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Novos Rurais

Aqui há uns meses andou aí uma família francesa , tinham a aparência de pedintes mas não eram pedintes , eram viajantes , tinham percorrido o arquipélago , queriam estabelecer-se cá, quase tinham comprado uma propriedade em S.Miguel por 30 mil euros , andavam à procura . Andaram por aqui um mês ou quê com um orçamento mensal de 50 euros , disseram . Dormiam às vezes em garagens ou onde calhasse, basicamente esperavam que as pessoas tivessem pena deles e lhes oferecessem guarida. Ou jantar, calhando.Três criancinhas pequenas um bocado sujas mas aparentemente felizes e sãs ( e lindas) , as vestimentas da família no estilo andrajoso cool , com esboços de Oriente e tal .  Apanhar maçãs , laranjas e bananas pelos pomares , assim um regresso ao passado recolector . Mesmo sem ter que recolher nas terras dos outros aqui safam-se , esta ilha explode de biomassa , há nutrição com fartura , e este pessoal tem saberes ancestrais sobre o aproveitamento de coisas que aqui nem todos os bichos comem. Reconheço que isso lhes facilita a vida em muito , estas são pessoas cujo propósito declarado é levar uma vida simples , e levam-na , sem dúvida , eu só posso apreciar e respeitar isso. Foi pena não saberem caçar coelhos , porque tinham aqui para se fartarem e ainda toda a gente lhes agradecia . A certa altura , em conversa em que eu estava por acaso , disse o homem a propósito dessa vida simples : “...on fait du troglo” , assim casualmente. Ter aspectos trogloditas na nossa vida pelos vistos é desejável para algumas pessoas , fiquei fascinado. Du troglo , abreviatura que assegura que é uma expressão de certa maneira popular , como podia dizer “numas àguas furtadas” ou “divido um apartamento” . Eram pessoas muito amáveis , e lá foram com os seus sacos de lona e garotos amarrados às costas . 
Gente que queira viver como um troglodita e tenha um hectare de terra pode perfeitamente viver aqui , uma família de 5 com 50 € por mês , e se ainda por cima for troglodita vegetariano e de tendência  pós apocalíptica , chegou ao sítio certo. 
 Mandaram-me uma mensagem a perguntar se eu queria duas ou três ovelhas , disse logo que não , tenho 6 , um carneiro e quatro borregos , em três sítios diferentes , já me dão trabalho que chegue e obrigam-me a muito exercício para os alimentar a todos . Estou contente porque este Inverno gastei cerca de metade do que gastei o ano passado com o mesmo numero de animais , a coisa vai-se organizando e para o ano entre terras próprias , emprestadas e arrendadas , todas melhoradas , as ovelhas vão deixar de dar prejuízo e isto tende , devagarinho , para a eficiência. 
Encontrei depois a pessoa que me tinha mandado a mensagem e perguntei como é que era das ovelhas , se eram para dar ou vender , e soube que são as ovelhas de uma suíça , mais uma excêntrica que deu à costa e se mudou para cá em menos de um ano , de terra comprada , abrigo feito , cão , e escassas bagagens. Uma rastafari já muito para lá de veterana , fala um bocado de português do Brasil , está-se sempre a rir , ri literalmente por tudo e por nada , coisa que a mim me enerva bastante . Chegou no Verão e andava sempre descalça, com o seu velho cão atrás , mexia-se por aqui um bocado como quem anda por entre os índios. Entretanto veio o Inverno e a realidade , manifestada entre outras coisas numa expulsão de um estabelecimento pela polícia por lá ter teimado em ficar descalça . Já anda calçada e deixou de achar tanta piada a tudo . Uma vez veio à oficina do meu vizinho para ele lhe montar uma lâmina num cabo de foice roçadora , daquelas como tem a Morte . O meu vizinho já não via uma coisa daquelas em serviço há uns 20 anos , rimo-nos muito , especialmente quando eu disse que gostava de a ver a roçar mato com aquilo, descalça .Ela dizia que na Suíça era assim , aquilo era comum , e era melhor que o barulho e o fumo , e não se gastava gasolina . O vizinho montou-lhe a lâmina , que custou mais de 40€ , levou-lhe 5 do serviço e passados uns meses vi lá na propriedade dela a roçadora encostadinha ao pé de uma moto roçadora Stihl . Ah pois é. Comprou uma propriedade sobre o mar , muito bonita , passou lá boa parte deste Inverno em condições sériamente  rústicas , com tudo o que isso implica em termos de lama , frio e isolamento , sem electricidade nem água canalizada.Sozinha com o cão , numas tendas sob um telheiro , mas o telheiro é novo e de qualidade, feito por um mestre daqui. Disse-me que primeiro tinha pensado em deixar assim as ruínas do palheiro que lá está ,  construir aquele telheiro e pronto , mas agora já estava a pensar que ia precisar de paredes. Não consegui dizer “pois , ter paredes dá sempre jeito numa casa ” com uma cara séria, mas ela não levou a mal. Essa falta de paredes também contribuiu muito para se ter ido embora a semana passada , para só voltar no Verão , quando há condições de então tentar com paredes a ver se resulta melhor no próximo Inverno. 
 Calha bem ,  vai voltar na altura em que vai ter mais visitas , porque desde tempos imemoriais que o acesso à costa , ao calhau , lá em baixo , é atravessando aquela terra. As pessoas vão lá abaixo à pesca ou apanhar lapas , e passam-lhe à porta. Ela não fazia ideia nenhuma . O cão naturalmente não gosta , nem ela , nem os passantes , e tem ali nas mãos um problema , porque a lei dá-lhe o direito de fechar a propriedade mas custa-lhe caro nas relações com a vizinhança. Tal como a questão das ovelhas , para voltar de novo a este tema que me é tão caro 🙂 . Claro que também gosta de animais ( e de yoga e de capoeira e de fazer sons com instrumentos musicais ) , arranjou 3 ovelhas , daquelas caras , e largou-as para lá. É a favor do tratamento humano dos animais e não gosta de ter as ovelhas amarradas com estacas , nisso é como eu , mas as ovelhas , como é normal,  rapidamente se interessaram mais pela erva das terras dos vizinhos e estavam sempre lá. Avisavam-na mas ela não percebia , pensava que era só para ir lá buscar as ovelhas sem perceber que estava a causar prejuízos e a enervar as pessoas. Não sei como se gerem os pastos na Suíça nem se lá não se importam de ter gado do vizinho na terra deles , aqui é um problema . E então as ovelhas que me ofereciam no outro dia eram as dela , que se foi embora e pelos vistos deixou os bichos entregues a si próprios , não têm comida e andam todos os dias pelas terras dos vizinhos, coisa que ela ainda não apercebe como um problema. O que vale é que as ovelhas não passam mais de um mês sem acabar dentro de uma arca ou de uma panela , se ningúem olhar por elas . Isto é uma autêntica caderneta, e eu rio-me porque até sou dos cromos mais difíceis . 
 

4 thoughts on “Novos Rurais

  1. "está-se sempre a rir , ri literalmente por tudo e por nada , coisa que a mim me enerva bastante " olha, ri-me logo muito com isto…Típico: Já anda calçada e deixou de achar tanta piada a tudo . sem perceber que estava a causar prejuízos e a enervar as pessoas.meu, fartei-me de rir, gosto muito das tuas descrições da vida rural :Dbem hajas.bjo

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  2. Passei por aqui e vi…Ema Santos….é curioso! tenho uma filha com este nome, coincidencia! depois vi a foto, mas….esta é a foto dela! o que ela anda aqui a fazer?…uma casa na pradaria! ela ainda nãio tinha nascido!……espera lá! fui eu que escrevi isto! mas como é que aparece no nome dela!!….estou a ficar velho para isto!

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