Apareceu-me a oportunidade de comprar uma propriedade inacreditável por uma quantia quase ridícula , uma casinha mais pequena que a minha e uma série de terras na encosta que desce para a praia e o porto , como terras agrícolas não servirão assim para muito mas só tê-las lá , mais a casinha sobre a praia , e dois palheiritos …. andei um dia inteiro desorientado a sonhar com aquilo , com o telefone a rodar nas mãos e a cabeça cheia de contas.
Uma casinha sobre o porto , mais um passo para me tornar num cliché ainda maior , já não foram duas nem três pessoas que me disseram que tenho que ler um tal de Nicholas Sparks porque pareço um personagem dele . Quis saber como acabava o personagem , tens que ler , a próxima vez que fôr à biblioteca vou procurar.
O bom senso prevaleceu , tinha dinheiro para comprar a propriedade mas acabava aí , e dado que nesta altura não tenho trabalho nenhum marcado ia arriscar-me a penar muito este Inverno.
Das coisas boas que tem tido este regresso é poder respirar financeiramente , é bom ir ao supermercado e comprar o que quiser sem fazer contas , é bom poder trazer umas guloseimas para o Rofe , almoçar fora de vez em quando , saber-me de contas todas pagas e que se me apetecer amanhã posso meter-me num avião e sair daqui . Renovei a assinatura do Economist , posso comprar o que preciso em materiais para as minhas intermináveis obras , o motor de arranque do carro deu o berro mas pude encomendar um novo sem me dar um ataque de nervos nem fazer grandes ginásticas . Há ainda a questão importante do edifíciozinho que eu estou há mais de um ano para comprar ou alugar à Cooperativa para lá instalar a minha microcervejaria.Tenho quase a certeza que depois de ano e meio à espera , assim que eu tivesse feito negócio com a outra propriedade que me iam telefonar a dizer que vendem.
Este desafogo é uma situação tão rara que me apetece prolongá-la uns meses em vez de investir numa casita e terras , já tenho uma casita e terras , a cada dia que passa ficam melhores e mais bonitas e melhor lá eu me sinto.

E depois tenho várias terras emprestadas , umas na Fajã Lopo Vaz que já nem sei se consigo encontrar , encostas cerradas de canas , décadas de canas , um palheiro à beira do caminho que limpei o ano passado mas já deve estar absorvido pelas canas outra vez. Outra terra é na ribeira mesmo ao pé de casa , este Inverno passei lá horas e horas , roçadora , motosserra , foicinho , chegou a haver um bocado de erva e o meu carneiro , a besta mais traicoeira que já conheci , ainda lá comeu uns dias . Já acertei com o vizinho de cima cortar uma fiada enorme de incensos da divisória , o que dá não só meses de comida para as ovelhas como uma carrada boa de lenha e ainda tira pressão do muro .Era para ter lá as ovelhas entretanto a comer os incensos mas em menos de três meses as canas rocas já estão outra vez da minha altura , cerradas que até o cão se perde lá dentro , e as tabaqueiras vão para os dois metros. Tenho assim outra vez semanas com que me entreter lá , aos meios dias de cada vez . Tarefas boas para o Outono .

Sou tão dotado para a jardinagem como para a construção , mas isso não me impede de ir fazendo umas tentativas e de me entreter com o jardim . Os jardins são das poucas actividades que têm como único objectivo o prazer estético , uma pessoa faz um jardim para olhar para ele e ter prazer com isso , e sendo um jardim uma coisa viva e com um infinito de variações , é coisa para ocupar uma vida inteira , e reflectir essa vida . Só há pouco tempo é que comecei a pensar em jardins , concretamente no meu , que poucas pessoas descreveriam como “jardim” , e parece-me que há muita metafísica na jardinagem.

Tenho um cacto que já triplicou de tamanho desde que mo deram e que ainda está num vaso , à procura do sítio definitivo. Tenho uma macieira crescida de uma semente que pus na terra no dia em que cheguei cá , como planta está um bocado deprimente mas como parte da história é bem valiosa. Tenho uns arbustos de sebe de que já me esqueci o nome que já transplantei pelo menos 5 vezes e outras tantas foram reduzidos a raminhos pelas ovelhas , hoje crescem finalmente no sítio definitivo , a tapar a parede da arrecadação , frescos e fortes . De 25 viçosos pés de café resta-me um raquítico mas bravo sobrevivente , outro que já é parte da história , estou a pensar tirá-lo da terra e metê-lo num vaso. O ano passado trouxe do Peru quatro caroços de abacate , o meu fruto preferido , e meti-os na terra . Já me correu muita coisa mal no jardim , por isso é com uma certa surpresa que vejo quatro pés de abacateiro todos garbosos por aí acima . É muito pouco provável chegar a comer abacates dali e se calhar vão apanhar uma praga qualquer , mas estão aí , tal como as amoras que plantei debaixo da janela da cozinha , com o principal objectivo de não ter que endireitar , rebocar e pintar aquela parede . Felizmente as ovelhas não apreciam as amoreiras pelo que se safaram e estão a trepar pela parede a esconder o cimento , para o ano está tudo verde.
As ovelhas foram tosquiadas , mais vale tarde que nunca , acabei por não ser eu a tosquiá-las , o que foi melhor para todos , principalmente para as ovelhas. Agora tenho três , e o carneiro , que já me deu umas marradas valentes nas raríssimas ocasiões em que lhe dei uma aberta. Vem-me comer à mão , segue-me para todo o lado se estiver solto , faço-lhe festas e abana o rabo como um cão. Se lhe dou o lado ou as costas e um bocadinho de distância , tau , e são marradas que deitam um gajo ao chão , por isso muito cuidado com o bicho . O meu próximo projecto são galinhas , depois de anos a pensar na questão do galinheiro , desta é que é , é uma coisa   importante para quem gosta  de ovos e vive numa ilha em que os ovos não são um bem de curso normal no mercado . Passam-se semanas e semanas sem ovos à venda nas lojas, as razões disso são curiosas e mereciam um post só por si , por agora basta dizer que se quero ter ovos regularmente tenho que arranjar as minhas próprias galinhas.

Termino isto que já vai longo com uma sentida homenagem ao engenheiro japonês Nobutoshi Kihara que em 1978 se lembrou de que seria bom se as pessoas pudessem levar a sua música para todo o lado , e assim nasceu o walkman . Poder andar sempre a ouvir a música que se quer sem incomodar niguém e isolando-se do ruído externo , esta invenção para mim anda a par de coisas como a penicilina ou o motor de combustão interna no quadro dos grandes avanços da Humanidade. 

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