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Travessias

Estou em Norfolk , na Virgínia , concluída a vigésima terceira travessia do Atlântico, entre La Rochelle e este porto com paragem nos Açores .
 Era para ter parado com isto na dúzia , porque era um número redondo e eu gosto de contas redondas , e porque mantenho umas réstias de superstições e achava , irracionalmente , que a décima terceira ia ser terrível. Não foi , nem a décima quarta nem a seguinte. Depois era para parar nas vinte , depois a vida trocou-me as voltas e cá estou , 23 transatlânticas concluídas , nos dois sentidos e nos dois hemisférios. O prazer que retiro destas viagens é cada vez menos : uma solução nova encontrada , um golpe de sorte à última hora , a superação de uma situação grave , uma manobra bem conseguida , um olhar ou expressão de admiração , uma baleia ou um bando de golfinhos ao nascer do sol , a potência do veleiro lançado em ventos fortes no meio da noite , os voos das aves de alto mar , a entrada num porto desconhecido . 
Todas estas coisas são raras e de curta duração. A maior parte do tempo o que temos são as coisas que me fizeram os cabelos brancos aos 40 : a incerteza, as dúvidas sobre o Tempo , o medo puro de ser apanhado num furacão , porque andamos lá na estação deles . Os temporais , em que nunca sabemos quando é que alguma coisa rebenta e se está para durar dias ou horas . O constante trabalho de equilibrar a tripulação , a responsabilidade pelo bem estar e saúde dos mesmos, as falhas e quebras de equipamento , que podem sempre ser cruciais , as dúvidas sobre a água e as provisões , os erros que se cometem e as consequências inesperadas , o facto de saber que se espera de mim bastante mais do que eu posso dar e a consciência plena , porque são 15 anos e 200 mil milhas , de que não sou tão bom como as pessoas pensam que sou. 
A dependência constante da minha sorte e o conhecimento claro de tudo o que pode correr mal numa viagem destas. Os augúrios , os pressentimentos e as lágrimas de quem fica para trás. Tantas vezes vai o cântaro à fonte que um dia lá fica. Quando ponho isto tudo numa balança tenho que concluir que já tarda e quanto mais cedo parar com isto melhor , até porque uma das minhas maiores satisfações , estar descansado e em paz , senhor do meu Tempo no meio do Mar , consegui-a vivendo onde vivo. 
Não digo que nunca mais quero navegar , até porque sou dos que acha que é preciso , mas tem que ser nas minhas condições e termos . 
 Esta viagem começou a ser organizada há muitos meses e teve atrasos , alterações e adiamentos vários como é costume . Primeiro o meu sócio e um dos melhores amigos contou-me que outro nosso conhecido comum tinha conseguido a representação para os Estados Unidos de uma marca de catamarans francesa , já tinha vendido dois e um era para vir para Annapolis . Perguntava-me se caso ele não pudesse na data pretendida eu estava interessado em fazer o trabalho , eu disse que sim. Passado um mês disse que não podia , que seria eu , eu disse que sim. Passados dois meses afinal já podia , e perguntou-me se eu queria ir como imediato , por metade do contrato. Eu disse que sim , mas não por 50% , tinha quer ser 30% porque de outra maneira não era justo. Ele demorou um bocado a convencer mas lá disse que sim. Para mim era quase ideal , uma maneira de ganhar algum sem me consumir com as responsabilidades do capitão ou a incerteza de navegar com desconhecidos. 
Enganei-me , e não foi sem muita ralação que cheguei aqui , primeiro porque o meu amigo é uma das melhores pessoas que já conheci na vida e ia com ele até às portas dos infernos mas o facto é que tem menos de metade da minha experiência e por isso comete erros que eu já cometi há muitos anos. O meu dever como imediato é fazer o que me dizem e , se for altura , sugerir alguma coisa , mas não é o meu lugar insistir , por isso cometeram-se erros nesta viagem que não tiveram mas podiam ter tido consequências muito sérias. É sempre difícil ser-se subordinado quando se sabe mais do que o superior , mas a disciplina tem que prevalecer , senão o edifício cai todo. As escolhas e decisões são só e apenas do Capitão , como disse memoravelmente o lendário capitão Aubrey ao cirurgião de bordo , o seu amigo Stephen : you came to the wrong shop for anarchy , brother
O meu amigo B fez a sua primeira transatlântica como meu imediato há 5 anos e esta foi a sua primeira vez como capitão. Além do desnível de experiência , cada capitão tem os seus métodos e idiosincrasias , e umas não estão necessariamente erradas por oposição a outras mas ao longo de uma viagem de mais de 4000 milhas as diferenças vêm ao de cima muitas vezes. Se eu me começasse a imiscuir no processo e a influenciar-lhe as decisões ia não só retirar-lhe parte do mérito do sucesso como deixar uma sombra de dúvida sobre as suas reais capacidades , e ainda impedi-lo de retirar lições preciosas dos seus erros. Estava cá para ser o melhor imediato possível , e nada de me meter nas competências dele , por mais que isso me custasse às vezes. 
Nos fins dos anos 70 os Americanos inventaram a noção herética de co-capitão , e  hoje há quem a use sem se rir. Esse absurdo não é mais que uma cedência às mulheres que começavam a fazer-se ao mar em iates com os seus maridos e não queriam ser confinadas pela mesma divisão sexual das competências e funções que têm , ou tinham , em terra , passando os mesmos papéis para o mar. Assim , para apaziguar as harpias feministas do politicamente correcto , co-capitão passou a fazer parte do léxico da náutica de recreio , fazendo passar a ilusão de que há , que pode haver , dois capitães a bordo. Dada a natureza de 95% das viagens destes casais de velejadores ( passagens curtas em águas fáceis nas melhores alturas em barcos equipados) esta partilha da autoridade nunca tem consequências para além de discussões hilariantes nos portos , algumas bandalheiras e gritos em manobras , muita inconsistência e indecisão e um ou outro acidente menor , nada que um mastercard não resolva. Em navegação a sério , mesmo quando feita pelos proverbiais casais , há sempre entendimento e cooperação mas Capitão há sempre um e só um. 
 Passei a maior parte da viagem a fazer a minha navegação alternativa, a aprender o máximo com os erros , a pensar no meu cão e noutros seres que me são próximos , e a tentar fazer contas à vida . Os teóricos e líricos das viagens que nos aborrecem ( ou encantam , depende do ponto de vista) com os seus relatos de périplos banais e insípidos por caminhos bem batidos nos quais raramente acontece alguma coisa de relevante ou notável adoram a noção da “aventura humana” que , à falta de imprevistos ou riscos sérios , à falta de espaços físicos e culturais para descobrir e dominar ou tarefas ou missões reais para cumprir , consiste em concentrar todo o interesse de determinada viagem nas pessoas que se conhecem e no conhecimento que obtemos da nossa própria pessoa. Claro que isto é importante e meritório , e nesta viagem vivi essa aventura humana : mais do que dominar o certo receio  que por duas vezes nestes 16 dias e 2100 milhas me fez pensar “é bem capaz de ser hoje” , mais do que lidar com todos os contratempos e circunstâncias de uma transatlântica pela rota errada na época errada , mais do que passar por portos que já conheço bem há anos , valeu pelo domínio e superação do meu próprio egoísmo e orgulho e pela compreensão nítida e absoluta de valores supremos como Amizade e Lealdade  por oposição a valores menores como Reputação e Lucro. 
 E finalmente aprendi , para lá de qualquer espécie de dúvida , que a menos que a alternativa seja passar um mês ou dois a pão e água nunca , mas nunca mais embarco sem ser eu o Comandante.

4 thoughts on “Travessias

  1. Quase nunca consigo colocar um comentário por aqui!!! Gosto de ler os teus relatos de viagem (sem o serem) porque tens o dom de destruir qualquer desvario romântico que eu possa ter com uma travessia. Apenas encontro refugio no facto de na minha vontade de ir para o mar e descobrir um novo mundo, nunca me passou pela cabeça fazer disso qualquer tipo de profissão nem pouco mais ao menos. Este texto é de uma lucidez fantástica, visto por mim que nunca fiz uma travessia.

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  2. Pingback: Antípodas | Ave de Arribação

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