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Representantes à Sorte

Ando a rever o West Wing , uma série que já passou em Portugal , sobre o dia a dia de um Presidente dos Estados Unidos e o seu pessoal. Gosto daquilo não só pelos enredos mas porque mostra os mecanismos da tomada de decisões , da governação e sua comunicação . Os enredos podem ser fictícios e teatralizados que chegue mas é certo que o funcionamento , a forma , a “canalização” e o calibre intelectual daquela gente é assim .

Num dos episódios dois dos principais assessores perdem a caravana da campanha eleitoral em que andam com o Presidente e ficam apeados no meio do Indiana rural . Daí há muitas peripécias para conseguirem voltar a Washington e os dois vão discutindo ao longo do caminho sobre estratégia , comunicação , sobre o que é que interessa mesmo numa campanha. A secretária que está com eles às tantas farta-se , lembra-os da ignorância deles sobre problemas concretos de pessoas que era suposto a campanha ter acabado de conhecer , ignorância voluntária. Manda-os sair dali , eles vão para o bar e um tipo ao balcão mete conversa , como já sucedeu a toda a gente que já passou muito tempo sentada a um balcão. Fala do que faz ali , dos filhos , do trabalho , das preocupações comuns da vida , que não devia ser fácil , mas podia ser só um bocadinho menos difícil . O assessor com pior feitio , que ao princípio se enjoa com o homem , às tantas tem um clique , chama o outro e pergunta se lhe podem pagar uma cerveja e conversar um bocado.

Isto no enredo não levou a lado nenhum , mas mostrou uma ocasião em que um profissional da política do mais aguerrido , absorvido , monomaníaco e cínico que há viu o valor real de ouvir alguém apresentado por puro acaso , alguém que representa milhões de pessoas com preocupações em comum , um cidadão médio , uma amostra ambulante de um universo de milhões que na narrativa que construímos detem , em última análise , o poder. Nós , o Povo e tal.

Lembrou-me de uma entrevista que vi há pouco tempo , um jornalista belga chamdo David Van Reybrouck a apresentar o seu último livro “Contra as Eleições”. Eu gosto de conhecer as críticas ao sistema político em que vivemos , e não há falta delas , desde as fortes e fundamentadas às simplistas e um bocado lunáticas , mas infelizmente as propostas válidas e exequíveis para o melhorar que não impliquem deitar tudo abaixo e re construir segundo um projecto iluminado são escassas. Escassas é ser generoso , sinceramente ainda não tinha visto nenhuma mesmo , capaz de revitalizar e de facto fazer uma diferença grande , fazer evoluir e melhorar significativamente a Democracia ocidental .

O livro é mal intitulado , porque não é contra as eleições , defende é que é preciso mais do que isso , e que uma boa maneira de escolher representantes do povo é sorteá-los. Vou resumir muito (não o li , só vi essa entrevista e li uns artigos) mas basta pesquisar o nome dele e há bibliografia e muito material relacionado com este assunto , por exemplo  enquadramento teórico que dá e sobeja , em  português , está aqui.

Então além das eleições mais ou menos como as conhecemos propõe-se um sorteio de representantes dos cidadãos e da sua participação nas decisões . Todos os cidadãos eleitores podem , além de continuar a votar em eleições , ser sorteados para integrar temporariamente um órgão qualquer do Estado . Um exemplo : uma comissão parlamentar passaria a ter , além dos deputados eleitos que a integram , um número determinado de cidadãos sorteados , que estão lá para votar como os outros , serem convencidos como os outros e fazerem perguntas como os outros. Ou estarem calados , pelo menos ouvem , são parte , aprendem e informam-se. Tudo o que é organismo do Estado com poder deliberativo devia integrar uma proporção de cidadãos que lá estaria só por causa disso , por serem cidadãos.

Gosto muito desta ideia , que não implica desmontar nem “re fundar” o regime , seria reformá-lo para realmente aproximar os cidadãos das decisões que lhes dizem respeito além dos votos nos tecnocratas ou naqueles que estão em determinada altura á frente de determinado partido.Permitiria ouvir o indivíduo e dar-lhe um certo poder , não por ser deste ou daquele partido, grupo de sueca ou sacristia , por ter pago a posição em dinheiro ou favores ou por ser julgado melhor que outro qualquer , esse poder era-lhe dado simplesmente por ser Cidadão.

Ainda não encontrei nada que torne esta ideia indesejável ou impossível de implementar ou pelo menos de começar a experimentar em pequena escala , só vejo vantagens e aguardo sinceramente conhecer as desvantagens , que com certeza terá . Há que discutir e  pensar mais nisto.

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2 thoughts on “Representantes à Sorte

  1. A ideia é nova para mim, a ver se a investigo um pouco mais, mas , parece interessante. Como dizes, também não vejo nada que a torne impossivel de aplicar ou indesejável. Acho especialmente interessante a parte do “sorteio”. É tipo o juri dos tribunais estado unidenses.

    Não vejo também grandes vantagens. O “povo” é de onde os politicos provêm. E os politicos representam bem o povo, sobetudo em democracia. Tudo o que detestamos neles é um espelho do que somos…Não vejo separação, diferença ou afastamento. Veja-se , por exemplo, o “poder local”…

    Mas enfim, filosofias à parte, ..e porque nao?

    As vezes penso que seria desejavel, simplesmente menos Estado. menos orçamento, menos centros de decisão, menos competencias…tipo: acabar com as freguesias, diminuir para 1/10 os municipios, e eleger governos para 8 ou 10 anos, governos mais fortes e estaveis, em que os ministros que lá estivessem não pudessem ser reeleitos no mandato seguinte… menos governo, menso estado, um pouco mais centralizado e forte, mas mais pequeno…algo por aí.

    Provavelmente também não mudava muito… o país é muito mais que os políticos. É o “povo” e a sua cultura. Somos o povo que transforma qualquer “simplex” num complex! Algo entre um marroquino e um Francês… a querer receber e mandar como alemão! rsrsr

    Curtia ver a tua opinião sobre as teorias de “democracia directa” que por aí se falam, e que acho interessante, embora ainda nem tenha percebido bem!

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    • Acho que a “democracia directa” como a vejo defendida só pode funcionar em pequena escala , porque não é viável gerir nada complexo e em grande escala convocando todos os envolvidos a pronunciar-se e decidir sempre sobre tudo, e depois forma-se um aparelho que acaba por concentrar o poder na mesma . Da mesma maneira não acho viável sortear todo o governo e administração mas incluir no processo um número de cidadãos aleatórios tinha muitas vantagens , desenvolvo mais um bocado o tema nesse post a seguir.

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