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O Alemão e o Grego

Antes de mais , aviso que este post é longo ( quase 5 páginas) e potencialmente chato , se estão fartos de discussões e opiniões sobre a crise económica e política na Europa e sobre a acrimónia crescente entre os Europeus , passem à frente , obrigado e voltem sempre.
Uma publicação Alemã publicou uma carta aberta de um cidadão Alemão “aos Gre-gos”. A resposta de um Grego circula pela net com admiração , já lhe vi chamar “bri-lhante”. Eu acho-a muito longe de algo parecido , nem sequer é uma resposta de espé-cie nenhuma , mas vamos por partes .Primeiro a carta do Alemão:
Caros gregos,
Desde 1981 pertencemos à mesma família. Nós, os alemães, contribuímos como ninguém mais para um Fundo comum, com mais de 200 mil milhões de euros, en-quanto a Grécia recebeu cerca de 100 mil milhões dessa verba, ou seja a maior parcela “per capita” de qualquer outro povo da U.E.
Nunca nenhum povo até agora ajudou tanto outro povo e durante tanto tempo.
Vocês são, sinceramente, os amigos mais caros que nós temos. O caso é que não só se enganam a vocês mesmos, como nos enganam a nós.
No essencial, vocês nunca mostraram ser merecedores do nosso Euro. Desde a sua incorporação como moeda da Grécia, nunca conseguiram, até agora, cumprir os critérios de estabilidade. Dentro da U.E., são o povo que mais gasta em bens de consumo.
Vocês descobriram a democracia, por isso devem saber que se governa através da vontade do povo, que é, no fundo, quem tem a responsabilidade. Não digam, por isso, que só os políticos têm a responsabilidade do desastre. Ninguém vos obrigou a, durante anos, fugir aos impostos, a opor-se a qualquer política coerente para reduzir os gastos públicos e ninguém vos obrigou a eleger os governantes que têm tido e têm.
Os gregos são quem nos mostrou o caminho da Democracia, da Filosofia e dos pri-meiros conhecimentos da Economia Nacional. Mas, agora, mostram-nos um caminho errado. E chegaram onde chegaram, não vão mais adiante!!!
É isto. Leiam outra vez se acham que falhou alguma coisa , se vêm aí algum contra senso , insulto , injustiça fulgurante ou mentira óbvia. Parece-vos bem? Agora vejamos a resposta deste imbecil Grego , e façamo-lo com método , parágrafo por parágrafo e com a calma que isto merece.
Caro Walter,
Chamo-me Georgios Psomás. Sou funcionário público e não “empregado público” como, depreciativamente, como insulto, se referem a nós os meus compatriotas e os teus compatriotas.
– Começa logo por mudar de assunto , esta expressão não aparece na carta em apreço . Ou bem que diz “Caro Walter” e contesta a carta e opinião do sr Walter como um adulto pensante ou fala em geral , para o ar , de ouvir dizer . É a segunda opção.
O meu salário é de 1.000 euros. Por mês, hem!… não vás pensar que por dia, como te querem fazer crer no teu País. Repara que ganho um número que nem sequer é inferior em 1.000 euros ao teu, que é de vários milhares.
– Os gregos ganham menos que os alemães mas a carta não contém uma palavra que seja sobre os rendimentos dos Gregos , apenas afirma que eles são os que gastam mais em bens de consumo , facto não desmentido . Este parágrafo sugere que ganhar menos pode dar direit0 ou ser desculpa para fazer trafulhice nas contas, ignorar dívidas e deixar a incompetência e a fraude correrem livres. Belo argumento.
Desde 1981, tens razão, estamos na mesma família. Só que nós vos concedemos, em exclusividade, um montão de privilégios, como serem os principais fornecedores do povo grego de tecnologia, armas, infraestruturas (duas auto estradas e dois aeroportos internacionais), telecomunicações, produtos de consumo, automóveis, etc.. Se me esqueço de alguma coisa, desculpa.
– Como o próprio diz “nós concedemo-vos privilégios em exclusividade como fornece-dores”. Isto deve ser também ser culpa dos alemães , que nitidamente forçaram estas concessões e impuseram as suas empresas aos Gregos , que até nem queriam nem estavam interessados nesses bens e serviços . Ver quem concede o privilégio queixar-se do mesmo privilégio é lindo , é admitir que a culpa é deles.
Chamo-te a atenção para o facto de sermos, dentro da U.E., os maiores importado-res de produtos de consumo que são fabricados nas fábricas alemãs.
– De onde parece resultar que devem continuar a poder comprá-los mesmo sem ter dinheiro para os pagar e ver perdoada a dívida em que incorreram para os comprar. E também deve ser por causa dos Alemães que não há carros , electrodomésticos ou máquinas industriais de fabrico Grego.
A verdade é que não responsabilizamos apenas os nossos políticos pelo desastre da Grécia. Para ele contribuíram muito algumas grandes empresas alemãs, as que pagaram enormes “comissões” aos nossos políticos para terem contratos, para nos venderem de tudo, e uns quantos submarinos fora de uso, que postos no mar, continuam tombados de costas para o ar.
– Algumas empresas Alemãs negociaram com os políticos Gregos alguns contratos ale-gadamente desvantajosos para os Gregos. De onde se conclui….? O quê? Que os contribuintes alemães devem deixar tudo assim , pagar sem reclamar as contas dos Gregos , a sua falta de supervisão e a sua permissividade que durou até acabar o dinheiro . Que já era emprestado.
Sei que ainda não dás crédito ao que te escrevo. Tem paciência, espera, lê toda a carta, e se não conseguir convencer-te, autorizo-te a que me expulses da euro zona, esse lugar de VERDADE, de PROSPERIDADE, da JUSTIÇA e do CORRECTO.
-É difícil dar crédito ao que escreve este gajo porque , mais uma vez , a carta à qual ele diz que está a responder nunca refere a expulsão de Grécia da Zona Euro , nem se refere a ela nesses termos.
Estimado Walter, passou mais de meio século desde que a 2ª Guerra Mundial terminou. QUER DIZER MAIS DE 50 ANOS desde a época em que a Alemanha de-veria ter saldado as suas obrigações para com a Grécia.
Estas dívidas, QUE SÓ A ALEMANHA até agora resiste a saldar com a Grécia (Bulgária e Roménia cumpriram, ao pagar as indemnizações estipuladas), e que consistem em:
1. Uma dívida de 80 milhões de marcos alemães por indemnizações, que ficou por pagar da 1ª Guerra Mundial;
2. Dívidas por diferenças de clearing, no período entre-guerras, que ascendem hoje a 593.873.000 dólares EUA.
3. Os empréstimos em obrigações que contraiu o III Reich em nome da Grécia, na ocupação alemã, que ascendem a 3,5 mil milhões de dólares durante todo o período de ocupação.
4. As reparações que deve a Alemanha à Grécia, pelas confiscações, perseguições, execuções e destruições de povoados inteiros, estradas, pontes, linhas férreas, por-tos, produto do III , e que, segundo o determinado pelos tribunais aliados, ascende a 7,1 mil milhões de dólares,dos quais a Grécia não viu sequer uma nota.
5. As imensuráveis reparações da Alemanha pela morte de 1.125.960 gregos 38,960 executados, 12 mil mortos como dano colateral, 70 mil mortos em combate, 105 mil mortos em campos de concentração na Alemanha, 600 mil mortos de fome, etc., etc.).
6. A tremenda e imensurável ofensa moral provocada ao povo grego e aos ideais humanísticos da cultura grega.
Amigo Walter, sei que não te deve agradar nada o que escrevo. Lamento-o. Mas mais me magoa o que a Alemanha quer fazer comigo e com os meus compatriotas.
-Isto brada aos céus . A II Guerra Mundial , em que a Grécia foi submetida sem espi-nhas e com resistência simbólica , ao que se sucedeu um período de ocupação clássico em que (alguns) Gregos se adaptaram aos novos senhores e continuaram a sua vida , terminou como ele bem lembra , há mais de 50 anos.Não sei como se processam as reparações de guerra nem sei qual a razão para esta alegada falta de pagamento à Grécia , mas sei que aparentemente os Gregos não se preocuparam muito com assun-to e nada fizeram para o resolver deixando por cobrar alegadas dívidas desde 1918 , às que deixaram juntar outras indemnizações por derrotas e ocupações sofridas mais recentemente , o que mais ajuda à noção actual sobre a sua falta de competência em geral.
Lembraram-se agora que querem reparações de guerra e indemnizações. Pelas minhas contas de costas de envelope a soma da conta que este gajo apresenta não ultrapassa os 40 mil milhões de euros , a câmbios correntes. Mais de 100 mil milhões já receberam nestes pacotes de ajuda , até ver , e falta muito mais para a Grécia continuar a “trabalhar” , pelo que mesmo que a Alemanha agora resolvesse saldar essa “dívida” … não chegava para tirar os Gregos do buraco onde se meteram . Por outro lado , na Grécia há mais de 200 famílias com património superior a 200 milhões de Euros ( em Portugal haverá 5 ) , que se quisessem pagavam a dívida toda da Grécia.Também isso deve ser culpa da Alemanha.
Não morreram 1 300 000 de civis gregos às mãos dos alemães na 2º Guerra , na esti-mativa mais exagerada morreram 770000. É diferente e fica mal mandar centenas de milhar ao acaso quando se trata de mortos. Mais uma vez este Grego devia saber que é feio aldrabar as contas . Além disso , revirar as tragédias da História e desrespeitar os mortos querendo fazê-los render aos vivos é infame.
Este pedir de ajustes de contas históricos serôdios vale pouco ou nada , a altura para pedir indemnizações de guerra não é certamente 55 anos depois da guerra ( já para não falar da dívida da 1ª Guerra) , ainda para mais quando se passaram os últimos 30 em alegre e amigável convivência “famíliar” cheios de declarações de irmandade. Se vamos por aí, vamos então puxar do bloco notas e começar a apresentar facturas uns aos outros . A nós , por exemplo , a França deve biliões pelas invasões napoleónicas , têm que nos pagar isso para nós podermos ir pagar ao Brasil o que de lá trouxemos e lá estragámos , e por aí vai . Entretanto os Gregos podem também tentar pedir ao Ahmadinejad uma indemnização pelas invasões Persas , encontrar alguma derrota às mãos dos Otomanos pela qual a Turquia lhes deva uma indemnização e mesmo certa-mente a própria Roma lhes deve algum . Patético .
Amigo Walter: na Grécia laboram 130 empresas alemãs, entre as quais se incluem todos os colossos da indústria do teu País, as que têm lucros anuais de 6,5 mil mi-lhões de euros. Muito em breve, se as coisas continuarem assim, não poderei com-prar mais produtos alemães porque cada vez tenho menos dinheiro. Eu e os meus compatriotas crescemos sempre com privações, vamos aguentar, não tenhas pro-blema. Podemos viver sem BMW, sem Mercedes, sem Opel, sem Skoda. Deixare-mos de comprar produtos do Lidl, do Praktiker, da IKEA.
-Ainda bem, já tarda , demoraram bastante a concluir que podem viver sem BMW’s ,mas já é um começo. E , mais uma vez , isso não tem nada a ver com a carta do Alemão.
Mas vocês, Walter, como se vão arranjar com os desempregados que esta situação criará, que por ai os vai obrigar a baixar o seu nível de vida, perder os seus carros de luxo, as suas férias no estrangeiro, as suas excursões sexuais à Tailândia?
-Isto , além de ser uma generalização baixa e ofensiva é problema exclusivos dos Alemães , que até ver ainda não estão a pedir ajuda aos Gregos para o resolver, nem a esse nem a nenhum outro . E outra vez , em nada responde ao que a carta diz.
Vocês (alemães, suecos, holandeses, e restantes “compatriotas” da Eurozona) pre-tendem que saíamos da Europa, da Eurozona e não sei mais de onde.
Creio firmemente que devemos fazê-lo, para nos salvarmos de uma União que é um bando de especuladores financeiros, uma equipa em que jogamos se consu-mirmos os produtos que vocês oferecem: empréstimos, bens industriais, bens de consumo, obras faraónicas, etc.
-O alemão nunca pede isso mas aqui o grego declara que devem sair. Até ao ano pas-sado eram europeus até ao tutano , eram o Berço da Europa e membros orgulhosos. Não me lembro de ouvir muitos Gregos referirem-se às olimpíadas de Atenas , por exemplo , como “obra faraónica” impingida por um bando de especuladores financei-ros alemães , mas parece que foi do que se tratou. Este homem defende firmemente a saída da estrutura que lhes permitiu viver como europeus durante 30 anos , mas sair sem pagar a conta , a insultar tudo à sua volta e a passar um calote de biliões.
E, finalmente, Walter, devemos “acertar” um outro ponto importante, já que vocês também disso são devedores da Grécia:
EXIGIMOS QUE NOS DEVOLVAM A CIVILIZAÇÃO QUE NOS ROUBARAM!!!
Queremos de volta à Grécia as imortais obras dos nossos antepassados, que estão guardadas nos museus de Berlim, de Munique, de Paris, de Roma e de Londres.
E EXIJO QUE SEJA AGORA!! Já que posso morrer de fome, quero morrer ao lado das obras dos meus antepassados.
É sempre curioso ver quem está lançado na indigência e , como ele diz dramaticamen-te , perante a possibilidade de morrer de fome , a fazer exigências em maiúsculas , e outra vez com o argumento do que lhes fizeram há 100 ou 200 ou 50 anos. É interes-sante ler os românticos do Séc XVIII , principalmente Ingleses e Alemães nas suas via-gens à Grécia , e ver o estado em que estes “tesouros” estavam , os tratos e “conser-vação” que tinham antes da entrada da Grécia na EU . Se eles acham que recuperar o friso do Parténon lhes dá conforto ,que receber umas toneladas de mármore original lhes restitui “a civilização” , eu apoio plenamente o direito , sai muito mais barato do que continuar a enterrar lá dinheiro. E claro que nos museus Gregos , naturalmente , não há nenhuma peça que não seja 100% helénica.
Cordialmente,
Georgios Psomás
Tudo menos cordial , este arrazoado que pretende ser uma resposta a uma carta aber-ta cheia de factos verdadeiros e não refuta nem um , um só , dos argumentos apresen-tados pelo Alemão , que se queixa entre outras coisas da falta de responsabilidade do povo Grego, que elege os seus políticos , com o resultado à vista de todos. A “resposta” do sr. Psomás é dizer que a culpa é dos Alemães , e este arremedo de carta , insulto à herança de retórica e oratória do “seu” povo e ao senso comum circula na net com aplausos.Que pobreza.

3 thoughts on “O Alemão e o Grego

  1. Já me ocorreu uma carreira na política mas há o problema de não me identificar com nenhum partido e fora disso não há grandes possibilidades a não ser para idiotas vaidosos tipo Fernando Nobre. As longas horas no mar eram ocupadas principalmente a ler, sobretudo História , Filosofia e Política e a pensar sobre coisas destas , porque não tenho ambição nenhuma de mudar nada mas gosto de perceber o que se passa à minha volta , e , como dizem os franceses , "saber com que molho é que vamos ser comidos".Abraço

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