles mais íntegros , dinâmicos e motivados lembraram-se de que quanto mais notícias circularem que causem revolta e indignação nas pessoas , melhor , mais adesão à luta , independentemente de as notícias serem verdadeiras ou não.

Como se não houvesse motivos suficientes para as pessoas se revoltarem. Como se não houvesse causas verídicas e válidas para manifestações e reclamações de mudança . Como se os políticos que nos governam não fossem suficientemente cobardes e muitas vezes idiotas . Não , não basta , têm que se inventar mentiras para agitar , o que faz falta é animar a malta , e não interessa que protestemos contra as mentiras dos outros usando as nossas próprias, a luta tem que continuar.

Estou a fazer a visitinha natalícia ao continente e há poucos dias disse a uma amiga que estava a pensar em participar , se tivesse oportunidade, num desses fóruns /movimentos/debates/organizações/assembleias cidadãs dessas que vão despontando pretendendo incluir os cidadãos na vida política. É uma questão que me interessa , mesmo que não conheça ainda nenhum movimento que traga uma simples ideia além de que é preciso demitir o governo , renegar as dívidas e acabar com a austeridade por decreto ,supõe-se que a partir daí começava tudo a melhorar. Perguntei-lhe se me levava a uma dessas reuniões em que ela participa , ou acho que participa , não porque me identifique ou tenha alguma coisa a dizer lá mas simplesmente porque gostava de ver de perto como é que isso funciona , que calibre de intelectos e discursos lá se apresenta , que ideias são discutidas e como. Ainda não sei se vou poder ir a alguma dessas assembleias ou reuniões mas entretanto ela adicionou-me a um grupo no facebook chamado Mais Iniciativa. Tenho andado a ver. Tem mais de 12 mil membros , há bastantes insultos e impropérios dirigidos ao governo e políticos em geral , partilhas de notícias mais ou menos relevantes , incitações à rebelião , martelar de factos da crise e reciclagem de clichés com 50 anos e até gente a divulgar o o seu próprio movimento social, o que é pelo menos caricato . Nada no Mais Iniciativa me dá a entender que alguma iniciativa  vá realmente sair dali. 

No universo dos “movimentos sociais”    uma pessoa que defenda  mercados livres ; livre circulação de pessoas , bens e capital ; propriedade privada ; ordem pública ; responsabilidade individual e menos intervenção estatal , alguém que ache que o capitalismo deve  ser  curado dos seus cancros e não eliminado (como se isso fosse possível)  é ignorada e  ostracizada , quando não é insultada , nos mesmos grupos e assembleias que dizem querer debater e aproximar os cidadãos da vida política, mesmo os que não são satélites e antenas do PCP ou umas das 17 tendências do Bloco .  

Talvez queiram envolver os cidadãos na política , mas só os cidadãos que pensam como eles senão é uma confusão e uma trabalheira. Vou continuar a tentar encontrar algum grupo/movimento que  seja composto e dirigido por pessoas verdadeiramente interessadas  em debater largo e com todos e não apenas validar os seus pontos de vista , mas acho que o esforço é em vão.  

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3 thoughts on “Movimentos

  1. Pingback: Diga não à discriminação positiva | Eça é que é essa

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