Febre

Daqui a uns tempos vais ver que as febres aqui não dão com muita força e passam depressa.

Diziam-me isto a respeito da febre dos botes da baleia, eu sofro de um caso galopante e espero que haja mais contaminação mas mantenho sempre as expectativas baixas.Cada bote precisa de 7 tripulantes e numa ilha como esta, mesmo no verão, isto não é lá muito fácil de conseguir. As febres de Verão são reconhecidamente curtas e além disso há muitas outras  condições locais a conspirar contra o sucesso disto. O sucesso , para este ano, seria  levar os dois botes com companhas completas à Semana do Mar e acabar todas as regatas. Se depois disso houvesse condições para reorganizar o clube naval, melhor.Não faço apostas.

Entretanto já mudei outra vez de bote, tinha passado do  S.Pedro para o Formosa “por empréstimo” mas dada a desistência forçada do oficial do S.Pedro, voltei. Havia um oficial “nominal” e havia um moço que ia ao leme, sucede que ele não tem 18 anos, há idade mínima nas competições, e sendo assim, vou ser eu.

Por um lado fico contente, por outro nem por isso porque é uma grande responsabilidade e, sem falsas modéstias, não sei bem se vou estar à altura, há uma diferença abismal entre a vela que me é familiar e os botes da baleia, mas não me resta mais que não prometer nada e fazer o melhor que conseguir. Faltam 15 dias para as regatas no Faial, faltam sete dias  até os botes serem metidos no navio, é nesses sete dias que temos que arriar o bote tantas vezes quantas forem possíveis para nos prepararmos o melhor possível para uma competição onde vão estar mais de 25 botes, todos com tripulações com anos de experiência em competição e fora dela. Isto dava um argumento para um filme.

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Esquemas de Imagem

Há  4 anos passei pelo Panamá a caminho do Peru  e um português amigo meu que lá trabalhava pôs-me em contacto com uma rapariga alemã que lá tinha comprado um barco e estava na mesma marina onde está toda a gente do lado Atlântico.

A moça estava a iniciar uma aventura marítima que passava pela compra de um veleiro  usado e posteriores navegações, o meu amigo tinha-a conhecido  quando ele  trabalhava em charters e , como toda a gente, tinha passado uns tempos encravado em Shelter Bay .Tinham-se dado bem e ele, sabendo que eu estava para chegar,  disse-lhe para me procurar, que eu era um gajo com experiência e que lhe podia dar umas dicas.

A marina em causa é pequena e isolada, parece um enclave ou um resort, há aí pelos arquivos muitos posts sobre essa passagem pelo Panamá como este . Como essas marinas são um mundo  pequeno, eu tenho um radar muito afinado e a moça é bonita, reparei nela nem passava uma hora de ter lá chegado.O contrário não se verificou , coisa a que estou habituado, faz parte da ordem natural do mundo, já me afectou mas hoje é-me absolutamente indiferente, espero sempre precisamente zero e já nada me desilude por uma simples razão: já nada me ilude. Passei por ela ao pé do seu barco, foi como se não passasse. O que também é verdade é que há uma diferença enorme entre um desconhecido com a minha figura que passa por ali e o capitão de um catamaran novo de 58 pés vindo de St.Barts  a caminho de Peru, é daquelas coisas que nos tornam logo pessoas mais interessantes, que vale a pena conhecer, e a rapariga, ao receber a sugestão do meu amigo, veio ter à mesa onde eu estava com a tripulação.

Fui o mais civilizado possível mas sabia bem que a rapariga estava ali para falar com  o Capitão Ventura e não com o Jorge. O Jorge até teria  gostado muito de a conhecer mas  o Capitão Ventura tinha mais que fazer e nunca teve muita  paciência para amadores armados em aventureiros. O meu  horário estava apertado, a escala contava-se em horas,  entre trocas de tripulação, manutenção das máquinas e partida para Bocas del Toro para ir buscar os donos do barco que estavam para chegar de avião particular. Ainda assim e por atenção ao meu amigo convidei-a  para passar no barco mais tarde.Passou já  era de noite quando eu e o imediato ainda estávamos a suar enfiados nas casas das máquinas, viu logo que  aquele barco e o seu programa eram o mais distante possível do barco dela e dos seus sonhos e que não ia levar dali nada. Levar dali nada no sentido de algum favor, dica, contacto ou serviço  em tempo útil, porque ao contrário dos velhos todos que passavam o tempo a babarem-se para ela, a inventarem histórias, a trabalharem para ela e a partilhar as suas experiências muitas vezes ridículas, eu não tinha tempo nem interesse , não lhe ia oferecer nenhum presente nem ajuda nem dar a atenção a que ela está habituada. Moça inteligente como é nem sequer pediu para ver o barco por dentro, disse que como estávamos ocupados falávamos depois e foi-se embora. Na madrugada seguinte zarpei para Bocas del Toro e só voltei a essa marina depois de uma semana.

Lá continuava ela de volta do chasso ferrugento e cansado que tinha comprado sem saber navegar nem sequer apertar um parafuso, com a sua corte de iatistas reformados e vagabundos sortidos a tentar a sua sorte.  Vi-a passar com um bote de borracha a sair da oficina

-Bote novo, muito bem.

-Foi uma prenda, o não sei quantos sabia que eu precisava de um ,comprou um novo para ele e deu-me este

-A sorte das mulheres bonitas, nunca se lhes nega nada.

Deu-me um sorrisozinho ambíguo, seguiu caminho a arrastar o bote e foi a última vez que a vi.

Apesar disso, graças ao incontornável facebook, volta e meia vejo notícias dela, que usa essa rede social e um canal do youtube de uma maneira perfeitamente comercial. Inventou uma “organização” de objectivo incerto para além de lhe permitir andar de barco. Reuniu um número considerável de seguidores que mantém interessados com historietas e vídeos, sem nunca conseguir realmente  arranjar o barco, que como relíquia que é , é impossível de arranjar e de preparar para uma navegação séria, eu não embarcava naquilo se envolvesse perder a costa de vista, e mesmo assim não sei. À falta de alguma navegação séria  ou progresso e exploração real, tem a atracção,valor e  força toda na sua simpatia e beleza física, que não são pequenas. Angariou patrocinadores que lhe pagam estes passeios e esta vida mansa nos trópicos, e seguidores que não se cansam de a encorajar e de lhe afagar o ego, mesmo talvez sabendo que é uma menina europeia rica que passa 3/4 do ano na praia a fingir que se farta de trabalhar a arranjar um barco para ir ninguém sabe onde fazer ninguém sabe o quê, para nada mais do que o seu entretenimento e satisfação pessoal.

Passados mais de quatro anos vi hoje que ainda está no Panamá, recebeu ontem um motor novo para instalar num barco que vale muito menos que o motor, cortesia de um patrocinador que tem que achar que tem retorno,  que aquilo funciona, em termos de imagem. Tudo neste mundo é medido em termos de imagem .

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Se esta moça tivesse mais 50 quilos e não tivesse um  palminho de cara  estava possivelmente a trabalhar nalguma caixa de supermercado na  sua Alemanha natal, a poupar para as férias, a sonhar com os trópicos e com alguém que um dia a levasse lá. Como é assim pagam-lhe o modo de vida, não lhe exigem absolutamente nada e “seguem-na” aos milhares, com retorno de capital em “visualizações”, “partilhas”, patrocínios e apoios vários.

Podem dizer que isto  é inveja de um gajo que nunca conseguiu nada à custa do aspecto, que gostava era de ter o talento para fazer outros darem-lhe dinheiro, que queria  era  ter sido capaz de fazer o mesmo enquanto navegou, de usar a imagem , que toda a gente sabe que hoje em dia também se pode preparar e melhorar.

Não me parece que seja isso, acho que é mais um lamento por um mundo em que o que parecemos se sobrepõe ao que somos e fazemos, podemos não fazer nada de jeito mas se parecermos bem ao fazê-lo, meio caminho andado. Nesta época em que cada um pode ser o seu publicista, realizador , produtor e relações públicas isto é muito mais aparente. A forma em prejuízo da substância, a aparência como modo de vida.

Ciganos

Como não acompanho o ritmo das televisões não sei o que é que trouxe os ciganos outra vez para o debate, mas temos aí o politicamente correcto em grande forma.As acusações voam, .os vigilantes do pensamento e do discurso saíram em força, o Bloco de Esquerda arvora-se outra vez em Campeão da Justiça.Com a hipocrisia e falta de vergonha que lhe assiste deixa passar em claro problemas nacionais graves (siresp, Tancos, etc) para se eriçar quando pessoas criticam uma minoria, isso sim , problema nacional sério, para quem não acha que a liberdade de expressão se sobrepõe ao valor das opiniões. Aqui há cinco anos chamava-se  nazis aos alemães e puta à Angela Merkel entre risadinhas inanes , tudo bem , mas aqui d’El Rei se alguém diz que os ciganos parasitam o Estado.

Passam os anos e nada muda, deixo aqui um texto de 2007 com a minha opinião sobre  ciganos.  Para o caso da Inquisição me querer vir bater à porta por causa das minhas opiniões: Avenida do Emigrante 40b , Lajes das Flores.

Passei quinze diazinhos em Londres , cidade que desde os último alargamentos da União Europeia teve um influxo enorme de imigrantes , maioritariamente da Europa de Leste.Isto foi passando sem problemas de maior , principalmente porque os benefícios da emigração em geral são aparentes , especialmente numa Grande Cidade.Até que entrou a Roménia, com a sua minoria Roma , que nós conhecemos como ciganos.Enquanto os emigrantes vêm para trabalhar e acatar as leis do país, só os pobres de espírito e ignorantes podem ser contra eles seja qual for a cor ou religião . Mas isso não se passa nem nunca se passou com os ciganos , e as pessoas em geral , aqui ou em Inglaterra , mesmo correndo o risco de serem chamados xenófobos, não gostam deles. Em Itália houve recentemente uma “crise” por causa de centenas de milhar de ciganos romenos que , abertas as fronteiras , foram acampar para os arredores das cidades ocupar-se de actividades tão necessárias como a lavagem de pára brisas nos semáforos, mendicância e pequenos roubos. “estás a falar sem saber e a generalizar perigosamente” , podem-me dizer. Generalizar talvez , mas ao contrário da maior parte dos escribas e jornalistas do politicamente correcto e dos académicos que falam sobre ciganos , eu vivi perto de um acampamento de ciganos , existe uma “comunidade” considerável na minha terra e desde miúdo que convivi com a espécie.Fui roubado, insultado , agredido , sem razão nenhuma , eu e centenas, desde os tempos de miúdo na escola até à altura em que felizmente mudei de casa ,e nada disso foi compensado pelo preço módico das calças de ganga na feira. .O acampamento lá ficou, com os Mercedes , os tiros , a electricidade e àgua roubadas e o a imundice geral. E já estive na Roménia onde pude ver a comunidade na origem.Medonho.
 
O DN de dia 19 deste mês traz uma notícia que achei espantosa, não pelo teor dos factos mas pela maneira como é relatada.O título é “Autarquia estuda futuro de estação ferroviária ocupada e degradada”.
Então a estação de Moura foi abandonada há 18 anos e ocupada há 10 por um clã de ciganos.Uma comunidade.Ilegalmente, como é natural.Segundo a notícia , a estação está em “avançado estado de degradação” , os habitantes de Moura queixam-se (pedindo naturalmente o anonimato, dadas as características da comunidade em causa) mas a primeira queixa e crítica é para as autoridades. O chefe do clã , que se estabeleceu em propriedade alheia há uma década e nessa década não mexeu uma palha para tornar aquilo mais habitável “garante que sair dali não é coisa fácil” e a companheira diz que “se me derem umas casas ou um bocado de terreno para fazer uma barraca, entramos num acordo para sair daqui.Tenho ali coisas de valor que não vou pôr na rua” . Se me derem. Não pagam impostos , não mandam as crianças à escola, não pagam àgua , electricidade ou rendas , ignoram detalhes como cartas de condução ou seguros , os ciganos , como toda a gente sabe mesmo sem ter tido o privilégio da convivência proxima, são um grupo à parte , separado, e que se quer manter assim.Não quer, não lhe interessa a assimilação e é raríssima a familia que faz um esforço nesse sentido .Não tenho problema nenhum em saber que os ciganos não querem nada com o Estado e queiram manter a sua “pureza étnica”.O que me incomoda é que não querem nenhuma das obrigações mas estão prontos a reclamar benefícios que não fizeram absolutamente nada para merecer.Nada.Nem sequer fixar residência legalmente , como toda a gente.
O que é que aconteceria se algúem (tipo a Refer) quisesse cumprir a lei no caso de Moura , fizesse uma queixa e pedisse à GNR para evacuar a propriedade ocupada ? Algúem se lembra do clamor que foi por Braga aqui há uns anos, com outro clã de ciganos que até meteu o governador civil muito escandalizado e indignado a gritar “Perseguição, racismo , intolerância , aqui de’El Rei”.Haver BMW´s à porta de barracas parece ser natural .A poeira assentou e passados 15 dias lá foi a GNR encontrar quantidades de drogas ilegais , artigos roubados e/ou falsificados e armas de vários calibres.Nenhum jornalista se lembrou de ir pedir um comentário ao governdor civil sobre a comunidade perseguida. Ele também teve juizinho e desapareceu do radar , deve estar em Bruxelas , se calhar a trabalhjar na política europeia de imigração.
Deixem-me adivinhar o que vai acontecer em Moura….O presidente da camara é do PCP e nunca fará absolutamente nada que faça parecer que é um caso de autoritarismo ou racismo. No que lhe diz respeito, não é o caso ideal para fazer cumprir leis e impôr a ordem natural das coisas . O mais provável é pegar em dinheiro ou propriedade dos contribuintes e oferecê-los a esta comunidade , cuja contribuição para o progresso , bem estar e qualidade de vida em Moura é evidente , perguntem a qualquer pessoa que encontrem lá na rua.
-A comunidade vai deixar para trás a estação em escombros , instalar-se noutro lado sem que ningúem questione nada ( a não ser gente como eu , e baixinho porque não gosto de ser acusado de racismo nem quero levar uma carga de porrada quando estiver a voltar a casa uma destas noites) e continuar a dedicar-se às actividades tradicionais e seculares dos seus membros, que estão muito bem documentadas ,estudadas , referenciadas e conhecidas .
Se o verbo judiar é hoje um daqueles anacronismos que ouvimos da avó que tinha ouvido da avó dela na transmissão dos preconceitos que a realidade desmentiu ao longo do tempo , parece-me que enciganar vai demorar mais a perder o significado. Os cidadaõs pacatos, trabalhadores e contribuintes de Moura estão prestes a ser enciganados.

Árvore,livro, filho.

Já plantei muitas árvores, algumas vingaram, outras foram comidas pelas ovelhas, outras ainda vão crescer, a minha preferida é um castanheiro que está enorme , quando foi plantado era uma varinha com um metro e meio hoje tem quase sete metros e já posso lá pendurar a rede e deitar-me à sombra dele.

Filhos, não vou ter. Mesmo que houvesse condições materiais ( a começar por uma mãe para o filho) sempre fui  demasiado egoísta para querer sacrificar a vida toda por outro ser e passar a fazer a minha vida depender da vida dele. Se me permitissem adoptar um já criado era capaz de pensar nisso, mas de certeza que há uma lei ou regulamento  que não permite homens sozinhos adoptarem crianças.Se calhar com boa razão, não sei. Acho que já há gente bastante no mundo,  os meus pais já têm bastantes netos e a ideia de que as nossas crianças vão ser especiais e fazer a diferença é ainda mais egoísta do que não as querer ter para não nos condicionarem a vida.

Mesmo assim, duas em três não está mal e se bem que esta história da árvore, livro e filho vale o que vale (pouco), fico satisfeito por  ter escrito e estar aqui a publicar um livro. O que separa o ficheiro PDF que partilho aqui de uma edição em papel são 300 ou 400€ que me fazem mais falta para outras coisas e uma questão de princípio, não quero pagar  para publicar a história. Está  disponível para quem não se importar de ler num écran, em PDF, no menu superior e outra vez mesmo aqui ao lado.

 

A Festa

Volta a Festa do Emigrante, o ponto alto do ano nas Lajes e o fim de semana em que se vê aqui mais gente. Muitos emigrantes vêm ver as famílias e matar saudades, muitos estudante vêm de férias, muitos turistas vêm fazer turismo. Gosto de trocadilhos e ri-me bastante com a festa do irritante. Até aqui, onde os turistas se contam por poucas centenas durante dois meses  a presença de um número maior de pessoas parece que incomoda alguma coisa, mas é só brincadeira, tal como a referência à mosca de verão. O que é certo é que a maioria dos habitantes  aprecia muito o sossego e tranquilidade, e se bem que gosta da animação (e rendimentos) deste fim de semana, fica tudo satisfeito quando acaba.

Está a ilha cheia de emigrantes, é verdade que a América faz engordar e que as segundas gerações perdem o Português num instante. Como agora há wifi por todo o lado a ilha é mais atractiva, podem fazer milhares de quilómetros para vir para aqui olhar para os telemóveis. Noto que as criancinhas hoje (noto porque raramente vejo tantas todas juntas) estão muito mais fáceis de domesticar, é só por-lhes um telemóvel ou tablet na mão e eles criam-se sozinhos, se forem alimentados de vez em quando. Há as excepções , por exemplo dos filhos dos hippies (uso o termo muito liberalmente) , ainda ontem  vi um que está a começar a andar, um “franco alemão” sebento,  andrajoso e lindo que andava a gatinhar e a apanhar beatas do chão e metê-las na boca, apanhei-o e passei-o à mãe mas não disse nada, nem ela, porque não há problema nenhum. 8 ou 80 , ou andam vestidos de marca em ambientes esterilizados e entretidos por electrónica ou andam à solta a apanhar e comer coisas do chão.

Como nas antigas sociedades rurais, a festa anual é a altura de toda a gente “descer à vila” ao mesmo tempo, encontrar-se e falar dos assuntos da comunidade. Eu continuo  sem pertencer bem aos locais nem aos estrangeiros, com amigos e conhecidos dos dois lados e sempre tentando um equilíbrio. Do lado dos hippies ouvi protestos e incitamentos à sabotagem de uma draga que anda a tirar areia da costa. Pessoas que vivem em casas de madeira sem electricidade odeiam que se extraia areia, principalmente porque não precisam de areia e acham, com certa razão, que se toda a gente vivesse em casas de madeira sem electricidade o ambiente global sofria menos. Quanto à sabotagem , não é propriamente a táctica mais eficaz para combater excessos da indústria mas diziam-me que sim, que já o fizeram muito em França e na Alemanha. Perguntei por casos de sucesso além de barulheira e aparecerem na televisão a dizer coisas, mas não foi possível, ninguém se lembrava de um exemplo de sucesso mas certamente que os há. Por azar não foi nenhum em que estes estivessem envolvidos. No caso da draga que aí anda a acção de sabotagem nem sequer foi ponderada  a sério, principalmente porque parte da tripulação da draga é cabo verdiana. As acções variam de gravidade consoante a etnia de quem as pratica, estou sempre a aprender com os hippies.

Também aproveito para lhes moer a cabeça com o Português, eles sabem que eu falo francês e inglês mas com os que cá vivem, ou dizem que cá vivem, falo sempre em Português, pelo menos até ficarmos amigos ou até me cansar da brincadeira e querer mesmo fazer-me entender, o que nem sempre é o caso. Conheci um iatista americano que me foi apresentado como tendo feito 13 travessias do Atlântico e ficou a olhar para mim todo contente à espera de reacção, que foi “ah sim?” com a mesma expressão que teria se me dissesse que gostava de vinho tinto. Mais um cheio de observações condescendentes sobre a ilha, os Açores e Portugal, eu posso ser uma pessoa bastante ácida quando começam com esse género de conversa,  digo muitas vezes cobras e lagartos do meu país mas não gosto nada nem fico quieto ao ver estrangeiros a fazê-lo. Discutia-se o nosso porto.

-Há um espanhol que se calhar conheces, tem uma escuna e vinha cá muitos anos.Ele implorou que em vez da marina pusessem poitas de amarração e um pontão de espera…mas foi isto.

-A sério? Um turista espanhol implorou e nem assim fizeram nada? Mas o que é que ele esperava? Há um projecto, bom ou mau, e ele pensava que se pedisse eles davam-lhe ouvidos?Por ter uma escuna? Por ser estrangeiro?

-Ele tem cá uma casa…

-De férias, não lhe dá voto na matéria.E lembro-me bem desse senhor, no ano em que abriu a marina andou aí a ralhar por todo o lado sobre o preço, disse que ia para a Terceira e nunca mais cá vinha de barco. Eu disse que era estranho ele vir cá anos a fio e ancorar e só porque há uma marina deixa de cá vir. Porque é que não continuou a ancorar descansado sem ligar à marina, já que não faz falta nenhuma?

O homem foi encontrar outra pessoa para partilhar as suas opiniões sobre os nossos defeitos e eu fiquei encostado a um  poste com a minha mini na mão a ver o movimento, satisfeito da vida. O ano passado por esta altura estava a meio caminho entre a Nova Zelândia e as ilhas Fiji, ainda nem por um minuto que seja senti saudade da vida que decidi deixar para trás e já me disseram que “pareço outro” este ano, com mais energia, mais bem disposto, até com melhor postura . A melhor postura deve-se ao yoga, o resto deve-se a ter acabado com a vida de vagabundo.Consumía-me a incerteza do para onde vou e quando vou, consumía-me deixar casa e cão atrás meses a fio, consumiam-me as saudades quando estava fora, foi a melhor coisa que fiz nos últimos anos e pelos vistos nota-se.

No Sábado à tarde convidaram-me para sair no S.Pedro, o segundo bote baleeiro do clube, e nunca é preciso pedir-me  duas vezes. O Presidente da Câmara tinha pedido ao Clube Naval para ter os barcos todos na água nessa tarde, já que nunca o conseguem fazer como devia , que seria todos os Sábados em que o tempo permitisse.Quando cheguei ao porto vi que havia três turistas a quem tinha sido prometido um passeio no bote, só me chateei porque acho que deviam pagar para andar nele. Pediram-me para em vez de ir no bote sair com um Raquero com dois moços, lá andámos um bocado às voltas na baía, disse-lhes que este Verão ainda íamos escolher um dia bom e dar a volta à ilha nesse barco, ficaram entusiasmadíssimos e eu gosto da ideia. O Raquero  navegou ontem depois de um ano parado, sempre que me apetecer agora saio com ele, enquanto espero por desenvolvimentos na política do clube naval. Parece que a demissão do presidente afinal era revogável, estou a ponto de escrever um memorando para o Presidente da Câmara, que tem que ser o árbitro nesta coisa, com a minha visão sobre o clube e as suas perspectivas. Digo a quem me quer ouvir (e é um tema muito falado nestes dias) que estou disposto a integrar uma lista para a direcção e a tomar conta da secção de vela se houver uma pessoa reconhecidamente  capaz, íntegra e organizada  para liderar a lista, e há pelo menos um nessas condições. Sem surpresa nenhuma já se diz por aí que eu quero mandar no clube naval, eu rio-me.

Encheram-se os restaurantes montados em tendas , como todos os anos comi cabrito assado três vezes seguidas, houve um porco assado no espeto que foi fotografado por dezenas de turistas que só vêm coisas dessas nas famosas “feiras medievais”. Parece que já há mais feiras medievais do que havia na Idade Média. Houve um desfile do novo clube motard liderado pelo presidente na sua Suzuki 500 e o meu vizinho que já tem mais de 70 anos numa moto  de três rodas daquelas com uma caixa atrás e que é o seu meio de transporte diário, foi muito engraçado. Participou no “desfile” (descem a avenida, dão a volta à rotunda , sobem a avenida, não passa de 600 metros) uma Kawasaki 1100 que veio… do Corvo, sítio onde é impossível uma moto daquelas passar da terceira velocidade, fartei-me de rir.

Seguiram-se as marchas com  os miúdos das escolas, a única filarmónica que resta  na ilha e uma marcha que veio do Pico, senão me engano. Houve artistas convidados, na sexta foi a Rute Marlene, que não é propriamente um  género musical que eu aprecie mas esteticamente funciona muito bem, especialmente já com uns copos de vinho. Ontem eram os Blind Zero que já é muito mais “a minha praia” mas começaram a tocar à meia noite e eu a essa hora já não estava muito capaz porque tinha passado a tarde toda de tasca em tasca, surpreende-me o número de pessoas que me querem pagar bebidas mas é mesmo assim, já começava a ter certas dificuldades, fui para casa.

Tinham-me pedido colaboração para o desfile de hoje , que previa os barcos todos do clube naval em cima de reboques com os miúdos em cima e queriam que eu fosse com eles no tal Raquero, declinei e lembrei que não fazia bem nenhum ao S.Pedro ter o mastro e as velas levantados e ser carregado com 7 homens para  ser passeado num reboque fora da água. A  ideia de homenagem aos antigos baleeiros é bonita mas primeiro devia-se pensar na saúde do bote e uma coisa dessas esforça-lhe muito a estrutura toda e não se deve fazer. Como se largou a chover não sei se cancelaram o desfile ou não, se parar de chover ainda vou mais logo ver a partida do ferry e ver se ainda sobrou algum cabrito no forno. Para o ano há mais.

Regata em Santa Maria

Lá fomos na quinta feira, ainda aqui no aeroporto  houve confusões com os bilhetes da tripulação que expuseram logo os problemas desta participação da ilha no campeonato de botes baleeiros. Há uma velha máxima militar  que diz que “os amadores falam de tácticas, os profissionais falam de logística”, numa ilha como esta seria de esperar que a logística já estivesse dominada há muito tempo, dominada no sentido de ser preparada com antecedência e cuidado mas não, tirando algumas  excepções o conceito nem sequer é bem compreendido. Como tenho quase 20 anos de carreira numa actividade que dependia de mover barcos, tripulações e abastecimentos de A para B arrepia-me um bocado o nível de amadorismo, mas é mesmo assim.

Como de costume, há escalas, não se sai daqui directamente para lado nenhum a não ser para Ponta Delgada ou Horta e leva sempre que tempos. Logo na aproximação a Santa Maria vi uma das principais características da ilha e uma das mais importantes para mim: não há água.

Exagero um pouco mas a verdade é que  para mim o principal factor para determinar a “habitabilidade” de um lugar é  a água e como moro num sítio onde no meu tempo de vida e salvo catástrofes vai ser sempre um bem abundante (muitas vezes tão abundante que quase deixa de ser um bem) sítios secos não me atraem nada nem concebo viver onde houver escassez de água. Azar para grande parte da população do mundo e mesmo para muita do nosso país, mas tirando as alturas em que falta na torneira ou que se tem que pagar uma conta maior, está-se toda a gente nas tintas, tirando alguns mais esclarecidos. A esmagadora maioria da população vê abrir uma torneira e sair água potável como uma coisa natural e um dado adquirido, muita gente vai-se  dar mal no futuro próximo.

A parte “baixa” da ilha é seca , com cactos , palmeiras e campos amarelados. Chamam-lhe a “Ilha do Sol” , coisa linda para veraneantes. Vieram-nos buscar ao aeroporto e fomos deixar as bagagens na escola secundária, onde estava montado o “acampamento”, fomos os primeiros a chegar e deram-nos uma sala de aula com colchões no chão, o normal nestes eventos.Daí para o porto, saber  do nosso bote. Esta vista do porto não foi tirada no Verão, tudo o que se vê aqui verdinho agora está amarelo.

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Alguns já tinham estado na ilha mas a primeira coisa que toda a gente viu e comentou é que eles têm lá um porto lindo, bem feito, bem protegido, bem dividido, e a nós custa-nos ver isto porque gastaram milhões aqui na ilha  e ficámos com um arremedo de marina que mete dó, e parece a toda a gente que com um pouco mais de cuidado podíamos ter ficado com um porto decente. Aqui há anos falava-se numa marina para Santa Cruz das Flores, a mim parecia-me daquelas ideias que só podem ter saído da cabeça dos que pensam e mexem no dinheiro do Estado como se fosse deles e não tivesse fim.O país faliu pela mão do génio injustiçado e incompreendido que é o Sócrates, chegou o Passos para nos arruinar e levar à miséria, entre outras coisas fazendo com que fosse mais difícil encontrar dinheiro para delírios de políticos  que o torram em coisas que não percebem.Entretanto o Costa já nos salvou e voltou a pôr no bom caminho, vejo  com certa consternação que já avança a obra da marina de Santa Cruz. É assim.

Abrimos o contentor onde estava o bote e demos dois passos atrás com o fedor que vinha de lá. No porto da Lajes vivem muitos gatos, um deles foi-se meter no contentor quando carregamos o bote e quando se fechou ninguém reparou nele nem ele soube fugir, morreu ali, provavelmente de calor antes de sede e fome, morte macaca. O porto emprestou-nos um reboque , carregámos o bote e varámo-lo na rampa do porto em frente ao clube naval, fomos os primeiros a chegar.

19748520_10155472793400477_7510617614021084786_nDa Horta veio por mar a Walkiria , uma lancha baleeira que é património regional, a melhor maneira de arranjarem inimigos no Faial é criticar aquela lancha ou encontrar-lhe algum defeito, tudo o que seja abaixo de Rainha dos Mares é falta de respeito. A bordo vinham figuras grandes da vela tradicional de competição que iam liderar a comissão de regatas. No dia seguinte saímos para testar o equipamento com um dos velhos lobos do mar faialenses que já foi campeão 3 vezes e nos vinha dar umas dicas.O homem ficou impressionado com o nível de preparação do bote e o nosso, e a impressão não era boa, desejou-nos boa sorte e tenho a certeza que desembarcou aliviado. Eu tinha saído duas vezes nas Lajes como oficial mas fui amigavelmente despromovido, o que nem me espantou (o que me tinha espantado a sério era poder ter sido oficial) nem desagradou nada e depois de ver aquilo fiquei ainda mais satisfeito por a coisa não estar na minha mão.

Ao fim da tarde fez-se uma patuscada no clube com 15 quilos de lapas que tínhamos levado, aqueles pobres ali só têm umas lapas ridículas como as da Madeira, é das poucas coisas em que os açorianos reconhecem a superioridade das Flores, não há lapas como as de cá, e o presidente do nosso clube naval fez a única coisa para que tem real préstimo, cozinhou um molho espectacular e organizou o petisco. Se houvesse corrupção na vela podíamos ter sido acusados de tentar influenciar a direcção da prova com aquilo.

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Passou uma carrinha da Polícia Marítima.

-Olha o Silva!! Anda cá uóme, tás aqui agora?Come umas lapas ca gente!

O Silva parou a carrinha no meio da estrada, desceu com um sorriso enorme, cumprimentou toda a gente e ali esteve um pouco na conversa, na galhofa e nas lapas connosco, ele tinha passado uns anos nas Flores e era muito querido por todos, como se podia bem ver. Eu lembrava-me dele mas nunca o conheci bem, gostei de ver aquilo e gostava que mais gente visse porque o Silva é preto e no nosso país o racismo é uma coisa muito estranha, há pessoas que a ver um jogo de futebol gritam “ah, preto do cara$%#!” e depois se for preciso tiram a camisa para dar a um preto que esteja à frente deles e precise e vêm-lhes as lágrimas aos olhos a falar de amigos que deixaram em África. Há outros que se pudessem faziam um altar ao Éder e depois no autocarro afastam-se de um preto que esteja ao pé si e desconfiam logo. É um bocado esquizofrénico.

Ficámos no último bar aberto de Vila do Porto até às 3 da manhã, o pessoal encontrou gente que conhece gente que é prima de gente que pescou com gente que é cunhada de gente que emigrou e passam-se que tempos naquilo. Na manhã seguinte descemos para o porto, durante a noite tinham chegado os outros botes no navio de passageiros, um catamaran de alta velocidade que foi mais uma compra muito judiciosa, especialmente para os que foram envolvidos no negócio e se devem ter tratado bem, entre comissões , pareceres e outros esquemas. Como ferry para o arquipélago é uma bela merda.O apontamento cómico foi que se atrasou porque teve que ir à Graciosa buscar um burro.

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Fui ver os outros botes e ficou mais claro ainda  que no Faial e no Pico o nível é outro, desde o material das velas às pequenas afinações passando pelo pequeno pormenor  de nós nem sequer termos t-shirts  do clube para irmos todos de igual. Têm dezenas de botes , treinam o ano todo e se nos cá temos que andar a pedir e penamos para arranjar uma tripulação completa lá rejeitam candidatos às dezenas e só os melhores vão às competições.

Arriámos os botes, levantámos o mastro e ficámos a pairar à espera do reboque. As partidas nestas regatas são feitas de uma linha criada pela lancha. As lanchas rebocam 6 botes cada uma , fazem uma linha longa que dá uma volta de cortesia ao porto, posicionam-se e quando dão o sinal largam-se as amarras, içam-se as velas e começa a regata, um circuito à volta de 3 bóias, em frente à Praia Formosa. Rebentaram dois foguetes e um dos dois pescadores que fazem parte da nossa tripulação e andaram à baleia virou-.se para mim e mostrou-me o braço todo arrepiado, com um sorriso. No tempo da baleia havia vigias em cima dos montes e não havia rádios (não havia quase nada), pelo que o vigia , quando avistava baleias, mandava um foguete e todas as companhas largavam o que estavam a fazer e corriam para o porto para arriar os botes. Deu-se o sinal de largada e o outro pescador que também andou à baleia e é o nosso proa disse bem alto:

-Vamos  moços,  à vontade de Deus!

Foi a minha vez de me arrepiar um bocado. Passados poucos minutos as diferenças de andamento e facilidade de manobra vieram ao de cima e ficámos para trás.Houve 3 regatas nessa tarde, ficámos em nono de onze na primeira, em último na segunda e na terceira acabou o tempo sem conseguirmos chegar à meta.Não me ralei nada, estava encantado com aquilo tudo.

Nessa noite fomos à Maia,sítio incrivelmente bonito, ao festival de música folk, vimos a actuação de uns espanhóis chamados “El Gueto com Botas” , com uma mistura musical que eu gosto bastante. Via-se que  são todos do Podemos e diziam  coisas parvas como “esta música chama-se Las Plazas, em memória das praças que antes eram sítios do povo onde se bebia e comia e fumava e hoje não são de ninguém”. Devem ter tocado pouco em Portugal porque ainda não sabiam que o tuga não dança, podiam passar a noite toda a pedir para as pessoas se chegarem à frente e dançarem que não valia de nada. É assim desde que me lembro. A seguir houve um DJ , mas um DJ mais engraçado que o normal ( vem cá um agora, pôs no cartaz que está muito contente por vir tocar aos Açores e se o apanhar pergunto-lhe logo o que é que ele acha que toca). Este tinha misturas de músicas tradicionais e ele sim, conseguia por as pessoas a dançar (ou andar de roda, que é quase o mesmo) com músicas como a Saia da Carolina, eu quanto mais bebo mais nostálgico fico e gostei de ver aquilo. Voltámos ao acampamento na escola já passava bem das 4, no domingo só havia a última regata, e era à tarde.

O nosso oficial tinha subido muito na consideração que tenho por ele porque admitiu sem reservas que a culpa da nossa prestação fraca era dele, não sabia mais do que aquilo. Ofereci  que os problemas principais  eram não saber quando parar a orça , coisa que nos deixou a boiar muita vez, e não saber regular a escota da vela grande em função da mareação, andámos muito com o vento pelo través e à popa com a escota caçada, e fomos ficando para trás. Para a próxima falo mais cedo e previno antecipadamente que vou falar, para não surpreender ninguém. Ele teve que se ir embora e combinou com uma moça do Faial para ser nossa oficial.Eu ia caindo para trás e disse que antes queria chegar em último cinquenta vezes com uma tripulação das Flores do que ganhar uma regata com um oficial do Faial mas a verdade é que eu também não posso falar muito de origens e não tinha vontade nenhuma de pegar no leme sem ter tido oportunidade de treinar mais um bocado. Mais dois ou três meses deviam chegar.

Chegou a moça, que já foi  campeã, vi  que não só  sabia daquilo como, para meu descanso, a tripulação  tratou-a  impecavelmente, se calhar se fosse um homem não tinha sido tão respeitado. Mostrou-nos alguns problemas com o aparelho e a palamenta do bote e lá fizemos a última regata, mesmo bem comandados chegámos outra vez em último. Se não estivesse com as vacinas em dia era homem para me ter apaixonado  por ela, porque além de marinheira tinha as medidas, a educação e o sorriso certos.

Fez-se a entrega dos prémios.Esse senhor que se vê na foto tem 83 anos, anda com os nossos botes para todo o lado, é talvez o trancador mais velho do arquipélago, conhecido e estimado em todo o lado e  um monumento vivo da baleação.

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Já está bastante confundido nas suas recordações e passa a vida a insultar-nos de morte mas quando desaparecer vai deixar saudades.Já me desculpa ser continental e do Sporting e diz que eu sou uma pessoa com quem se pode falar. Chamaram ao palco os oficiais dos botes que ficaram abaixo do terceiro lugar, o nosso tinha-se ido embora e o presidente do nosso clube, em vez de mandar o moço mais novo receber a lembrança, como mandava a decência e a boa ordem das coisas, foi ele, perdendo assim o pouco que lhe restava da minha consideração.

No fim da cerimónia fui falar com o director das provas e sugeri-lhe que se mudasse o nome de campeonato Regional para Nacional, aberto à participação de botes baleeiros de todo o país. Se o resto do país não tem botes, paciência, mas os campeões são nacionais.Ele disse que fazia sentido e não ia ser esquecido.Perguntou-me se eu era das Flores eu disse que sim, nasci no continente mas sou das Flores.

Veio um reboque do porto, subimos para lá o bote e metemo-lo no contentor, certificando-nos de que desta vez não iam lá gatos, e fomos jantar. Na madrugada seguinte foram-nos buscar para estarmos no aeroporto uma hora antes do que estaríamos se fosse eu a mandar e embarcámos para S.Miguel , um voo de 15 minutos ou perto.São Miguel rebenta pelas costuras de tanto turista. O que para mim é rebentar pelas costuras será para muitos “bastante gente”.A rapaziada foi para cidade passear e fazer compras, eu já conheço aquilo tudo, já me estava a fartar de tanta gente e nesta altura compras, só mercearias mesmo. Seis horas no aeroporto, ou melhor , cinco porque um grande amigo meu que por acaso até trabalha no aeroporto veio buscar-me para irmos beber um café e por a conversa em dia. Ainda li o Açoriano Oriental e tinha marcado umas matérias para dizer aqui mal mas isto já vai longo demais para isso, fica para a próxima.

Quando aterrámos não havia ninguém à nossa espera, não era um comité de recepção que esperávamos, era  a mesma carrinha da Câmara que nos trouxe das Lajes, mas o presidente do clube tinha-se esquecido , a tal logística. Telefonou-se para o presidente  da câmara que lá foi chamar um empregado que já tinha despegado para nos vir buscar depois de quase uma hora de espera e quando já tinha vindo a Santa Cruz nesse dia. Foi com satisfação que soube há pouco que o presidente do clube se tinha demitido hoje, possivelmente porque ontem deixámos na sede um papel assinado por todos a dizer que não queríamos que ele nos acompanhasse para a regata da Semana do Mar.

Este fim de semana marcou o fim de uma era de seis anos em que não me envolvi a sério em nada que meta políticas pequenas ou grandes e que me esforcei sobretudo para não criar inimizades. Uma já está, e não foi só pela incompetência, é que não gosto que me mintam nem que mintam à minha frente sobretudo sobre  assuntos que me são caros e a partir de posições de responsabilidade. O velho mestre baleeiro (que tem muito desconto e pode-me mentir à vontade que continuamos amigos) disse-nos  “quando chegarem às Flores não dizem nada do que se passou aqui!”, ao que eu respondi que estava com azar porque se me fazem uma pergunta eu respondo e além do mais não tenho vergonha nenhuma de ter ficado tecnicamente em último, e quem me quiser dar lições de vela tem  que vir comigo para o mar.

Já hoje me disseram que ficar em quinto não era mau, eu só respondi que não era nada mau mesmo e calei-me, há pessoas que ainda vivem em 1980 e pensam que se pode fazer uma coisa noutra ilha e chegar aqui e contar uma historia diferente que ninguém vai saber. Prevê-se grande confusão até à Semana do Mar , em Agosto, o que eu sei é que vou lá estar num dos botes das Flores para a regata e vamo-nos esganar para não ficar em último. E ficar em último é melhor do que ficar em casa.

Outra Ilha

Amanhã vou com o resto da tripulação da Formosa para Santa Maria participar no Campeonato Regional de Botes Baleeiros e acho que se fosse eu o oficial (homem do leme) esta noite não dormia, mas como felizmente já não sou não estou nada preocupado, antes pelo contrário. O bote foi a semana passada no navio:

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Saímos daqui pelas duas da tarde para chegar ao fim do dia a Santa Maria, na sexta feira tiramos o bote do contentor e fazemos uns testes, as regatas são no Sábado e Domingo.

Dado que a minha política de base é “zero conflitos” e dado que não sei se alguém desta ilha lê isto ( aqui inventa-se muito, ouve-se uma braça e conta-se uma milha) não me vou alongar muito sobre as circunstâncias desta participação, sobre a organização e modo de funcionamento das regatas de botes baleeiros e sobre o modo como isso se faz cá, repito só que estou contente por fazer parte, que temos muita margem de progressão é que é possível que depois desta iniciação eu continue envolvido nisto no futuro, mesmo que a participação neste campeonato não tenha grande brilho…ou que seja mesmo completamente baça.

Santa Maria fica na outra ponta do arquipélago, e sei pouco  sobre ela: foi a primeira ilha a ser descoberta ; tem 5500 habitantes e é mais pequena que as Flores; tem um aeroporto que parece uma gare para uma pista gigantesca onde aterrava o Concorde; tem a única praia de areia branca das ilhas e tem  encostas escarpadas com uns acessos inacreditáveis onde se cultivavam  vinhas com esforço tremendo. Essas vinhas começaram a ser cultivadas logo no século XVI e a primeira vez que vi fotos delas pensei : era preciso estar mesmo num desespero por vinho para fazer aquilo. Estou agora mesmo a instruir-me um pouco na wikipedia e vejo que Sta Maria tem 36 igrejas e ermidas e 3 escolas, destas três aposto que duas são pós 25 de Abril e isto é o género de coisa  que para mim explica muito bem a condição do nosso belo país.

Vou cheio de curiosidade, sei que vamos ser recebidos e acomodados com hospitalidade e que não vai faltar convívio são (em terra) e passeios pela ilha, nestes intercâmbios entre os clubes todas as ilhas querem impressionar os visitantes das outras ilhas, e ainda por cima há um festival de música folclórica  o Maia Folk , que não é aquele folclore dos ranchos e gente desafinada e esganiçada a bater canas rachadas e massacrar acordeões, é musica popular de inspiração tradicional, como estes moços que vão lá estar, gosto disto:

Como a ausência é curta as ovelhas ficam em autogestão, amanhã de manhã ainda tenho preparações a fazer para as deixar todas com erva suficiente para estes dias, as galinhas vão ter que ser mais empreendedoras porque ninguém lhes vai dar milho, vão ter que esgravatar mais e procurar mais bicharocos e o meu vizinho vai cá passar para para alimentar cão e gato, que fazem companhia um ao outro, vou descansado.