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Comércio insular

No princípio dos anos 90 um emigrante florentino regressou dos Estados Unidos com as poupanças do seu suor e ideias que trazia de um país avançado. Olhou em volta e constatou que não havia uma panificação a sério na ilha , quase toda a gente cozia o pão em casa. Vendo aí uma oportunidade de negócio decidiu criar uma panificação , investiu centenas de milhar dos seus dólares e começou a trabalhar , com um grande sucesso.

Ora isto é uma ilhazinha longínqua mas não deixa de ser Portugal , país onde o sucesso alheio causa sempre uma certa impressão às pessoas , e raramente é uma impressão boa. Passados meses mais dois “empreendedores” avançaram com projectos de panificações , mas desta vez além de não terem tido ideia nenhuma nem sequer tinham o dinheiro , lembremo-nos que nos anos 90 os Açores , muito mais do que o continente , estavam mergulhados num atraso confrangedor e os fundos comunitários escorriam para aqui com pouco critério. Qualquer projecto que não fosse notoriamente maluco e inviável recebia financiamento , à grande , especialmente aqui no Grupo Ocidental onde ainda hoje é um pouco assim , há fundos e não há gente nem ideias para os aplicar.

Bom , passado pouco tempo a ilha apresentava 3 panificações industriais para servir duas vilazinhas e meia dúzia de lugares , e o resultado foi o previsível , fecharam as 3 . O americano foi-se embora , regressando a um país onde conceitos como “investimento” são mesmo compreendidos , arcando com todo o prejuízo e certamente amaldiçoando a hora em que decidiu investir capital e trabalho num país que ainda não percebia bem nem um nem outro . Os outros “empresários” encolheram os ombros porque a maior parte do investimento não foi deles , as obras feitas ficaram feitas nas suas propriedades e o equipamento foi vendido , contas feitas perderam pouco ou nada.

Foi agora inaugurado um centro comercial em Santa Cruz , chama-se Floratlântico , evidenciando bem a criatividade e originalidade dos nomes de tudo nesta terra , o que não é Ocidental é Atlântico , como em Alcobaça é tudo Cister e em  Tomar é tudo Templário . Nesta notícia podem ver que o empresário que o criou ( gerente da única empresa na ilha onde se pode tirar a carta de condução , por 1200€ , também não é muito…) a explicar o investimento de 4 milhões de euros neste centro comercial. Quanto destes 4 milhões são fundos europeus , não estou bem certo mas é pelo menos metade , e quando se opera num mercado em que se pode pedir o que se quiser ao consumidor porque não tem alternativa e o estado financia até 60% dos nossos investimentos temos um capitalismo assim um bocadinho distorcido , funciona muito bem para alguns.

Deste lado , “cá em cima”, não havia nada mesmo além das mercearias “generalistas” que me chegavam bem , não preciso de escolher entre trinta variedades de cereais ou pastas de dentes , mais coisa menos coisa há aqui tudo o que uma pessoa realmente precisa . No outro dia precisei de atacadores para as botas e tinham , só tinham uma qualidade mas tinham , é o que interessa.

Os nossos constrangimentos de tamanho e distância asseguram-me de que nunca vou ter que sofrer aqui coisas como turismo de massas ou Mcdonalds , mas as Lajes já não são o último sítio de Portugal sem uma loja chinesa , fazia cá a mesma falta que o campo de mini golfe e abriu a semana passada. . É provável que as roupas , acessórios de casa baratos e o resto da pacotilha que se vende nos chineses façam jeito a muita gente aqui , eu esqueço-me de que para mim é fácil falar porque tenho carro para ir a Santa Cruz ( e também vou aos chineses ) e vou ao continente de vez em quando , mas para quem vive aqui sem poder sair a loja chinesa até é capaz de dar jeito. Ainda assim a maior parte das vezes que vou às compras sem ser no Verão , e não vou sempre à mesma loja , só estou lá eu e muitas vezes me interrogo como é que estes comércios subsistem , porque não basta terem preços  mais altos que no continente e subsídios a tudo , desde o transporte à electricidade das lojas, é preciso volume de vendas.

Vou esta tarde a Santa Cruz visitar o novo centro comercial , ver ao perto a concretização de um investimento de quatro milhões de euros que não faz sentido nenhum e não fazia falta nenhuma , para me lembrar de que estamos numa ilhazinha distante mas somos Portugal em tudo.

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5 thoughts on “Comércio insular

  1. Muito bom…a tua crónica.

    Não arrisco dizer tanto como a Isa, mas também me custa a imaginar um ser tão cosmopolita e activo como tu aí…retido. mesmo em dias de internet e tudo…

    Grande abraço.

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