Início » Uncategorized » Uma voltinha às Bahamas

Uma voltinha às Bahamas

Saímos na terça passada , depois de respirar bem fundo e entregar-me nas mãos da minha boa estrela , ou senhora da Fátima na interpretação da minha mãe , de qualquer maneira entregue a algo sobrenatural e inexplicável porque qualquer análise racional e factual das perspectivas de sucesso desta viagem tinha que indicar possibilidades muito reduzidas de sucesso. 
Atravessei o Estreito da Florida , entrei em águas das Bahamas , cortei pelo banco fora e ao fim do segundo dia a tal plataforma manhosa e já na sua segunda versão começou a vergar e a ceder sob o peso do bote , que era o meu medo principal. Gerou-se uma confusão e agitação ,  toda a gente tinha opiniões e indicações a dar , tive que fazer algo que faço muitíssimo raramente , que é levantar a voz e   mandar calar toda a gente para poder resolver o problema com calma e ordem. Lançámos o bote à água com linhas de reboque ,  segurámos a plataforma e mudámos o rumo para Nassau . De Fort Lauderdale diziam-me para prosseguir até ao Panamá, para onde iam enviar material e técnicos , que eu recusei não só por ser perigoso e estúpido rebocar o bote por mais de mil milhas de mar aberto como por saber que entrando com o barco naquele estado no Panamá mais valia pedir autorização de residência  , porque ia lá passar meses. O patrão concordou totalmente e ,  aguçado como é , percebeu logo que quanto mais longe estivesse dos vendedores e técnicos mais longe estava de ver os problemas resolvidos. 
Nesta altura estava a meio do Exuma Sound , a preparar uma entrada semi clandestina em Cat Island para proporcionar aos donos e amigos a possibilidade de passar umas horas numa praia das Bahamas sem envolver grandes custos e burocracias, e assim que o bote foi lançado à água entrei no compartimento do motor de bombordo e apertou-se-me o coração porque estava semi-inundado , a água entrava à vontade por buracos de parafusos de fixação da maldita plataforma. Esta água afogou a bomba do ar condicionado , equipamento essencial para estas pessoas e que me obrigava a ter um gerador de 20kw a trabalhar 24 horas por dia. Sem plataforma e  sem piloto ainda se ia , sem ar condicionado estava fora de questão , e a viagem ficou condenada nesse momento . Rodei 180 graus rumo a Nassau , capital das Bahamas , outra vez por cima de um banco , desta vez o Banco das Exumas .
Eu sou marinheiro do Alto e estou mesmo satisfeito e confortável é sem ver terra nem  sondas  , a navegação nas Bahamas , especialmente cruzando os bancos , é muito bonita mas há milhas e milhas que se fazem , para encurtar distâncias , por rotas que passam por sítios em que temos meio metro de água debaixo da quilha , isso a mim não me aterroriza mas é quase. E implica estar sempre ao leme , comandos na mão e olho na sonda como um falcão , e lá passei mais uma noite em branco a caminho de Nassau , onde entrámos de manhãzinha. Passadas duas horas chega o pessoal de Ft.Lauderdale com uma bomba nova para o ar condicionado ( 45% de imposto de importação) e para oficializar o colapso da plataforma .
Ficou decidido voltar no dia seguinte via Bimini , para a tal tarde de praia paraíso , e tivemos folga à noite. Como não podia deixar de ser fomos para o bar mais popular da cidade , eu e a tripulação e os técnicos , para uma noite das valentes , eu a celebrar só tinha o facto de nenhum dos problemas do barco ser culpa minha. No dia em que chover sopa eu hei-de estar com um garfo na mão , e às meninas veraneantes , frescas e mais ou menos  alcoolizadas que estavam cheias de vontade de ver um catamaran de 58 pés eu tive que explicar que estavam a bordo os donos e convidados , nada de visitas nem festas. Todas as vezes que tenho por minha conta barcos assim estou parado atrás do sol posto onde não se passa nada.
Às 4 e meia da manhã , em condições muito difíceis com um dos tripulantes incapaz de se mexer largámos de Nassau. Passadas 3 horas perdi os comandos do motor , engenhoca electrónica que é  , como tudo o que é electrónico , muito mais passível de avarias irreparáveis no mar. Para completar o quadro a transmissão do motor de bombordo colou , nem para a frente nem para trás , e foi com o cabo do acelerador do outro motor preso com um zip tie , à tuga , que chegámos a coxear esta  madrugada   a Fort Lauderdale . Da entrada do porto fomos rebocados até à marina , operação que custou a módica quantia de $1600 , mas rebentassem se achavam que eu  ia armar-me em herói e tentar entrar numa marina só com um motor controlado por um fio de plástico a partir do compartimento lá em baixo , a uns dez metros do leme. 
Os donos , frustrados que me dá verdadeira pena , já estão a preparar o regresso a Lima , de avião , e eu tive a bela notícia de que o meu voo de regresso à ilha dia 7 do mês que vem não pode ser antecipado , nem pagando , porque não há vagas. Estou agora num semi limbo , não podemos ficar no barco mais do que dois ou três dias e o custo de ir daqui ou Miami para a ilha via Lisboa é absurdo.
Investi   a primeira metade do pagamento desta viagem na minha casa , o  resto  só vem quando entregar o barco em Lima em Dezembro  , alguma coisa vai acontecer e é bom que aconteça depressa.

Responder

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s