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Sousa Tavares , o Álvaro e os Pastéis de Nata

Não é ódio de estimação mas é quase , a implicância que eu tenho com o Miguel Sousa Tavares. É curioso porque até concordo com grande parte dos princípios e posições dele , acho que é principalmente uma questão de estilo.
Ofereceram-me uma vez um livro dele chamado Sul , baseado num ego valente e anedotazecas banais , pesquisa escassa , análise superficial e opiniões requentadas , dinheiro esbanjado pelos empregadores ( muitas vezes o Estado) que lhe diziam “tome lá este cartão de crédito e vá à Guiné Bissau escrever uma peça” , a fundação ideal para uma “aventura” , daquelas que começam a uma Terça e acabam a uma Quinta com itinerário e bilhete de regresso marcado .
Da sua prodigiosa e celebrada carreira jornalística sobressai a direcção da Grande Reportagem , que por acaso até faliu mas isso deve ter sido por culpa de todos menos de quem a fazia e geria. Ah , é verdade , ele já não era director quando faliu, era outro grande gestor que agora por acaso é Secretário de Estado.
Alguns anos depois ofereceram-me o Rio das Flores , que tive que ler para poder ter uma opinião sobre o talento do homem nos romances . Aborreceu-me de morte , falei do livro neste post , e depois disso claro que nunca mais li nada dele , à primeira todos caem , à segunda nem por isso. No Equador parece que parágrafos inteiros e cenas e personagens completas coincidiam com uma obra anterior por pura coincidência e fruto da “influência” , e depois disse modestamente que “pôs o país a ler” , o que é no mínimo inverificável e no máximo uma mentira desavergonhada . Num país como o nosso a parte que “pôs a ler” , eventualmente , foi o segmento das pessoas que compram os livros que estão na pilha maior do supermercado e aparecem nos tops , entrando nesse interessantíssimo círculo que diz que um livro está no top porque é conhecido , e é conhecido porque está no top. Uma mina para figuras televisivas , abrindo caminho para valores como a Margarida Rebelo Pinto e José Rodrigues dos Santos , outros dos nossos colossos literários.

Descartada a prosa de ficção resta a crónica no Expresso. Farto-me de rir a lê-lo a defender a causa do fumo livre , o píncaro do egoísmo retrógrado que confunde a liberdade de fazer o que lhe apetece sempre e em qualquer lado , mesmo actividades comprovadamente perniciosas para ele e os outros , com a liberdade individual.
Na penúltima crónica brindou-nos com uma frase cujos editores do Expresso pespegaram gulosamente na primeira página , falava das nomeações da EDP e ridicularizava o suposto sotaque Chinês com a brincadeira muito espirituosa de escrever “quelemos o Edualdo Catloga e a Celeste Caldona” , ou coisa que o valha. Isto é achincalhamento gratuito , como é moda malhar nos chineses passa , gostava de saber o que é se levantaria se escrevesse “é pá , quérémos qui os gerenti dos nosso Banco novo pá seja o Amáral “ . Caía o Carmo e a Trindade , não só porque é de mau gosto gozar publicamente com os sotaques das pessoas mas porque os Angolanos estão mais atentos a estas coisas que os Chineses , têm cá mais músculo e alguém ia pagar. Depois deste floreado jornalístico tão engraçado e edificante fala na última edição sobre o Ministro da Economia. Este Ministro tem um problema básico e grave: é um estrangeirado , que em Portugal raramente é passaporte para o sucesso e frequentemente é garantia de ostracismo. Antes queremos os medíocres do costume nascidos e criados aqui que alguém “de fora” nos venha dizer como fazer as coisas. O Ministro , que conhecia obviamente pouco de Portugal e vinha carregado de boas intenções , cometeu logo o erro de pedir que o tratassem por Álvaro. Num país em que qualquer licenciado é Doutor e qualquer borra botas que estudou à noite e que ocupa um “cargo” é Excelência , isto despertou obviamente escárnio . Mas isto foi há seis meses , por isso esperava-se que agora a brincadeira tivesse perdido a piada , mas não.
Miguel Sousa Tavares , do alto da sua excelência académica , experiência de gestão Pública e Privada e negociação laboral , veio escoriar o Ministro a propósito do acordo de Concertação Social. Numa demonstração de mesquinhez e um sentido de humor e estilo na linha de ridicularizar o sotaque dos chineses , intitula a crónica “E os patrões , Álvaro?” e a partir daí usa mais de 20 vezes a palavra “Álvaro” , como se a repetição reforçasse a sua opinião abalizadíssima sobre a Concertação Social e este pretenso ridicularizar do ministro acrescentasse alguma coisa à força da sua análise. Olhando para a sua bola de cristal e servido da sua linha directa para “os empresários” , MST assegura o Álvaro que “os bons patrões não precisam do seu pacto nem acreditam nele e os maus vão exigir o que falta”. Como é que ele sabe isto ? Diz que tem pena do Álvaro , provavelmente porque os seus esforços para reformar o país vão ser vãos ou contraproducentes ( “você iniciou uma guerra civil”) ao passo que os esforços e responsabilidades do Miguel Sousa Tavares para reformar e ajudar o país são…ah , é verdade , foram , são e serão inexistentes , a menos que se conte dar opiniões e escrever novelas como contribuição para as reformas e o crescimento económico.
O que eu gostava mesmo era de ver o MST , sempre a retorcer as mãos e a agonizar sobre a desgraça da Pátria e a fraca qualidade dos Portugueses como Povo , pegar no seu capital de figura pública , autor celebrado , pena sagaz , independência e honradez hereditárias e competência a toda a prova , e candidatar-se a um cargo público. Podia ser coisa pequena , mas um cargo onde ele pudesse contribuir para corrigir e melhorar a situação e lutar contra as injustiças , que ele de certeza que sabe o que há a fazer na Saúde , na Educação , na Justiça , enfim , no País , e tem que se dar oportunidade a pessoas destas para salvar Portugal. Depressa se ia ver reduzido à sua dimensão real e acabava-se-lhe o gosto pelas piadinhas com os chineses e o Álvaro , mas uma coisa que o homem não é é estúpido , por isso nunca se vai meter nisso , é muito mais seguro e confortável assim , não tem que fazer nada a não ser criticar e os cheques pelas críticas vão caindo ao fim do mês. Um bom exemplo disto é o Francisco José Viegas , que anda muito mais caladinho, discreto , respeitoso e humilde desde que passou a ser Secretário de Estado responsável em vez de debitador de críticas como dantes.
Podiam-me fazer a mesma crítica , resguardando as devidas dimensões : também falo muito mas para reformar e desenvolver o país concretamente faço pouco , mas é uma questão de escala: quem escreve todas as semanas no Expresso , aparece nas televisões todas e é conhecido nacionalmente tem responsabilidades bem diferentes dos desconhecidos que escrevem em blogs obscuros .

Voltando ao Álvaro , o homem teve a desfaçatez ridícula de sugerir que um produto Português , de qualidade incontestada e apreciação generalizada , fosse trabalhado pelo seu potencial enorme de exportação. Desde os cartoons com um pastel de nata no meio da bandeira nacional até ao Ricardo Araújo Pereira na Visão , passando pelo Carlos Zorrinho , personalidade que transborda de boas ideias para internacionalizar e dinamizar a economia que infelizmente não lhe ocorreram nos seis anos em que foi governo , toda a gente malhou nos pastéis de nata do Álvaro. Claro que para a pergunta “então se os pastéis de nata são uma má ideia , sugerem o quê?” , as respostas escasseiam. O sector das tecnologias de ponta , dizia um , como se fosse questão de abrir uma fábrica de tecnologias. De todas as críticas que li , desde as civilizadas e bem escritas até às javardices estúpidas , ninguém foi capaz de dizer “ internacionalizar os pastéis de nata é má ideia porque A, B e C e o que se devia fazer em vez disso era E , F e G”. Não. Deitar simplesmente abaixo , como se homem tivesse vindo dizer que os pastéis de nata iam resolver o défice.

Não sei se vamos alguma vez exportar toneladas de pastéis de nata , não sei se o acordo de concertação social vai dinamizar a economia ; não sei se a receita do Governo vai resultar ou se vai deixar Portugal na miséria , mas tenho simpatia pelo Álvaro , não só por ser liberal convicto como pela coragem e patriotismo que mostrou em vir-se meter neste ninho de víboras e tentar impor a sua visão e fazer as reformas em que acredita , ao invés de ficar descansado na sua cadeira a fazer críticas e crónicas .

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2 thoughts on “Sousa Tavares , o Álvaro e os Pastéis de Nata

  1. Mais um anónimo que não pode ou não sabe apontar-me nenhuma falha de raciocínio nem argumento inválido , que não me contradiz ou corrige nenhuma afirmação deste texto e tem as mesmas bases e legitimidade para me criticar como eu tenho para criticar os outros , talvez menos ainda porque não faz ideia nenhuma da minha vida e trabalho , passado e presente. Achar que alguém como eu pode ter alguma espécie de inveja de alguém como o MST é caricato , e chamar por isso frustrado e azedo a alguém , anonimamente , também será sinal de alguma coisa.Já tenho um cão ,um trabalho que não trocava por mais nenhum e tudo o resto de que preciso. Arranje você um módico de coragem e integridade e critique as pessoas com argumentos válidos e sem se esconder.

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