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Gibraltar

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A viagem para cá não teve grande história , não houve crises nem avarias nem tempo adverso excepto nas últimas 180 milhas , no chamado Mar de Alborán. O vento levantou de Oeste bem fresco e ali ficou , a opcção era entre rizar as velas e começar a fazer bordos entre a costa de Marrocos e a da Andaluzia e demorar mais de 2 dias a chegar a Gibraltar , atravessando regularmente as rotas dos navios que passam ali às dezenas , ou arriar velas , meter máquinas , queimar 25 litros de gasóleo à hora (o barco tem um sistema como o dos automóveis modernos que diz quanto estamos a gastar a cada momento) para manter 6,5 nós directamente contra a ondulação e os 25 nós de vento. Escolhi a segunda , já me cansei de poupar recursos aos donos para gastar os meus nervos e o meu tempo sem recompensa nem reconhecimento de espécie nenhuma.
De Malta para cá levámos 7 dias , mais ou menos 1100 milhas , sem motores ainda íamos a meio. Ainda um dia vou pegar num barco sem motor e sem electrónica e fazer uma grande viagem , uma espécie de retorno a uma pureza que eu acho muito bonita , e uma medida séria e final do valor de um homem como marinheiro e navegador. Não quero provar nada a ninguém mas tenho uma série de coisas para provar a mim próprio , nem todas ligadas ao Mar. Talvez um dia .
Como pontos altos da viagem , a passagem rente à costa da ilha italiana de Pantelleria , entre a Sicília e a Tunísia , que eu nunca tinha visto de perto e me lembrou da minha ilha e do que raio vou eu fazer da minha vida lá . Também vi uma baleia , tinha ideia de que o Mediterrâneo estava como morto no que diz respeito a vida marinha , ainda bem que me enganei.Outro ponto alto foi o enorme gennaker de 190 m2 que acho muito engraçado porque é cor de rosa e nos faz parecer um barco muito feminino e com o qual passámos toda a costa de Malta .
Andámos 6 dias pela costa da Tunísia e da Argélia , país do qual só se tem a noção da imensidão quando se percorre de ponta a ponta . Muito desse tempo foi bem dentro das 12 milhas , achei prudente arriar a bandeira americana e manter o perfil tão baixo quanto possível num barco assim , porque mais vale não provocar os nervos de algum pescador mais exaltado ou um guarda costeiro mais militante que visse ali a oportunidade de fazer a vontade de Deus causando desconforto aos infiéis satânicos. Isso ou a oportunidade de extrair algum dinheiro na forma de taxa , multa , licença ou simples presente , coisa em que os àrabes , religiosos ou não , são especialistas e conseguem ser muito persuasivos.
Passar uma semana a dormir aos pedaços de 4 horas não é nada a minha preferência mas acabou por ser assim .Não sei o que é que me passou pela cabeça quando estávamos a falar das “novas regras” antes da partida , ofereci à moça a opcção de ficar fora da rotação das vigias , eu o outro fazíamos 4 horas on , 4 horas off e ela podia de vez em quando fazer umas horas soltas do quarto de vigia de um ou de outro , de dia , se lhe apetecesse e se as condições fossem boas. Não sei se foi por me parecer que ela era não só incapaz como tinha pouquíssma vontade , se foi por me terem dito que na viagem de Haifa para Malta ela não tinha feito quartos de vigia nenhuns , não sei se foi para parecer um gajo porreiro (se calhar até sou mesmo um gajo porreiro) , todos ficaram contentes com a decisão , eles são amigos de infância e mutíssimo próximos , e claro que entre ter que passar 8 horas por dia de vigia e não ter que fazer nada a não ser olhar para a paisagem , apanhar sol, dormir , ler , ver filmes e séries de televisão e escrever (muito escrevia esta rapariga , horas e horas , e à mão , coisa que já não se vê muito) , é natural que se prefira a segunda , e assim a moça foi uma passageira .
Sei que não ofereci esta “folga” por a querer impressionar ou agradar especialmente , ela é simpática , inteligente e até é gira mas está um bocado longe do meu género . Há aquela velha máxima que diz que passada uma semana no mar todos os padrões se adaptam (mais ou menos como a que diz que não há mulheres feias , há é homens que não bebem o suficiente) mas eu prefiro outra que diz que quem só come bicos de rouxinol nunca pode ter muito apetite.
A rapariga sai aqui e o outro irmão afinal também deixa o barco , tem compromissos inadiáveis. Ela já viu que chegue disto para saber que há ocupações mais produtivas e interessantes e que a vocação dela não é a navegação , e além disso é natural que com os dois amigos fora da viagem tenha perdido a maior parte da motivação. Mais uma vez isto não me surpreende nada , até me agrada , já cá tinha à espera o meu imediato dinamarquês e falta-me agora um terceiro tripulante que ainda não sei bem onde vou encontrar .Era muito fácil se não fosse o nosso destino , como vamos para a América tem que ser um americano ou então alguém com um visto válido . Tal como a maior parte dos problemas , este resolve-se com dinheiro , e o dono não se pode queixar porque estes arranjos heterodoxos e de última hora no que respeita à tripulação são culpa dele. Ou melhor , são responsabilidade mas não culpa , porque ele teve muito azar e vários problemas com o grunho russo ao qual comprou este barco e com o skipper israelita que o comandava , que entre os dois transformaram o que devia ser um processo expedito e sério numa frustração longa com muitos prejuízos , enganos consideráveis e atrasos que já lhes fizeram cancelar planos importantes que tinham para Junho , custaram dezenas de milhar e a mim fizeram perder outro trabalho que tinha marcado a seguir a este. Se entrasse na linha do “tudo acontece por uma razão” diria que tive que cancelar o regresso imediato à Europa no fim desta viagem porque coisas melhores me esperam na América. Esperemos que sim. Vi no outro dia num bar um cartaz muito engraçado que dizia : “Tudo acontece por uma razão, às vezes a razão é seres estúpido e tomares decisões erradas”.
Gibraltar , para quem não sabe , é a porta do Mediterrâneo , um porto e cidade britânica incrustados na Espanha que faz muitos espanhóis espumar de indignação, indignação essa que a mim e a muita gente só dá vontade de rir e constitui mais uma prova da amoralidade e falta de vergonha comum na geopolítica : ao mesmo tempo que reclamam a soberania de Gibraltar por ser em Espanha os espanhóis nem sequer admitem discutir a soberania sobre Ceuta e Melilla , duas cidades espanholas incrustadas em Marrocos , aqui a poucas milhas a Sul . Que os ingleses mantenham uma cidade em Espanha é uma afronta ( mesmo quando a população já demonstrou inequívocamente várias vezes que quer que tudo fique assim ) , que os espanhóis mantenham cidades em Marrocos já é admissível e justificado. Dizem estas coisas com expressões sérias , é muito divertido
Vou estar aqui um dia ou dois , há que re-abastecer e limpar o barco , lavar e secar o gennaker cor de rosa , comprar coisas como luzes de navegação novas ( as velhas estavam mal isoladas e com as ligações todas corroídas) , mais umas cartas náuticas que faltam e uma ou outra coisita de que me lembre . Tenho também que subir ao mastro para ver se arranjo o anemómetro , afinar o aparelho todo (com um especialista) e mostrar o barco e os processos à tripulação nova. Isto há-de levar dois diazitos , com tempo para ainda beber uns canecos e possivelmente fazer umas figuras tristes por Gibraltar à noite , e depois é mais uma semana redonda até Ponta Delgada , se não houver novidade de maior.

3 thoughts on “Gibraltar

  1. Já estive em Gibraltar, achei extraordinário estar parado num stop e passar um avião mesmo á frente, logo depois sinal verde.
    Á espera de novos capítulos sempre a considerá-lo bons ventos o levem Capitão Jorge. Abraço

    Gostar

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