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Calhou mal

Nem com a preparação psicológica toda digeri muito bem o resultado final das contas desta viagem, podia naturalmente ter sido pior mas também podia , e devia , ter sido muito melhor. Devo isto à minha inabilidade negocial , à minha relutância em fazer exigências e a um certo excesso de confiança. Houve uma discrepância de 35% entre o que eu achava ser o montante final que me era devido e o que foi , ou vai ser entretanto , finalmente pago . Não havendo contrato nenhum nem pré acordo claro , e já estando o serviço feito , não me restavam grandes alternativas além de bater o pé e dizer que não , coisa que não podia fazer primeiro porque as objecções do patrão eram bastante válidas e lógicas e depois porque , como lhe disse , a consideração e o respeito dele valem muito mais para mim do que dois ou três mil dólares. Ah , és mesmo pato , gostas de ter não só a reputação de um gajo sério e competente como também de um gajo que aceita seja o que for  que lhe quiserem dar . Talvez , não sei. Não me esqueço de que se esta foi a terceira vez que aqui vim foi porque o primeiro me recomendou ao segundo e o segundo me recomendou ao terceiro e sei que não vai parar por aí , os milionários do Peru são cada vez mais e cada vez mais ricos e vai aqui uma competição velada entre quem tem os barcos maiores e melhores , que têm que vir de algum lado. 
O patrão disse-me que não quer deixar o barco no país , coisa que eu percebo muito bem ,  para o ano vai para as Galápagos e a Costa Rica. Perguntou-me o que é que eu achava das potencialidades do barco agora que já o conheço bem , eu disse sem hesitar que este barco pode dar a volta ao Mundo , podemos levá-lo daqui ao Mediterrâneo , às Marquesas ou de volta ao Caribe e tê-lo lá em forma para os cruzeiros que quiser. Já tem isso decidido , disse-me que não há dúvidas de que me vai chamar para todas essas viagens , e acrescentou que as senhoras ( os peruanos também lhes chamam tias) que já tinham navegado com outros skippers , se sentiram muitíssimo seguras e confortáveis comigo , nem se dá por ele e é um cavalheiro , coisa que não aprendi nos mares nem academias por onde andei neste mundo mas ao colo da minha mãe e que não tem preço. 
Assim tenho a certeza de que vou voltar ao Peru e voltar a navegar neste barco , e da próxima vez já me vou defender melhor e pôr um preço justo e fixo nesta competência , experiência e cavalheirismo todo.
 Ainda assim tenho uma certa pena , sobretudo porque mais uma vez estou num país incrível do qual só conheço a capital e o porto principal ( e uma baía e aldeola medonha chamada Bayovar ) , não é que Machu Pichu fizesse parte dos destinos que eu queria mesmo muito ver , mas ainda assim gostava de lá ir , e está aqui tão perto… mas preciso mais de uma máquina de lavar e de uns óculos novos , que juntos saem pelo mesmo  que um fim de semana em Cuzco e uma visita à cidade perdida dos Incas. De qualquer maneira já “conheço” Machu Pichu desde pequenino , tenho uma imaginação fortíssima , a modernidade permite-nos todas as visitas virtuais que quisermos e assim poupo-me a ter que suportar a companhia ou mesmo proximidade dos turistas que descarregam lá todos os dias aos milhares e que me causam alergias e degradam o ambiente em geral.
Além disso Machu Pichu não vai a lado nenhum nem está a ponto de se desmoronar ,talvez um dia lá vá em circunstâncias melhores . Também lamento ter reservado o bilhete de regresso para dia 23 , chegando a Lisboa dia 24 perto da meia noite , mais uma vez estava pessimista , esperava chegar aqui dia 21 e não queria correr , assim calham-me dois dias mais de espera . Fico no barco na ancoragem do Yate Club , onde há uma deferência que me afaga o ânimo , sou um bocado antiquado e ouvir “ a la orden , capitán” dá-me um certo gosto , há aqui muitos marinheiros e empregados que se lembram de mim , há amigos que ainda mal tínhamos amarrado na bóia já estavam a caminho nos seus botes para nos saudar e dar as boas vindas e antigos patrões que fizeram questão de vir até cá para me cumprimentar. Callao é o lar da Marinha Peruana , a sua Academia fica aqui em La Punta , uma vilazinha encantadora , não tenho que gastar nada porque tenho provisões suficientes no barco para estes dias , e eu entretenho-me bem com pouco. Não resultou muito bem desta vez , talvez na próxima corra melhor. Ou não , mas pelo menos sei que vai haver uma próxima.

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