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O Lixo do País

Como a maior parte das pessoas já reparou ,  Lisboa está cheia de lixo , vai piorar até dia 5 , quando  o pessoal cujo trabalho é zelar para que isso não  aconteça  vai dar por concluído este processo tão dignificante  . Insatisfeitos    com o clima económico e as mudanças na sua  situação laboral , decidiram , ou os sindicatos por eles , deixar  atulhar a capital em lixo , causando um problema estético , de segurança e de saúde pública , atropelando   o direito dos lisboetas a viver num sítio limpo , ou pelo menos a não viver no meio de montes de lixo , não sei se é consagrado na Constituição mas é consagrado pelas regras de sociedade e convivência civilizada que muitas  pessoas ainda prezam.  A greve foi convocada contra a “externalização de serviços e de atribuições e contra a privatização de serviços públicos essenciais”, e em luta “pelo direito inalienável do vínculo laboral dos trabalhadores ao Município” e “contra o esvaziamento de atribuições de serviços da Câmara Municipal de Lisboa”. 
No fim da invasão do Iraque a cidade de Falujah foi cenário dos  confrontos mais renhidos por mais tempo que o resto do país e esteve fora do controlo americano durante anos . Nessa e noutras cidades os insurgentes desenvolveram  uma táctica económica , segura , simples e eficiente para lançar o caos  e minar qualquer esforço dos americanos em estabilizar alguma coisa: Matavam os padeiros e os homens do lixo , e em questão de dias a cidade era um desespero miserável , caótico e explosivo de ódio aos americanos , de resto bem compreensível. 
Os jhiadistas do Iraque , à semelhança dos nossos sindicatos , espumavam de ódio pelo governo que tinham , imposto por estrangeiros , e conheciam bem a importância dos serviços verdadeiramente fundamentais , cuja suspensão causa logo problemas sérios. Ambos acham que paralisando isso , doa a quem doer , a causa deles avança. Felizmente os métodos são diferentes , no Iraque , à falta de consciência de classe  e mobilização  dos trabalhadores  para a luta , param-se as coisas a  tiro  , aqui pelo menos há um processo que teoricamente pode resolver o problema de modo civilizado. Acontece que aqui  a única parte do problema que a suspensão dos serviços pode resolver é o problema imediato dos não sei quantos cantoneiros da câmara , porque não resolve mais nenhum , não vão parar as privatizações , o direito ao vínculo laboral é uma ficção e quanto ao esvaziamento de atribuições e  serviços da CML , isso é a opinião deles , mesmo a ser verdade não é necessariamente uma coisa má para a cidade e parece-me que discordar nesse ponto não é razão suficiente para encher  a capital de lixo. 
Pelo menos no Iraque a táctica de parar os serviços conseguiu fazer a vida num inferno aos americanos e a ocupação estrangeira acabou , aqui só consegue   piorar  a vida dos lisboetas todos e tornar mais pitoresca a visita dos milhares de estrangeiros que aterram em  Lisboa , que assim partem com a visão confirmada de um país em crise , que se calhar , se não fosse pelos montes nojentos de lixo nas esquinas , lhes passava  despercebida. O pessoal que aqui há uns anos se revoltou quando a Moodys reviu o rating da dívida portuguesa para lixo e protestou com sacos de lixo à porta da agência  tem agora oportunidade de fazer muito mais piadas e protestos pelas ruas de Lisboa ,  provando que Portugal não tem nada a ver com lixo e suas diferentes concepções .
Portugal , diz-se agora demasiadas vezes , é “um país onde não se sonha” . Não só acho a afirmação   um pouco bizarra como atribuo  imediatamente às pessoas que falam assim  algum fracasso ou frustração pessoal , ou então uma agenda política. Esse artigo do link é uma peça do Público sobre a emigração, não percebo a utilidade de gráficos que ilustram a evolução dos preços em Portugal  desde 1973, surpresa, subiram. Diz que é assim que funciona. Relevante  tinha sido um gráfico com os últimos números do INE sobre isto e não os números dos inquéritos de opinião feitos pelos académicos , que não são bem a mesma coisa. É  evidente que estamos  a atingir um novo pico de imigração ,  há falta de oportunidades cá , os salários são baixos , havendo  a possibilidade de emigrar , emigra-se. Eu  tive que emigrar para ter a carreira que queria e chegar onde queria ,  isso não foi porque “o meu país não deixou” , foi simplesmente porque aqui não era possível , não é o mesmo . Nunca me pareceu que fosse obrigação do meu país proporcionar-me uma carreira nem  realizar-me os sonhos , e na minha carreira em particular ser Português não só não interferiu como ajudou muito.  A emigração está no ADN nacional e se olharmos para 800 anos de História , isto vai andando de crise em crise e   piores que esta já se viram dezenas . Hoje há a lamentar a boa parte de uma geração educada à custa do país  que  vai ser produtiva para outro lado , e alguns poderão simpatizar com a experiência difícil de mudar de vida , num país estrangeiro , longe da família e amigos , mas parece-me que a emigração não é um drama assim tão grande como às vezes nos parecem querer fazer acreditar .
Sobretudo porque ao contrário do que nos dizem , em Portugal não só se sonha muito como vai  continuar a sonhar e quem diz que as condições económicas condicionam os sonhos ou não distingue  sonho de  ambição ou é um idiota . Se não é por sonhar , vamo-nos embora porquê? 
E os que ficam, não sonham? Os que não têm o que é preciso para emigrar , estão condenados a uma existência sem sonhos , por causa da crise. Os sonhos de todos os que não têm só sonhos traduziveis em cifrões , não valem? Todos os sonhos que só são possíveis em Portugal , não contam?
No Mundo existem  vai para 200 países , destes arrisco sem medo uns bons 150 ou mais estão atrás de Portugal em todos os indicadores quantificáveis e em muitos não quantificáveis , como a gastronomia  . Também arrisco que a maior parte da humanidade reside nesses 150 , e que pelo menos nuns 30 há condições de miséria , instabilidade  e violências de toda a espécie . Nesses 150 países que “estão pior do que nós” , não se sonha? Ou sonham todos com emigrar? Então mas não deviam todos saber que  o sonho comanda a vida , e como tal enquanto vivemos , sonhamos ? Ou já se perdeu toda e qualquer esperança de ver respeitado  o significado das palavras ,  pelo menos no discurso público?
É  mau que a comunicação social , partidos e académicos alinhados façam os possíveis por desmoralizar o cidadão pintando um quadro negro de um país em ruínas que está a prestes a explodir , ignorando o que de bom acontece , o que de bom temos , dando voz a qualquer cassandra com uma licenciatura e algo de triste  para dizer  sobre a situação . Não  se deve ignorar a multitude de problemas que temos , mas martelá-los todo o dia , todos os dias , esquecendo o outro lado que existe sempre , não ajuda à moral do povo , e sem moral não vamos lá . Seja lá onde for . 

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