Negócios Autárquicos

-Vais votar nestas  eleições? , perguntava-me um amigo francês que mora cá

– Voto sempre.

-E votas em quem ?

– Eu  voto sempre contra os comunistas e socialistas, mas nas autárquicas abro uma excepção, voto mais pelas pessoas do que pelos partidos.

-E  nas legislativas,  votas na direita?

-O meu voto aí  não é por uns , é contra os outros. Eu sei que vai dar ao mesmo mas para mim a diferença é importante.

O meu amigo franziu o sobrolho,  tentei explicar melhor com os exemplo de todos os que votaram no Macron para impedir que a Le Pen avançasse, é o mesmo princípio. De qualquer maneira acho a divisão direita/esquerda muito ultrapassada, gostava de ver o debate e a escolha fazer-se entre colectivismo e individualismo ou estatismo e privatismo. Gostava de ver um partido liberal   mas em Portugal não existe política além da luta entre os que controlam o Estado e os que querem controlar o Estado, o papel dele não se discute  e é para continuar assim. Quem me dera estar errado mas isto é uma coisa cultural, pelo menos desde o Marquês de Pombal que o Estado é não o recolhido autor das regras ,o fiscalizador da justiça e o operador da partilha , derradeiro porto de abrigo de infelicidade própria ou pobreza alheia, mas o salvador da sociedade, o motor da economia, o distribuidor mor da riqueza, em suma , o dedo demonstrador do sentido clarificador da História . Um partido que venha reclamar e lutar pela redução do papel e influência do Estado em Portugal vai  lutar contra quase 300 anos de história e tradição, é um combate muito assimétrico.

Nestas eleições autárquicas devo votar no incumbente, tal como nas últimas também o fiz, e o incumbente perdeu. O actual presidente da Câmara é um tipo educado e calmo , comunica bem, representa bem o concelho e as suas políticas são as mesmas dos outros e da região, por arrasto: gerir empréstimos e fundos europeus,  fazer projectos de candidatura a mais fundos, empregar pessoas quer façam falta quer não e em geral manter isto a andar, devagarinho mas a andar. Num município como este não se pode vir com ideias revolucionárias nem rupturas, aliás, duvido que algum município do país seja capaz de alguma ruptura.

O presidente anterior, de outro partido, disse famosamente que “dão-me dinheiro para museus, faço museus”, este não é muito diferente e o critério de investimento rege-se pelo dinheiro que “dão”. Parece que finalmente parámos nos 8 museus num concelho de 1800 pessoas, agora há dinheiro para incubadoras de empresas, faz-se uma, quer faça falta quer não. Os outros não fariam nada de diferente, o PSD é tão  estatista como  o PS pelo que a comparação é entre seis de um e meia dúzia de outro. O PS leva a vantagem de ser o partido do Governo Regional, logo, este tende a favorecer e ouvir mais os autarcas da sua cor .

Por isso os critérios do eleitor nas autárquicas devem ser, a meu ver, os da honestidade e competência. A competência é fácil de avaliar, o cidadão olha à sua volta, compara com o que via há 4 anos, depois vai ver as contas (eu sei que é raro o cidadão que quer ver as contas) e os projectos e decide com esses elementos se há competência ou não. A honestidade é diferente, não está propriamente à vista e é muito mais difícil de avaliar.

Por exemplo, sabe-se agora que o Fernando  Medina, actual presidente e  candidato do PS à Câmara de Lisboa, não só é um às da imobiliária como tem uma sorte dos diabos. Vendeu um apartamento que tinha por mais 36% do que o que lhe tinha custado,  até aí tudo normal, o mercado das casas de luxo em Lisboa está em alta. Depois comprou outro apartamento, maior e melhor, só que desta vez o mercado funcionou ao contrário e a proprietária vendeu-o por 23% menos do que o que lhe tinha custado.

Isso só por si já é suficiente para levantar dúvidas, como é que num mercado em alta (a justificação, clara, para as mais valias que fez com a venda da outra casa) uma pessoa decide vender um apartamento que comprou por 800 e tal mil euros por 600 e tal mil. Ou bem que o mercado está em alta ou bem que o mercado está em baixa, os dois ao mesmo tempo não pode ser. Podemo-nos interrogar  sobre um presidente de câmara que ganha cerca de €3500/mês e compra um apartamento de €650000 mas isso é o menos, sobretudo vendo que a mulher do sr Medina é a sra Stephanie Silva , filha de Jaime Silva, antigo ministro de José Sócrates, adjunta de Medina quando este era secretário de Estado no mesmo Governo e advogada associada sénior na sociedade PLMJ. Uma pessoa não passa uma vida familiar na política a viver de salários mensais, isso está estabelecido há muitos anos e é claro para toda a gente.

Estas informações tirei-as deste artigo no Público, cheio de factos, com o título “Medina fez dois bons negócios com casas em Lisboa”.  Bons negócios, sem dúvida, mas isto leva-me a pensar como seria o título se por exemplo se soubesse que o Passos Coelho tinha feito bons negócios como este. Ou talvez seja um título sarcástico, porque para  além do absurdo de alguém comprar uma casa em Lisboa por 850 mil para a vender por 650 mil com o mercado em alta dez anos depois  há o pormenor de a proprietária vendedora se chamar  Isabel Teixeira Duarte. Por feliz e inusitada coincidência, a Teixeira Duarte, SA  beneficia de  contratos por ajuste directo com a CML.

O que me fez quase cair da cadeira a rir foi que o sr Medina, sem se rir, diz que não sabia que a proprietária tinha ligação  à construtora Teixeira Duarte. Sim,  porque é normal uma pessoa comprar uma casa sem saber o nome do vendedor e além disso Teixeira Duarte é um apelido muito comum e uma marca  insignificante  no meio empresarial. Foi daquelas coincidências felizes.

O sr Medina vai ganhar as eleições e estas negociatas e favores entre políticos e empresários  e a sua impunidade só podem surpreender os ingénuos. Não sei se ele foi bom ou mau presidente, não quero saber de Lisboa para nada, o que não gosto é que me façam de parvo. Nem o senhor Medina , que  acha normal ganhar 3500€ por mês e ir viver para uma casa que vale 850mil, diga o que disser o papel , e que ainda por cima tem a lata descomunal de dizer que não sabia que a senhora Teixeira Duarte tinha ligações à Teixeira Duarte,  nem os lacaios do poder que se apressam a defendê-lo, mostrando assim que acham bem que um político seja favorecido num negócio em centenas de milhar por uma empresa que subsequentemente recebe tratamento preferencial.

Podem embrulhar-me isto tudo em legalês e explicar todos os pormenores que fazem com que esta bosta fumegante seja perfeitamente legal, e também é óbvio que a história aparece por oportunismo eleitoral, mas isso  não muda a verdade: a um político ou governante que recebe favores particulares em troca de favores públicos chama-se CORRUPTO.

 

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Irma

Ontem escrevi um post sobre o furacão Irma e as Ilhas Virgens, depois apaguei-o porque era malvado. Tinha duas vertentes , uma resume-se em “20 anos a ir aí e a aturar-vos o racismo, a gabarolice, a preguiça, o queixume, a antipatia, a chulice, a falsidade, a fé  arcaica, a corrupção, a incompetência, não me peçam agora que tenha pena“. A outra vertente era : um trilião e meio em dinheiro lavado e escondido pelas offshores e parque de diversões de metade dos milionários e bilionários do mundo e agora querem que as pessoas façam donativos para reconstruir isso?Não.

Isto deu para duas páginas mas depois arrependi-me porque aquilo pode ter muitos defeitos mas vive lá muita gente que não tem culpa nenhuma  e agora não só perdeu quase tudo como ficou com o país literalmente devastado. Não se pode esperar pelos políticos para fazerem alguma coisa, porque como recentemente fomos lembrados por cá, não devemos confiar no Estado para nos proteger nem para reconstruir depois de uma  tragédia. Se eventualmente reconstrói alguma coisa podemos estar seguros de que gasta 10 para fazer o que se podia fazer com 6, porque de  tudo o que toca o Estado fica com uma parte, é da sua natureza, o monstro tem que se alimentar.

Há milhares de europeus e americanos  aos quais um deslizamento de terras que matou 500 na Serra Leoa o mês passado não aqueceu nem arrefeceu mas que a imagem de uma ilha das Caraíbas reduzida a entulho mesmo sem mortos já impressiona muito e dá vontade de ajudar com o que puderem. Ninguém , muito menos os ricos e famosos, passa férias na Serra Leoa ou no Bangladesh por isso as catástrofes por esses sítios são menos dramáticas.

A “comunidade” dos iates ficou meio histérica, como se o Irma tivesse aparecido do nada e não andassem por ali furacões todos os anos. Apreciei particularmente um casal de brasileiros que tinha um catamaran nas Ilhas Virgens, que afundou. “Depois de três anos nas Caraíbas, é uma tristeza enorme, blah blah blah , buáaa buáa” e é quase certo que além de centenas de mensagens de solidariedade vão receber donativos para refazer a sua vida, que consiste em andar de barco e falar disso. Não resisti a juntar o meu comentário à longa sequência de solidariedade e encorajamento, perguntei : ” a opção de zarpar para Sul o mais rápido possível nunca foi considerada?” Sem surpresa , fiquei sem resposta , nem sei se o meu comentário ainda lá está.

É que o Irma já se via a vir há muitos dias. Os marinheiros de cruzeiro  modernos passam 8/10 do seu tempo de viagem em terra e desse tempo metade é passada   ao computador a dizer ao mundo que são tão fixes e isto é espectacular.

Podiam usar algum desse tempo a ver a trajectória esperada do furacão, que em 2017 já é bem estimada. Se andavam pelo Caribe há 3 anos podiam ter-se dado ao trabalho de ter um plano para a estação dos furacões, que, por incrível que pareça , se repete todos os anos. Como sabe qualquer marinheiro que lá ande , a latitude de  12º N marca o começo da “cintura dos furacões”, o que quer dizer que eles se mantêm acima disso.Um marinheiro mais previdente, chegada a época, desce para St.Vincent, Grenada ou Trinidad onde já está senão completamente a salvo pelo menos com probabilidades muitíssimo  mais reduzidas de ser apanhado, em Trinidad por exemplo não há registo de um furacão. Se não quer passar o Verão todo lá em baixo pelo menos à aproximação de um foge para lá, são 3 dias, e em bem menos do que isso chegavam por exemplo a Guadeloupe que já ficou mais ou menos incólume. Não, estes navegadores de pacotilha  e dezenas de outros  que agora gemem porque ficaram sem barco  deixaram-se ficar, amarraram-se melhor ao cais, deitaram mais âncoras e defensas, rezaram e puseram posts no facebook enquanto viam um furacão de categoria 5 a aproximar-se. É contra intuitivo mas é verdadeiro, os danos piores numa tempestade sofrem-se em terra , não é no mar, e se bem que a ideia não é ir enfrentar o furacão no mar mas sim fugir dele, só a ideia de ir para o mar com um furacão a 500 milhas faz tremer as pernas a muita gente, preferem a falsa segurança de ficar num porto. Má decisão. Repito, desde que o Irma se mostrou ameaçador para as Ilhas Virgens houve mais do que tempo para que quem lá estivesse fugir para segurança, mas para isso seria preciso serem marinheiros e não turistas que andam de barco,  pelo que houve dezenas de iates  perdidos por ignorância e incúria , e o que me mete certos nervos é ver esta gente lacrimejante a fazer-se passar por vítima/herói que sobreviveu ao furacão mas vai precisar de ajuda para “refazer a vida”.

As Ilhas Virgens vão recuperar, quanto mais não seja porque umas são as Ilhas Virgens Britânicas e outras são as Americanas e  nestas alturas  independência,autonomia,  soberania e coisas assim passam para terceiro plano e nunca mais se ouvem até tudo estar a correr bem outra vez. Se não fossem as metrópoles aquilo era como a Serra Leoa , mas essas coisas não se dizem, fica mal. Se Barcelona fosse arrasada por um furacão de categoria 5 passavam todos a espanhóis dedicados e orgulhosos num instante.

Continuo a esperar nunca mais ir às Caraíbas, mesmo que o meu ex patrão esteja a esfregar as mãos e a fazer muitos contactos  porque houve milhares de barcos destruídos que têm que ser substituídos, e alguém os tem que lá levar, vão estar ocupados durantes anos. Nunca dizer nunca, mas mesmo que fosse uma viagem de turismo tenho meia dúzia de sítios aos quais voltava de boa vontade, nenhum deles nas Caraíbas. Vou ficar a ver que parte dos lucros da industria financeira vão ser taxados extraordinariamente para reconstruir aquilo, podiam fazê-lo sozinhos amanhã mas esse pessoal sabe muito e vai esperar que outros paguem a conta. Nem estranhava que o Richard Branson , que tem lá uma ilhota , fosse receber auxílio para a reconstruir.

Desejo-lhes sorte, mais ou menos na medida em que eles me desejam a mim,  não me esqueço de onde vivo e que já este inverno isto pode ir tudo com o cão, aqui não há tremores de terra nem erupções vulcânicas mas há vento que chega para tudo, há menos de 20 anos passou por aqui um ciclone que marcou 250kms/h ,porque o contador só ia até 250kms/h. Aqui as casas e estradas são mais bem construídas que lá e a infraestrutura em geral é mais sólida mas é  fácil haver   estragos sérios. Há que estar preparado, não é que eu seja crente em alguma coisa mas  fazer  pouco da desgraça alheia para ela depois nos bater á porta é das piores coisas  que pode haver, não me quero ver nessa situação. Excepto no futebol ,  posso dizer que me deu um belo gozo ver o benfas levar duas em casa do CSKA.

Rendimento Básico Universal

Há 4 anos ouvi falar pela primeira vez na ideia de rendimento universal garantido, um programa mediante o qual toda a população sem excepção recebe do Estado uma subvenção mensal que teoricamente permite uma subsistência digna.

À primeira vista pareceu-me má ideia, por um número de razões entre as quais a falta de incentivo ao trabalho, o facto de que qualquer coisa que o Estado dá a uma pessoa é tirada a outra e  o incentivo à migração em massa para os países que implementassem esse programa. Parecia-me que se por exemplo em Portugal o Estado desse o equivalente ao ordenado mínimo a cada cidadão íamos ter muito depressa falta de gente para fazer trabalhos que pagam precisamente o ordenado mínimo. Dir-me-ão que não, que ia servir para complementar o rendimento de pessoas que iam continuar a fazer trabalhos duros e desagradáveis como recolher lixo (trabalho que devia ser pago muito acima do mínimo) mas se isso seria verdade nalguns casos em muitos outros serviria apenas para que as pessoas se encostassem. Igualmente não via razão para pessoas que já têm vencimentos fortes passarem a receber mais um cheque só por existirem, que é o que tinha que ser feito para a coisa ser mesmo universal.

O rendimento universal continua a ser estudado,projectos-piloto continuam a ser testados por exemplo na Finlândia e eu mudei de ideias, não por me ter convertido ao colectivismo e aos méritos da redistribuição mas porque tenho a certeza, na medida em que alguém pode ter alguma certeza quanto ao futuro, de que dentro de poucas décadas simplesmente não vai haver trabalho para toda a gente.

Não vale a pena falar muito sobre a automação, sobre como hoje em dia fábricas enormes produzem  milhares de artigos , sejam camiões ou porta chaves, com poucas dezenas de trabalhadores; como as máquinas já produzem outras máquinas; como na agricultura tarefas que requeriam dezenas de pessoas há 20 anos hoje são feitas por uma aos comandos de um robot. Isso é automação, que progressivamente elimina trabalhos físicos desde a Revolução Industrial e é uma questão sobejamente debatida: à medida que os trabalhos duros, perigosos e repetitivos iam sendo automatizados as pessoas iam ser mais e melhor instruídas e passavam a outros trabalhos e serviços, um nível superior de prestação fora do alcance dos robots, um caminho virtuoso que permitia a libertação dos trabalhos sujos e duros e a dedicação a trabalhos menos exigentes fisicamente e que requeriam perícias além da força física e atenção fixa. Como nenhum robot conseguia pensar, tudo o que envolvesse associações de ideias, conclusões, análises, iniciativas e decisões, tinha forçosamente que ser feito por humanos, que dominando a informação dominariam sempre esta nova economia, porque os robots não escreviam canções, não faziam cirurgias nem ensinavam Física. Isso era no passado.

Dantes só as profissões de colarinho azul, como lhes chamam os anglo saxónicos, estavam sujeitas a desaparecer vítimas da automação. Com a entrada em cena e o progresso galopante da Inteligência Artificial, a longo prazo nenhuma profissão está a salvo, nenhuma actividade está fora do alcance de uma máquina. Já não são só os taxistas e camionistas que vão desaparecer porque já há, agora, carros e camiões que andam sozinhos, e só não há navios (declaradamente) porque o meio marítimo é menos fácil que uma estrada. Os algoritmos de tradução, como pode comprovar quem os usa há alguns anos, melhoram literalmente de mês para mês e se bem que falta muito tempo para traduzirem Shakespeare já traduzem satisfatoriamente documentos legais ou comerciais. Os tradutores são uma espécie em vias de extinção, tal como os assistentes legais dado que há algoritmos que conseguem peneirar toneladas de documentos legais e encontrar por exemplo o precedente que se procura numa fracção do tempo que demoraria a um humano. Já há algoritmos de diagnóstico medico que superam a média dos médicos humanos e programas informáticos mais capazes de transmitir conhecimento a um aluno do que a maioria dos professores humanos. A destruição e violência que exigia centenas de homens há 30 anos hoje é levada a cabo por um soldado frente a um computador a milhares de quilómetros de distância, apoiado por algoritmos que sintetizam e analisam toda a informação que lhe chega.Ao invés de contratar um guia turístico um turista instala uma app no seu telemóvel que o conduz pelas ruas , identifica marcos e explica História.

Actividades que ainda há meia dúzia de anos exigiam legiões de  empregados, como a distribuição  postal , estão quase a não exigir nenhum por via dos drones e novos sistemas de localização e condução . O cretino do Trump dizia que ia salvar os empregos das minas de carvão numa época em que mesmo que houvesse muita procura de carvão são cada vez precisos menos trabalhadores para o extrair e processar, mesmo que o carvão fosse uma coisa óptima o emprego nesse sector ia sempre cair. Nesta ilha o Estado encarrega-se, e bem, da manutenção das bermas da estrada e é um encontro   comum : uma dúzia de homens (nesta actividade a igualdade de género também não interessa nada)  de roçadora na mão a mondar as valetas estrada fora, trabalho  que não requer nível de instrução absolutamente nenhum. A câmara do meu concelho está em vias de adquirir um tractor que faz o que esses doze fazem com um homem aos comandos, com a respectiva poupança. O que é que vão fazer esses homens?

A tendência nas nossas sociedades é cada vez mais a interacção das pessoas com máquinas e mesmo quando interagem umas com as outras há já quase sempre uma máquina pelo meio ou por perto, especialmente nos meios urbanos. Já podemos fazer as compras do supermercado em casa e se hoje são entregues por um humano amanhã será um drone, tal como a caixa do supermercado já hoje é substituída por uma máquina. Um dos meus primeiros empregos, repositor de mercearias nas prateleiras de um supermercado, já é feito hoje em dia por robots em vários sítios. Desde a construção à administração, desde o policiamento à agricultura, já não se vai lidar só com automação mas igualmente com os sistemas de IA que analisam dados e informação e agem em conformidade.

É verdade que esta organização e modo de produção vai sempre exigir humanos , mas mesmo que fôssemos todos engenheiros de sistemas e técnicos superiores daqui  a 25 anos não haverá  que fazer para toda a gente, é uma simples questão de números. Quando damos uma olhadela aos sistemas de ensino da maioria dos países e à massa humana analfabeta ou semi analfabeta que se conta em biliões e vai permanecer assim, é fácil concluir que será impossível empregar toda  a população a um nível, digamos, satisfatório.

É por isso que se os governantes (que em muitos aspectos seriam substituídos com vantagem por algoritmos) querem manter a paz têm que começar a pensar seriamente no problema do desemprego galopante que vai acompanhar o crescimento da automação e, sobretudo, da inteligência artificial. Os optimistas dizem que vão sempre ser criadas novas actividades e profissões que ainda hoje são desconhecidas, e isso foi verdade desde a Revolução Industrial ate aqui, mas a inteligência artificial e o seu progresso vertiginoso muda a equação. Quando as máquinas já fazem outras máquinas e já estão a caminho de conseguir fazer tarefas que há 20 anos era impensável conseguirem, como um diagnóstico médico, controlo de tráfego aéreo ou mais prosaicamente, cozinhar uma refeição, parece-me aparente que caminhamos mesmo para uma era de desemprego massivo que vai afectar todas as profissões a médio prazo.

Uma solução será  então o Rendimento Garantido, que faz com que o problema da subsistência esteja resolvido e pode não só evitar a miséria generalizada da parte da população que vai sempre permanecer estúpida, ignorante e sem qualificações como pode libertar a criatividade de uma parte enorme da população, todas as pessoas que têm o tal jeito para uma coisa mas têm que fazer outra para subsistir.

Pode fazer florescer as artes, coisa que eu nunca valorizei muito sendo um bocado filisteu mas reconheço que é uma ocupação válida porque permite não só ao indivíduo realizar-se como proporcionar prazer a outros, independentemente da questão de quem paga pelo  quê. Outro exemplo, uma pessoa que não tenha que ir trabalhar das 9 às 5 para pagar as contas pode dedicar-se a causas nobres como solidariedade e voluntariado social ou cuidados a animais abandonados. Pode-se eliminar uma grande quantidade de stress da vida das pessoas ao mesmo tempo que os empreendedores, hiper activos  e ambiciosos podem continuar stressados a  trabalhar e prosseguir os seus sonhos , ideias, projectos  e esquemas com mais segurança e estabilidade ao mesmo tempo que os madraços podem continuar a sê-lo  sem o estigma relativo que isso hoje implica . As pessoas podem deixar de labutar em empregos que  odeiem e os façam infelizes sabendo que não caem na penúria e muitos podem prosseguir actividades que não são rentáveis nem servem para nada mas que os realizam e lhes dão prazer, como observar pássaros, aprender mirandês  ou estudar  teologia.

Para evitar convulsões , colapsos e conflitos sociais que podem fazer os que vimos até aqui uma brincadeira, para que a sociedade seja mais pacífica  e “feliz” acredito que os Senhores do Mundo vão ter mesmo que arranjar maneira de implementar o rendimento universal num futuro a médio prazo.

Turistas, catástrofes e GoT

Avariou-se-me a internet em casa e isso provoca sempre um salto de produtividade, em vez de passar tempo a engonhar em frente ao écran saio e ocupo-me de coisas mais importantes que costumam sofrer por procrastinação, especialmente limpezas de terras e pastagens e pequenos  melhoramentos pelo quintal  e  estruturas adjacentes.

Tenho 10 ovelhas, um carneiro e 2 borregos distribuídos por 4 terras diferentes, que faz dar bastantes voltas mas é, espero, a maneira de não ter que as andar a mudar todas de quinze em quinze dias, tarefa que vai ser  fácil quando tiver a minha cadela Border Collie mas sozinho é uma grande confusão e trabalheira. A ovelha que ficou sem pata vai recuperando, ainda está magrinha e não está completamente livre de infecções mas vai melhorando.

Recebi a visita de dois velhos amigos, ficaram uns dias acampados no quintal mas ao fim de três dias mudaram-se para um quarto em Sta Cruz. Hoje foram para o Corvo, vão-se amanhã embora fascinados com isto…tal como a maioria dos turistas que continua a chegar, é inaudito, andam por todo o lado. Até ver não me incomodam nada mas começo a estar apreensivo pelo Inverno, porque no Verão é normal haver gente por aqui e por e por ali mas no Inverno isto é a desolação completa, posso  descer de  casa ao porto sem ver uma pessoa sequer, são uns 2,5kms pelo meio da vila, e eu gosto assim, gosto de andar por aí de carro ou a pé e de não me cruzar com ninguém.

Já  me estou a preparar para começar a ver turistas mesmo no Inverno, pelos vistos só vão parar de fazer publicidade a isto quando houver um colapso qualquer, eu acho que deviam parar um pouco antes, por exemplo agora, porque já está bom, já chega, mais também não. Estou com azar, aposto que vão continuar a descarregar aqui visitantes ao mesmo ritmo,ou  mais acelerado ainda, até porque quanto mais as pessoas olham à volta e reparam que vivem em sítios feios, congestionados, poluídos e perigosos mais procuram o contrário. Já lá vai o tempo em que só se vinha aqui de veleiro ou com bilhetes de avião caríssimos, o que assegurava que toda a gente que cá chegava vinha com razões e vontade mesmo muito fortes e não eram pessoas que andaram  a hesitar entre as Flores e Lanzarote ou Ibiza…ou mesmo Albufeira. Quando se pode vir aqui por menos do que custa ir do Porto ao Algarve é natural que as coisas comecem a mudar. O que me fez vir viver para aqui foi, antes de todos os outros  encantos que aqui encontro, o isolamento , a paz e o sossego. 300 turistas a aterrar por dia perturbam isso um bocado, mas como já disse aqui, antes isso que uma ilha  envelhecida, pobre, estagnada e a desertificar. Tenho que me aguentar.

Está aí uma cantora famosa, esta tarde vai tocar e cantar com a minha melhor amiga daqui e mais outros amigos aí numa casa. Fui convidado e pensei olha, uma foto desta com uma garrafa de Ovelha Negra era boa publicidade , mas depois pensei  melhor e não vou. Quando a minha amiga me disse está cá a não sei quantas eu comecei  a imitá-la e a dizer que não lhe achava gracinha nenhuma , nem a ela nem à música , pelo que era indecente  depois disso ir lá fazer-me  simpático só para ter uma vantagem. Mais uma que vai voltar à sua cidade a dizer que ficou encantada , mostrar mais 450 fotografias e motivar mais 600 pessoas a virem para cá. Começo a compreender melhor a apreensão dos lisboetas com o turismo, mas há uma diferença crucial : quem vive numa grande cidade tem que contar com movimento.

Também por não ter net em casa (TV nunca tive) estou-me um bocado nas tintas para os mísseis da Coreia do Norte e para os furacões que devastaram e vão devastar mais a costa leste dos EUA e as Caraíbas.Uma das razões que me fez deixar a navegação de alto mar foi precisamente o medo dessas coisas, que já vi de perto e nunca mais quero ver na vida. Ainda há muitos imbecis que negam as alterações climáticas mas para quem é moderadamente inteligente,  sabe ler gráficos e reconhece Ciência, isto não tem nada que enganar : a frequência desses fenómenos é para aumentar. A minha solidariedade com os texanos que levaram com o Harvey é pouca, ainda o mês passado se gabavam da facilidade de construção e do crescimento enorme de Houston, agora calham-lhes as consequências de não respeitarem os leitos de trios e planícies de drenagem , cobrirem tudo de betão e acharem bonito.

O Irma já devastou sítios que eu conheço muito e gosto pouco nas Caraíbas e vai a caminho da Florida, onde tenho muitos amigos. Já há mais de quinze anos, e por ter lá vivido alguns , que eu me interrogava sobre o que é que vai na cabeça de pessoas que investem em propriedade ao nível do mar e a poucos metros da costa.

Ainda não sei , mas mais uma vez vão ser lembrados de todas as razões pelas quais é má ideia viver à beira mar. É bonito, é verdade. Mas é perigoso, e quem em 2017 não sabe isso é porque e um bocado limitado, ou não quer saber. Só para alegrar e animar lembro que Lisboa não mudou de sítio desde que foi arrasada em 1755 e que uma coisinha dessas pode vir a qualquer momento. Qualquer momento. É verdade que agora temos o SIRESP  que nos deixa mais descansados, e todos os oficiais da Protecção Civil têm o cartão partidário que assegura a competência mas mesmo assim o risco é tremendo, mesmo se depois o Presidente da República abraçasse pessoalmente cada uma das vítimas a coisa ia ser muito feia. Aos que não querem ou não podem mudar para um sítio que esteja mais defendido dessas e outras catástrofes, sugiro que pelo menos pensem no que fariam e em como lidariam com uma. É um exercício muito interessante.

 

Para terminar, e para partilhar com fãs da Guerra dos Tronos, no original, Game of Thrones, que não é bem a mesma coisa….Felizmente que não acabou a net em casa  antes de poder piratear o último episódio desta temporada. Comecei a ver aquilo há 5 anos porque apanhei  dois episódios ao calha num avião. Fiquei encantado com a premissa da coisa, com o guarda roupa, a fotografia, a música, a intriga, a mistura de vários imaginários históricos e com a  acção toda. Depois apareceram dragões e zombies e gente ressuscitada , eu não sou muito capaz da famosa  “suspensão da descrença” que permite às pessoas apreciarem a maior parte do entretenimento contemporâneo.A partir do momento em que penso “isto nunca podia acontecer” fica logo a experiência meio estragada.

Li os livros todos e abri uma excepção para a Guerra dos Tronos, mesmo com magias e improváveis e até tolerei  vários absurdos. Como por exemplo na Batalha dos Bastardos não terem dado um simples tronco de árvore e um escudo ao gigante ( sim , também há gigantes…) que  equipado assim tinha ganho aquilo sozinho, até à última temporada em que a Daenerys Targaryen desembarca numa ilha pequena e deserta com 10 mil soldados unsullied e uns 100000 dothrakis mais os seus cavalos e ali ficam. A comer pedras, presume-se. Há um  recém coroado rei dos Greyjoys que ordena “construam-me mil navios!” , frota que aparece apesar de a terra deles ser um arquipélago sem arvores.Depois  vai um grupo de bravos para lá da Muralha buscar um zombie e não se lembram de levar corvos mensageiros, há  um que tem que andar dezenas  de quilómetros a pé para encontrar um para mandar uma mensagem, e depois ainda o exército dos zombies encontra, na desolação gelada do Norte onde nunca houve homens , várias centenas de metros de correntes de ferro gigantescas que lhes permitem pescar um dragão morto do fundo de um lago. Aquilo é que foi sorte, encontrarem ali as correntes. Todos esses absurdos de logística são insignificantes ao pé das coisas fixes que tem a série, especialmente esta  cena , uma cena que me apanhou (e  a mais uns milhões de fãs devotos) completamente de surpresa quando já duvidávamos da Sansa , a minha rica Sansa Stark, e que foi o fim lindo de uns dos personagens mais odiosos da saga. Festejei aquilo como se o Sporting tivesse acabado de marcar, não me lembro de uma cena de televisão me ter deixado tão contente.

Vai ser uma espera longa até Abril do ano  que vem,quando em princípio começa a última temporada, e um dia mais tarde hei-de fazer uma longa maratona e ver tudo de seguida.  Vale a pena.

Cirurgia Ovinícola

Fiz um investimento em cinco ovelhas de raça apurada, daquelas de escandalizar os hippies, chamam-se INRA401 e foram “desenvolvidas” pelos franceses.Trazem sempre gémeos, muitas vezes trazem três crias e crescem mais depressa que as outras. Desde que as encomendei até chegarem foram quase 5 meses e como não podia deixar de ser chegaram na altura mais inconveniente de todas, no mesmo dia em que eu ia apanhar um avião para o Faial.

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Estava no porto às oito da manhã mas só as pude tirar  do contentor às 11, foi um dia muito difícil porque três delas fugiram quando estava a chegar a casa. Vieram  do Alentejo, é difícil encontrar região do país mais diferente disto, vinham de uma viagem de muitos dias num contentor, vinham enervadas e aterrorizadas e assim que se  apanharam com uma aberta largaram-se a fugir pelos campos fora , acabando duas delas no fundo de uma ribanceira de uns 15 metros, de onde eu nunca mais as conseguia tirar  sozinho, mesmo que não estivesse a duas horas de ter que estar no aeroporto.

Quem tem amigos tem tudo, pedi ajuda  e fui socorrido, estava a entrar no avião quando me mandaram uma mensagem a dizer que já estavam salvas e no seu sítio.

Quando regressei cinco dias depois uma delas tinha embrulhado uma das patas na corda que a prendia, tínha-lhe cortado a circulação e feito uma ferida e nunca mais recuperou.Desde então comecei a dar-lhe uma injecção de antibióticos por dia por indicação do veterinário, e a desinfectar a ferida mas sempre muito pessimista e ralado com a situação, a ver aquilo a piorar.

Diziam-me que o melhor  a fazer era metê-la na arca, por causa das despesas do veterinário e dos curativos  mas não, não era só por ter sido  muito cara mas também porque acho que se ela podia viver eu devia fazer o que pudesse. Em última análise a culpa era minha, o bicho não se embrulhou por querer embrulhar-se, foi porque a deixei com essa possibilidade e não a fui ver, ou melhor, não arranjei  as coisas de modo a que alguém a fosse ver todos os dias.

O veterinário foi  vê-la ao fim de uma semana e disse logo que a pata estava para lá de salvação, marcou-se a cirurgia para o dia seguinte, lá fui todo nervoso. Não tenho muito estômago para feridas e sangramentos e sofrimento, não é propriamente desmaiar a ver sangue mas fico sempre um bocado arrepiado. Como nunca tinha visto nada assim e estou farto de ver crueldades para com bichos ia preparado para que a amputação fosse sem anestesia, para aguentar a ovelha a olhar para outro lado enquanto o veterinário fazia o que tinha a fazer, mas se bem que fiquei um bocado incomodado a ver de perto a ferida já a criar bichos e a alastrar fiquei logo descansado ao ver primeiro a parafernália médica que o veterinário trouxe e depois porque não só lhe deu uma injecção de anestesia local como lhe deu outra quando viu que uma não bastava. Mais uma data de instrumentos  e produtos químicos, mais uma ocasião para me lembrar que a modernidade é assassina e insensível, as multinacionais farmacêuticas são horríveis, os modos ancestrais de criar gado é que eram bons e puros e que dantes tudo era melhor, incluindo abater  qualquer animal que se ferisse. O belo mundo antes dos antibióticos, desinfectantes  e anestesias.

Segurei a ovelha e fui olhando para o lado enquanto o veterinário limpava a ferida e preparava o corte mas depois tive mesmo que meter as mãos no sangue e segurar a pata enquanto ele serrava o osso e depois fechava a ferida com pontos. Foi mais fácil (para mim) do que eu pensava , mais uma vez me ajudou  ir preparado para o pior a pensar que ia ser muito difícil, fiquei bem contente, depois de feito o penso a ovelha levantou-se e foi ter com as outras e eu mais aliviado ainda fiquei com a conta, também aí ia preparado para levar uma marretada valente mas fiquei surpreendido , primeiro porque percebo  e dou valor ao que é preciso saber para chegar ali e fazer uma coisa daquelas, depois porque durou quase uma hora e mais ainda pela maneira calma, segura e atenciosa do veterinário, ia preparado para pagar o dobro ou mais , não sei se é aquela a tabela ou se tive desconto por ser…não me estico  a dizer “amigo da família” mas pelo menos sou conhecido, se teve alguma  influência ou não não sei, sei que voltei a casa satisfeito por ter corrido bem, por   a ovelha ter-se safo e deixar de sofrer mesmo ficando coxa e por não me ter custado os olhos da cara, digo isto porque sei que uma cirurgia daquelas num cãozinho em Lisboa custava pelo menos 3 vezes mais.

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Já está a comer melhor, a recuperar peso ( isto foi há 4 dias) e corre como as outras . Tenho agora 10 ovelhas, um carneiro e dois borregos que já estão vendidos, tudo de boa saúde e com as vacinas em dia. O número é ridículo para um ovinicultor alentejano, por exemplo, mas para aqui já é respeitável, já só me falta uma coisa: o cão, ou melhor, a cadela pastora que comecei a procurar e tratar, há-de vir para o ano de S.Jorge.

 

O Clube Naval

Está a acabar o Verão, passou mais um em que o nosso Clube Naval se limitou a receber subsídios e a gastá-los, sem sair do buraco financeiro nem cumprir a parte principal do seu objectivo fundamental: proporcionar oportunidades e condições para a juventude do concelho aprender e participar em desportos náuticos. Como saí duas vezes da ilha para participar nas regatas de botes baleeiros pude ver a diferença abismal que nos separa dos outros e que não se justifica só por sermos uma ilha pequena e remota.Pude sentir a vergonha e tristeza dos miúdos na Semana do Mar com o fiasco que foi a quase participação deles nas provas de optimist. Tembém pude ver a atitude de quem é responsável, que se escuda nessa mesma pequenez e distância, se limita a gemer por subsídios e se contenta em ser o parente pobre e distante que por ser pobre  e morar longe acha que os outros lhe devem mais.

Este ano passei cá todo o Verão e estive envolvido nas provas pelo que também pude ver a organização, projectos, aspirações e planos ou mais concretamente, a falta disso tudo. Mais de 300 iates visitam a ilha e o nosso porto, desses o Clube beneficia ZERO, para dar um exemplo. Aqui há anos o clube recebeu do Estado um iate que tinha sido apreendido cheio de droga. Esse iate, que podia ter sido escola de vela e fonte de rendimento para o clube, limitou-se a ser brinquedo de um grupo selecto de amigos. O iate foi vendido, ao desbarato por estar a decair, os amigos ainda cá estão, nenhum miúdo da ilha chegou a dar uma voltinha nele. Ninguém tem vergonha disto.

Os botes baleeiros operam um pouco melhor que o resto da vela ligeira mas ainda assim só à medida em que são subsidiados e a , arrisco eu, 60% do seu potencial. O que marca o compasso são os subsídios estatais, iniciativa própria é coisa estranha.

Passei o Verão a dizer mal da situação e gestão do Clube e a pedir , inclusivamente ao Presidente da Câmara (entidade que mantém o Clube à tona) que alguém avançasse com uma lista e um projecto de renovação, dizendo que eu oferecia o meu tempo e a minha colaboração para participar. Ninguém avançou mas várias pessoas me disseram que se eu  avançasse me seguiam e ajudavam.

Ora eu nem sou natural desta ilha nem tenho ambições, sociais ou materiais, tenho a sorte de ser aos 44 um homem realizado que aspira a viver o resto da vida descansado com o que é e o que tem e como conheço um pouco do associativismo em Portugal sei o que implica liderar uma associação que funcione bem. Implica muito trabalho não remunerado, muitas críticas, muitas desilusões, muito esforço e tempo dispendido e não eram exactamente coisas que eu quisesse para mim. Por outro lado não está na minha natureza criticar sem ser capaz de oferecer solução, e se passei o Verão todo a criticar esta direcção e o modo como um grupo selecto de amigos enterrou o Clube cabe-me no mínimo propôr-me fazer melhor, vejo as coisas assim.

É muito fácil, vemos todos os dias, desde treinadores de bancada no futebol até analistas políticos profissionais que nunca se candidataram a nada passando por economistas que mal gerem a própria casa e  críticos de música que só tocam campaínhas de porta, há sempre um exército de críticos disposto a deitar abaixo os outros mas se lhes dizem  “ok, faz lá tu melhor, vá!” escapam-se logo para o seu buraco. Falar é fácil.

Não me quero contar nesse número, sei que posso fazer melhor e se não conseguir fazer melhor pelo menos chego-me à frente e tento, com o meu melhor esforço e vontade à vista de todos. Estou a ultimar uma lista que se vai candidatar aos órgãos gerentes do Clube Naval em Setembro ou Outubro, consoante a Assembleia Geral for ordinária ou extraordinária. Candidato-me a presidente pela mesma razão que fui o oficial do S.Pedro este Verão : não há ninguém melhor que eu que avance .

Isto é  um meio muito pequenino e as velhas políticas , intrigas, hábitos, mentiras  e interesses instalados de décadas vão estar ao rubro, não só porque “quem é que este continental pensa que é” como porque algumas pessoas arriscam-se a perder poder, influência e nalguns casos, rendimentos. Não me interessa, podiam manter esse poder, rendimentos e estatuto se ao menos gerissem o clube em condições, agora desgovernar e manter privilégios pode funcionar na política nacional mas nesta escala não pode. Não deve.

Não me interessa nada que pessoas que me davam abraços há um mês deixem de falar comigo ou inventem histórias, da minha parte a atitude não muda e como sempre fiz, se tenho alguma coisa a dizer a alguém vou ter com essa pessoa e digo-lhe. O que eu quero e proponho para o clube não são abstrações genéricas nem mais do mesmo , são coisas muito concretas que espero em breve poder explicar a todos os sócios que se interessem. Encabeço uma lista fortíssima, com pessoas de estatuto, respeito e experiência, com um boa mistura de juventude e maturidade e o facto de eu não estar preso por  nenhumas amarras familiares, políticas ou de passado e de trazer uma visão nova de quem conhece alguma coisinha do mundo e já viu uns quantos clubes náuticos,  em oposição a pessoas que gerem o clube há anos e o têm como está, devia ser o suficiente para vencermos com margem enorme, mas não tenho ilusões nenhumas e é bem possível que não aconteça. Se perder também é bem possível que me digam “não tocas mais num bote baleeiro deste clube”, e também isso não me interessa, a experiência que tive neles já me encheu a alma e o que eu quero mesmo é dormir descansado à noite a saber que fiz o meu melhor por aquilo em que acredito.

Depois queixem-se

Não há nesta altura no mundo  governante que eu deteste mais que o Trump, e isto inclui vermes como  Mugabe ou  Maduro. No Terceiro Mundo (perdão por usar este anacronismo mas para mim ainda faz sentido) ainda é como o outro, as instituições são fracas , corruptas ou ambas, a população não é educada e informada e a imprensa raramente é livre pelo que é mais fácil um ditador instalar-se e permanecer lá. Quando há uma ruptura do calibre de um Trump, quando uma democracia ocidental elege uma figura daquelas, primeiro há choque mas depois há que procurar  as razões, e podem já todos ter-se esquecido mas foram mais do que dissecadas nos meses seguintes às eleições e era bom voltar a elas numa altura em que, ao retardador como é nosso timbre, começamos a importar debates e movimentos que nos EUA já têm décadas. Há gente que parece só estar à espera da deixa dos americanos para falar, vi uma jornalista pelos vistos famosa, chamada Alexandra Lucas Coelho,  a defender um monumento aos índios e africanos ao lado do Padrão dos Descobrimentos. Não achar que se deve deitar abaixo já não é mau, mas não deve tardar.

Além das mentiras , demagogias , matrafices e “hacks” da última campanha eleitoral americana , além das lutas internas entre Republicanos e  além da inépcia dos Democratas houve um factor muito importante em jogo, para mim o mais importante: quase metade dos eleitores  da América fartou-se  dos insultos, reclamações, condescêndencia, exigências e teorias sociológicas avançadas da intelectualidade urbana de esquerda, que só vê o seu umbigo e olha para o resto como atrasados e iludidos.

Cansaram-se de serem chamados de primitivos, intolerantes, anacrónicos, de lhes atirarem à cara a maldade das suas tradições e da sua cultura, de lhes ridicularizarem as crenças . Cansaram-se de ver que tudo é decidido longe, pela elite sofisticada , fartaram-se de ver os sociólogos de Berkeley a ditar regulamentos para o Wisconsin, cansaram-se de ver a imprensa e a TV nacionais centrarem-se nas Costas e ignorarem o resto do país. Chamam-lhe fly over country e não é a brincar, é uma extensão imensa onde vivem dezenas de milhões de pessoas que são excluídas dos debates nacionais e quando não são excluídos é para serem menosprezadas. São racistas? Muitos são, mas nem os que o são gostam de ser chamados racistas, quanto mais os que não são, ou acham que não são…

Pessoas religiosas e tradicionalistas a terem que levar com o debate das casas de banho para  transexuais, a verem a linguagem a ser policiada e normalizada, a verem garotos a levantarem queixas  por se sentirem ofendidos nas suas convicções por dá cá aquela palha. Pessoas a verem as suas vizinhanças e cidades a ter uma população cada vez mais de cor e religião diferente e a ser-lhe martelado que isso é bom. Pode ser ou pode não ser.

Depois de terem mais prosperidade material do que conseguem fazer com ela os americanos passaram à guerra cultural, liberais contra conservadores. Toda a gente deu por adquirido que havia dinheiro que chegasse para tudo e empregos para toda a gente que os quisesse, começaram a ocupar-se da famosa justiça social, onde manda uma regra velha e universal que pode ser exprimida cruamente assim : quem não chora não mama, e outra que diz que o importante é culpar alguém e exigir que alguém , normalmente o Estado, faça alguma coisa.

O problema não era a política externa, a produtividade, os impostos, as infraestruturas, a educação, a saúde. Os problemas nas últimas décadas têm sido coisas como o casamento gay, as chamadas causas fracturantes nas quais se especializam grupos políticos como o Bloco de Esquerda, quanto mais não seja porque o lastro técnico necessário para escrever uma lei sobre igualdade de género é uma fracção do necessário para , por exemplo, negociar um acordo de comércio externo ou reformar uma política fiscal. Por outras palavras , é mais fácil e imediato e qualquer actriz de teatro consegue falar horas sobre justiça social sem mentir ao passo que nem dez minutos aguenta se lhe pedirem para explicar o impacto da política agrícola comum na produção de vinho, por exemplo.

As causas fracturantes também se tornaram populares por serem mais emocionais, ninguém se exalta a falar de vias férreas ou portos de águas profundas, mas falem lá da co-adopção e têm para horas de exaltação, já para não  falar do aborto. Com estas  e outras questões  se passam horas nos parlamentos, juntando as discussões a  votos ridículos de louvor e pesar e infindáveis comissões que servem sobretudo para engonhar, criar ilusão de progresso , ocupação e encher os proverbiais chouriços. O cidadão conservador e tradicionalista vê isto e franze o sobrolho.

Quando os debates mais populares são desse género, causas que uns apoiam e outros abominam,  quando uns menosprezam e ridicularizam os outros, basta vir um aldrabão encartado como o  Trump para levar uma das metades. Basta ter o discurso fácil, basta fazer uma das metades rever-se nele, basta prometer um fim aos abusos e aos ataques, basta falar no mesmo tom . Não tem que saber fazer mais nada, não tem que mostrar serviço na área que se propõe dirigir, basta saber falar para o seu público , apelar-lhe  aos instintos , medos e aspirações básicas e os ânimos estão de tal maneira exaltados nesta idade das overdoses de informação, 3/4 dela manipulada, que no dia das eleições a escolha é fácil. Dá para os dois lados, ninguém se iluda, o processo básico que elege populistas à esquerda elege-os à direita.

No caso dos americanos foi a histeria do politicamente correcto , da engenharia social, do multiculturalismo como valor superior e objectivo, da perseguição e demonização dos outros,  que lá pôs o Trump.

Os guerreiros da justiça social por cá ganham saúde e gritam alto, são declaradamente contra uma quantidade de coisas, desde o heteropatriarcado aos sacos de plástico, agora descobriram que é mau haver coisas para meninos e meninas e em todas essas lutas olham de cima para baixo para os que ou não concordam ou nem sequer querem saber. São pessoas que não percebem bem o conceito de empatia , que é diferente do de simpatia, não temos que simpatizar mas devemos tentar compreender . Enervam muita gente, insultam muita gente, agridem as convicções de muita gente, muitas vezes com uma arrogância que nada justifica.

Custa-lhes, é-lhes virtualmente impossível aceitar que haja pessoas religiosas, que defendam que a vida começa com a concepção e é sagrada, que vão a touradas, têm carros grandes, acham que a homossexualidade é um mal, o casamento é exclusivo para reprodução, o aquecimento global é uma invenção, um travesti é uma aberração e usar drogas é crime. Pessoas que defendem a pena de morte, são contra a imigração , não gostam de gente de outras cores nem de quem depende de subsídios estatais para sobreviver. Eu não partilho nenhuma dessas  convicções mas não considero quem as tem um inimigo ou inferior  e haveria  muito menos problemas se conseguíssemos todos funcionar assim, não é desistir da discussão , é reconhecer que há mais pontos de vista válidos, mesmo que não concordemos com eles.

Os modernos guerreiros da justiça social não acreditam que todos esses milhões de pessoas têm uma palavra a dizer, o direito a fazerem-se ouvir e voto na matéria no que diz respeito ao gverno e leis da Nação. Acham que é gente para calar, que se deve reduzir à sua ignorância e que todos os que não concordam com eles são estúpidos. Isto é profundamente irritante.

Um dia qualquer aparece um candidato a defender  precisamente todas essas coisas que a imprensa e os círculos urbanos sofisticados abominam e têm por consignadas ao caixote do lixo da história. Um candidato bem falante, de discurso articulado, que fala, como o Trump, aos medos, convicções  e aspirações dessas pessoas e de repente, num dia de eleições,  a inteligentsia , entre duas dentadas de sushi num rooftop da capital pega no seu ipad  e enquanto lê mais um artigo na Monocle e partilha uma foto com o seu amigo cisgénero dinamarquês que está na Malásia constata que há muita gente no resto do país que tem ideias ,preocupações e concepções do mundo muito diferentes, que toda essa gente vota e que, olha, quem diria , elege um populista com um plano para pôr isto na ordem, não obstante sondagens e colunas de opinião que garantiam ser impossível.

Depois vão passar anos a queixar-se, sem perceberem  que a culpa foi deles.