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A Voz Humana

Fui ao teatro ontem , ver uma peça chamada “A Voz Humana” , de Jean Cocteau , autor ao que parece muito famoso. Não gosto particularmente nem sei quase nada de teatro , para mim as palavras “dramático” e “teatral” sempre tiveram conotação negativa , não gosto de dramas em nenhum grau , pessoas teatrais tendem a chatear-me , no continente as hipóteses de num domingo à noite conduzir meia hora para ir ao teatro eram perto de nulas , mas aqui tive que ir.

A peça é um monólogo , uma mulher ao telefone com o ex amante , à beira do colapso e em desespero. É só isto. O encenador decidiu multiplicar , ou dividir , a protagonista, e eram quatro mulheres em palco , desvairadas alternadamente ao telefone , numa época em que havia telefonistas e se “pediam chamadas”. É quase uma hora de emoção feminina , desespero quase histérico , muita vezes patético, o género de performance a que na vida real eu estou imune e de que estou isento , e ver a peça lembrou-me essa satisfação.

Mas mesmo que tivesse ido saber de antemão de que é que tratava , qual era o enredo ou falta dele , tinha lá ido , e às quatro actrizes em palco tiro o chapéu e aplaudi com gosto porque não só foram todas muito credíveis no papel de mulher abandonada , numa conversa patética e extremamente irritante ao telefone , como subir a um palco num sítio como este , para uma pessoa daqui , carrega ainda mais peso do que o que já é normal , é corajoso e de louvar.

Foi mais por isso que fui , para apoiar e aplaudir quem vai fazendo coisas diferentes , positivas e importantes num sítio onde não só fazem uma falta desgraçada como têm público faminto de coisas assim. Na ilha não há cinema , não há um jogo ao fim de semana , de futebol ou de outra coisa qualquer ; não há (felizmente) centros comerciais onde as pessoas podem ir pastar ao fim de semana e que passa como “entretenimento” , não há concertos , não há uma livraria , enfim , a oferta cultural é escassa . “ A Voz Humana “ foi representada no Sábado , acho que a sala esteve quase cheia com mais de 100 pessoas e ontem , Domingo , estavam umas 60. Encontrem-me lá disto noutras vilas com 1500 habitantes. Noutros sítios deste país há oferta em excesso e gente que tem tudo à porta ou a 20kms mas não pára de se queixar de que não se passa nada enquanto que os artistas se queixam da falta de palcos e de público.

E claro que também fui ao teatro por causa de outra função importantíssima que estas coisas cumprem , em Nova Iorque ou em Santa Cruz : ver as pessoas e ser visto por elas , e isto toma proporções muito particulares em meios pequenos e isolados. Como em todo o lado , são precisos estes espaços e eventos para as pessoas saírem de casa , se encontrarem , verem e falarem , para não ficar tudo em casa a estupidificar frente à televisão, para se cultivar o sentimento de pertença a uma comunidade , para a Vida ser melhor.

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