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Televisão

Aqui há quinze dias os vizinhos mataram dois porcos , e eu fui convidado. Estava todo contente , não só porque gastronomicamente uma matança é um acontecimento ( para quem gosta de carne , claro está) mas porque socialmente também é muito interessante , juntam-se familiares e vizinhos , toda a a gente ajuda , trabalha , come e bebe , conversa e diverte-se . Além disso gosto sempre de colaborar na quebra de regras que pretendem proibir as pessoas de continuar com prácticas ancestrais que não prejudicam terceiros , como as matanças dos porcos nos quintais . Bom , acabei por não poder ir mas os vizinhos convidaram-me para jantar esta semana , já que eu tinha perdido o evento pelo menos ia a um jantar igual .

Cheguei e sentámo-nos em frente à televisão enquanto a vizinha ultimava o jantar. Estava a dar uma coisa chamada Secret Story 2 , que é igual ao big brother excepto nalgum pormenor que eu nem quis perguntar qual era , aterrado como estava não só com o nível dos personagens como com o facto de os meus vizinhos gostarem muito daquilo. Soube então que há um canal exclusivamente dedicado a seguir a vida daqueles indigentes mentais, 24 horas por dia , e fiquei meio pasmado com a capacidade dos telespectadores de consumir entulho.

O festim da matança em versão 4 pessoas finalmente veio pôr fim ao tormento audiovisual , sentámo-nos à mesa mas o vizinho ia deitando o rabo do olho ao écran e fazendo comentários . Eu até percebo o possível apelo que possa ter o formato , uns desconhecidos fechados numa casa , o voyeurismo , um ou outro elemento de jogo e aquilo até poderia ser interessante para quem não tivesse outra coisa melhor com que se entreter , tipo supervisionar a secagem de tinta nas paredes. O que é mais difícil perceber é a escolha , que os produtores têm escolha , do elenco. Burgessos e mentecaptas , e é isso que eles põe , é gente daquela que as pessoas pelos vistos querem ver interagir , presumivelmente porque são como nós , o que é um pensamento medonho.

Às 20:00 desligou-se o canal “Estupidez no Vácuo 24 Horas” e ligou-se a RTP Açores para ver as notícias, como todos os dias . Uma falava do homem que morreu numa freguesia daqui há pouco tempo e que já estava há 7 dias à espera de ser autopsiado por falta de médico legista. Vimos ainda fajãs de S.Jorge isoladas por um temporal e outras minudências que farão sorrir a elite continental mas aqui são a vida diária , e importam.

É difícil explicar e muito mais ainda quantificar a importância da RTP Açores para quem cá vive , sei bem que é muito mais do que o “veículo dos políticos” como dizia Miguel Sousa Tavares há pouco tempo. Talvez um dia esse se dê ao trabalho de conhecer os Açores melhor do que conhece S.Tomé e Príncipe e mude de opinião.Ele acha que deve acabar ,eu adorava vê-lo vir cá explicar isso às pessoas. Enquanto víamos o noticiário comentei que estavam a pensar em fechar a RTP Açores. Vão fechar é o #@%^« que os &%#@ a todos , e mais às vacas das mães deles “ , retorquiu o meu vizinho , senhor de fino e elaborado recorte na análise e comentário político, enquanto a vizinha o repreendia pela linguagem , como de resto faz todos os dias há 40 anos.

Ouvi há tempos na rádio uma declaração de um tal João Duque , que eu sei apenas ser “economista do ISEG” e porta voz de um grupo de trabalho criado para avaliar o futuro da RTP , que pelos vistos o governo não conseguia decidir sozinho como é seu dever . Então disse o dr Duque , que eu ouvi : ninguém vê a RTP Açores , é natural que feche e o País não pode ter uma televisão para cada região , as pessoas estão interessadas é na actualidade e informação Nacionais.”

“Ninguém” é igual a audiência zero , e apesar da omnipresença das parabólicas há muito quem veja a RTP Açores, precisamente porque interessa às pessoas , e muito , a actualidade regional. Como economista devia ter dito Só 13,7% (por exemplo ) dos Açorianos vê a RTP Açores, pelo que está muito longe de ser sustentável e de poder justificar os milhões que lá se gastam a fazer um canal de televisão para 100 mil pessoas, é como ter a RTP Algarve ”. Esta luminária é a mesma que acha que a RTP internacional deve ser um canal de propaganda do Ministério dos Negócios Estrangeiros , só propor isso devia ter sido suficiente para o mandar de volta aos anfiteatros da universidade de onde nunca devia ter saído .

Não ponho em questão a qualidade, ou falta dela, da RTP Açores , primeiro porque não tenho televisão e depois porque os poucos programas que vi oscilaram entre a pobreza confrangedora e programas de grande interesse e bem feitos. Há-de andar pelo meio , mas parece-me que a indigência de programação e as limitações dos jornalistas e apresentadores aqui não são assim tão distantes da restante televisão, que nestes dias compensa com produção , fotografia , cenários e alguns guiões a falta de formação , talento , cultura e originalidade da maioria dos jornalistas e apresentadores e a chapa 5 no modo como se faz informação .

Tenho a certeza absoluta que a actualidade regional interessa , e muito , à população , tal como arrisco dizer que as pessoas da Covilhã preferiam algumas notícias da Covilhã em vez de só terem notícias sobre , sei lá , o trânsito na segunda circular , os treinos do Benfica ou o julgamento do Vara. “ ah , mas na Covilhã não se passa nada…” , é mentira , passa-se tal como se passa sempre em todo o lado , passa-se a Vida das Pessoas , mas isto não está ao alcance de qualquer jornalista ou director de programas , formatados para a Capital , a multidão e as percentagens , com uma noção de Informação muitas vezes importada e discutível e fazendo parte de uma elite destacada. Uso o termo “elite” em sentido muito lato.

Não defendo a criação da RTP Cova da Beira nem a manutenção da RTP Açores em défice permanente , mas contesto muito a noção de que a televisão regional “não interessa” ,que “ninguém a vê” e que se podem comparar as Regiões ou Províncias do Continente com as Ilhas , porque é claro que não podem. O Doutor Duque obviamente não vê o interesse num boletim meteorológico regional , por exemplo , ele que vive na metrópole onde o seu quotidiano não se altera se chover mais ou menos ou se o vento rodar , e por isso não pode conceber que um refrescar e rodar do vento pode deixar aviões em terra , ilhas isoladas , ligações cortadas , transtornos de toda a ordem que só chegam à RTP1 em caso mesmo de catástrofe ou tragédia.

O Doutor Duque , de cada vez que liga a televisão ou o seu Ipad ( aqui nem sequer há cobertura total de rede móvel e a internet é a uns 5kb/s) , tem à sua disposição toda e mais alguma informação sobre o seu mundo e a sua realidade , a Economia , a Política , o Nasdaq , o trânsito, as declarações dos tubarões e as questões escolhidas pela Imprensa Mundial para “marcar a actualidade”. Ele está servido e não concebe que uma notícia sobre uma derrocada numa estrada , uma evacuação de um doente pela Força Aérea , uma alteração no sistema de transporte de gado ou um projecto para uma nova ETAR ou empreendimento turístico , uma polémica entre presidentes da Câmara , uma peça de teatro nova ou um crime numa freguesia remota interessa a milhares e milhares de pessoas , porque tratam da realidade e actualidade das Ilhas , que nunca , nunca , aparece nas outras televisões.

Sei que é uma grande perda para a Região se a RTP Açores fechar . O que eu defendo é despedir metade ou perto dos que lá têm emprego , a começar pelos que trabalham pouco , e esse pouco é muitas vezes mau , estabelecer um plano novo para uma televisão regional a sério e obrigar , sim obrigar os que ficam a trabalhar mais e melhor . Ou a irem-se embora se preferirem não ser obrigados, como está no seu direito . Se se concluir que mesmo assim não há dinheiro para fazer esse Serviço Público, o Governo que tome a decisão e a explique aos Açorianos , mas não mandem é o recado por um economista que dos Açores sabe zero, e como tal está-se nas tintas para isto.

Dou um exemplo claro e recente , não relativo à RTP mas à RDP , a mesma casa. Há determinado programa aos Domingos na Antena 1 Açores e que eu ouço sempre, que tinha o mesmo “spot” de promoção pelo menos desde Maio. Ouvia aquilo pelo menos 4 vezes ao dia , e se bem que tinha a sua piada ao fim deste tempo já me enervava profundamente. Mandei um email à RDP a perguntar se dava assim tanto trabalho mudar o spot pelo menos de 6 em 6 meses. Como resposta fui “copiado” num email do autor do programa para o seu chefe , a concordar comigo e a pedir a suspensão do spot , mas dizia que “ao contrário do que afirma o sr. Ventura , dá trabalho fazer uma nova promoção”. Tive que lhe pedir para ir rever o meu email , nunca afirmei que não dava trabalho , apenas perguntei se dava assim tanto que não era possível mudá-lo de vez me quando.

Aqui estão bem patentes duas características destes jornalistas que estão a meu ver muito perto da base do problema : uma certa dificuldade em escolher e usar as palavras , percebê-las , citá-las e interpretá-las correctamente e uma certa falta de inclinação pontual para o trabalho. Dizer que “dá trabalho” como justificação para não se fazer algo necessário dá-me vontade de rir .

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