Início » Uncategorized » Cannes

Cannes

Decorre em Cannes  o Salão Náutico , e aqui não há sinais de crise nenhuns  , as ruas estão cheias  de Porsches e Ferraris , as centenas de pessoas bonitas andam vestidas como nos filmes ,  há centenas de milhões de euros de barcos e equipamentos em exposição, as dezenas de lojas das Pradas e Bulgaris  fervem  de clientes  e pelos vistos 100€ por uma refeição é aceitável para muita gente.
Para vir das Flores até aqui foram precisos 4 aviões ,  incluindo uma escala de 12 horas em Barcelona , pelo que cheguei  à hora marcada  mas muito  cansado. Quando saí das Lajes (meu pobre e querido cão , um mês inteiro sem saber o que é feito de mim…) estava mau tempo e no arquipélago a possibilidade de um voo ser cancelado está sempre presente , estava angustiado e preocupado com a possibilidade de não conseguir chegar  dia 14 ao princípio da tarde e comprometer assim não só  a operação toda como o meu futuro imediato, bastava um avião não poder descolar. Das várias coisas inúteis que faço preocupar-me é das que faço melhor e com mais  frequência , infelizmente . Quando aterrámos em Lisboa respirei de alívio, porque sabia que mesmo  que houvesse tempestades e greves e avarias nos aviões  safava-me nem que fosse de carro para Cannes.
Voltei a entrar em actividade pela portazinha menos pequena , tinha um hotel marcado pelo estaleiro para mim e para a tripulação , cartões de acesso ao Salão , tudo à disposição para preparar a partida e fui recebido por um grupo simpático , dedicado e divertido que incluía o sr Garcia , dono do estaleiro e que para quem aprecia veleiros de longo curso é uma lenda viva. Tem um sentido de humor desopilante , está sempre a gozar com tudo e isso a mim deixou-me à vontade.  Já conheci muitos vendedores de barcos , quanto mais desenhadores e donos de estaleiros , que tratam as tripulações como uns meros lacaios a quem nem se dizem as horas , pelo que ver uma pessoa como o sr Garcia  fazer-me a mim e ao meu tripulante florentino sentarmo-nos à sua mesa e partilhar do branco que estavam a beber entre duas piadas foi muito bom. Toda a gente gosta , precisa e deve ser tratada com consideração, mas por alguma razão as pessoas quanto mais ricas e poderosas são mais se esquecem disso. Ás tantas chegou o senhor Michel Joubert , nome que que à maioria das pessoas não diz nada mas que é um dos mais conceituados e famosos arquitectos navais franceses de todos os tempos.Estiveram os dois a trocar notas como  velhos  amigos que são e se lhes tivesse tirado uma foto nessa altura qualquer revista da especialidade a tinha publicado com uma legenda tipo “encontro de gigantes” ou coisa assim. 
Este  GT54 que vou levar para os Estados Unidos  é o primeiro barco a motor saído da casa Garcia e tem despertado uma atenção e curiosidade enorme. A mim tem-me causado calafrios enormes porque além de ser o casco número 1  (no qual tudo está sempre muito mais sujeito a avariar , não funcionar bem ou precisar de acertos) eu sou mais da vela e  nunca mexi num barco a motor de 32 toneladas e 17 metros , coisa que não se domina  assim de um dia para o  outro  especialmente quando a primeira vez que vamos manobrar o barco é no dia mais visitado de um Salão Náutico onde ele está amarrado bem no meio de dúzias de super iates sob a atenção de milhares de visitantes e profissionais. Respirei um bocado melhor quando vi que o barco tinha propulsor de proa , uma bênção nas manobras apertadas , mas amanhã à tarde quando formos para a baía de Cannes testar os  sistemas e mostrar o desempenho  do barco a uma dúzia de potenciais interessados vou estar a suar , e não vai ser só do calor. Que sue mas não trema , muita calma nessa hora como estava sempre a dizer um tripulante brasileiro que tive uma vez.
Por um lado gostava de ir hoje ver como é Cannes à noite , nem que fosse só pelas camadas  de nervos negras que um homem apanha em sítios assim (aplaudo a moda dos calções de ganga impossivelmente curtos e a do ombro descoberto até onde a lei da exposição indecente permite  , mais a dos vestidos de renda  e outras que estão por todo o lado mas ainda não chegaram à minha ilha e ainda bem)  mas não só os custos de sair à noite ( ou de dia…) nesta terra  são  proibitivos como há que descansar porque amanhã é dia de muito trabalho e tem que se aparecer no topo da forma na doca às 8 da matina. 
Mas tenho que sublinhar que já tendo estado em sítios como  Charleston , Estocolmo ou a Cidade do Cabo nunca vi nada assim em termos do que é descrito coloquialmente  como “gajas boas”. Parece que saem debaixo das pedras  e isto , meus amigos , é um inferno. No bom sentido.

3 thoughts on “Cannes

  1. Os efeitos que fazem viver numa ilha com um cão,hem! Mas eu compreendo, mesmo não vivendo tipo ermita, essas "vistas" tambem me fazem "mal" e éra coisa para apanhar um torcicolo.Esse Garcia é o mesmo dos "Garcia" em aluminio? tipo Alubat mas muuuuito mais caros?

    Gostar

Responder

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s