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Viagem ao Corvo

A Nossa Senhora dos Milagres é a padroeira da Ilha do Corvo , e é adequada porque só milagres mantêm aqui esta população há 500 anos. A festa que lhe é dedicada todos os anos por esta altura é como milhares de outras por esse país fora , comida , bebida , procissões e música. Já estava para lá ir há muito tempo e aproveitei este fim de semana quando a frequência das ligações é maior e porque tocavam os Corvos , uma banda de que eu gosto muito , sobretudo porque o violino é o instrumento mais melancólico que existe. Por E25 compra-se um bilhete de ida e volta para cobrir as 13 milhas do Canal , o tempo tem estado glorioso e chega-se lá num instante. Um amigo que acabou por não poder ir esteve a dar-me indicações para o parque de campismo , o recinto das festas e as vistas , tive que lhe dizer que se poupasse porque se já é muito difícil uma pessoa perder-se nas Flores , no Corvo é impossível. Fui a Santa Cruz apanhar o barco e pela primeira vez em 4 meses tirei a chave da ignição do carro.

Nesta altura do ano há muitos visitantes (no outro dia ouvi na rádio : nesta altura até nos cruzamos na rua com pessoas que não conhecemos) e há uma linha de cadeiras de plástico alinhada na rua frente ao bar restaurante logo à saída do Porto para o pessoal ir avaliando as chegadas.Fui logo para o bar , eixo fundamental da minha estratégia de sobrevivência nesta visita, e depois fui circular um bocadinho , mas a circulação ficou feita em menos de uma hora, pelo que me instalei no recinto das festas. Muita gente das Flores , mesas corridas e todas as bebidas a 1 Euro.Jantei morcelas , linguiças e torresmos livres de ASAE , ainda no Sábado de manhã outro vizinho matou outro porco , coisa que no continente já é completamente clandestina , aqui regras sobre isso , se existem , são alegremente e felizmente ignoradas. Sinceramente acho que o Estado deve ter mais com que se preocupar do que com os animais que as pessoas matam nos seus quintais. Que carne vendida ao público tenha que seguir as regras todas , sim senhor, agora proibir uma pessoa de criar e matar um porco ou seja o que for para si é coartar uma liberdade que não prejudica terceiros , sou absolutamente contra.

Fiquei umas duas horas sentado noutra fiada de cadeiras com os velhotes a ver o tráfego e as actividades festivas. As Corvinas ,em geral , têm quilos a mais , o que eu lamento sempre mesmo sabendo que felizmente há muito quem goste e que as pessoas têm é que estar confortáveis e à vontade e não sei quê . Acho um problema grave , não só estético como de saúde . Dito isso vi lá raparigas ( ok , eram só três e acho que uma é das Flores) lindíssimas e de medidas perfeitas , já não é mau em 400 pessoas , acho que a população estava lá toda. Subiram ao palco dois indivíduos , um sintetizador e uma guitarra , e arrancaram no solidó do costume , aquela pobreza confrangedora dos dois ou três acordes e a poesia ao nível de um Quim Barreiros bêbado.É preciso um bocado para me escandalizar e não costumo ir a festas destas mas abrirem com o refrão “ó compadre toca ao bicho” pareceu-me simplesmente o fim , o fundo, o grau zero. Nem meia dúzia de pessoas foram dançar , muitas pessoas mexiam-se desconfortáveis nas cadeiras , meia dúzia de pessoas bateu umas palmas desanimadas e eles depois de 3 “músicas” fizeram a única coisa boa da actuação que foi terminá-la. Apeteceu-me ir perguntar se eles não tinham vergonha , mas se calhar é comum e aquilo são sucessos. A música ser básica é uma coisa , e o brejeirismo faz parte do “espírito popular” mas aquilo era nojento.

Depois subiu ao palco um senhor que eu tinha visto a limpar mesas, levava um saco com 3kg de lapas para leiloar, renderam E35 , eu não sei o preço das lapas porque todas as pessoas que conheço que as apanham comem-nas com os amigos , mas pareceu-me caro. A seguir um queijo com uns 2kg que foi arrematado por E60, um exagero de boa vontade . Depois o senhor disse um bocado envergonhado que este ano na América as coisas estavam difíceis mas mesmo assim tinha ali um cheque de 10 mil euros para a Festa e outro de 5 mil para a Igreja. Esperava um aplauso estrondoso mas a julgar pela reacção das pessoas o senhor só fazia a sua obrigação, eu fiquei muito impressionado.

Em 2007 os Corvos rodaram um teledisco no Corvo e grande parte da população participou. Ontem à noite havia dezenas de pessoas , desde crianças que ainda não tinham nascido na altura até homens feitos , com a cara pintada à Corvo . Deram um grande concerto , com músicas deles e versões de outras , levaram ao palco um tipo que dá pelo nome de Poeta de Rua e que teve grande prestação , hip hop com os violinos , viola e violoncelo por baixo. Por momentos pensei que nos iam fustigar com um indivíduo da Terceira que inexplicavelmente passa na Rádio , que se chama Poeta Urbano e que nem é poeta nem é urbano e muito menos músico , mas este era o artigo genuíno. Mais de duas horas de concerto que culminaram com toda a gente que participou no vídeo em cima do palco , o vídeo projectado numa tela atrás e terminou com o Hino cantado a plenos pulmões por toda a gente.

Com isto passava bem das duas e retirei-me para a zona do Parque de Campismo. Não tinha tenda e lembrei-me depressa de que as tendas não servem só para dar privacidade e proteger do sol e da chuva , servem para manter os insectos à distância. Não dormi ,roído por batalhões de formigas , e às seis e meia comecei a trepar a estrada que leva ao Caldeirão. A minha passagem de regresso era só às 1500 e não conseguia ver bem como é que me ia aguentar até lá. Subi , subi , subi, até o calor ,o cansaço e a sede ( não é como as Flores com água por todo o lado) me fizeram voltar a descer. Não há árvores. Olho para aquilo tudo e cada vez me interrogo mais sobre 500 anos de Humanidade ali , naquele calhau no fim do mundo. Com aeroporto, porto e televisão ainda se concebe , mas isso tem 20 anos…Milagre.

O restaurante já estava aberto e fui-me hidratar que nem um beduíno , estava a dar o jogo do Sporting da noite anterior , isto começou bem. Entretanto chegaram os Corvos mais entourage e acontece que temos amigos comuns , de Alcobaça que é terra de grande músicos como o Ruben Santos , o Manuel Campos , o Sérgio Carolino ou o Mário Marques , que quase todos os músicos conhecem e de quem eu tenho a sorte de ser amigo. Acabei por arranjar passagem no barco das 11 , onde eram só os Corvos e a minha pessoa , os músicos para o aeroporto das Flores e eu para casa , contente de ter visto o abismo do Corvo e a pensar que a minha Ilha é bem grande….

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