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Relvas , burras & ovelhas

É assunto que me ocupa e sobre o qual falo todos os dias , com amigos , com conhecidos e com vizinhos . Uma relva aqui é um terreno que tenha pasto , desde meio até três ou quatro alqueires , que são mais ou menos 1000 m2 , até onde eu percebo. Procuro uma relva , o valor médio são 1000€ por alqueire , mas o valor nem sempre corresponde ao preço, e está dependente de muitas variáveis desde o acesso à vedação e à exposição .

Por causa das dificuldades , incerteza e pessimismo instalou-se a convicção de que se vai voltar aos tempos da pura subsistência , que o valor dos terrenos agrícolas vai subir depois de décadas em que pegar num sacho era uma vergonha. Ninguém na televisão sacha batatas nem poda árvores nem cria galinhas , pelo que não é uma aspiração decente.
Aqui muita gente pensa , talvez com razão , que mesmo que agora não trabalhe na terra um dia aquele alqueirezinho ainda lhe vai dar jeito , e não vende. Depois há as terras de proprietários ausentes , desconhecidos ou desaparecidos , arrendamentos arcaicos , junta-se a questão dos subsídios , enfim , o mercado das relvas está apertado.
Recebi um telefonema do lavrador que me vendeu as ovelhas , tinha um negócio para mim , fiquei logo entusiasmado mas não era nenhuma relva , “relvas tá muito complicado” , o que ele tinha para me vender era uma burrinha. Nesta altura não estou interessado , a burra é ideal para ir às fajãs , onde há muitas terras de cultivo mas tirando uma a que se chega de moto 4 , só lá se chega a pé , e há coisas para levar e trazer , especialmente se as terras estivessem todas a produzir a fundo , como noutros tempos. Como ainda não tenho terras numa fajã não tenho utilidade nenhuma para uma burra agora , antes pelo contrário, vejo-negro para alimentar as ovelhas , chega de alimárias por agora .
Acabou ontem a provação das fugas constantes e da guerra com as cercas . Por causa da lama na terra que estava melhor vedada passaram para a de cima , onde já havia uma ervazinha , regalaram-se ali uma semana e deixaram de gostar da silagem. Depois havia mais erva fresca e alta à vista , nas terras dos vizinhos , a cerca eléctrica não era suficiente para as desmotivar e o arame farpado tinha que ser muito mais tenso e com o dobro das fiadas para funcionar . Nunca tinha a certeza de que as ovelhas estavam lá quando chegava de manhã, mas pelo menos já não tinha que andar à procura , só podiam ir para três sítios . Estava sempre à espera que me viessem avisar que tinham visto as minhas ovelhas lá para cima , cheguei a ir a casa do vizinho dizer-lhe que elas tinham ido para a relva dele , várias vezes, e se ele quisesse podia levar uma vaca para lá e eu dava-lhe um rolo de silagem. Disse-me “veio-me dizer e já as tapou, não quero mais nada”. Tapei , fui tapando , mas elas iam destapando e ontem de manhã quando lá cheguei só lá estava a mãe da cordeirinha , que estava numa estaca fora da cerca.

Lá fui buscá-las pelas canadas à terra de outro vizinho , depois fui directamente comprar 50 metros de rede e fechei finalmente a cerca. Não só durmo mais descansado mesmo nas noites de temporal pior como agora consigo-as convencer muito melhor de que a silagem é nutritiva e deliciosa.

Nunca mais pára de chover , o que se por um lado me lembra de outra das minhas razões principais para vir para aqui ( nunca vai faltar água pelo menos no meu tempo de vida , venha o que vier) por outro lembra-me da desgraça que está em curso no continente. Conservar água é um hábito que se adquire mas não é de repente nem se vai lá com campanhas , e nas cidades arrisco que 95% das pessoas toma abrir uma torneira e sair água como uma coisa garantida, o que é mau. O preço da água já devia ter subido há muitos anos , e muito , essa sim é a maneira de regular o consumo de um bem que é escasso , se bem que pouca gente percebe isso até lhe faltar , mas aqui d’el Rei que os neo liberais querem cobrar por tudo. Mais uma vez , boa sorte .

No mundo irreal , e sobre um post que escrevi há pouco enervado com o tratamento dado ao ministro da economia pelo Miguel Sousa Tavares no Expresso: não fui criticado por esse texto nem corrigido , fui insultado e entre outras coisas recomendavam-me que arranjasse um cão e uma namorada , parece que as pessoas com cães e namoradas são menos acerbas , é provável. O que não pude deixar de reparar foi que o Miguel Sousa Tavares , que odeia blogues , parece acreditar que blogue é igual a opinião anónima , e isso é falso e muito mau. Há uma diferença grande entre ser desconhecido e irrelevante e ser anónimo , e se bem que muitos blogues aproveitam o anonimato para dizer o que não diriam assumidamente , muitos outros como este vosso criado assinam e até põem umas fotografiazinhas , o email está aí , qualquer pessoa pode comentar aí o que quiser e dou as satisfações que forem precisas sobre o que escrevo. Nem todos temos o privilégio de uma coluna num jornal ou comentário na televisão , mas todos temos opiniões e a liberdade de as publicar , se bem que essa concorrência e crítica , mesmo que insignificante em forma, alcance e conteúdo , por vezes não agrade . É a vida.

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