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E porque não?

A importância de conhecer os sítios ficou mais uma vez provada pela escala em Gibraltar. Em menos de 24 horas atestei os tanques , comprei cartas náuticas novas para o nosso destino na costa leste dos EUA , subi ao mastro para reparar o anemómetro , comprei provisões para 3 pessoas para 15 dias , uma antena nova para o VHF e mais uns aprestos tipo barras de epoxy para reparações de emergência . Lavou-se o barco e uma carga de roupa na lavandaria e ainda fiz uns acertos no aparelho , nomeadamente aplicar tensão aos brandais. Num barco como este esse trabalho deve ser feito por profissionais , e não quer dizer capitães profissionais , quer dizer riggers , que não sei como se diz em português mas são os gajos cuja especialidade são os aparelhos , rigs , ( mastros , retrancas , vaus , estais , brandais e todos os terminais , a estrutura que permite envergar e manobrar as velas). Acontece que os únicos riggers disponíveis em Gibraltar não nos podiam ver antes de uma semana. Não têm mãos a medir , cobram 100 libras à hora por uma equipa de 2 e não conseguem arranjar aprendizes . Fiz eu o trabalho mais aproximado que consegui sem correr riscos de comprometer a integridade da coisa , e pronto.

Houve a mudança de tripulação , saiu a rapariga e o irmão do dono , ele um bocado triste por não fazer a travessia mas seguro de que vai fazer uma no futuro, quanto mais não seja porque o barco também é dele….ambos entusiasmados por irem atravessar a fronteira a pé e indecisos entre irem para Barcelona ou Lisboa apanhar os aviões de volta a casa. Entrou o Daniel , que estava à nossa espera na doca de combustível, e o Greg , americano que eu tinha conseguido recrutar e voar de Cannes até lá usando o telefone satélite e o cartão de crédito do patrão enquanto estávamos a caminho. Não me tinha dado a certeza que podia vir , mas felizmente para mim chegou nesse dia. Tínhamos saído para jantar e quando voltámos ao barco estava no cockpit a mochila dele e um saco cheio de livros , fiquei logo descansado. Quem viaja com livros raramente é má pessoa , é sempre para mim um sinal primordial e nunca me enganou . Reservo sempre a minha opinião sobre pessoas que não têm livros em casa ( ou que têm aquelas estantes cheias de livros decorativos ) , e tenho opinião mais reservada ainda sobre as pessoas que nunca lêm , que eu considero um bocado tristes mesmo que não o saibam nem sintam , porque é verdade que a ignorância muitas vezes é uma bênção. E também é verdade que ler muito não faz ninguém melhor que o próximo , esforço-me sempre por não me esquecer disto.

No último dia antes de chegar a Gibraltar fui abalroado por uma idéia : se vou parar em S.Miguel e depois nas Flores para ver o meu cão e a minha casa , porque não convidar aquela de quem eu gosto  para vir ter comigo a S.Miguel e fazer a viagem até à ilha ? São só dois dias de caminho , passa-se mesmo pelo meio do Grupo Central , estamos na melhor altura do ano , há um camarote só para ela , nesta altura posso bem oferecer um bilhete de avião inter ilhas e ela conhece-me o suficiente para saber que pode confiar em mim haja o que houver . Mesmo não esperando nada e sabendo bem que não seria uma viagem de barco que a ia re-conquistar ( ou conquistar , para ser exacto) , era uma oportunidade única e irrepetível para fazer o que sempre disse que podia fazer e faria , para lhe mostrar o meu mundo e para lhe dar esse prazer . Proporciono esta experiência a tanta gente que pouco ou nada me interessa , que entra e sai sem deixar rasto , porque não fazê-lo a ela , realizar-lhe o que sei que é um sonho antigo e que pouca gente pode sequer pensar em realizar? O que é o pior que me pode acontecer , se não esperar mesmo nada ?

Mandei-lhe um email com o convite e mal dormi essa noite, de manhã ainda não tinha resposta , pensei que tinha sido má idéia , que mais uma vez tinha feito figura de urso , ia escrever-lhe a dizer-lhe que me desculpasse e esquecesse o email quando recebi a resposta , dizia que sim , aceitava o convite. Aqueles batimentos cardíacos acelerados e as palmas das mãos a suar , deixei de ouvir o que me diziam , pus toda a gente a mexer e em menos de meia hora deixámos a marina , queria lá saber do prognóstico de 25 nós de Oeste para o estreito de Gibraltar ou de fosse o que fosse , a caminho sem perder um momento.

Foi uma das melhores semanas que tive no mar , já há muitos anos , demasiados anos , que não partia de viagem sabendo que vai estar alguém de quem gosto à espera do outro lado , é uma sensação muito boa , já o Eddie Vedder cantava “I wish I was a sailor with someone who waited for me” .Uma semana no limite do desempenho de um barco excelente , com dois marinheiros dedicados e entusiasmados , a fazer a navegação mais rápida , exacta e equilibrada de que fui capaz e a sonhar , sonhar muito porque um homem é livre de o fazer . Tivemos tempo rijo que chegou bem , nos primeiros 5 dias raramente o vento baixou dos 25 e vimos 35 nós vezes demais , algumas vagas de mais de 6 metros . 5 dias à bolina , velas bem rizadas e muita velocidade , muito barulho , muito balanço , alturas bastante intensas porque um barco assim lançado a 10 nós no meio da noite , quando lhe sentimos as vibrações e as reacções todas, quando não vemos mais do que 20 metros à volta  , o vento a assobiar no aparelho , água a correr pelo casco e ondas a quebrar à volta , é lindo , de uma beleza um bocado dramática mas lindo . “ A Natureza não tem tem amor nem ódio , e com indiferença sorri para o de coração ligeiro e ao de coração pesado traz mágoa mais profunda” .*

Foi uma passagem boa para manter toda a gente focada e para criar aquele espírito de corpo e camaradagem que só vem com esforço , desconforto e risco partilhado e faz as verdadeiras tripulações.

Chegámos à vista de S.Miguel ontem ao pôr do sol , assim que tive rede mandei uma mensagem a perguntar se ela não tinha mudado de idéias e fiquei em suspenso enquanto não chegou a resposta , mil coisas podiam tê-la feito reconsiderar . Não , não tinha mudado de idéias. Nesse momento desapareceu o que ficou para trás e não interessava o que estava para vir , nesse momento ela estava à minha espera , tinha passado uma semana à minha espera , eu estava a chegar para a levar comigo e o mundo podia bem ter acabado aí .

Isto foi um pouco como comprar um bilhete de lotaria , sabemos que as probabilidades de ganhar são ínfimas , mas ainda assim existem , são reais , e no espaço de tempo entre comprarmos o bilhete e confirmarmos que números saíram , podemos sonhar. Sonho muito de olhos abertos e às vezes pago muito caro pelo romantismo , mas não sou maluco nem parvo e a sério que não espero que me caia nos braços com um suspiro nem nada remotamente semelhante , só espero mesmo que tenhamos uma boa passagem , vê-la feliz , deixá-la na ilha com uma recordação bonita desta viagem e seguir o meu caminho finalmente satisfeito por ter feito mesmo tudo o que podia .

* W.Somerset Maugham , “O Explorador”.

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3 thoughts on “E porque não?

    • Já vi que o pode sair daqui agora é um patrão desagradado porque tenho boas razões para parar em S.Miguel mas a escala nas flores é puramente pessoal , espero bem que não me traga problemas…especialmente porque os ventos não estão grande coisa …mas vale a pena 🙂

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