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Passaportes

Costumo dizer que a  melhor colecção que se pode fazer  é de carimbos no passaporte ,  juntei   uma que me agrada muito e se nunca mais a pudesse aumentar já me dava por bastante satisfeito.
 Tirar o primeiro passaporte nunca mais se esquece , de repente temos um documento que nos permite viajar pelo Mundo , ou pelo menos passar fronteiras. O meu primeiro passaporte caducou com um miserável carimbo solitário , da Suíça onde tinha ido passar o Natal como o meu irmão , em 1989.
Tive um amigo australiano  que numa viagem que fizemos  da Sardenha a Estocolmo  de cada vez que entrávamos numa discoteca ( houve muitas escalas…) pedia aos porteiros para lhe porem o carimbo no passaporte .Tenho outro que por duas vezes vendeu o seu passaporte americano , uma vez por $500 no Egipto e outra num país qualquer da América Central, em ocasiões de falência desesperada. 
Já passei 8 horas numa “cela” no aeroporto da Cidade do Cabo com um tripulante sueco cujo passaporte se desmontou todo ,  tivemos que ficar fechados à espera da senhora do consulado da Suécia . Já tive os passaportes todos retidos numa capitania ( na  Nazaré , esse  porto exótico) quase uma semana. e já tive um passaporte de um tripulante chegar ao Panamá via fedex ao mesmo tempo que nós chegávamos de barco , numa coordenação ( e sorte) extraordinárias . Em Colón , também  no Panamá , em certa ocasião comecei a correr para apanhar  um autocarro quando ouço gritar até de mim “hey hey hey!” , virei-me e era um gajo que trazia na mão o meu passaporte , tinha caído  do bolso largo dos calções quando comecei a correr. Lá dentro o meu cartão visa . Noutro exemplo da natureza humana mas ao contrário tive o  passaporte “confiscado”  pela  PM do Rio de Janeiro numa das  piores e mais medonhas   noites  da minha vida.  
Já tive que renovar um passaporte porque  não cabiam mais carimbos e já tive dois  ao mesmo tempo. A última vez que fui renovar o passaporte levava a fotozinha  tipo passe , escolhida para ter bom aspecto e tal , cheguei ao Governo Civil  uma manhã com uma ressaca horrível e esgroviadinho de todo e vi  que já não era assim , agora tiram as fotos lá , na hora,  ficou um retrato lindo . Nos últimos anos viajava com dois , um deles caducado mas no qual estava o meu visto B1B2 para os EUA, que expira este verão e   ainda não sei se quero , ou posso , renovar.
Como infelizmente as minhas opções nesta altura se reduzem a ir para o mar o mais depressa que conseguir , lembrei-me de que o meu passaporte caducou o mês passado e fui saber o que tenho que fazer. Basta  ir ali ao gabinete do RIAC com o cartão de cidadão , pagar 65€ e está pronto numa semana . Não acho nenhum exagero , não é que sejam trocos mas tratando-se de uma coisa tão crucial e valiosa como um passaporte , ainda por cima podendo ser tratado aqui ao pé de casa , acho justo. 
E por falar em passaportes , felicitações aos Cubanos que ao fim de 50 anos vão finalmente poder sair do país  se lhes apetecer. Não será tão fácil nem barato ter um passaporte como em Portugal , mas pelo menos abre-se a possibilidade de poderem viajar legalmente por sua livre iniciativa.
Uma das coisas que sempre me causou nervos foi a capacidade que certas  pessoas , muitas delas muito  inteligentes , têm de conseguir menosprezar , justificar ou simplesmente ignorar a prática dos regimes   comunistas de restringir ou simplesmente proibir as viagens dos cidadãos .  Podemos discutir os méritos da redistribuição , do Partido Único , da organização laboral , da colectivização da propriedade , eu percebo e aceito que tudo isso e mais ainda pode ser perfeitamente defendido para a organização de uma sociedade . O que  não percebo nem aceito são justificações para não deixar os cidadãos sair do país , porque significa não só que só se acredita na Liberdade até certo ponto mas também que não se confia nem no povo nem na bondade do próprio regime  , que por si devia assegurar que o povo não quisesse  fugir  em massa.    Infelizmente acho que  nenhum jornalista se lembrou de  ligar por exemplo ao dr. De Sousa Santos a perguntar-lhe  que análise fazia ele a esta libertação dos Cubanos ao fim de 50 anos , e já agora , na opinião dele , em que circunstâncias é que um cidadão  tem o direito a um Passaporte.

6 thoughts on “Passaportes

  1. Acho que esses regimes ditatoriais comunistas fecharam-se para que não houvesse fugas de gente e capitais, que era o que ia acontecer obviamente. Aconteceu na mesma…Mas em Cuba a coisa é mais complicada. A principal emigração era para os EUA. Mas os EUA tinham números restritivos à emigração cubana. Acho que eram 20.000 ao ano. Legais. Os outros tinham de entrar ilegalmente. E isso também era desejado, para puderem chamar exilados/refugiados políticos, etc, aos qu eentravam ilegalmente, nas "balsas" com uma camara á espera…Houve uma vez que o Fidel não só deixou ir quem queria (sem levarem NADA), como até quis enviar uns quantos milhares de criminosos e opositores juntos…os EUA fecharam logo as portas…Ali é complicado. Os EUA decretaram o embargo, e o mexilão é que se lixa no meio daquele jogo politico…Mas mesmo assim emigraram milhões.

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  2. Pois , tinha que ser para que não houvesse fugas de gente e capitais , porque fugas de energia são mais difícil de conter… 😉 Referes o "boat lift" de Mariel em 1980 , quando o Fidel , sob uma pressão económica tremenda , resolveu deixar quem quisesse ir-se embora "com a cara e a coragem" como dizem os brasileiros , e 100 mil cubanos desenrascaram-se para chegar à Florida, e se a autorização não tem sido cancelada no mesmo ano sabe-se lá quantos mais fugiam , e olha que não foram os EU a fechar as portas assim de repente , foi de mútuo acordo e o movimento parou de um lado e de outro ao mesmo tempo . Nessa altura o Fidel também teve o requinte de abrir as prisões e o asilos e encaminhar toda essa a gente para Mariel e depois dizer com satisfação "despejei as sanitas de Cuba sobre a Florida", o que não deixou de ter a sua piada e devia estar nos anais do Humanismo Internacional .É verdade que a principal emigração é para os EU , e até compreenderia se o Fidel achasse que nenhum Cubano podia emigrar ou visitar a América legalmente , ou é inimigo ou não é . Mas o mundo é um bocado maior , e se o Fidel nunca se encolheu para mandar apoio longe , tipo Angola , também se podia esperar que deixasse os Cubanos visitar pelo menos países amigos , ou neutros, que há muitos e ali bem rto. Nem umas feriazinhas na Jamaica , caramba… É totalitarismo e não tem complicação nenhuma ;)Estou para ver se isto vai ter alguma consequência que se veja , porque claro que uma coisa é poder ter um passaporte , outra é condições de o usar…

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  3. Jo, não tenho duvidas da natureza de regime ditatorial do Fidelismo…Mas acho as coisas mais complicadas do que pões.Primeiro porque nenhum regime é absolutamente livre ou totalitário. E depois porque ali há nuances…Se o teu vizinho é o país mais poderoso do mundo e te impõe um bloqueio económico total, isso é um condicionamento brutal, e também tem o seu quê de totalitarismo. Se a Espanha, que está muito longe do poder dos EUA, nos fizesse um bloqueio económico não sei quanto tempo durávamos. Aqui em Portugal, até ao 25 de Abril, quando eram mandados tropas para Angola, os tugas também emigravam ilegalmente (e por caminhos tortuosos) para a Europa, EUA, etc…Depois, o jogo da emigração ali está viciado pro mais um motivo. Os CUbanos até podiam sair, com condicionantes, e saiam, mesmo legalmente. Só que não podiam levar absolutamente nada. Só que se saíssem como balseros, e chegassem a Miami como asilados políticos e "sobreviventes" eram acolhidos pela TV, como heróis, e recebidos, apoiados e integrados na comunidade de outra forma.

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  4. Tó , as nuances muitas vezes servem para justificar ditaduras que agradam mais que outras , sei que não é o teu caso mas parece-me que com esse argumento encontras um racional para condicionar a liberdade de movimentos dos cidadãos , que para mim é uma coisa sempre negativa , sem nuances nem complicações. Sobre Portugal , não sei bem como era , sei que quem não queria ir para a guerra de África emigrava ilegalmente , não sei se toda a gente estava condicionada na liberdade de movimentos mas não é de estranhar , já que vivíamos sob uma ditadura e havia polícia política. É um bocado aí que bate o ponto quando falo dos "nervos que me mete" , é que eu não tenho obviamente nenhum problema em reconhecer a ditadura que existiu em Portugal , Chile ou Espanha , e o mal que nos fizeram , mas é raríssimo ver esquerdistas militantes a classificar abertamente o regime cubano como ditadura. Não aprecio a política americana para Cuba , que é principalmente devida aos exilados raivosos de Miami e ao seu poder político , mas o bloqueio não serve de desculpa para tudo. Antes do colapso da URSS havia bloqueio mas Cuba era abastecida "de tudo" , explicavam-me fidelistas convictos , e ainda assim não se podia sair. A Hungria e a Polónia , por exemplo , não tinham bloqueio nenhum e tinham um patrocinador e mentor amigo mesmo ao lado , mas os cidadãos também não podiam ir onde lhes apetecia.Quais eram as nuances que obrigavam os Comunistas Checoslovacos , por exemplo , a restringir os movimentos dos cidadãos?Se a Espanha nos fizesse um bloqueio económico não durávamos muito , e a coisa mais cretina que um governo português podia fazer nessa situação era impedir as pessoas de se irem embora , a menos que visse grande vantagem política em ter um povo sofredor . Os próprios Americanos não podem legalmente viajar para Cuba , mas podem para o resto do Mundo , e se estiveres numa praia da Florida a preparar uma balsa para ir para Cuba ninguém te vai impedir nem prender nem perguntar nada. Aliás , já estive várias vezes em Cuba com Americanos que lá estavam descansados da vida e sabiam que qualquer inconveniente que alguma vez pudessem ter da parte do Governo era insignificante ou simbólico.É bem verdade que nenhum regime é absolutamente livre ou totalitário, mas há uma escala que vai de um a outro , e sabemos bem para que lado está Cuba e para que lado estamos nós , e os Americanos , por exemplo.

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  5. Mas olha que há distinções que não têm muito de emocional e são bem objectivas , tipo a proporção de cidadãos que uma ditadura alfabetizou , ou fez desaparecer , por exemplo. Estamos de acordo que se anda como um pato ,parece um pato e grasna como um pato , é mais do que certo que será um pato , mas será que vale a pena criar a tal "escala de ditaduras" ? Eu não sei, mas talvez seja possível e desejável.

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