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Literatura de Viagens

No dia em que zarpámos das Flores comecei a escrever a história desta viagem, ou da que seria a última parte da viagem , tinha quase uma dúzia de páginas e pensava em , chegado ao destino e terminada a missão , publicá-la aqui em capítulos , para não ter um só post de dezenas de páginas , fazer render o peixe porque de cada vez que concluo uma viagem acaba-se o assunto principal , começo a escrever sobre coisas como política , ovelhas ou o Sporting e aborreço-me a mim próprio.

A história desta viagem já era interessante antes deste volte face e até pensei em adoptar a prática comum e de sucesso comercial comprovado que é encher com palha , fardos e fardos de palha literária sob a forma de frases bem torneadas que não avançam nem contam nada , muitas redundâncias , irrelevâncias , lugares comuns , pleonasmos e outros truques de escritores com pouco de real para contar e muitas páginas para encher sobre nada , como o Seinfeld mas sem a mesma piada. Em vez de 15 páginas dizer o mesmo em 35 e mandar isto a uma revista , tipo de viagens ou de barcos , mas depois lembrei-me de que não só escrevo aqui coisas muito pessoais que não se adequam a esse género de publicações como há a minha opinião sobre 90% do conteúdo dessas revistas e o nível praticado , não tenho grande coisa a ver com elas e muito pouco tenho a ver com os autores do género . Há uma coisa que aprecio neles , de certa maneira , que é a capacidade de descrever um sítio , ambiente ou uma paisagem , que a mim me falta e que constitui para aí metade da literatura de viagens que conheço, não se pode bem chamar palha a essas descrições mas a minha literatura preferida é a que descreve acções e situações , e não sítios e cenários .Um escritor de viagens contemporâneo da variedade mais comum acha que basta ir a um sítio, descrever o que lá vê e está feito porque , sejamos realistas , o como ele chega lá é sempre igual , chega como todos os outros . Ainda há quem ache original escrever sobre o trajecto do autocarro boliviano cheio de cabras e galinhas , sobre o comboio mineiro da Namíbia ou sobre a vez em que esteve dez horas na fronteira do Azerbeijão , alheio ao facto de que nesse mesmo dia centenas de outros turistas estavam a fazer o mesmo ou semelhante , só que não se dão ao trabalho de transformar a experiência num livro nem de tentar convencer os outros de que é uma coisa fora do comum que merece ser registada para a posteridade .

Há outros que conseguem ter um ângulo mais interessante que o simples ir , ver e voltar , como ir , surfar e voltar ou ir , seguir os supostos passos de algum morto famoso e voltar , e isso já os põe num patamar superior. Há ainda aqueles que para terem um fio condutor que distinga a viagem empreendem coisas como “Da Patagónia ao Panamá” ou “Do Cabo ao Cairo” ou “Através da Sibéria” , percursos sem dúvida interessantes se não fosse pelo facto de já terem sido todos feitos e documentados dezenas de vezes , alguns há vários séculos . Ah , mas as realidades no terreno mudaram , pois mudaram , mas infelizmente as pessoas que percebem essas realidades e têm o dom de as observar e transmitir com estilo e informação sólida são demasiado raras e poucas se dedicam a escrever “livros de viagens”. A menos que me apresentem títulos tipo “ A Rastejar pela Austrália ” , “Seis Anos com os Piratas da Somália ” , “O Mediterrâneo a Nado” ou talvez “A Fronteira das Coreias a Salto ” , sou muito difícil de impressionar e rápido a aplicar o rótulo “medíocre” e /ou “soporífero”.

Em séculos passados ou líamos sobre o Sri Lanka ou nunca o conseguíamos visualizar ou pensar , hoje uma pessoa que pisou dois continentes e meio nas férias e fez um curso de escrita criativa acha que é um escritor de viagens e que nos consegue trazer as vistas e sensações de terras longínquas . Ler dez páginas da Raquel Ochoa a falar sobre o Sri Lanka vale pouco mais que ir ao google e ao you tube e ver umas fotos e uns videos do sítio . Falo desta autora porque foi a última do género que me passou pelas mãos , primeira e última vez , mas não acho que escreva mal e desejo-lhe todo o sucesso. Tal como ao José Luís Peixoto , ao que parece a maior estrela da nossa literatura contemporânea , do qual comecei uma vez a ler um texto. Durante quase duas páginas ele estava no carro , parado no trânsito , chovia e os limpa pára brisas limpavam a àgua do pára brisas. A descrever e falar disto , sobre isto e à volta disto , nem mais nem menos , encheu ele uma página e meia , garantindo assim que eu só volto a ler alguma coisa dele se fôr em desespero de causa. Mas gostos não se discutem , a realidade é que sei muito pouco ou nada sobre Literatura Comparada , a minha sensibilidade para esses estilos é pouca , também nesse campo sou muito pouco ambicioso e já não sei onde é que ia com isto. Ah , a história desta viagem que já ia a dois terços e voltou ao meio. Vou continuar a escrevê-la e vou publicá-la aqui quando chegar ao fim , seja esse fim em Annapolis ou aqui no Faial , ou talvez publicá-la em forma de ebook que terei muito gosto em oferecer aos leitores deste blog.

E se calhar em breve vou inventar uma estrutura e pôr-me a escrever a sério , um livro que não me envergonhe de mostrar a uma editora a sério , depois de tantos anos a dizer mal da literatura de viagens mais comum só me cabe mostrar que sou capaz de fazer melhor e submeter-me a críticas verdadeiras , tendo como motivação principal a ideia de que se há gente que paga de boa vontade para ler coisas tão fraquinhas e gosta , se calhar até conseguia ganhar uns trocos com esta coisa de escrever sobre as viagens sem ser apenas neste blog.

Não tenho a certeza de que a minha escrita é “melhor” , tenho a certeza de que é diferente , primeiro porque nunca parti com o objectivo de escrever uma história ou um livro , acho que isso corrompe logo o princípio geral do que é Viajar com V maiúsculo . Depois porque são relatos bastante específicos , sendo de viagens marítimas , e terceiro porque são relatos da minha vida profissional ( e às vezes pessoal) e não do turismo que faria nas férias , se tivesse férias e fizesse turismo.

Enquanto isso não acontece , mantenham-se atentos aos próximos capítulos , aqui mesmo no formato do costume.

 

4 thoughts on “Literatura de Viagens

  1. Uma vez comparei-o a George Orwell (adoro-o, em especial nos livros autobiográficos). Um dos motivos por que penso isso é o facto de o Jorge não ser descritivo, mas ter a capacidade de passar de outra forma (mais directa, sem berloques) aquilo que vê e pensa. Eu gosto disso tanto quanto aprecio autores que sabem usar a descrição (Eça, Tolkien, etc). Fazer descrições não é para qualquer um e mostrar o mundo ao outro sem descrições também não. Uma das qualidades do Jorge é encontrar a ponta que desenrola todo o novelo, resumir as coisas à sua insignificância; o que para os outros era um imbróglio, o Jorge desaba em duas palavras. Isto vai a seu favor quando encontra alguma coisa que valoriza: consegue elevá-la sem que seja tendencioso; quem vai seguindo o que o Jorge escreve, segue porque quer. A noção de realidade e a forma rápida, seca e limpa com que a expõe é o que mais gosto nos seus textos. E nada disto é disjunto de beleza.
    Andam por aí muitos Luís Peixotos vergados para o chão, a franzir os olhinhos para a sua lupa de aumentar. É preciso mais, há espaço para mais.

    Há meses tive a infelicidade de ler O Quarteto de Alexandria. Descrições sublimes, mas para quê? Que porcaria de livro. Coisa mais insignificante.

    De livros de viagens o meu preferido é A Viagem do Beagle. É outro registo, mas adorei, apesar de a meio ter passado mal. Venha lá destronar o Darwin, Jorge.

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  2. Alo
    Não é um género fácil (pois não basta ir ali e escrever umas frases bem alinhavadas sobre o que se viu, mesmo que tenha sido uma viagem extraordinária a um local recôndito e inexplorado).

    Duas sugestões: A Peregrinação e Na Patagónia (Bruce Chatwin). E parece que um e outro gostavam de exagerar o que lhes acontecia.

    Abraço,
    Gonçalo

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