O Campeonato

Saímos daqui na quinta feira à tarde com bilhetes de avião para estar na Terceira à noite. Não se conseguiram arranjar lugares no voo directo e assim só chegaríamos tarde na véspera da primeira regata sem sequer ter tempo de ver o bote.

Vai já o primeiro de alguns apartes : esta explosão do turismo já está a prejudicar os locais na medida em que o governo gasta milhões em publicidade à região, introduziram umas das medidas mais estúpidas  que já vi que é subsidiar os voos inter ilhas dos turistas com dinheiro público, claro que isto atrai batalhões de turistas mas a SATA tem o mesmo número de aviões pequenos de há cinco ou seis anos. Não é preciso ser engenheiro para perceber que se aumentou enormemente o número de visitantes sem acautelar transporte para todos, visitantes e locais. No alojamento e restauração, que dependem dos privados, a coisa ajusta-se. Nos transportes aéreos , que dependem do Estado, os problemas acumulam-se de dia para dia, não há resposta, há caos e segue-se um exemplo pessoal e claríssimo.

Tínhamos prevista escala em S.Miguel, lá chegámos sem novidade, só com uma ligeira hora de atraso. O voo para a Terceira estava marcado para as 21, até às 23.40 foram-se sucedendo os adiamentos até que pouco antes da meia noite foi anunciado voo cancelado por razões técnicas. estas razões técnicas, soube-se depois, prendiam-se com uma greve do pessoal da manutenção. 80 pessoas em terra com a vida encravada. Fila enorme para as reclamações até que somos informados de que “não há hotéis” . Estupefacção geral. A SATA torra por ano centenas de milhar em hotéis e indemnizações provocadas pela própria incompetência e desorganização (excepto a parte dos cancelamentos por razões meteorológicas) , e isso nota-se nas contas. Quando  não é desorganização, incompetência ou o mau tempo a cancelar voos, podemos sempre contar com os sindicatos a ajudar a manter os aviões em terra e  destruir a reputação e rendimentos da companhia.

Tenho amigos em S.Miguel, se lhes ligasse, memso àquela  hora,  vinham-me buscar de boa vontade, e trazer no dia seguinte às 6, mas nunca deixei tripulações atrás e não ia começar agora, assim ficámos todos por lá nos bancos e nos cantos, sem comida porque tudo no aeroporto já estava fechado. Turistas, idosos, crianças, uma vergonha.

No dia seguinte pelas 10 da manhã chegámos à Terceira e tínhamos uma carrinha da Junta de S.Mateus à nossa espera, lá nos instalámos no edifício da junta e apesar de estar toda a gente estoirada fomos ao porto para ver o bote. Estavam 12 na rampa, o 13º seria o S.Pedro, mas nem vê-lo. Telefonei,  informaram-me que estava no contentor onde veio, num canto do porto. Encontrar um reboque (uma treila) emprestado, tirá-lo de lá de dentro e levá-lo para o porto, tudo coisas que demoram e exigem esforço. Quando finalmente estava na rampa com os outros era hora de almoço, lá fomos para a Casa do Povo já sem esperança nenhuma de poder verificar e ensaiar o material, nem de dormir uma sesta e tomar um duche. A primeira regata foi às duas da tarde e informaram-me aí que estavam previstas duas para essa sexta feira. Vamos a isso.

É das partes mais bonitas, para quem não está podre de sono e estafado, 13 botes a arriar, as tripulações a levantar e aparelhar os mastros e a Walkiria e a Rosa Maria, as lanchas baleeiras nesta prova, a recolhê-los todos num reboque de seis cada uma, cada uma na sua amarra de 15 metros. Levam-nos até cerca de uma milha e meia da primeira bóia , alinham-nos a cerca de 90º do vento, soa a buzina e todos os botes largam a sua amarra, içam o pano e arrancam.  Rodar 3 bóias e cruzar uma linha de chegada mesmo frente ao porto, quando rodei a primeira ainda ia mais ou menos dentro do tempo mas quando rodei a segunda já a maior parte dos botes tinha rodado a terceira, acabámos por chegar em penúltimo, o que para mim nem foi muito mau porque a distância dos outros não foi assim tão grande.

A diferença de nível entre botes que fazem regatas todo o verão e são tripulados por quem anda naquilo há anos e o nosso, em que a primeira regata que o oficial (neste caso, eu) fez na vida foi o ano passado e que nunca participou noutra desde então e treina sem outro bote que seja para se medir, é abissal. Ficámos à espera da chamada para a segunda regata e já havia cabeças a pender de sono, lá se repetiu o ritual, e dessa vez ficámos mesmo em último, não apareceu assim na tabela porque um dos botes virou e abandonou. Varámos o bote estafados, foi jantar e tentar dormir, mas isso fui eu, porque a rapaziada foi para Angra do Heroísmo. Destaque especial para o sr. Medonça, 70 anos, que passou uma noite num banco de aeroporto, correu duas regatas de vela e no fim ainda foi para a festarola para Angra, incrível.

O meu amigo que faz a proa do bote ressona valentemente, não adormeci, e pela uma ou duas chegaram os moços meio bêbados e contentes, foi mais uma noite mal passada. A regata desse dia correu ainda pior, não consegui acabar o percurso no tempo determinado, podia dar umas quantas razões tipo as condições dificílimas de ventos muito variáveis, mas foram muito variáveis para todos e só eu e outro é que não acabámos. Há um tempo determinado para acabar o percurso, esgotado isso levam-nos  a reboque para dentro. Pediram-nos que não varássemos os botes na rampa porque ao fim do dia ia haver uma tourada no porto, deixei o S.Pedro amarrado ao de um amigo do Pico, ficou o último de quatro botes amarrados a  uma traineira. Fui perguntar à organização se podia ficar lá à noite, disseram-me que sim, que fizesse como entendesse, fomos para os copos.

Nesse dia havia mais 3 touradas na Terceira e mesmo assim em S.Mateus estava mais gente a ver do que vive nas Flores. Fui espreitar, só para ver o animal, e era um touro a sério. Não vi mais nada, olho para aquilo e só penso na desorientação e fúria e confusão do animal. Fiquei com outros da mesma opinião numa esplanada cá para trás, e às tantas, quando um dos vários bêbados locais se veio assegurar de que estava tudo bem connosco e garantir as boas vindas à freguesia, perguntei-lhe:

-Ó senhor, se chegasse aqui alguém do governo e dissesse que as touradas eram para acabar , o que é as pessoas faziam?

Ele pensou um bocado nessa proposição tão descabelada, largou-se a rir como se eu tivesse contado  a melhor anedota do ano e foi-se embora a rir. Eu acho que eles diziam que sim, que estava bem,  no dia seguinte faziam uma tourada e tenho pena de quem quisesse impedi-los.

Lá acabou a tourada, pela meia noite já estava tudo a carburar bem quando me vêm avisar de que tenho que tirar dali o bote, a traineira vai sair. Foi complicado, dada a hora, o grau alcoólico, a tripulação reduzida, o facto de estes botes não serem feitos nem estarem equipados para amarrar a um cais, mas ao fim de nem sei quanto tempo lá acabei por o deixar em segurança aqui:

37231533_10156505619650477_3561043026761482240_n

Seguiu-se mais uma noite mal dormida pelas mesmas causas, eu gostava de saber se também ressono mas não faço ideia, nunca está lá ninguém para ouvir por isso parto do princípio de que não ressono, mas na nossa tripulação não faltava quem ressonasse. Da próxima vou prevenido com tampões para os ouvidos. No dia seguinte o humor e disposição da tripulação, incluindo o meu, estavam de rastos. Ao cansaço e esforço da coisa toda juntava-se o desagrado por perder, ninguém gosta de ser último e a responsabilidade é sempre do mesmo.

Lá fomos para a última das regatas, eu como não acredito em milagres e já tinha visto que todos os botes conseguiam orçar pelo menos mais 10º do que nós,  sabia que ia correr mal e consumia-me de culpa por antecipação. Estava um dia limpo e vento estável , nem largámos mal mas quando rodámos a primeira bóia já iam 11 botes a rodar a segunda , é preciso ânimo e saber que se pode abandonar a prova a qualquer altura mas abandonar , apesar de ser o que se tem vontade, não pode ser de maneira nenhuma, tem que se levar até ao fim. O Senhora do Socorro, bote ultra campeão da freguesia no Salão , no Faial, cortou a meta em primeiro ainda nem tínhamos rodado a última bóia. Só perderam uma regata, para o Maria Pequena cujo oficial é um amigo meu francês que mora no Pico há muitos anos. Quem estiver interessado no contraste entre um marinheiro científico e um marinheiro instintivo é ver esses dois. O do Faial é uma máquina e o bote sempre numa afinação extraordinária. O do Pico é só coração , instinto e desenrascanço, mas pede-lhe meças facilmente, já lhe ganhou e há-de tornar a ganhar. São ambos cavalheiros, com as respectivas diferenças. A dada altura aproximei-me do antepenúltimo bote, Senhora da Guia, tripulação feminina do Faial. Pensei logo que tinham tido algum problema porque não era natural estarem ali tão para trás, mas lá o resolveram e em dois bordos deixaram-nos atrás.

Fomos mais uma vez os últimos a cruzar a linha de chegada, a lancha  já andava a recolher as bóias , passou por nós sem um aceno nem uma oferta de reboque, os moços ressentiram-se, eu também , um bocadinho. Varámos o bote já os outros estavam quase todos arrumados, chegou o Zé Lizandro , o trancador que faz 90 anos este ano e anda sempre connosco.

-Ome então?

-Olhe, é o que está, encolhi os ombros.

– Ficaram atrás das moças?

Abanei a cabeça que sim, e  passou um desconsolo pelos olhos do homem

-Ome é assim , ninguém se pisou e o bote tá bom, já é bem bom.

Sem pausa fomos carregar o bote num atrelado e enfiá-lo no contentor onde veio, ambiente funerário. Nunca mais, disseram quatro dos moços, e eu , no fim do contentor estar fechado também disse que acabou. Não me estou a divertir com isto, consumo-me e sofro e é uma frustração, já para não falar do trabalho e tempo gasto nas Lajes e no que que obriga a coordenar , para estar aqui, para vir fazer esta figura. Juntando a isso passar 4 dias 24 sobre 24 com 4 tipos  que são boas pessoas e tal mas que são, para simplificar, muito diferentes de mim em tudo, é demais.  Fui passear antes de jantar e tirei essa foto, das minhas preferidas de sempre, como sou um moço do meu tempo publiquei-a no facebook . Das quarenta a tal pessoas que “gostaram” só uma mão cheia sabe que isso é  a linha de chegada da regata. Olhei bem para ela e para tudo o que significa e percebi logo que não seria capaz de largar isto agora. São regatas mas isto é muito maior que as regatas.

37130323_10156504112255477_2125410548345470976_n

No jantar e na entrega dos prémios, 200 pessoas , todas as envolvidas no campeonato. Agradecimentos, discursos, um apupo geral à SATA pelo que nos aconteceu. As tripulações com pódio vão todas ao palco mas até ao terceiro lugar só vai o oficial. Subiu o oficial do ultimo bote, depois chamaram-me a mim e lá fui, com um sorriso conformado mas lembrei-me de endireitar as costas (não tenho ido ao yoga…) e de que há mais pessoas que foram ao espaço do que pessoas que fizeram uma regata ao leme de um bote baleeiro.  No palco o director da prova disse-me que ia fazer um agradecimento especial ao S.Pedro por ter trazido os 30kgs de lapas que toda a gente tinha acabado de comer.

-Se é para os chamar ao palco chame agora, disse eu, e lá vieram os moços , sob um aplauso enorme de 200 pessoas que sabem de onde nós viémos, o que nos custou lá chegar, as condições que temos e o esforço que é estarmos ali a competir. Foi bonito e aqueceu o coração. Daí para a frente foi vinho tinto com fartura e nessa noite peguei no colchão e fui dormir para o fundo do corredor, o mais longe possível dos roncos e assim descansei alguma coisinha.

O dia seguinte foi passado em viagem, a SATA chegou a horas , às 4 e meia, cheguei a casa exausto, com a vontade correspondente de ir trabalhar para o restaurante e vejo que me faltam 7 ovelhas. Passei hora e meia à procura, a rogar mil pragas e a dizer a mim próprio que isto não pode continuar, tenho demasiadas coisas na minha vida e sou só um, alguma tem forçosamente que ficar para trás e  se queremos fazer muitas coisas acabamos por não fazer fazer  nenhuma bem. Não ir trabalhar estava fora de questão, felizmente os patrões disseram-me para não me procupar com o serviço e ir procurá-las , um amigo ajudou-me a encontrá-las em menos de uma hora e quando finalmente cheguei a casa depois do restaurante fechar , mais  morto que vivo eram quase onze da noite, as ovelhas estavam todas onde deviam estar e o cão no seu estado de felicidade natural . Esqueci-me de jantar e na manhã seguinte às 9 já estava no meu novo trabalho, agora também sou jardineiro e se este verão não acaba depressa fico maluco.

Mesmo que metade dos moços se mantenha firme na decisão de abandonar o bote há 3 que não vão a lado nenhum, comigo quatro, hei-de arranjar os 3 que faltam e quando o S.Pedro chegar à grande rampa do porto da Horta a 11 de Agosto vai ter companha completa, vai arriar com os outros 20 ou 30 que lá vão estar e vai fazer a regata no Canal sem medo nenhum. Haja saúde.

Anúncios

Espertalhões

Como contei aqui há pouco tempo, recebi a visita de um amigo skipper inglês que não via desde que nos encontrámos a última vez em Ponta Delgada em 2014.  A visita foi curta mas dá sempre para trocar umas histórias, e a última dele era que já este ano tinha sido contratado por uns jovens dinamarqueses que tinham comprado um Swan 74  por 30 mil euros nas Caraíbas e o queriam na Dinamarca. Um Swan 74 por esse preço é como comprar um BMW por 300€, a razão era que o barco era um salvado dos últimos furacões que assolaram as caraíbas e foi vendido pela companhia de seguros. O meu amigo explicou-lhes bem o que uma coisa dessas envolvia, os riscos e as probabilidades, e lá foi. Duas vezes voltou para trás até que abandonou a empresa quando os novos donos se recusaram a pagar as reparações que ele achava necessárias para viagem. Dois garotos que fizeram fortuna ao ecran de um computador tiveram a audácia de contradizer a opinião sobre um barco de um tipo com mais de 300 000 milhas navegadas, e pior do que isso, não lhe pagaram o que deviam. Como em todas as profissões, sempre a aprender lições , umas mais caras que outras.

Na semana passada vi um barco a aproximar-se do porto das Lajes e fiquei a ver a manobra, especialmente para ver como é que o skipper se desenrascava sozinho. Aplaudi interiormente, não teve defeito nenhum, e como o mundo é pequeno nesse mesmo dia recebi uma mensagem do meu amigo inglês pelo FB:

-Está um tipo nas Flores que precisa bem de um amigo, chama-se Morten , boa pessoa.

-Um dinamarquês sozinho, barco de aço,  estai de vante partido?

-Esse mesmo.

Fiz conta de o ir lá ver, oferecer-lhe uma boleia para algum lado e companhia para uma cerveja, e no dia seguinte recebi um telefonema da marina. Resumindo a história, o Morten ia-se embora e o dono do barco queria alguém para o levar para o Faial, não tinha experiência. Viagens longas já não me interessam mas daqui ao Faial é viagem para sair de manhã e chegar lá na tarde do dia seguinte, e a oportunidade de ganhar em dois dias o que ganho no restaurante num mês, disse que sim e fui ver o barco.

É um barco de uns 45 pés, de aço e principalmente ferrugem, comprado no Panamá por 10000 dólares e num estado um bocado lastimável. Dei os parabéns aos Morten por ter conseguido atravessar sozinho naquilo sem grandes dramas, não o levei nada a mal por largar o barco numa desordem medonha e fiquei à espera do proprietário, que chegou hoje.

Mais um yuppie dinamarquês que está cheio de dinheiro, sonha com voltas ao mundo à vela mas como é mais esperto do que o resto das pessoas achou que era um negocião comprar aquele  barco por aquele preço e que compensava comprá-lo, aparelhá-lo, pagar o transporte do Panamá para a Dinamarca e lá fazer os fabricos todos para o deixar em ordem. Deve ser muito bom de matemáticas mas nisto ignorava muitos custos e variáveis e a cara e atitude do homem quando estive com ele hoje no barco era de desânimo. Já conheci muitos, e ainda não percebo bem como é que alguém compra um barco pela internet sem o ver ao perto só porque as fotos são bonitas e o preço é em conta. Sem ter a noção dos custos de navegação e recuperação e de tudo o que encolve uma travessia oceânica. Estes yuppies, como são ricos aos 30 e leram muitas revistas de vela, pensam que sabem mais que os outros e quando a sua ideia peregrina começa  a encravar e as facturas começam a chegar, lamentam muito, sentem-se enganados.

Está aí com duas filhas pequenas, não vi mais ningúem, com uma expressão desconsolada e inquieta, e o facto de o nosso porto ser desconfortável não ajuda. Já me pediu para o ajudar nas reparações necessárias para zarpar, eu já lhe disse que sim , mas vai pagar à dinamarquesa, e vamos então ver se para a semana lá levo  o chasso para o Faial.

Não vai antes porque daqui a umas horas embarco para a Terceira com a tripulação do S.Pedro, que já foi a semana passada num contentor. Este fim de semana corremos as três regatas do Campeonato Regional de botes Baleeiros, já estou cheio de nervos. Ainda podia recomendar aos interessados verem na RTP Açores mas o ano passado já deu para perceber que a RTP manda 2 repórteres mais 3 técnicos, carros e barcos e passa as tardes a acompanhar a prova e depois passa dez segundos de imagens pelo que não vale a pena.

Milagre!

Se fosse precisa prova de que ver notícias pela televisão não serve para ficarmos informados esta história dos miúdos presos na gruta veio reforçar a ideia. Durante não sei quanto tempo não se falou de outra coisa, desapareceram assuntos que há pouco eram gravíssimos, tal como no mês passado não falaram de outra coisa sem ser do Sporting, e o que é interessante é que vai tudo em manada. É como as minhas ovelhas, para as levar para algum lado basta-me que uma arranque numa direcção, as outras vão logo todas atrás, nunca falha. Na imprensa é o mesmo, começa um a falar, começam todos e em pouco tempo todos os canais estão a falar do mesmo. Ridículo.

Seria altura, penso eu na minha ignorância, para um director de informação de um canal decidir cobrir outro tópico e ser alternativa, mas não. Parece que têm medo de falhar se não falam do mesmo que os outros todos falam, e como a relevância de qualquer tema é bastante subjectiva, isto torna-se um bocado doente.

Quase todos os dias a meio da manhã vou beber um café e nesta semana todos os dias, quando olhava para a televisão o tema era a caverna da Tailândia. Amanhã será outra coisa qualquer, vão uns a reboque dos outros e só largam quando os outros largarem.Vi especialistas em meditação a explicar como a meditação pode ter ajudado as crianças, vi   mergulhadores a explicar em detalhe penoso o que é aparente para toda a gente em cinco segundos (é difícil e perigoso mergulhar em cavernas) e vi os órgãos de comunicação social a enviarem pessoas à Tailândia, porque é sabido que se não tivermos um tuga em directo no local não somos capazes de perceber o que se está a passar só com a informação que chega de lá. Gastaram rios de dinheiro para acrescentar ZERO, não me admirava nada que tivessem entrevistado um português de férias na Tailândia para dar a sua opinião abalizada e pertinente ou encontrado um tailandês que tem um primo que um dia passou pelo Portoe  que estava chocado e esperançoso.

Espero que alguém  tenha perguntado que raio de ideia  é ir enfiar-se numa caverna reconhecidamente perigosa com um grupo de garotos, mas se o professor é um herói para os Tailandeses não serei eu a acusá-lo de inconsciência e irresponsabilidade, eles é que sabem e a eles é que  diz respeito. Salvaram-se todos, herói. Se morressem todos, vilão, mesmo que ele tivesse feito exactamente a mesma coisa. Curioso. Também fica mais uma para a longa lista de respostas que tenho para dar a quem periodicamente se interroga “mas as Forças Armadas servem para quê, mesmo?” .

Igualmente curioso mas muito mais divertido é o título desta notícia do Público de hoje : Milagre ou ciência?Não se sabe .  Não se sabe??  Milagre seria os 13 tivessem aparecido à entrada da gruta sozinhos sãos e salvos, ou se  as águas tivessem descido sem explicação, mas  atinge-se um cúmulo quando se chama milagre a uma operação internacional de resgate da qual se conhecem todos os passos, todos os intervenientes, todo o equipamento e métodos usados. Sabemos como desapareceram, como sobreviveram, como foram encontrados e como foram resgatados e nada em nenhum passo sugere intervenção sobrenatural, mas nunca falta quem queira agradecer o que não percebe ao que não conhece.

Tenho uma pergunta para os defensores de tese do milagre na Tailândia:

O Vaticano avança que os bispos católicos do Congo lançam um apelo para que se salvem milhares de crianças que morrem de fome, neste preciso momento.  O mesmo  deus omnipresente e omnipotente que tornou possível o salvamento de  12 miúdos tailandeses presos numa caverna  está a deixar morrer milhares de crianças à fome no Congo de tal maneira que  até os seus vigários na Terra apelam aos Homens que façam alguma coisa, porque pelos vistos deus não é capaz. Ou não tem tempo. Ou não quer. Alguém quer avançar uma explicação para isto? Ah,  não se incomodem, já sei : as vias do Senhor são misteriosas. Corre tudo bem: Aleluia, Deo Gratias. Corre tudo mal : ah , humanidade malvada. Ninguém me explica isto.

Um nome

Conheci uma mulher que chegou aos Estados Unidos com 4 anos, refugiada do Laos,  casou-se com um americano, emigraram para aqui há uns anos e agora separaram-se, com duas criancinhas pequenas pelo meio. Como gosto de crianças (dos outros e por períodos curtos) fui “conversar” com os miúdos, mas são muito tímidos e quase que fugiam. Perguntei à mãe o nome deles, ela respondeu-me “Odin e Mitra” e eu escavaquei-me a rir, não consegui evitar.

Claro que pedi muita desculpa e expliquei que a minha reacção deveu-se ao facto de  no sítio de onde eu venho “mitra” significar algo muito diferente do deus romano ou lá o que quer que seja que eles tinham em mente quando baptizaram o miúdo. Disse-lhe que se ele vivesse sempre aqui ia dar ao mesmo, mas que se o garoto fosse por exemplo para Lisboa e se apresentasse na escola a dizer “Olá, sou o Mitra e tenho dez anos” os outros iam-lhe fazer a vida negra e ia para o resto da vida ver reacções como a minha. Sem maldade de espécie nenhuma ( excepto no caso dos outros garotos, todos conhecemos a crueldade de que são capazes as crianças)  , por simples surpresa e espanto.

Toda a gente conhece um Jean Pierre Silva ou um John Silveira, os “nossos” emigrantes do século passado demonstraram o que é para mim uma grande sagacidade e sensatez na hora de baptizar os seus filhos nascidos noutros países: eles vão viver aqui, temos que lhes dar um nome que os ajude a integrar, a preservação da raiz fica a cargo do apelido mas o nome deve ser um nome do país. De igual modo sempre me causou ligeiro espanto que pais emigrados por exemplo em Inglaterra chamassem aos seus filhos Ahmed ou Shrinavesh , fazendo questão de carregar as crianças com um nome que, quer queiramos quer não, lhes pendura ao peito um  cartaz a dizer “estrangeiro” quando não são estrangeiros. Sempre achei que a obrigação primeira dos emigrantes é adaptar-se aos usos e costumes do país de acolhimento mas  parece-me que isto afinal não é muito  pacífico.

Na altura da minha vida em que estive mais perto ( e ainda assim bem longe) de ser pai, tinha discussões ligeiras com a “mãe”, que era americana. Eu queria chamar Vasco a um eventual garoto  mas era porque não fazia conta de passar a vida toda na América e sonhava em viver cá, mas  se a coisa se tivesse dado acho que  não tinha sido preciso muito para a “mãe” me convencer a chamar-lhe outra coisa, o tal nome comum do país de nascimento.  Um nome pode influenciar a vida de uma pessoa mais do que imaginamos e pode ser determinante. Há uma canção muito engraçada do Johnny Cash  chamada A boy named Sue que conta a história de um pai que não ia poder acompanhar o crescimento do filho e como o queria rijo e forte deu-lhe esse nome, sabendo que sendo chamado Sue ia ter que lutar a vida toda. Resultou e ele cresceu forte e independente e seguro, mas no fim da canção, quando o filho encontra o pai, dá-lhe um murro na cabeça por lhe ter feito a vida num inferno a carregar esse nome. Acho falta de consideração, egoísmo e ignorância escolher um nome para uma criança só porque gostamos do nome, sem ponderar bem as consequências que pode ter na vida da criança, porque as terá.

Estava a explicar essa minha opinião à minha quase vizinha Laociana ( ela própria com um nome quase  impronunciável) e ela começa a desfiar a novena do mundo globalizado em que um nome é só um pormenor e a dizer que todos os dias instila nos filhos a ideia de orgulho no que está  e no  que é, e a indiferença absoluta às críticas e comentários alheios. Mais fácil dito que feito, e muito mais fácil ainda dizer a um garoto chamado Mitra que deve ignorar os outros garotos que vão gozar com ele à grande  por se chamar Mitra. Pais com 30 anos pensam que orientam bem e compreendem como se sentem e interagem crianças de 7 e transferem para eles as suas convicções e processos de pensamento quando as crianças…bom , são apenas crianças. A mãe pode-lhe dizer todos os dias “não ligues” mas quem lá está e quem liga ou não é a criança, não é mãe.

“Eu digo-lhes sempre, todos os dias, que se devem orgulhar de tudo o que são, que são perfeitos”.

Aqui calei-me de vez porque não é boa política confrontar pessoas com incongruências em relação ao modo como educam os filhos, especialmente quando não os temos, mas achei essa frase paradigmática do modo como muitos pais modernos criam e educam os seus filhos e as consequências que isso tem para toda a gente. Um diálogo a seguir a isso seria mais ou menos assim:

– Dizes-lhes todos os dias que são perfeitos?

-Sim!

-Mas sabes que não são perfeitos, ou não sabes?

-Como?

-Certamente sabes que não existe ninguém perfeito e que todo o ser humano carrega vários defeitos, ou não?

– Sim…

-Se compreendes que todas as pessoas têm defeitos e apesar disso martelas todos os dias na cabeça dos teus filhos a idéia de que são perfeitos, estás a deixar as bases para acontecerem  coisas muito desagradáveis quando a realidade lhes mostrar que afinal não são nada perfeitos e que o mundo não gira à volta deles.

É conversa que nunca vou ter, apesar de também me dizer a mim respeito, porque mesmo não tendo filhos tenho que viver ( e vou ser governado, entre outras coisas) com  uma geração que acredita que é espectacular, única, perfeita, e que o Mundo está errado quando não lhes reconhece esse valor nem lhes dá o que acham que merecem.

Desejo só felicidades e boa integração ao Mitra e ao Odin, vivam onde viverem.Da minha parte, se tivesse um filho, dava-lhe um nome antigo e comum no país onde fossem crescer e fazia questão de que soubessem desde pequeninos que não são perfeitos, não são super, não são geniais nem únicos nem muito diferentes de todos os outros e se querem ser melhores que os outros têm que trabalhar e demonsntrá-lo.

 

PS: a história da mãe desse dois, hoje sozinha num país estranho e sem nacionalidade  nem  passaporte  lembrou-me a de um tipo que conheci na Suécia há quase 20 anos. Tinha sido adoptado da Coreia do Sul ainda bebé, e ainda bebé os pais separaram-se e nenhum o quis, deixando-o sozinho à conta do Estado, sem mais nada nem ninguém. Ao menos chamaram-lhe Johann, o que lhe facilitou um pouco a vida.

Terra Comum

Este diálogo teve lugar ontem  no café da vila:

-Ó Jorge, não queres comprar lã?

-Ome não! Já dei a minha toda este ano , só serve para pôr no pés das arvores de fruto. ( este ome não/ome sim é dos meus regionalismos favoritos, volta e meia dou por mim a usá-lo e as pessoas sorriem)

– Dantes a minha mãe fazia isso tudo, lavava, cardava, fiava e depois fazia-nos camisolas. A gente não gostava nada daquilo porque dava muita comichão mas a minha mãe queria que as levássemos por causa do frio, a gente não tinha outras, dizia-nos que as camisolas salvavam dos relâmpagos, para a gente não as tirar. Dantes havia mais relâmpagos do que agora.

Este dantes , quando as pessoas daqui tinham que fazer a própria roupa, de péssima qualidade, com o que saía da terra, com esforços que hoje poucas pessoas concebem , é o passado que muitas pessoas romantizam, para minha irritação profunda.

Isto a propósito de uma proposta do Orçamento Participativo dos Açores,   que está a votação entre outras 12 para a Ilha das Flores. Um orçamento participativo é um dispositivo mediante o qual os políticos dispensam uns milhares  de um orçamento de milhões para financiar propostas dos cidadãos, dando assim uma ilusão de participação nas decisões sobre alocações de fundos. As pessoas ficam contentes e agradecidas por verem dez mil euros concedidos a um projecto por um gabinete que consome isso em ajudas de custo para os seus funcionários por semestre ou perto. Podia ser pior, podia não haver maneira de ver uma ideia saída da sociedade civil financiada sem ser pelos processos habituais, nomeadamente as boas ligações familiares e políticas.

Fui ver que propostas havia este ano porque recebi uma mensagem de uma amiga a pedir-me para ir votar na proposta deles. Começou mal porque um dos hábitos contemporâneos que mais me irrita ( isto hoje anda de irritações, deve ser do tempo que faz) é enviar  mensagens  a 500 pessoas a pedir alguma coisa. Se me querem pedir alguma coisa ao menos escrevam o meu nome, é o mínimo, se começam com um olá genérico e é aparente que aquilo é copiado e colado para toda a gente perdem logo 50% da minha eventual atenção e boa vontade.

Bom , então a proposta dos meus amigos chama-se Terra Comum e “abraça o conhecimento popular, resgatando a simplicidade e autonomia da vida antiga da ilha, aliando-a ao conhecimento moderno, tornando assim a vida quotidiana mais sustentável, saudável, diversificada, participativa e solidária.” 

Começo por dizer que sou amigo dos proponentes disto , sempre me dei bem com eles e considero-os pessoas impecáveis, mas isso comigo não isenta ninguém de críticas, tal como  recebo bem críticas que me fazem amigos que também me acham um gajo porreiro mas discordam de mim em muita coisa, acho que deve ser assim.

O meu problema com a Terra Comum começa logo no nome, porque eu acho que a terra que é comum são as estradas e os edifícios e terrenos públicos e tudo o que tem proprietário não é comum. As ideias e propostas comunitárias esbarram logo num conceito  quase tão velho como andar para a frente, a simples , famosíssima e ainda assim demasiado ignorada Tragédia dos Comuns .  Exemplo flagrante dessa tragédia  no nosso tempo é a devastação dos Oceanos, o bem comum por excelência, mas esses exemplos cristalinos não demovem os apologistas da comunidade. Além dos Oceanos e do seu estado evidente temos mais exemplos de  desgraças na  gestão pública, quando a coisa é de todos, todos são responsáveis e isso acaba por se traduzir na prática em ninguém ser responsável.

Para mim uma das maiores e mais fundamentais distinções nas bases ideológicas das pessoas é  entre  os que acreditam que os Homens são naturalmente “bons” e solidários e os que acreditam que os homens são naturalmente e geneticamente dedicados a prosseguir os seus interesses particulares. Na impossibilidade, para mim evidente, de se alterar a natureza humana, o que se deve fazer é conciliar e organizar os interesses individuais de modo a gerar o máximo de bem comum, como por exemplo no comércio: eu tenho 5 quilos de X , o meu vizinho tem 5  moedas, vendo-lhe 2,5kgs por 2,5 moedas e ficamos ambos melhor do que o que estávamos. Isto é complicado demais para  muita gente que acredita que eu devia, por altruísmo e igualitarismo, dar metade do meu X ao meu vizinho por ele não ter nenhum X e que ele , por sua vez, por solidariedade, me daria 2,5 moedas porque o que seria justo era termos todos o mesmo número e quantidade de objectos e moedas, só porque somos todos humanos. Recuso isto, para mim a igualdade que importa é a igualdade perante a Lei e a igualdade de tratamento entre os Homens, de resto todo o Homem que se levante acima dos outros sem desrespeitar essas igualdades fundamentais merece lá estar.

Voltando à proposta da Terra Comum, o que se propõe é recolher os saberes e modos de fazer ancestrais da agricultura, coisa que levaria , acredita-se, a um futuro mais sustentável, palavra que está em risco de se gastar de tão usada. Ora, se todos vivêssemos em barracas de madeira sem electricidade, andássemos a pé ou de burro e comêssemos o que se produz na nossa vizinhança segundo os modos e saberes ancestrais não há dúvidas de que o meio ambiente não sofria, o ar , a agua e os solos seriam limpos e não teríamos todas as pressões consumistas que temos.

De igual modo, se recusarmos a medicina e a farmacopéia moderna e nos virarmos para os saberes ancestrais também negamos lucros exagerados às diabólicas multinacionais e evitamos habituações e efeitos secundários tenebrosos, mas voltaremos a um tempo em que a esperança média de vida andava pelos 40 e de cada 3 crianças que nasciam morria uma, era mais natural.

As pessoas que defendem, particularmente nesta ilha, esse regresso aos saberes ancestrais esquecem-se de que existem boas razões pelas quais grande parte deles foi actualizado ou substituído: encontrou-se uma maneira melhor de fazer as coisas. Um projecto que defenda uma agricultura como ela era há 50 ou 100 anos defende uma agricultura no limite da subsistência em que a variedade alimentar andaria  pelos dez géneros distintos e em que havia FOME, há que dizê-lo com todas as letras, muita fome nesta ilha, a razão que fez com que de uma população de 12000 pessoas no século XIX passámos a 3500 hoje. As pessoas emigraram em massa por causa da miséria, miséria causada e perpetuada por uma agricultura incipiente, “ancestral”, que exigia esforços hercúleos e dava recompensas magras. As pessoas emigraram em massa porque a “autonomia” que este projecto reclama condena-nos ao isolamento e priva-nos dos contactos e comércios com o exterior, o motor da evolução .

Como disse, conheço pessoalmente os promotores da Terra Comum. São todos jovens da classe média urbana aos quais nunca faltou nada na vida e se faltou foi por escolha e rebeldia. Jovens que tiveram todas as oportunidades de estudar e viajar e aprender e evoluir, jovens que não morreram de varicela porque foram vacinados, jovens que se alimentaram bem porque a agricultura e distribuição moderna lhes permitiu isso, jovens que queimaram carbono às toneladas nas suas viagens pelo mundo nas quais descobriram as maravilhas de um mundo idealizado no qual se tivessem nascido dificilmente teriam passado de camponeses sub nutridos, estáticos e ignorantes, mergulhados no obscurantismo.

São pessoas assim que hoje por todo o lado no ocidente evoluído reclamam  um regresso a um passado de doença, escassez e desconforto (como as camisolas de lã da infância do meu vizinho) e que não desistem de idealizar e romantizar esse passado enquanto diabolizam  o progresso material da humanidade como causa dos nossos problemas.

Precisamos de idealistas, precisamos de pessoas empenhadas na conservação do património cultural , na defesa do ambiente e na busca de soluções para os problemas reais e dramáticos que enfrentamos como espécie e sociedade, mas não precisamos nada de pessoas que acreditam que voltar ao passado, mesmo que fosse possível, resolveria  alguma coisa. Já lhes disse que apoio a ideia deles de recuperar terras incultas e trabalharem na agricultura biológica, têm em mim um cliente regular se os preços forem competitivos e sei que há  muito dinheiro a ganhar na horticultura nesta ilha, para quem esteja disposto a mourejar na Terra de sol a sol…como era antigamente.

Desejo-lhes sorte, se a proposta deles ganhar vou-lhes dar os parabéns porque, como já disse, são excelentes pessoas e bem intencionadas…mas eu votei numa proposta que pretende melhorar o ensino de música na ilha.

Dispensa de lógica

Há cerca de 7 anos criei uma empresa, por ignorância, ingenuidade e optimismo injustificado. Essa  empresa, que já extingui com grande custo,  foi o meu curso intensivo sobre o modo como o Estado opera, depois de quase 20 anos de existência pacífica e livre em que nem desconfiava das manigâncias que se fazem na Administração Pública e ganhava a vida sem contacto de espécie nenhuma com ministério,  autoridade ou direcção geral de seja o que for.

Pouco tempo depois da criação da empresa recebi um email da AT a dizer-me que tinha um email a consultar na Via CTT. Como nessa altura não partia do princípio de que o aparelho administrativo está repleto de idiotias e absurdos pelo que podemos sempre esperar um a bater-nos à porta, pensei: Não faz sentido nenhum mandarem-me um email a dizer que tenho um email, ainda por cima não sei o que é a Via CTT, pelo que a AT, se tem alguma coisa a comunicar-me, vai-me mandar a mensagem ou para o meu email que pelos vistos conhecem, ou para  a minha morada física, que também conhecem.  Ah ah ah.

Então um génio qualquer da administração, ou grupo deles, decidiu que todos os contribuintes deviam passar a ter , quer quisessem quer não , quer fosse necessário quer não, uma caixa de correio electrónica nos CTT.  Achei  isso estúpido e abusivo demais para ser verdade e não me dei ao trabalho de ir configurar uma nova conta de email para poder receber os periódicos avisos de extorsão. Correu-me mal porque a AT decidiu mesmo que ou aderíamos à Via CTT ou não nos mandavam avisos e quando recebi pelo correio a multa ( para isso já se lembraram da minha morada) era tarde demais. É em ocasiões assim  que dou muito valor à interdição que temos de ter armas de fogo porque imagino bem alguém a quem o Estado faz uma brincadeira destas a perder a cabeça, entrar numa repartição e correr tudo a tiro.

Extingui a empresa este ano  ( uma empresa que nunca chegou a fazer uma transacção ou um movimento mas que o Estado me cobrou forte e feio para existir , e depois para extinguir) e com isso deixei de ouvir falar na via CTT até ontem , quando vi uma notícia que devia ser para emoldurar como exemplo do funcionamento do Estado : ” Contribuintes que não aderiram à Via CTT podem pedir dispensa de multa” 

Leram bem , “pedir dispensa de multa”. Então o Estado primeiro obriga toda a gente a aderir a um serviço de email redundante e desnecessário; usa esse serviço como meio exclusivo de comunicação, sabendo que grande parte dos contribuintes não sabe ou não quer usá-lo; a seguir, perante o incumprimento de pessoas que, em casos como o meu, nem sabiam que estavam em incumprimento , desata a multar os cidadãos e empresas. Finalmente, quando a burrada se torna aparente, oferece uma “dispensa de multa”, conceito novo e cheio de potencial. Não é um perdão nem uma anulação, dispensam-nos de uma multa na qual incorremos porque o Estado nos obrigou a usar um serviço desnecessário, sem avisar.  Eu vi a notícia na Lusa mas gostava de saber que meios vai usar o Estado para informar a generalidade das pessoas que foi multada de que pode ser dispensada, e gostava de ver um jornalista, se ainda houver para aí algum, a perguntar ao senhor que manda nesse departamento, se o facto de se estar a dispensar pessoas de pagar a  multa não é a admissão de que a multa não faz sentido, e não fazendo sentido , quem é o responsável pela salganhada e quem é que vai ressarcir os contribuintes que já pagaram por não saberem da possibilidade da “dispensa”.

Ainda ontem no restaurante vi outra que vai para a Galeria da Estupidez Estatal: o restaurante é obrigado a proceder a uma desratização mensal. Os donos , muito porque na ilha não há serviço de desratização e o técnico tem que vir de fora, faziam a desratização de dois em dois meses. Isto era inadmissível e uma ameaça clara à saúde pública, e lá veio o IRAE  (a nossa ASAE) remediar a situação e defender o consumidor, levantando um auto de contra ordenação. Vi ontem o relatório em que os técnicos, vindos de propósito (à nossa conta, obviamente) gastam várias páginas com jargão coberto de decretos lei ,  parágrafos e regulamentos para explicar a infraçcão e a coima que foi aplicada. Sucede que também aqui houve uma dispensa qualquer e nas últimas linhas do relatório, as que têm números, lê-se que a coima aplicada é de 0€ e que os custos do processo são  52€. Não têm que pagar multa nenhuma, têm só que pagar os custos do processo que estabeleceu que não têm que pagar multa nenhuma. Lindo.

 

Correio Transatlântico

Há coisa de cinco anos estava em Fort Lauderdale a tratar de uma viagem para o Peru e a atar as “pontas soltas” que lá tinha deixado, nomeadamente alguma tralha que tinha num armazém. Estes armazéns públicos, tipo colmeias em que as pessoas alugam espaços desde os dois m2 aos 50m2 ou  mais e que existem por todo o lado  são muito ilustrativos do “modo de vida americano”: as pessoas fartam-se de trabalhar para comprar coisas e quando se acaba o espaço para as coisas alugam um armazém e pagam para guardar tudo o que compraram e não precisam.

Nessa altura não foi por acaso mas foi quase , encontrei um velho amigo,  skipper inglês, que estava  a aparelhar um barco para regressar à Europa. Como ia para a Europa tinha paragem obrigatória nos Açores, pedi-lhe se me trazia um saco com umas roupas e livros, sem pressa nenhuma, e se não parasse nas Flores podia deixá-lo na Horta onde não me faltava gente para o receber.

Disse logo que sim, enfiei o saco num paiol e aí ficou cinco anos até ontem, quando  foi entregue em mão no cais das Lajes.

IMG-0113

O meu amigo já seguiu hoje viagem para o Faial, parou aqui mesmo só para me entregar o saco, conhecer o meu cão e beber uma cerveja. Pode-me faltar uma ou outra coisa na vida mas tenho  outras que não têm preço .