Os Moralistas

Tenho-me rido  com o modo como a vida está a correr ao Pablo Iglésias nas últimas semanas. Para quem não sabe ,o Pablo Iglésias é uma figura que surgiu em Espanha no tempo da última crise económica e ajudou a criar e dirigir um movimento de extrema esquerda chamado Podemos, que defende  as opções clássicas da extrema esquerda. Se se incomodam com o qualificativo “extrema”, chamem-lhe “radical” , que vai dar ao mesmo e eles próprios se definiram assim muitas vezes.

Com o seu rabo de cavalo e retórica anti-capital e anti qualquer coisas que mostrasse conservadorismo, arvorou-se em paladino da moral o seu cavalo de batalha era a exploração dos pobres pelos ricos, os abusos dos políticos e capitalistas e as desigualdades.

Só vê-lo a defender o Maduro, ainda antes de a Venezuela estar à fome e a ferro e fogo, chegava-me para o considerar um hipócrita perigoso , mas não se pode negar que muitas das injustiças que ele denunciava eram (e são) problemas reais, como a corrupção e a evasão fiscal.

Os anos foram passando, a Espanha , sem ser com ele aos comandos, recuperou da crise , pelo que tantos como os que lhe deram ouvidos quando ouviam que “outra solução é possível” agora também já  sabem que outra solução sem ser a dele também é possível.

 Iglésias recebeu centenas de milhar de euros da Venezuela e do Irão, é legítimo um movimento político financiar-se mas essa é a primeira hipocrisia: É legítimo para nós recebermos dos nossos amigos estrangeiros para fazer a nossa propaganda, mesmo que os amigos sejam autocracias catastróficas, mas  se os outros o fazem são uns vendidos e é uma ingerência, já para não falar da vergonha que é  um país onde há fome generalizada estar a “investir” na política de outro país.

Entretanto Iglésias, que em 2011 dava entevistas na cozinha da sua casa que podia ser uma sub cave em Odivelas com o lava louça cheio e tudo, muito terra a terra, um tipo modesto e normal, a ralhar contra a burguesia e os capitalistas consumistas, subiu na vida. As desigualdades e exageros nos vencimentos dos políticos de carreira permitiram-lhe comprar, mais a sua companheira cuja profissão é deputada, uma bela casa no campo com piscina e tudo por 600 mil euros. Caíram-lhe em cima, muitas vezes esquecendo que o problema não é comprar a casa, é ralhar contra os que querem e compram  casas de luxo no campo.

Seguiu-se outra maravilhosa: afinal a casa não eram 600 mil, era um milhão e tal, mas para evitar a carga total de impostos, declarou esse valor e o resto foi em contado, como fica bem fazer a todo o cruzado da moralização que combate a evasão fiscal dos ricos.

Ri-me a bom rir quando lá foram ao chalet pendurar uma tarja a dizer “Refugiados e Okupas são bem vindos”, é verdade que ele sempre defendeu que quem tinha condições para acolher refugiados tinha uma obrigação moral de o fazer e os okupas eram um movimento legítimo. Não havia grandes condições na sub cave dos subúrbios mas naquele chalet ajardinado já pode receber algumas famílias. A seguir vi  (lamento não ter links mas não será difícil de encontrar) uma entrevista da sua companheira e deputada que é de antologia . A jornalista, uma daquelas a sério, pergunta-lhe sobre a inconsistência de ter um discurso contra os ricos e os políticos e seus investimentos e depois fazer o mesmo, especialmente quando massacraram o anterior ministro das finanças que comprou um apartamento desse valor. A deputada hesita, pensa e responde que é  diferente comprar uma casa para habitar e comprar uma casa para especular. A jornalistas pergunta-lhe:

-Como e que sabe que  Luis de Guindos comprou a casa para especular?

A deputada fica por uns dez segundos num dos mais hilariantes e encavacados silêncios que já vi na TV, levanta-se e vai-se embora.  Já hoje , dia em que soube que na segurança do chalet no campo dos líderes do Podemos estão destacados 8 guardas e 2 viaturas, vi um vídeo do Iglésias aqui há uns anos a fulminar os políticos nos quais o Estado gasta centenas de milhar em segurança, privilégio desnecessário , um abuso, temem o Povo.

Mesmo que o Iglésias levasse uma vida de asceta eu ia ser contra a maior parte das  suas ideias, contra o seu estilo e contra a maior parte das suas propostas.Estas revelações só mostram que além de criticável pela ideologia também é criticável pela hipocrisia e falso moralismo.

Entretanto por cá qualquer trapalhada e confusão entre negócios privados e vida pública dos políticos no governo se pode explicar e descartar com um “foi um lapso” ou “não tinha conhecimento”, e até um deputado do BE, irmão do Podemos em quase tudo, declarou que vivia na sede do partido em Braga mentindo sobre a sua residência em Lisboa para receber mais umas centenas de euros. Creio que ainda não se demitiu,  sem dúvida que estará pronto a apresentar em breve um discurso sobre a necessidade de moralização da vida pública, tema sobre o qual todos os políticos estão de acordo.

 

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Respirar

Choveu, não se deram as últimas demãos de tinta no segundo bote. Estão ambos magníficos na rampa. Tenho-me lembrado muito dos livros da saga Aubrey-Maturin, os livros da minha vida, e da descrição  que se fazia na Marinha Real Britânica no tempo das guerras napoleónicas dos navios de  “spit & polish” , que  priviligiavam a pintura,  a limpeza, a perfeição do aparelho, o brilho e o polimento em deterimento da operacionalidade. É como nós, temos os botes lindos, espelhados, brilhantes e sem um risco mas nem temos companhas completas e somos (ainda) uma miséria a navegar.

Um pescador a quem eu mandei um berro no outro dia quando ele estava no cais a mandar bitaites enquanto nós saíamos no bote, a perguntar-lhe se ele queria vir e ensinar-nos ou talvez pegar no leme, chamou-me, ainda pensei que me ia falar dos botes mas foi para me pedir se lhe podia dar uma olhadela na sonda da lancha, que está avariada. Infelizmente não o consegui ajudar, vai precisar de uma nova.

Amanhã há sopas do Espírito Santo e como já 3 pessoas me disseram que não me esquecesse e como é na minha freguesia, vou. Não sou devoto do Espírito Santo nem das outras figuras da Trindade juntas ou separadas e ficava um tanto desconfortável a participar numa coisa que é de devoção, mas vou, é uma tradição quase tão social como religiosa e a tradição é alimentar toda a gente que apareça sem distiguir nem perguntar nada, como verdadeiros cristãos.

Fui visitar amigos e depois de vários assuntos não consegui evitar tocar no que me anda a doer mais, por ter que declinar um convite para um “evento” amanhã à hora da final da Taça. É virtualmente impossível explicar a um estrangeiro que não se interessa por futebol o que significa o futebol para um adepto português, lá me esforcei para dar uma ideia mas está bom de ver que a paixão clubística não tem explicação racional, havendo na minha opinião apenas dois motivos racionais para se apoiar um clube em vez de outro: ou é o clube na nossa terra, bairro, vila ou  cidade ou é o clube onde praticamos um desporto. Nenhum dos casos se aplica a mim nem a milhões e milhões de outros adeptos. Fui-me embora de casa deles a sorrir por a minha amiga francesa, depois de me estar a ouvir por um bocado a falar do Sporting, ter dito.

-Fico contente por saber que sempre há uma parte irracional, emocional e inexplicável na tua vida.

Nesta foto vou ao leme de  uma parte bem racional e que se explica facilmente, se bem que também é bastante emocional. Foi tirada na primeira saída do bote este ano, com a companha que se desfez logo a seguir porque o moço da proa, que manobra a vela a que chamamos gibra por corrupção do inglês jib, teve que voltar ao seu Faial natal e deixou-nos sem uma perícia crucial para a manobra. Agora um dos maiores problemas da minha vida é conseguir aprender e ensinar o suficiente para não fazermos má figura no campeonato em Julho. Quando um dos meus principais problemas e preocupações é esse, tenho que concluir que sou um gajo de sorte.

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O Último Jogo do Sporting

Amanhã é a final da Taça de Portugal, não tenho memória de um jogo tão envolvido em drama como este. Este drama deve parecer ridículo para quem não liga ao futebol e divertido para todos os que querem a ruína do clube ou que perseguem interesses particulares e que usam o clube como um simples meio.

Pedindo desculpa aos leitores aos quais o tema compreensivelmente enoja, e pedindo-lhes que me desculpem a fraqueza, não sou capaz de deixar isto passar sem fazer (mais) alguns comentários.

  • É preciso  compreender que nenhum adepto de nenhum clube quer o bem de outro clube. Estou a falar de adepto e não de simpatizante ou curioso, e se um benfiquista ou portista me disser que quer o bem do Sporting está a ser hipócrita. Pode ser-lhe indiferente, pode não lhe querer mal, mas certamente que não lhe deseja honestamente sucesso .
  • É preciso perceber o trabalho que este presidente fez no clube. As contas são públicas e claras, com mais ou menos engenharia financeira o clube recuou da beira do precipício e CRESCEU. Isso incomoda e ameaça muita gente.
  • É preciso compreender que durante décadas o SCP foi coutada de um grupo selecto que entre herdeiros do fundador e restante círculo de pessoas de classe olhavam para aquilo como uma espécie de clube de campo, um passatempo. Um dos últimos presidentes do desastre, Soares Franco, demorou-se ontem mais tempo na televisão numa entrevista a excoriar este presidente do que costumava dedicar diariamente ao clube. Esta classe não pode nunca perdoar ter sido afastada e tudo faz e fará para voltar ao poder.
  • É preciso compreender a toxicidade e massacre de falsa informação que surgiu nesta última semana, quando o SCP está à beira de ganhar o segundo título da época, o que normalmente irrita quem não só não ganhou nada como nunca se cansou de apregoar que o SCP não ganharia nada. Para  segunda feira está prevista uma operação financeira importante, que devia ser torpedeada por todos os meios.
  • É preciso compreender que a melhor maneira de abafar notícias más é promover outras piores e não é preciso procurar muito para ver revelações sobre os adversários suficientes para levantar o caos e provocar demissões  num país mais equilibrado que o nosso.
  • É preciso ter a noção do poder dos grupos de comunicação social quando escolhem um alvo e entender que   50 pessoas vêm o barro que é atirado à parede mas  só 5 eventualmente vêm quando não cola. Além disso, e isto não é novo desta semana, a dualidade de critérios na imprensa e a facilidade com que se mente e manipula é por demais evidente, dou quatro  exemplos que vi em três dias: 1, BdC anuncia conferência de imprensa sobre a situação, toda a gente especula , ele diz que não se demite . “Jornalistas” comentam um para o outro , em directo : “BdC não se demitiu como esperávamos” . 2 , revelam-se suspeitas de corrupção do Estoril , título e comentário na TV : “O Estoril foi corrompido pelo Sporting e alegadamente pelo Benfica”. O nível e qualidade da prova são idênticos. 3 , uma TV passa o dia todo a promover : Jorge Jesus vai apresentar provas contra BdC. Chega o fim do dia e JJ desmente pessoalmente ter provas de seja o que for. 4, Alardea-se que os patrocinadores desertam o SCP, o SCP esclarece, com todos os documentos pertinentes, que o mais importante desses está em incumprimento com o clube há meses, ou seja, aproveitou a onda para se livrar de um contrato que não consegue cumprir. Qualquer grunho com uma selfie com o presidente é apresentado como amigo dele e por isso tudo o que diga é aceite sem contraditório,  publicações do calibre de uma TV guia   a fazerem capas sobre uma das filhas do BdC em termos escabrosos, nada está seguro, tudo se viola e achincalha e publica-se seja o que fôr desde que sirva para incendiar.
  • A lista podia continuar,  assim se difunde uma imagem de desagregação que o adepto médio não tem estômago, tempo ou interesse em desmontar ou perceber.

Apesar de reconhecer e estar verdadeiramente agradecido por tudo o que fez pelo clube acredito que o BdC já não tem condições de continuar, muito por causa da imagem e anticorpos criados nos próprios adeptos,  muito por sua culpa, por causa do estilo, de todas as guerras que comprou, da incontinência verbal, de várias atitudes pouco dignas e da defesa e proximidade dos hooligans.

Espero ver investigadas até ao fim todas estas alegações e indícios de corrupção e os culpados punidos, sejam quem forem, e o clube se for caso disso. Quanto à vergonha que se passou em Alcochete, espero igualmente conhecer a verdade e ver os culpados punidos, mas a verdade não é o que está nos jornais no dia seguinte, é o que se descobrir pelas investigações, interrogatórios e processos na justiça.

Bruno de Carvalho há-de sair , mas não é quando os queques de Lisboa , os clubes adversários e os jornais e televisões  quiserem e exigirem , é quando os sócios quiserem e como mandam os estatutos.

Aos abutres e hienas que dizem a rir-se que o Sporting vai acabar amanhã ou que vai fechar na segunda feira quero mandar aqui veementemente e sem desculpas para a real puta que vos pariu . O Sporting não é um grupo de hooligans, um presidente desequilibrado ou o brinquedo de uma elite. São centenas e centenas de milhar de pessoas de bem, atletas e adeptos  que construíram e vão manter o Clube como o  que tem mais títulos desportivos no mundo inteiro. O Sporting vai sempre competir e jogar , desde o futebol nem que seja na distrital  até ao ténis de mesa no campeonato do mundo, e de cabeça erguida.

Uma final é sempre um jogo importante, mas a de amanhã é só mais uma na História.

 

Estado de Choque

Uma das muitas vantagens de viver aqui é não ter que conviver com adeptos dos clubes rivais tão ferrenhos como eu, nunca os ouvir nem aturar. Bastava-me não ir ao mais importante café da vila em dias de jogo, e não me custava nada ouvir uma  boca cruzada de vez em quando, entrava-me por um ouvido e saía-me por outro, até porque o nível do debate que ouço é quase sempre inane.

Claro que conheço vários portistas e benfiquistas mas nunca me chatearam, por uma  simples razão : eu nunca os chateei  a eles. Toda a gente sabe  que eu sou  do Sporting porque todos os jogos lá estava em frente à TV num café, e quando esse fechou, no outro, mas sempre. Quando o SLB foi campeão ouvi um foguete  e passaram na estrada ao pé de casa uns 5 carros a apitar, depois passaram para baixo e foi só isso, este ano com o FCP foi só o foguete.

Não tenho TV, uma das principais razões de nunca desconfiar muito nem me fartar do Bruno de Carvalho, nunca o via nem o ouvia e muito menos aos abjectos programas de TV que moem e remoem e regurgitam e voltam a remoer questões e pormenores de merda com um nível de merda, em todos os canais.  Como é que sei que eram abjectos se não os via? Porque me bastavam excertos de 5 ou 10 segundos que ia apanhando na net e porque lia o suficiente sobre os comentadores e jornalistas em sentido lato que durante anos fizeram de fomentar a discórdia e espalhar intrigas e  ódio o seu ganha pão.

Via as capas dos jornais quase todos os dias e sempre soube que um dos mais graves problemas do desporto português era ter 3 jornais  desportivos diários . Como somos um país que não se interessa por desporto que não seja o futebol esses três jornais dedicam 95% ao futebol e têm que arranjar material para encher páginas todos os dias, dia após dia, num país do tamanho do nosso. Quem não sabe, inventa, e eles nunca se fizeram rogados. Não sei como é possível alguém acreditar que um jornalista português se especializa em desporto e não tem um clube preferido, mas é o que se fingiu acreditar e talvez ainda finja. As pessoas que seguem o tema compreendem-me perfeitamente, às outras não as vou estar a enojar com exemplos.

O meu avô era sócio 1900 e tal do SCP e o meu tio materno era Leão de Ouro, esse tio morreu o mês passado e teve com isso a graça de ser  poupado a isto que vivemos hoje, ia-lhe partir o coração. Ofereceu-me uma assinatura do jornal do clube, pensei, se é para saber como vão as equipas e o clube realmente mais vale confiar nos meus do que nesta seita que, comprovadamente, faz todo o dia fretes aos adversários e além do mais não tem nada de realmente importante a informar. As TVs fazem directos de um aeroporto se uma equipa vai jogar ao estrangeiro ou se chega um jogador, certamente que não sou o único a achar isso um absurdo mas sempre foi assim. Como é possível?

Quando o meu sobrinho mais velho tinha 5 anos cheguei um dia a casa da minha irmã e comecei-lhe a falar de futebol. “Sou do Benfica”, tentou ele. Peguei-lhe, fomos ao estádio (felizmente mora ali ao pé) , comprei-lhe um equipamento completo com nome nas costas e tudo ( felizmente nessa altura podia) e no fim de semana seguinte fomos ver um Sporting – FCP que vencemos com um golo do Marius Niculae. Remédio santo, o meu sobrinho  é sportinguista de gamebox, e  percebe muito mais de bola do que eu, por ter jogado…nas escolas do SCP, e se calhar até podia ter dado um bom trinco ou defesa central mas felizmente teve juízo.

No mês passado ao telefone os outros cinco sobrinhos pequenos que tenho fizeram questão de me lembrar que este ano no Natal era para irmos  ver o Sporting como eu tinha prometido, eles nunca se esquecem, moem a cabeça ao meu irmão com isso e eu já fazia contas à vida e ao calendário. Já lhes tinha dito que nós não ganhamos sempre, aliás, ganhamos muito raramente , mas que isso não é tudo. O importante é dar sempre o melhor, jogar com lealdade,  e lutar até ao fim. Para nós que não jogamos, o importante é a festa,os amigos , a conversa, a emoção e saber que de cada vez que começa um jogo nós temos sempre a possibilidade de o ganhar. Estas últimas já não me lembro de lhas ter dito mas acreditava nisso e certamente que lho diria se este Natal fôssemos a Alvalade. Creio bem que não vamos. Já não tenho condições para arcar com a responsabilidade de ter sido quem pegou a doença do futebol  àquelas crianças.

Ainda estou em estado de choque com as notícias dos últimos dias, primeiro com o vandalismo na academia em Alcochete. É-me muito difícil compreender como é que um adepto de um clube faz uma coisa daquelas, o que é que eles esperavam com aquilo, o que é que pensaram que ia acontecer? Que se iam safar? Que os jogadores iam jogar melhor? Que ninguém ia saber? Que 99,9% dos adeptos não os iam detestar para todo o sempre? Como é que se atinge um grau tão alto de estupidez e maldade colectiva a ponto de ir bater nos atletas do próprio clube? De tantos “agentes desportivos” em que podiam bem ter enfiado uns pares de bofetadas  (o Expresso hoje fez uma notícia com o título : NOS estaria a pensar rescindir o contrato com o Sporting” , apreciem  esse título com calma, publicado depois de a NOS ter desmentido qualquer intenção dessas) foram agredir os jogadores . Ah , estás a ver , também tu a incentivar a violência, não estou a incentivar nada, estou a dizer , depois dos factos, que entenderia melhor se tivessem sido outros os alvos.

Depois das cenas miseráveis em Alcochete, quando ainda andava aqui à procura da rolha, a pensar quem me dera ter um sportinguista com mais de dois neurónios aqui ao pé, de preferência um amigo, com quem falar e desabafar sobre isto, a pensar na vergonha imensa que uma acção dessas traz ao clube e em tudo o que levou a isso , eis que sou brindado com a noticia de que a PJ prendeu dirigentes do SCP, indícios de corrupção. Ainda não me aguentava bem de pé e ia caindo outra vez.

Há um ano que se revelam regularmente indícios de corrupção e tráfico de influências de outro clube , não via acontecer nada mas mantinha as esperanças . No dia a seguir a  serem revelados esses indícios no meu clube há logo prisões. Como é que vocês se sentiam? Não só verem  confirmadas as suspeitas de sempre de que em Portugal há dois ou três pesos e  outras tantas medidas como afinal, o vosso clube, que vocês acreditavam não uma virgem pura mas ao menos um clube com quanta dignidade quanto possível manter no futebol, também é corrupto. Um presidente cujo cavalo de batalha era a verdade desportiva também permitiu isso. Traição da mais vil.

Como não acredito que em Portugal se prendam pessoas, tarde ou cedo, por meras suspeitas, não faço como a esmagadora maioria dos adeptos adversários que, até hoje, quando os confrontávamos com os indícios claros de corrupção no seu clube, nos mandavam jogar à bola e diziam que não havia ali nada a não ser  inveja, ressabiamento  e cabalas.

O que fazem ou não aos outros já não me interessa, não espero que aconteça nada, quem pode é que manda,  o que espero e exigiria se pudesse exigir alguma coisa era que no Sporting a direcção se demita já , toda,  que  a direcção seguinte extinga as claques e interdite em perpetuidade os hooligans do estádio.Depois disso, a serem provadas as acusações de corrupção, que tudo indica ser fácil ( não tanto como ler 5gb de emails oficiais de um clube mas ainda assim fácil) , que nos façam a única coisa que pode aliviar um pouco a humilhação tremenda por que passam agora todos os sportinguistas honrados : descida de divisão , para as distritais se for preciso, e retirada dos títulos que tenham sido conquistados com práticas corruptas.  Expiação.

Domingo é a final da Taça de Portugal. Os jogadores já disseram que vão a jogo. O treinador, não faço idéia mas deixem um  dos juniores orientar a equipa que vai dar ao mesmo. As bancadas vão estar cheias de leões profundamente tristes e envergonhados mas que nunca abandonariam a equipa. O presidente da república , ambas as palavras deliberadamente com minúsculas , já disse que não se sentiria à vontade  na tribuna com o que ainda é , queiramos ou não , o presidente do clube. Também acordou agora  para a violência e corrupção no desporto e não pode deixar de cavalgar a onda, a única coisa que sabe fazer . Já lhe tenho asco.

Talvez haja violência, basta irem as claques em peso com as tarjas e cores para atrair muito sportinguista que não é de claque nenhuma e está cheio de vontade de lhes dar um bocado do próprio veneno. Piorar não pode, eu gostava de os ver a levar nos cornos do Jamor até Carcavelos à frente da polícia de choque, esgotei a tolerância, todo o bem que fizeram ao clube sob a forma de apoio durante os jogos foi por água abaixo. Com grupos organizados de adeptos tem que ser à inglesa, importamos tanta merda do estrangeiro todos os dias , as coisas boas tardam ou não chegam.

A final da Taça costuma ser uma festa mas este ano, mesmo que o SCP ganhe o jogo, o que está muito longe de ser garantido, não vai haver festa nenhuma nos corações dos verdadeiros sportinguistas, o mal está feito e o tempo de recuperação de  coisas destas mede-se em anos.

Quanto ao que agora calculo estarem a debitar os comentadores e politicos e jornalistas, todos a falar sobre o que deve ser feito , desconfio que não vai ser feito nada ou quase nada. Se bem conheço estes calhordas calculo que se vá criar mais um organismo estatal com mais uns directores e subdirectores a peso de ouro para encomendar uns estudos que vão concluir que há muita violência e corrupção no futebol e que é imperioso fazer alguma coisa. Os jornais e as televisões vão prosseguir tal e qual. O  FCP é campeão pelo que não tem interesse nem vontade de mudar nada e até porque o seu processo já foi arquivado. O SLB está protegido por 6 milhões de adeptos,  juízes, primeiros ministros, inspectores, jornalistas e  todos os bons chefes de família e todas as cúpulas que podem decidir e metem medo a quem tem cu, como se costuma dizer. Cabe ao SCP, agora atolado nesta miséria, expurgar-se a si próprio, aguentar a humilhação, descer de divisão se for preciso e renovar-se. Se descermos de divisão recupero o meu antigo número de sócio,  volto a pagar quotas e levo os meus sobrinhos à bola, para lhes explicar que somos um grande clube, tão grande como os maiores da Europa mas que estamos a jogar com o Cascalheira e o Real de Massamá por causa de ganância, falta de carácter, desonestidade e mentira, e se não querem acabar a jogar com os cascalheiras da vida têm que evitar essas coisas como a peste.

O Diogenes era um filósofo cínico que costumava andar pelas ruas da sua cidade de Sínope, carregando uma lanterna durante o dia , dizia que estava à procura de um homem honesto. É desse homem que o Sporting Clube de Portugal precisa agora, um homem tão difícil de encontrar que é precisa uma lanterna à luz do dia.

 

 

Ontem morreram 50 e tal pessoas em Gaza e não me aqueceu nem me arrefeceu, para não falar nos outros milhares que morrem e sofrem de fome, doenças e outras misérias, constantemente. Ia escrever aqui um post sobre a embaixada em Jerusalém, a família do Trump, os líderes do Hamas e o “processo de paz” e talvez um P.S. sobre o bom tempo que chegou, os botes baleeiros, os meus borregos novos ou o meu cão.

Hoje estou aqui de rastos, com a sensação de que o meu mundo desabou, que andei enganado que tempos, que estava tudo à minha frente e não consegui ver nada. Nem me consigo levantar da cadeira e ir respirar fundo e não estou longe do tal nó na garganta.

Isto por causa dos acontecimentos desta tarde, 15/05/2018,  com o  Sporting Clube de Portugal. Um clube de futebol. Um clube de futebol , senhores, eu que sou o gajo que tem a mania que é esperto, racional e frio,  tenho um nó na garganta por causa do que está a acontecer ao meu clube de futebol.

O mundo é um sítio mau e estranho, as pessoas são estranhas e más e isto é horrível.

Abanibi aboebe, idiotas.

Não gosto de festivais de nada, tirando eventuais festivais de bola que o meu clube raramente produz. Aqui na ilha há uns anos um  finlandês que cá vive juntou-se com mais uns amigos e organizou o “Green Dream Festival” , era para ser um festival internacional de música e ecologia, o resultado ficou um pouco  aquém do que se esperava e publicitava, vieram umas sete pessoas. Desde há uns anos para cá fazem  uma coisa a que chamam Azores Fringe Festival , eu chamo-lhe Cringe Festival, este ano a parte que toca a esta ilha  compõe-se de uma sessão de apreciação de cerâmica artesanal, uma patuscada num café local, um artista que vem cá falar de arte e um concerto de um pequeno grupo neo folclórico. A avaliar pelos anos anteriores tomarão parte no festival entre quinze e dezoito pessoas, claro que sou a favor da iniciativa mas não era mau que lhe dessem um nome mais coerente.

Aqui há uns anos fui de Alcobaça à Zambujeira do Mar e voltei no mesmo dia, queria mesmo ver o Peter Murphy mas não queria nada misturar-me com o maralhal por mais tempo do que fosse necessário para isso e nem sequer me imagino a ir a um festival de coisas que me interessam além de música tipo cerveja artesanal. Vou à Semana do Mar na Horta com gosto, é um verdadeiro festival, mas só vou porque me pagam a viagem e vou participar nas regatas.

E no meio dos festivais todos há a Eurovisão. Tive que ir ver de que ano era a única canção de um eurofestival de que ainda me lembrava de ter visto, ouvido, trauteado e que me ficou no ouvido, nem de propósito e estou a falar muito a sério, chamava-se Abanibi aboebe e era de Israel. Fui procurar o ano, 1978 , portanto eu tinha 5 anos e sem dúvida que me ficou na memória por a ter cantado com os meus irmãos que tempos, a sonoridade era bastante infantil e até havia o single lá em casa.

A partir daí nunca mais, não tenho ideia nenhuma de nenhuma edição nem nenhuma canção. O ano passado houve comoção nacional e ninguém escapou, mais uma vez não vi nada, ouvi a canção portuguesa duas vezes, fui ver a letra e escrevi aqui que era uma canção sobre abandono, obsessão, solidão, miséria mental, ilusão, esperança vã, mendicidade afectiva e resignação . Continuo sem me interessar, é por alguma coisa que se chama a certo género de canções “festivaleiras” . Li que íamos organizar o festival este ano, 20 milhões, pensei que no meio da roubalheira, saque e desperdício dos fundos públicos que se vê todos os dias isto não aquecia nem arrefecia, até era boa propaganda ao país. E pelos vistos é um espectáculo que prende milhões, eu quero é que as pessoas sejam felizes e tenham distracções.

Aquilo ia mais uma vez passar-me ao lado quando o Bloco de Esquerda teve mais uma genial inciativa política: a fim de protestar contra a ocupação dos territórios palestinianos e das acções militares de Israel em Gaza e na Síria e que mais há, apelavam a que não se votasse na canção israelita. Leram bem, estas pessoas juntaram-se num comité e concluíram que era importante e consequente uma campanha contra uma canção, mostrando pela enésima vez que podem ter várias noções mas a do ridículo não está entre elas.

Ao que parece a cantora israelita  até faz parte  de uma minoria oprimida, as gordas lésbicas que cantam mal , só isso seria motivo para ter senão a solidariedade pelo menos a tolerância do Bloco, mas não. Não lhes interessa que Israel seja uma democracia com imprensa livre em que no ano passado a marcha gay teve dez vezes mais pessoas do que a de Lisboa , ao passo que os países que o  Bloco prefere apoiar são geridos por fanáticos religiosos que mandam gays dos prédios abaixo, isso é irrelevante na luta.

Não sou fã de Israel nem dos seus métodos, já os critiquei aqui muita vez, sou contra os colonatos, as ocupações  e o bloqueio de Gaza mas não perco de vista as características, projectos e intenções dos inimigos de Israel e seus apoiantes como o Bloco de Esquerda e restantes anti semitas básicos.  Não basta serem anti semitas e terem a lata descomunal de tomar claramente partido por fundamentalistas religiosos contra uma sociedade aberta e moderna ao memso tempo que se dizem humanistas como ainda por cima  promovem iniciativas estúpidas como um apelo ao boicote a uma canção. Nem com as artes , supostamente uma bandeira, conseguem ser  lúcidos , é só raiva cega e vontade de agitar.

No Twitter ontem não se falava de outra coisa senão do festival, alguns tiveram a ideia de divulgar o número de telefone para votar em Israel. Não resisti e votei , e adormeci a rir-me.

 

O Porto das Lajes

Em Junho de 2005 estava  a caminho do Canadá vindo de Malta, com a natural escala nos Açores. Nessa época tanto nas idas como nas vindas parava em S.Miguel, descartando a Horta pelo congestionamento e também por estar farto de modas e da mania do Café Sport que já nessa altura tinha completado a sua transformação em atracção turística e império comercial.

Via a ilha das Flores na carta e via que só havia uma baía, um cais e um ancoradouro e  uma escala aqui nunca fazia parte dos planos mesmo sendo, geograficamente, o ponto lógico quer para fazer a última escala a caminho das Américas como a primeira no regresso à Europa. Os pilotos  (a versão náutica de guias de viagem que hoje foram substituídos por 567 sites de internet) concordavam todos: ilha belíssima, habitantes prestáveis e acolhedores para lá do normal, e mais nada. Em termos de infraestruturas, zero. Mesmo se a curiosidade me chamasse  para cá   não me pagavam para passear e passava sempre bem ao largo.

Nesse ano já estava a umas boas 200 milhas a Oeste das Flores quando apanhámos um temporal rijo, seguido de umas quebras e avarias a bordo, e uma das tripulantes estava há 3 dias deitada no seu beliche enjoada de morte, sem conseguir mexer-se quanto mais comer , nem água no estômago aguentava.

O temporal tinha que passar e com as avarias até podia bem, mas estava com medo da moça porque da minha experiência uma pessoa pode enjoar e sofrer 3 dias mas depois passa, se não passa depois de três dias, nunca mais, é para morrer de desidratação. Decidi dar meia volta, o porto mais próximo era o das Lajes.

Entrámos à vela ainda debaixo de temporal, acostámos  ao cais com o uso  que restava do motor e a ajuda de pessoal local, tivemos que voltar a largar  antes que a ondulação de fundo rebentasse com o barco contra o cais, ancorámos, e passadas quatro horas de descermos a terra havia duas novidades importantíssimas: a tripulação desertava-me , estando todos a caminho do aeroporto no dia seguinte, e eu tinha decidido que ia morar nesta ilha. Era este o barco e esta a amarração que se podia fazer, era isto ou fundear no meio da baía.

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Nessa altura não havia marina, descia-se a terra com os botes, e não obstante isso havia uma boa dúzia de veleiros oceânicos ancorados . Estava-se a aumentar o molhe exterior, como se pode ver na foto, para se poder receber um navio de abastecimento maior. Em terra havia um quiosque por cima da muralha que vendia bebidas e pouco mais, e mais acima uma pizzaria cuja dona prestava serviços como lavandaria e organizava transportes e coisas dessas. Fiquei uns 15 dias à espera de substituir a tripulação e a apaixonar-me irremediavelmente pela ilha e nesses dias houve sempre movimento no porto, veleiros a chegar e a partir.

Isto faz agora 13 anos, passemos para 2011 , a União Europeia pagou uma marina e o senhor César, que mandava nisto nessa altura, veio cá inaugurá-la como se tivesse sido feita por ele, como é  de resto normal. Foi no mesmo ano  em que fixei aqui residência e as críticas à marina não se fizeram esperar: não só era pequena e mal podia acolher e manter seguros barcos de mais de 9 metros em caso de ligeira mareta quanto mais temporal,  exposta a vento e ondulação de Nordeste que quando vem é sempre em força. Pessoas que conheciam bem o porto espantaram-se e avisaram que estavam a estender um molhe por cima de areia. Os senhores engenheiros desprezaram como de costume a sabedoria local e lá se enterraram milhões no que foi chamado de “porto de recreio” , tiveram a decência de não lhe chamar oficialmente “marina”.

Não sei nada de engenharia nem me atreveria a criticar os trabalhos mas achei muito estranho que consumissem milhões num porto de recreio e que nem uma alminha se lembrasse de investir umas escassas dezenas de milhar nas coisas tão importantes para os velejadores oceânicos como uma amarração segura: balneários, lavandaria, apoio técnico, bomba de combustível, para referir os mais importantes que continuam ausentes e nem sequer planeados ao fim de 7 anos. 

No primeiro inverno os temporais iam destruindo os pontões todos e no seguinte o pessoal do porto deu-se ao trabalho de os desmontar e arrumar. Nenhum barco, nem uma lanchinha de pesca, pode ficar ali na água durante o inverno com risco de se despedaçar, derrota-se logo o principal propósito de uma obra daquelas: ser um porto de abrigo. 

O trânsito e visitas de veleiros foi caindo, e este inverno tinha sido bom para trazerem aqui por uma orelha o responsável da obra, houve um temporal que nem foi nada de realmente especial mas que mostrou os problemas de assentar estruturas em areia, esta foto fui tirá-la hoje de propósito para que quando digo que a entrada do porto está escavacada não pensarem que estou a exagerar.

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Uma obra com seis anos, se é esse o prazo de validade destas coisas vou ali já venho. Talvez os engenheiros não soubessem que aqui o tempo é feroz no Inverno, tem que haver pessoas que não sabem isso, não é costume entregar-se a esses obras públicas de milhões mas estamos em Portugal.

Além dessa cabeça do molhe e do farolete ficou-se sem água nem electricidade nos pontões e o pontão maior, o único capaz de acolher barcos maiorzinhos, foi-se embora. Quem quiser ver as condições em que os barcos ficavam nesse pontão num dia mais fresco, está aqui este vídeo que fiz em 2015:

Esse pontão já foi, os outros estão mais ou menos presos por arames. Não há um sítio para os visitantes tomarem um duche quente quando chegam de pelo menos 15 dias de mar; um taxi tem que vir de longe, se se digna atender o telefone; para meterem gasóleo têm que andar 3 kms e ter os próprios jerrycans; não há uma lavandaria e o único bar restaurante de toda a zona do porto e da praia só serve refeições quase  por especial favor em dias certos e até certas horas. Coisas como um fusível, um cabo, uma poleia, enfim, aprestos náuticos, é muito difícil encontrar e se mandam vir uma peça do continente têm para pelo menos 15 dias.

É muito por isto que hoje (e ontem, e amanhã) o porto está assim:

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Na Horta, 140 milhas a sueste daqui , um dia de viagem, quase  não cabe mais ninguém , há um mês que o porto está abarrotado , e também na Terceira e em Ponta Delgada os iates enchem as marinas e dinamizam a economia local. Aqui fizeram esta marina porque havia dinheiro para o betão mas ninguém quis saber do resto. A construtora facturou, o César cortou uma fita e  fez um discurso, o tanque e bomba de gasóleo comprado de propósito está num canto a ganhar musgo e a Portos dos Açores , empresa pública que manda nisto, anda a ter orgasmos com o rendimento e movimento de todos os mastodontes de cruzeiros que descarregam turistas aos milhares e poluem o ar e as vistas (ou embelezam, consoante o ponto de vista) em ponta Delgada e quer lá saber mas é deste canto esquecido. Quem trabalha para eles ganha o mesmo quer haja cem iates quer não haja nenhum, eu se calhar no lugar deles também preferia nenhum.

Mas atenção: não é só por falta de condições que os veleiros já não param nas Flores, até à construção da marina também não havia condições e iam-se recebendo umas dúzias de visitas e havia animação no porto. O “problema” transcende isso e seria objecto de um post só por si mas estou embalado.

O problema é que a internet e as novas tecnologias desenvolvidas na última década mudaram radicalmente o perfil e atitudes dos velejadores de cruzeiro. Em primeiro lugar, dada a difusão do GPS e a eficiência dos aparelhos auxiliares de navegação (desde os computadores aos motores diesel)  qualquer pessoa consegue atravessar um oceano. Não vou estar a martelar em como era dantes , porque não era necessariamente melhor, mas a verdade é que a facilidade da navegação abriu a porta a muita gente que sem a facilidade do GPS, se tivesse sido obrigada a aprender e praticar navegação à estima e navegação astronómica e correr riscos de erro não se tinha feito ao mar.

Além da navegação, as comunicações: há uma sensação de segurança, hoje as pessoas sabem que se a coisa correr mal carregam num botão e  os socorros avançam, isto mandou ao mar outra revoada de gente que nunca o faria se soubesse que dependia essencialmente de si própria. Depois, as comodidades a bordo : dessalinizadores, congeladores, televisões, enfiou-se nos barcos de cruzeiro uma panóplia de objectos e dispositivos que convenceram a ir para o mar gente que não concebe viver sem os mesmo confortos de uma casa.  A seguir , e por fim , comunicações. Há internet a bordo e quando não há a bordo há nos portos todos, pelo que toda esta nova raça de navegadores pode passar parte dos dias a olhar para um ecran, a publicar as histórias mais banais que se possam imaginar como se fossem grandes aventuras e, em resumo , a publicitar as suas viagens num exibicionismo equivalente aos modelos do instagram que vivem e fazem tudo com o objectivo de se mostrar aos outros e acreditam que sem gostos, partilhas, seguidores e comentários não vale a pena andar a navegar.

Ora isto não é necessariamente mau, ate porque permite a muitas pessoas viajar e navegar vicariamente e às famílias acompanhar os seus em viagem. Muito teria gostado a minha mãezinha que houvesse internet quando viajei e atravessei o oceano pela primeira vez, se lhe tivesse podido mandar mensagens semi diárias em vez de um postal ou carta de mês a mês. O problema não é o exibicionismo, chamemos-lhe assim , que é quase generalizado, eu mesmo publico volta e meia fotos e este blog está cheio de relatos de viagem. A questão é que ninguém, ou quase, dá um passo que seja sem fazer a sua pesquisa. Ninguém vai à descoberta de coisíssima nenhuma, muito raros são os que por exemplo escolhem um porto de destino sem antes saberem tudo sobre esse porto, e quando digo saberem tudo não digo estudar cartas e pilotos, digo queimarem horas e horas nos milhentos foruns e sites “da especialidade” a pesquisar , pedir e oferecer informações sobre tudo desde o preço do gasóleo até aos dias de mercado passando pelas listas de procedimentos alfandegários. Há uma espécie de instinto de manada e se bem que há e haverá sempre uma minoria que se “perde” e gosta mesmo de descobrir a esmagadora maioria faz a sua pesquisa intensiva, sabe sempre o que vai encontrar, é uma questão de “segurança”.

O que é que isto tem a ver com a nossa marina deserta? Todos os iates que atravessam o Atlântico agora sabem bem que aqui não há condições (que há 15 anos não eram essenciais mas hoje são) e que o porto está danificado, e passam-nos ao largo. Os raros que aqui param têm uma determinação e objectivo antigo de ver isto ou não tiveram escolha e nem 24 horas ficam.

Não se pode fazer nada quanto à cultura do exibicionismo digital e da incessante presença online  (o tempo que os velejadores de cruzeiro modernos passam na doca a examinar e discutir as previsões meteorológicas disponíveis em 35 sites diferentes é qualquer coisa de surreal) mas havia coisas a fazer para que essas pessoas vissem nas suas pesquisas que vale a pena vir aqui, e para os que cá chegam não encontrassem esta miséria. Não se vai fazer NADA.

Tive várias ideias que podiam ajudar a transformar este porto numa escala agradável para os iatistas transatlânticos e mesmo os que vêm do Faial em barcos de aluguer ou da Europa do Norte em cruzeiro ao arquipélago mas como já vivo aqui há 7 anos e sou português   já sei o suficiente para não ter veleidades nenhumas nesse campo.

Existe a possibilidade desta minha análise estar errada, talvez em Junho a “marina ” se encha outra vez, se isso acontecer das primeiras coisas que vou fazer é vir aqui contar e dizer “olha , enganei-me”, mas a diferença que se vê  deste ano para os anteriores é tão grande que acho pouco provável. Todas as pessoas com quem falo aqui que sabem alguma coisa de navegação e cruzeiro concordam comigo.

Isto entristece-me um bocado mas não me preocupa, nesta outra foto pode ver-se o outro lado do porto e as nossas jóias , os botes baleeiros  S.Pedro e  Formosa.

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Mesmo com todos os defeitos, problemas, intrigas   e insuficiências, o nosso porto tem a sua vida própria,  os iates que vão lá para o Faial , beber gin no Café Sport , e dizer à sua audiência, real, imaginada ou desejada, que os Açores são magníficos depois de verem o porto da Horta ,  o Pico lá do outro lado do canal , mais umas fotografias e pouco mais, passando 1/4 do seu tempo acordados no Arquipélago a olhar para um écran.

Esta ilha não é para todos, e é assim que eu gosto dela.

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