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A condecoração da Selecção

Circula no feissebuque uma carta aberta ao Presidente da República que eu achei interessante. A figura da “carta aberta” parte do princípio que o seu autor tem uma mensagem relevante a enviar a uma figura ou instituição e que deve ser pública. Isto raramente se verifica , a maioria das cartas abertas que conheço serve para afirmar uma evidência , fazer uma reclamação ou sugestão particular e promover o autor , nem mais nem menos. Se temos um ponto importante a marcar perante alguém enviamos uma carta , se precisamos ou achamos que merecemos publicidade , vai “aberta” . Esta não é diferente , e apesar das centenas de “likes” , e comentários de apoio e “partilhas” no Facebook vale pouco , a não ser como retrato do mundo académico. Começa assim :

Exmo sr Presidente da República

O meu nome é (…) , sou licenciada em Pintura pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, fiz Mestrado em Antropologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, sou doutoranda em Ciências da Comunicação também pela FCSH-UNL, projecto de investigação “Dissuasão Visual: Arte, Cinema, Cronopolítica e Guerra em Directo” distinguido com uma bolsa de doutoramento individual da Fundação para a Ciência e Tecnologia. A convite do meu orientador, lecciono uma cadeira numa Universidade. Tenho 30 anos.”

Começar assim uma carta aberta ( ou uma carta normal…) é achar que o próprio currículo e formação é extraordinário ou relevante e que só por ele o destinatário da carta deve prestar atenção.Quem pede a palavra não é a cidadã , é a licenciada mestra doutoranda professora . Não acho natural que a Fundação da Ciência e Tecnologia financie estudos e investigações em “dissuasão visual” por licenciados em Pintura mas pronto. Quando falo em Ciência e Tecnologia penso mais em Química , Engenharia , Medicina ou Física mas ainda bem que ainda há orçamento para investigar e teorizar sobre dissuasão visual e outros conceitos abstractos , isto ainda não está assim tão mal e o assunto não deixará de ter a sua importância . Até lecciona uma cadeira na Universidade , a convite , vejam lá se não é de prestar atenção. Não diz qual é a cadeira , deve ser coisa substancial. Segundo parágrafo:
Não sinto qualquer orgulho na selecção de futebol nacional. Não fiquei tão pouco impressionada… O futebol é o actual opium do povo que a política subrepticiamente procura sempre exponenciar. A atribuição da condecoração de Cavaleiro da Ordem do Infante Dom Henrique a jogadores de futebol nada tem que ver com “a visão de mundo” (weltanschauung) que Aquele português tinha. A conquista do povo português não é no relvado. Sinto orgulho no meu percurso, tenho trabalhado muito e só agora vejo alguns resultados. Como é que acha que me sinto quando vejo condecorado um jogador de futebol? Depois de tanto trabalho e investimento financeiro em estudos?!! Absolutamente indignada”.

Antes de dizer ao que vem a doutora informa que não sente orgulho na Selecção , que não a impressiona , acrescenta um pensamento muito original sobre o futebol ( ópio , perdão , opium do Povo , potenciado pela Política) e diz então qual é a razão da carta: indignação pela atribuição de uma condecoração à nossa equipa da bola , e como o termo “visão do mundo” provavelmente era incompreensível para o Presidente e demais leitores da carta aberta , mais habituados a ler Hegel no original , explica que a weltanshauung do Infante D.Henrique nada tem a ver com condecorar jogadores da bola. Caso alguém pensasse que tinha. Indignação absoluta , porque sente orgulho do seu trabalho e percurso ( com 30 anos de idade é sem dúvida vasto , relevante e meritório) mas obviamente que não vê nem reconhece trabalho , percurso nem mérito à Selecção Nacional, composta por monos que de certeza não sabem o que é weltanshauung nem nunca se passearam pelos àtrios das Academias. Adiante:
Sinto orgulho em muitos dos professores que tive, tanto no ensino secundário como no superior. Sinto orgulho em tantos pensadores e teóricos portugueses que Vossa Excelência deveria condecorar. Essas pessoas sim são brilhantes, são um bom exemplo para o país… fizeram-me e ainda fazem querer ser sempre melhor. Tenho orgulho nos meus jovens colegas de doutoramento pela sua persistência nos estudos, um caminho tortuoso cujos resultados jamais são imediatos, isto numa contemporaneidade que sublinha a imediaticidade. Tenho orgulho até em muitos dos meus alunos, que trabalham durante o dia e com afinco estudam à noite…”

Deste parágrafo realço “…isto numa contemporaneidade que sublinha a imediaticidade” , que para mim é expoente do método e estilo destes académicos à procura de reconhecimento : se pode ser dito em três palavras não uses duas e se podes dizê-lo com palavras de 4 sílabas não uses palavras de 3. Às vezes sinto que me faz falta um grau académico , que permite entre outras coisas e com um ar sério estender e complicar o discurso e emaranhar as ideias. Os professores que teve fazem-na querer ser melhor , que um jogador de futebol de sucesso faça um miúdo querer ser melhor é inconcebível .Os resultados académicos jamais são imediatos , os desportivos são, como é sabido .
São tantos os portugueses a condecorar…
e o Senhor Presidente da República condecorou com a distinção de Cavaleiro da Ordem do Infante Dom Henrique jogadores de futebol… e que alcançaram o segundo lugar… que exemplo são para a nação? Carros de luxo, vidas repletas de vaidades… que exemplo são?!
apresento-lhe os meus melhores cumprimentos”

A Doutora Mestra não gosta de futebol ( nem de escrever cartas correctamente) , e os jogadores para ela resumem-se a “carros de luxo e vidas repletas de vaidades” ao passo que , calculo , o mundo académico transborda de figuras muito mais indicadas para condecorar , figuras que nunca se vêm num carro de luxo e são isentos de vaidades. Para ela os futebolistas e a Selecção não prestam serviços de relevo ao País , ao contrário da legião de académicos que o Presidente devia condecorar. Esta senhora tem uma noção exagerada do próprio valor e do dos seus pares , ignora a realidade do país onde vive e a importância que o futebol tem , e isso leva-me a questionar a sua formação em Ciências Sociais e Humanas , que servem , ou deviam servir, para compreender a nossa realidade Social em vez de permitir construir mundos ideais abstractos e lá andar de indignação em censura , de protesto em teoria .

Goste-se ou não , há muitas décadas que o Futebol faz parte integrante da nossa Cultura , da nossa Economia e Sociedade e , muitas vezes infelizmente , da nossa Política. Por mais que se lastimem os intelectuais , o nome Portugal lá fora é mais feito por Mourinhos e Ronaldos , por FC Portos e Benficas do que por doutoramentos em “Dissuasão Visual: Arte, Cinema, Cronopolítica e Guerra em Directo” , que por mais brilhantes que sejam não levantam 70 mil pessoas em êxtase , não vendem 100 mil jornais , não prendem 5 milhões à televisão nem trazem satisfação e alegria (ou tristeza…) a dezenas de milhões de Portugueses pelo Mundo. A Doutora não compreende que há poucas coisas que unam os Portugueses como a Selecção , além da Língua , obviamente. E claro que desprezando e não compreendendo o Futebol nunca pode perceber o mérito , talento , esforço , dedicação e trabalho dos jogadores e a sua contribuição para Portugal. Estes jogadores que foram condecorados eram uma das nossas Selecções jovens , que chegaram contra todas as previsões a Vice Campeões do Mundo.

Há académicos e intelectuais a projectar o País e costumam ser condecorados , até porque há muitas vagas para encher todos os anos , muitos favores a pagar e reconhecimento público a fazer .De resto, estas condecorações interessam principalmente a dois tipos de pessoas : as que as recebem e as que gostavam de as receber , o resto da população em geral está-se nas tintas.

Quando os académicos a quem esta senhora está tão reconhecida e nos quais tem tanto orgulho fizerem alguma coisa que ponha Portugal num destaque mundial semelhante ao das Selecções , que se condecorem . Até lá vá continuando a estudar e dissertar sobre cronopolítica e feche as suas cartas ao Presidente .

5 thoughts on “A condecoração da Selecção

  1. o que acho graça é que ela quer-me dizer, e ao PR e à nação, quem é que é mais importante pra mim. Juro que o Cristiano Ronaldo é mt mais importante pra mim do que ela, independentemente de tb achar que essas condecorações são uma gd palhaçada. agora esse mimimi é ridículo. e vou-te dizer, se eu recebece uma carta com um parágrafo enorme a dizer quem era a pessoa que me escrevia, dessa forma arrogante e idiota, como se só os académicos tivessem valor no mundo, nao passaria das 2 primeiras frases. se chegou ao PR deve ter sido isso que o assistente dele fez.a falta de noção que as pessoas têm em relação à sua pp importância, que é nenhuma, ao deixa de me surpreender…bjo

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  2. Sinceramente….se eu tivesse lido isto no fb, simplesmente ignorava, não via a relevancia do assunto. Mas depois de teres feito a análise tão detalhada fiquei a pensar que seria uma boa área de estudo o fenónemo do futebol e das massas que o seguem. Fazer a doutora uma análise prosaica, absolutamente terra a terra do tipo….nós somos melhores do que eles, que injustiça…. está ao meu nivel, não da doutora mestrada e não sei mais o quê. Está explicado por que não recebe ela o oscar e pelos vistos tambem não percebe porque é que os jogadores recebem o dito, portanto é só ignorancia.

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  3. Rui , é bem verdade que o mais natural perante uma coisa destas é ignorar e eu dei-lhe demasiada importância , mas foi porque me enerva profundamente que gente cheia de graus académicos escreva assim tão mal e não tenha a noção de certas coisas básicas. Eles deviam ser a nossa elite e é esta pobreza , ainda por cima reclamante….

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  4. Apesar de gostar de ver futebol, desporto que aliás pratiquei bastante (agora só vela!), Acho demasiada a importância que é dada pelo país a esse desporto. Veja-se os milhares de jornais da especialidade vendidos diariamente. Noutros tempos havia apenas tri-semanários e era a bola e o vinho que distraíam a populaça dos assuntos importantes! Agora que uma senhora que pode ser um "crâneo", tire aqueles cursos todos importantíssimos e não consiga perceber que os jovens da seleção e sobretudo o Cristiano que saiu da Madeira com onze anos, veio sózinho para o continente e pelo seu esforço e dedicação conseguiu levantar muito alto as qualidades com que já nasceu…é porque TEM INVEJA ! E isso é feio e pouco próprio! Só acontece a quem tem graus académicos mas falta-lhe "berço", e sobretudo educação e bom senso que não se aprende nas escolas!João GM

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