Reportagens de Viagens

Desde que fui  pela primeira vez assinante da Volta ao Mundo e da Grande Reportagem que o mundo mudou muito, basta dizer que não havia telemóveis , internet,  gps terrestre  ou companhias aéreas low cost. Havia quatro canais de televisão e além da tv e rádio, toda a informação era em papel. Nessa altura os repóteres de viagens não só tinham a vida muito mais dificultada como escreviam para pessoas com um nível inferior de acesso, eu por exemplo gostava de ler aquilo porque estava fora do meu alcance não só ir e ver como perceber e explicar, e havia sempre sítios inóspitos e obscuros, daqueles que não são esquecidos porque nunca chegaram a ser lembrados, mesmo para miúdos cromos da geografia que liam atlas em pequeninos.

Hoje  não só é muito maior a percentagem de pessoas que viaja como nem vale a pena lembrar a explosão de informação que temos na ponta dos dedos. Em quinze minutos podemos  fazer uma visita de drone sobre Sófia, ler um blog sobre cozinha búlgara, ler os jornais búlgaros, ler sobre a história da bulgária , ver um filme búlgaro, ver o que diz a sabedoria colectiva de milhares de turistas sobre a Bulgária e por fim marcar um bilhete de ida e volta para a Bulgária. O trabalho que tinha um jornalista/repórter  a planear uma viagem para uma reportagem era no mínimo de semanas mas hoje numa tarde pode fazer-se isso . O jornalista mais dedicado passará mais tempo a estudar o objecto da sua reportagem, mas tenho a impressão (posso estar redondamente enganado porque raramente leio matérias dessas hoje em dia) de que a maior parte das vezes 3 parágrafos da wikipedia fazem o serviço no que toca a contextualizar o sítio e dar o apontamento histórico . O resto são sobretudo clichés , e  admira-me que o nível e fórmula de escrita dessas reportagens não tenha evoluído  em 30 anos.

A Visão mandou jornalistas aos Açores, ou os Açores convidaram a Visão, e fizeram um especial dedicado ao Arquipélago. Deve ser uma edição comemorativa porque usam o mesmo sub título de há 30 anos, o apelo da natureza, que é só o segundo mais fácil a seguir a escrever só “a natureza”. Esta coisa da natureza e dos mil lugares comuns que ela faz florescer quando se fala das ilhas sempre me intrigou um pouco porque para mim esta é das paisagens mais humanizadas que eu conheço, fora  de centros urbanos, obviamente. Grande parte da beleza disto é precisamente o modo como o homem se incrustou aqui , resistiu à natureza e modificou a paisagem.

A paisagem que escolheram para capa não é natureza modificada, é um  sítio que deve ser assim há muitos séculos, e é aqui nas Flores:

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Não vou fazer a crítica à prosa da jornalista, mesmo havendo o que criticar, quero criticar é o método, cujo resultado é uma das razões que me fez abandonar e desconsiderar bastante este género de leituras.

Para darem uma ideia boa das Flores  falaram com 14 pessoas . Conheço 12 dessas 14 pessoas e tanto os naturais como os imigrantes amam a ilha, vivem e trabalham na lha, sabem sobre a ilha e são pessoas com histórias interessantes para contar. A questão é que desses 14 só UM, o velho baleeiro que deles todos é o que eu conheço melhor e com quem passei mais tempo, só ele não vive do turismo. E mesmo ele, tal como os outros 13, está habituado a falar com visitantes, passa grande parte do tempo no museu da baleia ali no porto,  é uma peça de museu viva.

Isto para dizer que se queremos  fazer um retrato fiel de uma realidade não podemos ir perguntar aos que querem que o retrato saia o melhor possível, ou que querem que o retrato seja da visão particular que têm do objecto. Como sempre desde que me lembro, falam com estas pessoas:  quem lhes aluga a casa ; os guias turísticos; os donos dos restaurantes e  os empregados das “atracções” , ou seja, os jornalistas preferem, sem dúvida por preguiça, falar com quem está lá para falar com eles. É o mais fácil, e perde-se a conta às reportagens ( e até livros) cheios de citações de taxistas, bartenders e recepcionistas, que até podem ser uma amostra interessante  mas têm o problema de estarem ali para isso, se é que me estou a fazer entender.

Não foram  ver uma ordenha e saber  como se prepara o lavrador  para o Inverno. Não foram à escola falar com um professor, saber como é estar a trabalhar a mil quilómetros de casa e numa realidade tão diferente do continente. Não foram ao porto em dia de navio, não falaram com um pescador, não foram a uma câmara querer saber das intenções e perspectivas das autarquias, ou à Santa Casa ver de perto como é uma ilha envelhecida. Falar com algum desportista saber como é estar tão longe dos adversários ou talvez falar com um polícia sobre o seu trabalho aqui ou com um doente  ou médico sobre  como é que o processo que leva a transferir um doente para o hospital mais próximo, que fica a  45 minutos de avião. Nem a uma destas 14 pessoas com quem falaram perguntaram (ou se perguntaram não publicaram e acho mal) , de que é que gostam menos aqui, o que é que é mais difícil, do que é que sentem falta. Podiam perguntar-se o porquê desta ilha ser tão paradisíaca e espectacular e de apesar disso continuar a perder população.

Vão-me dizer, com razão, que o artigo da Visão não é uma reportagem de fundo, é uma divulgação turística. Ainda assim , porque é que não se  procuram visões mais  espontâneas, originais e locais? Visões que não estão comprometidas à partida com a visão paradisíaca que se pretende transmitir?  Não é  só falar dos defeitos, é procurar a visão e a história de quem não tem discurso preparado e incentivo alinhado, é tentar encontrar as belezas pela voz de quem cá vive o dia a dia sem sem se importar muito com o que  os outros pensarão disto.

Isto vale para qualquer destino, e certamente que há jornalistas de viagens que o fazem, para se distinguirem de turistas que tomam apontamentos.

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Uma espécie de independênciazinha

Depois do drama, da encenação, das hipérboles e das declarações apaixonadas, o chefe dos independentistas da Catalunha falou ao povo que se concentrava na  praça e o via na TV,  centenas de milhar de pobres escravos de Espanha, cansados de séculos de opressão e miséria, aguardavam a esperada e histórica declaração de libertação. Acreditavam  que a sua vida melhoraria mesmo se em vez de viverem na Catalunha, região autónoma de Espanha, passassem a viver  na República da Catalunha. Puigdemont compôs a franja e disse  que declara  a independência… mas fica suspensa. Ou seja , não há independência nenhuma.                      DLzGf8OXcAAcaQ-

Como começou a ver a vida a andar para trás, como se tornou aparente que milhões de catalães estavam contra a ideia, que ninguém na Europa se oferecia para mediar a questão quanto mais reconhecer um estado catalão, que as empresas debandavam e os particulares começavam a levar as suas poupanças para outro lado, que a Fitch avisou  que o rating de Barcelona caía logo com a independência, e assim sucessivamente… teve que se vergar à realidade. Todos os inconvenientes e problemas óbvios que os independentistas nunca discutiam ficaram de repente muito mais próximos e evidentes, e o sr Puigdemont pedalou para trás na melhor tradição dos demagogos quando as suas mentiras são expostas. Junta-se assim ao grupo liderado pelo Tsipras, grupo de políticos que agitam as paixões da população com ideias fortes, amanhãs que cantam  e promessas de toda a ordem para na hora H baquearem e dizerem “afinal as coisas não podem ser bem como eu vos tinha dito”, por mil outras palavras. Outro mestre da demagogia é o Pablo Iglésias, que depois de meses a agitar sem papas na língua não só pelo confronto da Catalunha com o estado central mas pela  independência real  já veio elogiar o Puigdemont pela sua sensatez. Pela sensatez que demonstrou em não fazer o que o Iglésias defendia. Na mesma declaração e mostrando bem o grau de alucinação que vai na sua vida, comparou a Espanha à Turquia. É surreal.

Fiquei satisfeito pelo que na prática é a suspensão da declaração de independencia  porque como escrevi aí atrás temia que a loucura prosseguisse a fundo, que o Puigdemont fosse de palavra e coragem e declarasse mesmo que nascia ali a República da Catalunha, e seguia-se senão o caos algo parecido.

Não tenho conhecimento de mais nenhuma declaração de independência de validade diferida, de alguma ocasião em algum  país em que um dirigente ou movimento tenha feito uma algazarra e espalhafato épico para depois subir ao palanque e dizer “Vencemos! Havemos de ser independentes, um dia mais tarde e consoante decorrer o diálogo com todas as partes!!!”  Absolutamente ridículo.  Explica  Nuno Rogeiro:

O artigo 4º, n.4, da Lei 202-00065/11, dita do referendo, aprovada pelo parlamento catalão em sessão conturbada de 6 de Setembro deste ano, diz que o mesmo hemiciclo precisa de declarar a independência, concretizar os seus efeitos e iniciar o processo constituinte, 48 horas depois da publicação dos resultados da mesma consulta, se estes resultarem em mais votos «sim» do que «não».

A suspensão deste processo não tem cabimento legal, face à norma referida.

Ou seja: viola-se não só a Constituição espanhola, mas a lei do estado a ser.

Daí a desilusão dos que queriam «independência já». E o ceticismo dos que querem uma «negociação», mas sem saber qual.

Não aplaudo  a conduta do estado espanhol nesta história, podiam ter levado as coisas sem usar a força, mas tirei-lhes o chapéu e ri-me bastante quando o Rajoy perguntou ao governo catalão se afinal tinham declarado independência ou não .

É que há leis, leis que não ficam obsoletas só porque mudam os governantes, leis que não são  imutáveis mas que obedecem a preceitos para serem alteradas, e  se não acreditamos nisto mais vale dizer que o melhor é tudo ao molho e fé em deus, venha a lei do mais forte, das maiores manifestações, de quem tem maiores audiências, de quem fala mais alto.

A minha aposta é que depois deste festival vai tudo ficar na mesma por muitos e bons anos. Ficam também a animosidade e divisões criadas pelos independentistas, que certamente não vão desistir, e o prejuízo económico para a região.

O meu voto é que os dirigentes catalães se concentrem mais em fazer a sua terra funcionar melhor e em melhorar a vida dos habitantes, coisas que se podem bem fazer sem mudar o regime político nem precisam de um estado independente.

 

PS: Finalmente há acusação ao Sócrates, um documento com 4000 páginas! Eu e mais uns milhões bons de portugueses estamos plenamente convencidos de que o homem é um corrupto  que enriqueceu ilegalmente  à conta do cargo, e para isso não é preciso ler as 4 mil páginas, é uma opinião baseada no antigo adágio, quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado lhe vem. 

Que ainda haja quem defenda o homem, que apresenta 24 milhões de euros numa conta da Suíça depois de uma passagem por S.Bento onde ganhava uns 5 mil por mês, ou 10 que fossem,  é das coisas mais extraordinárias que já vi. Que haja que seja capaz de dizer que uma acusação formal de 31 (!) crimes é uma cabala é extraordinário. Que haja advogados a defendê-lo, é preciso e é o trabalho deles, agora que haja gente que ainda espera pela sentença  para se pronunciar, é demais. Este processo é necessário para saber se há condenação e pena, e aos olhos da justiça o homem ainda é inocente, mas isso é aos olhos da justiça, que devia  ser ceguinha, não queiram que nós também o sejamos. Para mim qualquer pessoa que defenda o Sócrates ou está a ser pago para isso ou é estúpido.

A Marcha da Loucura

Um dos meus livros favoritos de sempre é The March of Folly, escrito por uma historiadora americana em 1985 e sobre o qual já escrevi aqui, há uns anos, com este título e tudo. O livro explora casos, de Tróia ao Vietname , em que os políticos tomam decisões  “loucas”  e  contrárias aos seus interesses. É um processo fascinante  que se pode ver a trabalhar desde que há História escrita e tenho a certeza de que se a sra Tuchman ainda fosse viva tinha feito uma edição nova e actualizada em que incluía a invasão do Iraque.

Os critérios que Tuchman apresentou  para que se pudesse falar em loucura eram 4 :

– A prossecução de uma política contrária aos interesses últimos do Estado na face de vozes discordantes .

-Provas de que a  mesma política era contra producente.

-A política tinha que ser o produto de decisão de um grupo em vez de um indivíduo e , finalmente , tinha que haver uma alternativa clara .

A loucura está outra vez em marcha, desta vez ali na Catalunha. A meu ver observam-se todos os critérios, especialmente porque a Catalunha não é nem nunca foi um Estado , por isso o Estado em questão aqui é a Espanha, e os líderes desse estado também já tomaram decisões com certa dose de loucura.

Carles Puigdemont, o presidente do governo regional que é a cabeça de toda a instigação e agitação independentista  afirmou ontem que vai mesmo declarar independência. Curiosamente diz isto : “A declaração de independência, a que nós não chamamos declaração unilateral de independência, está prevista na lei do referendo como aplicação dos resultados”. Aqui é bem visível o papel da retórica nesta salganhada: a declaração deles é, por definição e por observação directa da realidade, unilateral, mas ele diz que não lhe chama unilateral. Quando um político começa a oferecer interpretações  e descrições alternativas da realidade baseadas  em manobras de linguagem significa que a discussão já saiu do domínio do racional e já não se vence com argumentos racionais.

É possível ver uma cronologia do processo aqui e lendo artigos nacionais e estrangeiros sobre o tema há uma coisa que sobressai : o independentismo catalão aparece de cima para baixo, é a resposta aos anseios de uma elite que sem dúvida se sentiria melhor a governar um país do que uma região e que com a causa independentista encontra um bode expiatório para as suas próprias insuficiências e falhas e uma causa emocional e mobilizadora. Uma visão para oferecer, coisa necessária a todo o político de sucesso.

Em mais uma demonstração de talento político para distorcer e manipular factos, nas eleições de há dois anos os independentistas não conseguiram a maioria dos votos , mas  tiveram maioria dos lugares no parlamento e um dos ideólogos veio logo dizer :Ninguém pode dizer que, a partir de agora, não temos legitimidade para fazer o que queremos fazer . Ora isto é uma afirmação absurda , especialmente porque “o que querem fazer” é desmembrar um país para criar outro, não se trata propriamente de aumentar o IVA ou mudar o código da estrada. Estas pessoas viram legitimidade onde mais ninguém a via, e o processo continuou apesar de ser claramente ilegal e inconstitucional.

Arrisco dizer que o cidadão comum  está preocupado antes de mais com o seu emprego, a educação dos filhos, os serviços públicos e  a segurança. Com isto  assegurado preocupa-se com direitos políticos e a liberdade individual e colectiva.  Isto já todos os catalães têm, incluindo o respeito, instrução  e inclusão plena de uma língua que só eles falam. A vontade de independência catalã não nasce de nenhuma opressão, de nenhuma exclusão dos catalães dos processos de decisão, de nenhuma desigualdade entre eles e o resto dos espanhóis, de nenhuma memória de nação que já foi e deixou de o ser.  Nasce sim de um projecto político de uma elite.

Tentemos imaginar o que sente uma figura pública que sobe a uma varanda de uma grande praça de uma grande cidade, fala perante 70 mil pessoas e é aclamado. Sente-se a encarnação da História , que a sua causa é justa e que o povo está com ele. A Catalunha tem 7 milhões e meio de habitantes mas o nosso Carles olha para 70 mil e vê ali a população catalã, o povo. Rodeado de assessores e cúmplices colegas de causa que lhe repetem as suas próprias opiniões e ideias, a ler jornais lidos por minorias decrescentes mas que continuam a acreditar que chegam a todos,   a viver em condomínios fechados, a comer em restaurantes de luxo e  conduzido por motoristas em carros do estado mas  sempre acreditando que compreende os anseios e necessidades do povo. Este homem torna-se monomaníaco e diz a quem o quer ouvir que a causa da sua vida é a independência. Não lhe interessa que não seja a causa da vida de nem metade dos catalães, é a sua e como ele é o chefe do governo, é por consequência a causa do governo.

Deixa de se tentar melhorar o governo da Catalunha autónoma para se delirar com o projecto da Catalunha Independente. Madrid , sem surpreender ninguém, manda-o ler a constituição e o estatuto da autonomia aprovado há pouco mais de dez anos pelas autoridades catalãs representativas e diz-lhe  NO. Perante isto o que faz o nosso Carles? Começa uma campanha para possibilitar a revisão do constituição espanhola? Não. Começa uma campanha para aprofundar as autonomias? Não. Propõe um mdelo de estado federal para a Espanha?Não. Exige que se equilibrem mais as transferências financeiras? Também não, convoca um referendo que desde a hora zero lhe dizem que é ilegal. Um referendo para decidir sobre se fazem ou não um golpe de Estado. É o que se chama a atentar contra a integridade do Estado, golpe de estado separatista.

A este referendo, e muito por culpa da reacção canhestra de Madrid, acorreram  38% dos catalães, nem sequer metade, e disseram que querem  independência, logo o Carles vê nisto legitimidade para proclamar independência. Como o referendo é ilegal e não está regulamentado, não está definida a margem de participação que legitimaria a decisão dali saída , tal como as pessoas que são contra a independência, pela mesma razão, não se deram ao trabalho de ir votar.

A partir daqui a fuga é para a frente e o governo independentista, em vez de recuar, ouvir todos os avisos e prenúncios que vêm de dentro e de fora, acalmar as hostes e reconhecer precipitação e erro no método senão no objectivo, prefere saltar da parte mais funda da pisicina e diz que vai declarar independência amanhã, porque recuar agora seria perder a face. Esta relutância de políticos em perder a face já matou milhões de pessoas ao longo da História.

Enquanto Carles e amigos brincam às proclamações patrióticas inflamadas a vida continua, a realidade não muda e as notícias aparecem. Dezenas de empresas abandonam a Catalunha porque, as malvadas, preferem trabalhar num país grande e desenvolvido do que num país pequeno e novo, de regras semi-arbitrárias e fora da UE. Sim , porque a UE confirmou sem margem para dúvidas que uma Catalunha independente não seria membro. Isto deu pausa para pensar a muita gente, porque o poderio económico da Catalunha é-o por ser uma região de Espanha, isto pelos vistos não era aparente para toda a gente. Uma greve geral paralisou a região e tirou não sei quantos pontos ao PIB e os efeitos perduram. Desde as empresas às famílias aumenta a discórdia , o nosso Carles pode orgulhar-se de ter conseguido fazer algo com a Catalunha: dividiu-a como não se via desde 75.  E ontem entre 350 e 500 mil pessoas encheram as ruas de Barcelona com bandeiras de Espanha a manifestar-se pela unidade nacional . É bastante gente, e também isto fez pausar aqueles que acreditavam, vá-se lá saber porquê, que a independência era uma causa comum dos catalães.  Não é , há muitos, quiçá a maioria , que estão bem assim, Espanhóis , Catalães e Europeus e não querem embarcar numa aventura romântica para benefício da oligarquia do poder.

Como a loucura parece que já tomou mesmo conta do Governo Regional é muito provável que amanhã haja mesmo declaração de independência. Para não perder a face o nosso Carles vai despejar um bidom de gasolina na fogueira, provocar mais uma reacção dura do estado espanhol que parece que não sabe ter outras, talvez na esperança de que se acabar tudo à porrada, mais ainda, a simpatia vai cair para o lado catalão. Ainda está para nascer o político que não veja num seu seguidor com a cabeça rachada uma boa ocasião de propaganda.

Uma Catalunha independente voltaria atrás economicamente,internacionalmente passaria  de região de um grande país da Europa a país isolado que não conta para nada e ficaria , depois de inevitáveis migrações dolorosas, partido ao meio com ressentimentos para décadas. Claro que isso não interessaria muito ao Presidente da República Carles Puigdemont, cuja situação económica pessoal não seria ameaçada,  teria ainda mais privilégios e passaria a pensar nele próprio como o libertador da Catalunha.

Precisam-se de cabeças frias mas receio bem que a loucura já esteja em marcha.

 

Outubro e continuam os incêndios, se calhar a partir de agora já não há uma “época oficial de incêndios”. Dados os resultados não sei bem se declarar uma época oficial ajudou nalguma coisa, sei é que os burocratas adoram essas coisas, em que se produzem discursos , directivas, linhas orientadoras , gabinetes e comissões e quando se vai a ver no terreno está tudo igual ou pior. Como o terreno nunca é nas imediações de Lisboa, que por definição não sofre  fogos florestais, poucos querem saber.

Tal como ainda Pedrógão Grande fumegava e já o governo queria saber da sua popularidade também é normal que nestas últimas eleições se tenham feito boas contas aos votos de sítios ardidos, por arder ou imunes e tenho a certeza de que a maior parte  dos votos vem de sítios isentos de fogos florestais, logo, de pessoas para as quais  os fogos não são grande problema.

Já é um bocado como com o terrorismo, um leitor de notícias na TV começa uma história com ” em Londres  morreram oito pessoas num ataque terrorista….” e o espectador desliga logo a atenção porque já está saturado do tema e Londres é muito longe. Quando ouve “um incêndio de grandes porporções lavra desde ontem em…..” é a mesma coisa, a não ser que seja ao lado da sua casa.

A preocupação do governo com isto é idêntica à do cidadão: diz umas evidências  se lhe perguntam alguma coisa, tipo “é trágico, é uma situação que nos entristece e que tem que ser resolvida” mas daí não passa e a vida segue. Eu não tenho ideia nenhuma do que há a fazer para combater o problema dos incêndios mas esperava que um ministro tivesse, é por isso é que votamos neles e lhes pagamos, porque supostamente sabem mais do que nós e sabem resolver os problemas do país. Supostamente.

Na política partidária é o PSD que está na berlinda, o Passos acabou por se ir embora, a meu ver bem e tarde. Apesar de considerar que já devia ter abandonado a liderança há mais tempo votaria nele outra vez sem problema nenhum, considerando as opções actuais, sobretudo  porque sei  que não há politicos perfeitos e que é tudo uma questão de pesar os defeitos contra as qualidades. No caso dele acho que as qualidades superam os defeitos. Só não lhe perdoo ter tido uma maioria e o governo de um país ansioso por mudar, consciente de que estava num buraco e de que para sair dele era preciso fazer sacrifícios, foi uma oportunidade de uma geração para reformar Portugal mas, não sei se por falta de convicção própria se por cedência ao aparelho e aos interesses instalados as reformas foram caindo pelo caminho. Também no campo da comunicação patinou à grande, o seu governo nunca foi capaz de explicar claramente as causas e consequências das medidas que tomava, nunca foi capaz de saber falar por cima da gritaria histérica e desproporcionada. Sabemos hoje que foi  histérica e desproporcionada porque há hoje casos, medidas, observações e acontecimentos  de teor semelhante  que , simplesmente por ser outro governo em causa, já não incomodam tanto.

De resto, cumpriu uma legislatura, manteve isto à tona, evitou o que tantos queriam: ” seguir a via do Syriza” , via de que agora já ninguém fala e que correu como todos sabemos. Pôs a economia de novo a crescer, o desemprego a cair e ainda conseguiu ganhar as eleições depois de 4 anos de fricção. Não é pouco.

Agora a próxima oportunidade de tornal Portugal mais livre, competitivo, liberal e produtivo só chegará, se chegar, com a próxima bancarrota, altura em que as pessoas voltarão a perceber  melhor a realidade e os limites do endividamento estatal e dos mercados financeiros se tornam outra vez aparentes. Até lá teremos o Estado a inchar,  a gastar sempre mais, a estender a sua sombra a tudo e a aumentar a dívida que já é monstruosa. Que era imprescindível re-negociar mas que por causa de fenómenos paranormais desapareceu do debate e das procupações.

Nos candidatos a líder do PSD só vejo gente que já anda  nisto há 30 anos ou mais, como o Santana Lopes e o Rui Rio, que aparecem para muitas coisas mas certamente que não vêm renovar nada nem propôr nada de muito diferente do que o PSD propôs e fez no passado. Era uma boa altura para um novo partido, esperemos sentados. A Joana Amaral Dias pode criar um partido todos os meses que tem sempre a porta das redacções aberta mas  algum liberal que avance vai ter que lutar o dobro por tempo de antena e remar não só contra a corrente mas contra as nossas  “elites” e a  nossa cultura, não lhe invejo a tarefa.

Entretanto o PS instala-se de pedra e cal no Estado e faz o seu papel,  invulnerável a toda a gama de escândalos, que cá não chegam a ser escândalos, como o da ministra que recebeu uma cantora pop para lhe resolver um problema com um visto. Noutros tempos bradava-se aqui d’El Rei e era indignação certa para semanas, hoje encolhem-se os ombros, é sinal de que Lisboa está na moda e é cosmopolita e que os ministros se interessam pelas pessoas.

Enquanto houver crescimento económico e desemprego em baixa está tudo bem, é um bocado como no clube da Luz onde ninguém quer saber de corrupções, ilegalidades e vigarices desde que a equipa ganhe. Eu também aplaudo crescimento económico e desemprego baixo mas ponho reticências se o crescimento é à custa de mais e mais dívida  e o sector público é o grande empregador.

Uma das muitas experiências de psicologia relatada no livro mais fundamental das últimas décadas  para se perceber como pensamos explica perfeitamente o que se passa em muitas eleições:  perguntaram a um número de pessoas sobre a sua satisafação com a sua vida em geral. A uma parte dessas pessoas era-lhes pedido a dada altura que fossem tirar uma fotocópia. Na fotocopiadora encontravam uma moeda. As pessoas que “encontravam” a moeda revelavam-se muito mais satisfeitas com a vida do que as que não encontravam nada. Se o  simples facto de se encontrar uma moeda é suficiente para alterar a percepção e avaliação da nossa realidade, o que não fará um aumento de 1% numa pensão sobre a nossa opinião sobre o governo. Aos governos espertos basta saber a altura certa de deixar a moeda na fotocopiadora.

Votos

Não é que as filas ou multidões aqui sejam um problema mas a melhor hora para votar  é durante a missa, porque regral geral as pessoas votam antes ou depois, mas raramente das 11 ao meio dia. Estacionei a 10 metros da porta da Casa do Povo, não estava lá mais  ninguém para votar, no tempo que levou a atravessar a sala até à mesa já a senhora com o computador tinha encontrado o meu número de eleitor porque sabia o meu nome. Cumprimentei as pessoas, mostrei o cartão de cidadão e deram-me os boletins.

Conheço grande parte dos defeitos e insuficiências das eleições mas sinto-me sempre bem quando voto num processo organizado, claro e pacífico.Lembro-me sempre de países onde ou os votos não contam literalmente para nada, ou contam e há violência e corrupções de toda a ordem ou então são uma miragem de pessoas que gostavam de poder ter a sua opinião sobre os destinos do país reconhecida e contada. Enquanto houver liberdade de expressão e associação, imprensa livre e a possibilidade de de 4 em 4 anos mudar de governos, já não é  nada mau.

Aqui só o PS e PSD concorrem nas autárquicas, o que simplifica as coisas. O meu anti comunismo não é tão primário ao ponto de não reconhecer que uma autarquia do PC pode ser bem gerida e trabalhar bem mas regra geral e como princípio orientador, quanto menos comunistas organizados melhor.

Aqui há 1325 eleitores, votaram 988, quase 75% , para quem se importa com a saúde da democracia é um bom sinal. Também mostra que as pessoas se preocupam e interessam mais pela junta e a câmara do que pelo Terreiro do Paço. Este ano a margem foi muito grande mas aqui  uma dúzia de votos pode decidir uma eleição. O PS ganhou com 630 votos, o PSD teve 311. Nas últimas legislativas a abstenção foi de 50% , o PCP teve 16 votos, o PCTP MRPP teve um voto, o PNR também teve um voto e eu tenho quase a certeza que sei quem foi o gajo que votou no PNR, um conhecido meu completamente fascista.

 No resto do país não vejo grandes surpresas, o BE deve ter tido 25% de cobertura dos média para 3% dos votos e  nem o Isaltino Morais é uma grande surpresa. Como não tenho ideia de como é  morar em Oeiras não tenho ideia do que pode ter feito  o homem de tão importante para continuarem a votar nele desta maneira , mas esse é um problema das pessoas de lá.

Problema , grande, de outros é o da Catalunha. Lá votaram num referendo ilegal 38% das pessoas, e desses 90% querem a independência. Se os espanhóis mantivessem o sangue frio eram menos espanhóis, mas ao ouvir referendo, secessão e  independência, mandaram a polícia em força. Creio que teria sido muito melhor deixá-los fazer o seu referendo em paz , sempre a informá-los de que não conta para nada,  que até ver e no futuro próximo Barcelona é a capital de uma região parte de Espanha, por isso as coisas seguem como dantes.

Assim criaram “mártires”, opressão ,sofrimento e indignação. O líder dos independentistas é o chefe de um partido que obteve menos de 20%, salvo erro, nas últimas eleições. Respaldado num resultado de um referendo mal organizado, ilegal e sem obedecer pelo menos às normas formais dos referendos, diz que vai declarar independência. Tenho andado a ler sobre estes independentistas e como de costume os projectos são fortes no lirismo , visão e  inspiração mas são fininhos no detalhe. Como se o objectivo fosse a declaração de independência e todo o trabalho é feito para chegar aí , o dia seguinte a esse é muito menos discutido e pensado. Querer declarar independência depois de um referendo assim é de loucos.

O meu desejo é que  avancem depressa para uma conclusão, e só duas coisas podem acontecer : ou a catalunha secede e se torna um país ou permanece uma região de Espanha.

Se declararem a independência uma das  primeira coisas a acontecer  será a saída da UE (já tinha sido explicado aos escoceses o que aconteceria: saem para talvez voltar a entrar) . Tal como no referendo do Brexit, suspeito que a campanha independentista não passou muito tempo a falar sobre o que os catalães podem perder com a independência, talvez na crença de que não há inconvenientes nem custos.

Outra consequência  interessante pode ser no futebol, o FCB há décadas que é patrono, instigador, porta estandarte, eco, veículo e símbolo do nacionalismo catalão. Se se cumprir a independencia o FCB deve passar a jogar um campeonato com adversários do calibre do Lleida ou Espanyol , jogadores catalães naturalmente deixam de poder ir à selecção espanhola e deixam de ser cabeças de série em seja que competição europeia for. Eu achava bonito.

 

 

Sobre a Catalunha

Uma das vantagens da minha antiga profissão era   passar muito tempo com estrangeiros.Quando digo “passava muito tempo” não estou a falar de trabalhar 8 horas por dia ou ter uns amigos com quem se bebiam uns cafés ou faziam uns jantares, estou a falar de viver juntos num barco  relativamente pequeno , em navegação no alto mar,  24 horas sobre 24  em viagens que ao todo podiam chegar a durar 3 meses. Como no mar não há a maior parte das  distrações comuns, conversas longas são inevitáveis, e eu como gosto de história e política aproveitava para, caso eles fossem pessoas capazes de manter uma conversa, aprender um bocado e ficar a conhecer os pontos de vista e experiências de gente de muito sítio.Se bem que a maioria eram ingleses ou americanos também naveguei com lituanos, panamenhos, franceses, peruanos, brasileiros, alemães, holandeses, belgas, sul africanos, suecos, dinamarqueses, australianos e uns poucos mais.

Há um ano e pouco um dos meus marinheiros foi um catalão. Um dos melhores tipos que já conheci, com um entusiasmo, boa disposição e atitude incrível, uma jóia de pessoa. Nas habituais trocas de emails que precediam o embarque apresentou-se como espanhol, se bem que o seu nome era puro catalão. Ao fim de uns dias a bordo fiz a pergunta que hoje anda na boca de meio mundo :

– E a independência da Catalunha?

A reacção corporal foi correspondente ao famoso “eh pá nem me fales nisso…” mas lá me deu a sua opinião. Em primeiro, irritava-o muito a atitude centralizadora de Madrid e certas atitudes mesquinhas como o desvio de uma autoestrada nova que vinha do Sul de França e o bom senso dizia devia passar por Barcelona mas os castelhanos fizeram (ou iam fazer passar, já não estou bem certo)  por Saragoça em vez de pela costa e Barcelona. Irritava-o o desnível nas contribuições para o orçamento do Estado em que a Catalunha contribui mais do que por exemplo a Andaluzia. De modo inverso, a Catalunha recebe menos investimento público do que regiões mais pobres como a Galiza. Vá-se lá saber porquê, aquela velha máxima do “de cada um de acordo com as suas possibilidades e a cada um de acordo com as suas necessidades” não cai lá muito bem quando se tenta fazer sair das páginas dos livros para a vida real.

Tirando essas reclamações,  certamente de resolução possível sem muito drama, o meu amigo dizia que era tudo uma grande manobra dos políticos catalães, ajudada involuntariamente pelas reacções ineptas e brutas dos castelhanos. O “sentimento independentista” subiu muito a partir da crise finceira de 2009, daí em diante todo o comunista e socialista da Catalunha se convenceu de que a solução para a crise económica era a independência, apesar de não haver nenhum exemplo histórico para citar,  de que a causa da crise e da austeridade era o centralismo espanhol e de que uma Catalunha independente poderia, talvez por artes mágicas, viver num sistema diferente e isolado do resto da Europa.

O meu amigo Pepo esperava que se entendessem e que parassem com agitação e os referendos mal amanhados, era orgulhosamente Catalão mas também se sentia bem como Espanhol, como há por exemplo centenas de milhar de Açorianos orgulhosos que são igualmente Portugueses orgulhosos. Não tem que haver contradição. As expectativas do Pepo não se materializaram e as coisas para lá complicam-se muito.

Liderados por  Puidgemont, que como todos os independentistas, tem um sonho de uma nação nova com ele à cabeça e por figuras da esquerda radical como a  sra Colau , alcaldesa que trabalha para  dificultar uma das principais fontes de receita de Barcelona, o turismo, os políticos agitadores não se coíbem, como todos os bons demagogos, de ir remexer no passado: A ditadura do Franco oprimia os Catalães. Isto é um facto, mas a ditadura acabou em 75 e hoje já ninguém oprime os catalães, pelo que trazer a ditadura ao debate é muito desonesto. Como se fala de política,  também é normal.

É sabido que as revoluções são feitas , por definição, contra a Lei , e que o facto de uma coisa ser legal não quer necessariamente dizer que seja boa , e vice versa. Apesar disso há processos que se observam e respeitam num Estado de direito que os agitadores da Catalunha há muito deixaram de respeitar, e agora parece-me que já vão na fase de criar factos no terreno para confrontar o governo com eles e é nítido que estão desejosos de provocar violência da parte das forças de segurança, falta-lhes o item da opressão física, já coleccionaram  todas as outras opressões, sobretudo as teóricas.

Os meandros do processo não são muito claros  para quem como eu não segue aquilo de  perto. Vou lendo umas coisas, entre elas este texto  de um jovem comunista nacional, para os comunistas foi muito fácil encontrar os bons e os maus da questão : o governo em Madrid é do PP, logo, tudo contra eles. Teve piada porque uns dias depois o correspondente em Portugal do El País respondeu-lhe também no Expresso, dizendo-lhe  por outras palavras que divulgue a sua propaganda e ideologia à vontade e que agite com entusiasmo mas faça um esforço para não mentir  tanto.

Não encontrei sondagens muito reveladoras mas nas últimas eleições regionais os indendentistas não conseguiram chegar a metade dos votos e depois há esta afirmação de um catalão ex presidente do parlamento europeu: 75% dos que falam catalão defendem a independência, 75% dos que falam outras línguas defendem as coisas como estão. As implicações disto são claras.Uma Catalunha independente seria à partida uma nação dividida como poucas.

Para os Catalães é fácil ver em Madrid um inimigo e na independência uma solução. Neste Domingo talvez vá  acontecer um referendo ilegal,  e depois disso ninguém sabe. A minha opinião nisto vale ainda menos do que de costume e é-me naturalmente impossível dizer o que faria se fosse catalão, o que achava se fosse espanhol ou o que é melhor para uns e outros, para isso é preciso ter um livro que explica tudo e nos diz sempre como nos devemos posicionar, como o do camarada José Soeiro. Dito isto, há coisas que tenho por verdadeiras:

  • Se a independência triunfa na Catalunha abre-se a porta a processos idênticos no resto da Espanha, em Itália e em França, com a questão da Córsega.
  • Onde quer que haja uma identidade local mais ou menos definida vai surgir um demagogo populista a explorá-la, procurando o poder pondo-nos a nós contra eles.
  • A União Europeia resiste à saída de um estado membro mas não resiste à desintegração de vários.
  • Para Portugal é muito melhor, em todos os aspectos, ter como vizinha a Espanha do que a Galiza, a Extremadura, a Andaluzia e Castela & Leão, ou combinações destas e outras regiões.
  • As vantagens económicas da independência para os catalães são improváveis, a única vantagem garantida é um  impulso no orgulho, que vale muito pouco. Exemplo : o Castelhano é a 4a língua mais falada no mundo, o Catalão é uma língua que não conta para nada.

Estas são razões válidas para esperar que eles se entendam, que arrefeçam os ânimos e  que encontrem uma solução que mantenha a Catalunha como região de Espanha. Por outro lado acredito no direito à autodeterminação dos povos e no direito dos cidadãos de expressarem a sua vontade pelo voto. Se não os deixam fazer o referendo o tema nunca se resolve.

Como estudante de História não me posso esquecer de que somos uma nação nascida da secessão e  guerra com Castela, que nascemos e crescemos em guerra com eles. Tinha uma certa graça se 875  anos depois do tratado de Zamora e 377 depois da Restauração nos virássemos para os  vizinhos e disséssemos:

-Ainda aqui estamos e a Espanha acabou.

O Afrobeneficiário

Há muitas pessoas a quem o  presente não basta. Os nossos dias, com as suas lutas, dramas e glórias, com as suas  questões fundamentais, dúvidas importantes e  ameaças claras não são suficientes para ocupar os cérebros de pessoas que precisam de outro estímulo e outros combates. Muitos  encontram esse estímulo e essas causas no passado.

À falta de se poder propor uma solução concreta para um problema intratável, seja por ser manifestamente impossível seja por não sermos capazes, podemos sempre culpar quem veio atrás, e isto vale para tudo. Essa pessoa por sua vez faz o mesmo, e é por isso que é um exercício em grande medida fútil, a menos que se consiga apontar a origem e o começo claros da coisa, e é um exercício conveniente quando os “culpados” já estão todos mortos. Os problemas de Portugal começaram com d.Afonso Henriques, os do Sporting começaram com o visconde de Alvalade, os das colónias com o Infante D.Henrique.

Há um problema actual e muito antigo, o racismo , ao qual o Público dedicou recentemente uma série especial  No último artigo da série pessoas do género que descrevi falam sobre o tema . Fiquei com a impressão de que este especial teve como objectivo fazer-nos sentir mal como uma nação que tanto colonizou e escravizou. Que é devida uma qualquer forma de demonstração colectiva de arrependimento e contrição.

Francisco de Sousa  olha para um documento  em que estão registados escravos detidos pelos seus antepassados, e fica chocado. A partir daí, como não pode fazer mais nada sobre isso dado que se passou há séculos, fala sobre o assunto e pensa-o. Partilha o seu choque com os outros. Incita os outros a sentirem-se chocados e pessoalmente incomodados com uma coisa que se passou há 200 anos.  Compreende que a História de Portugal a partir de 1415 é uma história de conquista e colonialismo. Sendo uma pessoa do século XXI, conquista e colonialismo também o chocam e ofendem, e armado com essa ofensa e choque aí vai ele re visitar a História, vê-la e julgá-la à luz do que sabemos e somos em 2017. Com uma teoria unificadora  que nem os intervenientes tinham , é  juíz do passado, sabe quem foram os maus, os bons e os neutros. “Dá-lhe um curto circuito” quando ouve a música conquistador, uma cançoneta que fala das viagens e conquistas dos portugueses. Se calhar aprovaria uma balada negra  a amaldiçoar as gerações de  navegadores e emigrantes.

Passámos de uma História largamente ficcionada , empurrada pelo governo nacionalista, cheia de gestas e heróis em que a podridão ia para debaixo do tapete e era tudo glorioso para propostas como a do pessoal deste especial do Público, que defende que nos flagelemos sobre as vilezas cometidas pelos nossos antepassados e que falemos mais delas. De passar de uma visão rósea e heróica a uma negra e malvada ainda acabamos por ficar sem saber se houve alguma coisinha de bom, se podemos celebrar e admirar alguma coisa da nossa História ou se o melhor mesmo é criar já um imposto especial cujo produto reverta em favor dos cerca de 300 milhões de pessoas que serão hoje descendentes dos escravos feitos e detidos por portugueses; de compensar os descendentes daqueles a quem os portugueses fizeram mal no Oriente e um Dia Nacional da Expiação em que mandamos as criancinhas em procissão  até ao Cais das Colunas a pedir perdão por nós às gerações passadas. Completa-se com  uma Direcção Geral do Passado que se ocupe de nos fornecer o julgamento certo sobre a História: Uma pessoa quer saber sobre a Restauração de 1640 , faz um requerimento e de lá mandam um ofício com a interpretação dos acontecimentos à luz do que se sabe hoje. Neste caso podemos celebrar o fim de um jugo estrangeiro mas devemos lamentar a renovação do poder da aristocracia, pelo que o saldo é quase neutro. Já as Invasões Napoleónicas são inequivocamente negativas ,ou talvez BB1,  o 25 de Abril inequivocamente  positivo e por aí adiante.

Diz o senhor no artigo : a nossa “auto-estima” como país “está muito agarrada ao orgulho” do período da Expansão. Questiona: “Esses ‘Descobrimentos’ acabam a partir do momento em que os portugueses chegam à costa africana e começam a matar pessoas para fazer negócio. Qual o problema de contar essa história?” . Para ele  o período da expansão não é motivo de orgulho porque se mataram pessoas. O que ele descreve  ligeiramente como “chegar à costa Africana” é , em 1417 , um feito que ele não  tem capacidade nem conhecimento para imaginar quanto mais para avaliar. Pensa que os portugueses se levantaram um belo dia  e iam a caminho de outro sítio quando “chegaram” à costa africana e , como é normal, começaram a matar gente. Sim , no fundo os “descobrimentos” (nunca esquecer as aspas) foram isso : chegar lá e matá-los. Todo o resto, as viagens , a Ciência, as descobertas geográficas,as trocas politicas,a miscigenação, o progresso naval, as trocas culturais, as trocas e  avanços económicos, a História de séculos do país “acaba” porque se matou gente.

A História não é boa nem má em agregado, foi o que foi e desconfio bastante de quem propõe aplicar juízos de valor gerais a acontecimentos e processos velhos de séculos. Podem-se e devem-se condenar certos acontecimentos ou práticas, mas com o conhecimento de que isso não muda nada e não esquecendo de lembrar as que também foram boas, ou pelo menos tão boas quanto as outras foram más. O senhor Francisco Sousa dá esta longa entrevista ao Público na qualidade de afrobeneficiário,  a palavra inventada para descrever quem beneficiou de lucros de África. É  um biólogo que gosta da música dos palops, o que para o jornal parece que chega para se falar de cátedra sobre História e racismo e inventar designações. Sr Sousa, boletim informativo : todos os Portugueses são afrobeneficiários, tem que inventar uma palavra que descreva mais especificamente a sua angústia particular. E já agora , a música dos palops que tanto o apaixona não existiria como a conhecemos sem a expansão ultramarina.

Se queremos lutar contra um problema , neste caso o racismo, creio que o que há a fazer não é com que toda a gente se sinta mal por causa do passado colonial e esclavagista de Portugal, o que há a fazer é falar e perceber e educar sobre como é que são as relações raciais hoje , ensinando a História  sem nos querer responsabilizar por ela . Para resolver o problema da poluição nas cidades não é preciso dissertar sobre as fornalhas de carvão da revolução industrial e se alguém acha que nos vamos tornar um país melhor generalizando e externalizando sentimentos de culpa histórica, pense duas vezes.

Se me viessem com  um documento a mostrar que antepassados meus tinham tido       (ou sido) escravos acho que a  minha reacção seria “e o que é que eu tenho a ver com isso?” .

Para acabar , e mesmo sabendo que o objectivo do Público era discutir a situação em  Portugal gostaria que o Francisco Sousa, que ficou  chocado ao saber que os tetravôs tinham escravos e não pode ouvir o “conquistador”, nos desse uma opinião, pode ser mesmo da perspectiva do biólogo amador de música africana, sobre o que é que causará a existência de escravatura  hoje em dia e o que é que ele se propõe fazer quanto a isso. Há milhões de escravos HOJE em mais de 10 países mas o que o preocupa  são os escravos que havia há 200 anos.