Animais Rurais e Urbanos, Antigos e Modernos

O meu cão há meses apareceu com um furúnculo , ou o que me parecia a mim ser um furúnculo, no rabo. Não me pareceu sério nem grave, não o incomodava, deixei andar. Entretanto apareceu outro, e outro, fiquei preocupado. Aproveitando o facto de a cadela estar quase a fazer um ano e ainda não ter chip nem vacinas, marquei uma consulta no veterinário e lá fomos.

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A Bruma foi “chipada” e vacinada e foi marcada uma cirurgia para tirar os furúnculos do Rofe. Entretanto a meio da semana o veterinário, uma pessoa impecável que também já me tratou muita vez das ovelhas incluindo uma cirurgia numa que numa exploração normal tinha sido abatida mas que ainda aí está, com três patas mas fora isso impecável, mandou-me uma mensagem a sugerir castrar o Rofe.

Eu andava preocupado com o cio da cadela, aqui na ilha não é possível esterilizar uma e a última coisa que queria era que ela engravidasse de outro cão sem ser Border Collie. Não faltará  muito para alguns activistas do igualitarismo começarem a teorizar sobre as raças caninas dizendo que não existem e que são uma construção social, até lá, e mesmo depois, não quero cá misturas. A mestiçagem humana é uma coisa positiva, nos cães não é  e nem vou discutir isso porque quem põe isso em causa não sabe nada de cães.

Como o Rofe já entrava em parafuso e não tinha mão nele quando a cadela do meu vizinho ficava com o cio, a 300 metros daqui, já estava a ver que a minha vida quando a Bruma ficasse com o cio ia ser um inferno e até já andava a procurar na net de “cintos de castidade” para cadelas, pelo que concordei logo com o veterinário, que me fez a sugestão porque eu tinha falado do problema com ele. Ia levar anestesia geral de qualquer maneira, era um dois em um  e castrava-se o cão, coisa que eu nunca quis fazer antes preocupado com o ganho de peso e alterações de “personalidade” que chegam com a castração.

A cirurgia demorou mais de uma hora , correu bem, tenho menos uma preocupação e tudo me ficou por cerca de 50% do que me teria custado em Lisboa e 25% do que me teria custado em Bruxelas, razões para eu ainda apreciar  mais o meu veterinário e estar a reservar um borrego para lhe oferecer pela Páscoa, não só por ser boa pessoa e bom profissional mas por não ser ganancioso nem se aproveitar de situações em que não temos escolha.

A minha irmã tem um cão e vive em Lisboa, e é por isso que estou mais ou menos a par dos preços  que se praticam por lá, tal como vou vendo por amigos os hábitos de consumo e do modo de tratar os cães. Nesta época moderna da humanização dos cães (uma das tendências é dar aos cães nomes de gente) cada vez mais estes são mesmo tratados como se fossem gente e substituem em muitos casos a companhia e as relações humanas. Contra mim falo, não concebo levar a vida que levo sem cães.

Claro que se criou aqui um mercado , e onde há um mercado chegam os aproveitadores e o pessoal do marketing cuja vida é criar necessidades e convencer as pessoas de que precisam de algo que não precisam. O mercado da comida de cães a nível mundial está quase nos 90 mil milhões de dólares, não pára de crescer há uns dez anos , e o mercado das guloseimas para cães é perto de um quarto disso. Este das guloseimas é mais interessante, porque todos os cães precisam de nutrição mas nenhum cão precisa de guloseimas a menos que seja em situações de recompensa para treino, e aí qualquer coisa serve. Os meus cães respondem tanto a um pedaço de pão duro como a um super snack, simplesmente porque foram habituados a isso, como todo e qualquer cão pode ser habituado.Claro que se lhes derem coisas caríssimas e compostas desde pequeninos, vão preferir sempre isso a uma côdea ou uma casca de queijo.

Para o treino da Bruma uso uns pauzinhos “sabor borrego” marca branca que custam 75c por pacote com uns 30, e esses são partidos em pedaços pequenos. Já vi muita gente a usar para o mesmo fim biscoitos que custam 8€ por pacote de 20. É deitar dinheiro à rua, garanto-vos que o cão não nota a diferença. Aqui há dias , na estante de uma das lojas em que costuma haver promoções de produtos quase  a expirar de prazo ou mesmo expirados (e ainda bons para consumo humano ou animal) vi um pacote de “snacks dentais” em promoção. Também não falta muito para começarem a levar os cães ao dentista. Estavam a metade do preço , eram 1,5e por pacote e decidi levar uma coisa especial para os cães. Aquilo é vendido como bom para os dentes de todos os cães, o Rofe engoliu o dele em duas vezes, a Bruma levou talvez quatro, sem dúvida que o sabor é criado para eles adorarem mas quanto a fazer bem aos dentes estamos conversados. Sabem que é que lançou o alerta de que os ossos fazem mal aos cães e não se devem dar? Não é preciso muito para saber que foram as companhias que vendem produtos para os cães roerem, porque os cães todos precisam de roer, e é roer que lhes faz bem aos dentes.

Outra coisa que me deixa surpreendido é como a publicidade conseguiu fazer as pessoas acreditar que há comidas de cão que valem 200% mais do que outras e que uma comida para  um cão pequeno deve ser diferente da comida para um cão grande. Se alguém vos  argumentar em favor disso é porque vende essa comida . O Rofe tem 7 anos e pesa 42 kgs, a Bruma tem 1 e pesa uns 8, comem a mesma coisa e eu desafio quem quiser a compará-los , quer esteticamente (se lhes der um banho e uma escovadela)  quer em termos de saúde e actividade, a cães da mesma raça e idade que comam comidas que custam o dobro ou triplo. Até inventaram uma ração especial para cães castrados, que custa uma fortuna e que as pessoas compram pela mesma razão que compram sacas de 20kgs de ração a 60e em vez de 13 como eu: as pessoas adoram os seus cães , querem o melhor para eles e quando têm rendimento disponível gastam o que for para que os seus cães tenham o melhor. Os fabricantes sabem isso e não perdoam.

Aqui há dias a Bruma começou a tossir e a puxar vómitos em seco. Durou um  dia , fiquei preocupado. Continuou no dia seguinte, mais preocupado fiquei, mas via que não estava “em baixo”, comia bem , corria bem, tinha a sua actividade normal. Pensei que se tivesse engasgado com alguma coisa ou comido alguma coisa podre ou algum bicho. Não fiz mais nada, ao terceiro dia fartou-se de comer erva e lá conseguiu vomitar o que a irritava, está fina.  Digam-me se acham plausível um dono de um cão urbano e moderno reagir assim e deixar acontecer este curso de coisas. Têm bem com que  se assustar se pesquisarem esses sintomas na net, e além do pânico  que  ia levar logo a uma visita às urgências, talvez fazer um TAC ,, há outro problema: os cães das cidades, mesmo que o  instinto que resta lhes diga que há que comer erva para se purgarem, não têm erva à vista ou  se têm é de tal maneira nojenta  que ainda é capaz de lhes agravar o problema, a erva dos canteiros nos passeios não é bem a mesma coisa que a erva dos campos.

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Aqui estão eles a semana passada, a perpetuar os estereótipos de género com a menina a usar cor de rosa .

No departamento de animais de exploração , tive hoje um pequeno desgosto com uma ovelha. Começam a nascer os borregos do ano, geralmente as noites de mau tempo são propícias a partos, esta manhã uma das minhas ovelhas “de raça pura” que eu esperava que parisse a qualquer momento estava deitada e com um pedaço de um cordeiro de fora. Liguei ao veterinário mas ele estava de serviço no matadouro e o colega não estava na ilha . Lá tive que ir ser parteiro pela primeira vez, não foi nada bom porque eram tri gémeos e já estavam mortos.  A “importação” destas ovelhas de raça apurada foi dos piores erros que cometi desde que aqui estou mas é assim , vai-se aprendendo e vivendo. Já chegaram 5 cordeiros e estão outros tantos para nascer a qualquer momento, se vingarem esses dez já não é mau de todo. Já se notam uns sinais ténues de primavera, e como sempre, já é mais do que desejada.

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Façam alguma coisa!

No meu voo de hoje vinham alguns jovens turistas, já lá vai o tempo em que no inverno a ilha  fechava para o turismo, agora temos turistas todo o ano. Jovens, europeus do Norte ou americanos, a maior parte dos de hoje em idade escolar. Com o lustro e a beleza física que resultam  de gerações em segurança e bem estar e com o respaldo financeiro que permite a miúdos terem férias de dois mil euros. Com as roupas da moda, mas não da alta moda ou lá como se chama, não é a doença das marcas mas ainda assim é moda, é um certo visual que quer mostrar que somos modernos mas modestos, globais mas tribais, ambientalistas mas não hippies, à vontade mas com pinta, baixo custo mas com impacto.

Smartphone em punho porque é o sistema de suporte de vida, usar um  saco de pano cru e um telemóvel de 800€  não  parece incongruente. Garrafa de agua  (não de plástico, claro, uma de 50€ que se usa várias vezes) sempre à mão, não vamos correr o risco de desidratar nesta travessia de terras inóspitas em que a possibilidade de encontrar água potável é incerta.  É esta juventude privilegiada que desembarca aqui às centenas, à procura do que temos de único e do que nunca paramos de martelar na publicidade:  o que é natural . Temos carros de aluguer , percursos em trilhos marcados, passeios de barco a motor, casas com ar condicionado  e wifi por todo o lado para toda a gente que vem procurar o natural.

Todos estes visitantes, desde a juventude dourada que é  a mais bem tratada , bem educada, alimentada , alojada e informada de sempre na História da Humanidade e apesar disso acha que é oprimida e tudo isso, até aos mais velhos, as primeira gerações e possivelmente as últimas a usufruir de um sistema de segurança social que é um puro esquema de pirâmide que se mantém em andamento à custa de crédito e de investimentos nos (horrorosos) mercados financeiros, toda este gente, dizia eu , põe a preservação do Ambiente num patamar muito elevado.

Todos são muito conscientes dos problemas que nos afectam e do que nos espera. Todos acreditam e são capazes de desenvolver ideias sobre o Antropoceno. Todos concordam que as alterações climáticas são reais e todos acreditam que os governos têm a obrigação de fazer alguma coisa. E é daí que vem o meu problema com isto, todos exigem que se faça alguma coisa, muito poucos estão dispostos a fazer alguma coisa.

Já tinha visto umas coisas aqui e ali mas deparei-me agora com este artigo sobre manifestações de adolescentes por toda a Europa. Exigem acção. Protestam. Bloqueiam e fazem greves escolares. Vi vídeos das jovens líderes dos movimentos, testemunhos sinceros de jovens preocupadas com o seu futuro. Apelos emotivos. Ted talks.

O que me faz sorrir, como macaco  velho, cínico e insensível que sou, é que esta garotada toda está perfeitamente em sintonia com a música dos tempos: Indignamo-nos e exigimos que alguém faça alguma coisa, mas não nos perguntem o que é que estamos nós dispostos a fazer.

De que é que prescindimos nas nossas vidas para “salvar o planeta”? Que tecnologia poluente vamos deixar de usar? Que hábitos alimentares estamos dispostos a mudar? De que confortos ou conveniências vamos prescindir? Que indústrias propômos encerrar? E a roupinha, vamos usar as roupas até se gastarem ou continuar o ciclo da “moda” e adorar a variedade? E os cosméticos, é para abandonar ou as modelos da PETA precisam do seu rouge e sei lá que mil merdas mais que as mulheres põem na cara antes de nos virem falar sobre o seu amor pelo natural? Sabem que os metais raros que estão em cada um dos nossos telemóveis são extraídos em minas em países como o Congo, que funcionam como o próprio Congo em geral? Não me venham com lamentos sobre as crianças mineiras se não conseguem largar um objecto que existe porque elas existem. E esse instrumento máximo para assinalar a virtude nos nossos dias, o carro eléctrico, que trabalha a baterias, nem vale a pena dissecar o custo ambiental do seu fabrico e que acabam por ser carregados com electricidade produzida pela queima de combustíveis fósseis, esses carros cujo impacto ambiental total deve ser pouco mais que insignificante? Podíamos andar todos de Prius amanhã que o mundo ia  continuar a cozer lentamente, não se iludam.

Vejam este gráfico, os motores do crescimento das emissões :

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Diz respeito aos EUA mas os números na Europa não hão-de ser radicalmente distintos. Por cá querem-nos convencer de que são os automóveis o problema, os diesel em particular. Uma narrativa especialmente apelativa para as pessoas urbanas , servidas por transportes públicos e que não precisam de carro. Para esses, cada vez mais a maioria , é confortável exigir restrições aos carros e aplaudir a intrujice dos “limites de emissões” que só servem para os fabricantes venderem mais carros  e para se apaziguarem algumas consciências.

Comparem as emissões dos camiões com as dos aviões. Estima-se que a aviação tem um impacto de cerca de 2% nas emissões de CO2. Sabem quem é que faz essa estimativa? As companhias aéreas.  E a conta não fica por aí porque obviamente não se trata só de calcular o combustível queimado em cada voo, há toda uma série de emissões laterais, mas de qualquer maneira não vejo ninguém , muito menos a juventude urbana moderna e privilegiada da Europa e dos EUA, interessado em deixar de voar ou vir dizer do alto de um palanque num protesto : Temos que viajar menos de avião!! Uma continha para os meninos que andam a entupir as ruas aos berros de “façam alguma coisa” : um voo transatlantico de ida e volta emite CO2 suficiente para derreter 10 metros quadrados de gelo polar.  Todos os dias há cerca de 4500 voos transatlânticos. Paramos com isto ou não? Aqui há uns meses aterrou aqui uma cineasta brasileira. A sua vida é fazer documentários sobre minorias étnicas oprimidas e tal, veio cá mostrar um filme feito em África. Passa literalmente a vida a voar de um lado para o outro e não lhe pareceu um tanto prejudicial ao ambiente voar 4 mil kms para vir dizer a 50 pessoas : eu fiz este filme, alguma pergunta? Claro, não foi só isso, veio conhecer, porque as nossas viagens individuais não fazem mal nenhum, más são as viagens em agregado, especialmente as dos outros.

Nunca vimos nem vamos ver  uma campanha a pedir o fim das viagens aéreas, ou mesmo a sua redução,  viajar de avião é uma necessidade do mundo globalizado e uma  aspiração  da juventude moderna, que sofre muito e exige a solução de um problema que, é certo, não foi ela que causou mas que não contribui com grande coisa para resolver, porque o problema radica nos nossos hábitos de consumo e no modo como a nossa economia está estruturada. Metade dos putos americanos que andam pela rua de T Shirt do Che Guevara quebravam-se em lágrimas se acordassem num sistema socialista, mas esta é a época da imagem, e se a estética da revolução é apelativa, os detalhes deixam de importar muito.

Muito acima dos aviões na escala dos maiores emissores estão os navios de carga. Esses navios andam a abastecer as fábricas e o comércio internacional, para trazer a estas populações o conforto e todas as demais coisas que eles querem , nomeadamente porque passaram o último século a ouvir prometer-lhes tudo  e a ver a publicidade convencê-los de que precisam de tudo isso para terem uma hipótese de serem felizes. Quando as promessas falham, enchem-se as ruas .

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Perguntem a estas pessoas que sacrifícios concretos estão dispostos a fazer em prol do ambiente, porque separar o lixo não só não é um sacrifício como não vai arrefecer o planeta, tal como não mandar lixo para o chão em Bruxelas não vai retirar 500 toneladas de lixo diárias das ruas de Port au Prince…que acabam no mar.

Esta “Ted Talk” é impressionante , primeiro porque a miúda consegue em 10 minutos descrever o problema todo . É igualmente impressionante ver uma miúda de 15 anos com aspergers subir a um palco e fazer de memória um discurso poderosíssimo na sua segunda língua. E é impressionante porque mostra que os mais pequenos ainda acreditam que é possível mudar o sistema antes que seja tarde, que os poderes vão ouvir o apelo e , mais importante do que isso, conseguir coordenar acção global e consequente. E finalmente é interessante notar o aplauso estrondoso que ela recebe, de pessoas que tenho a certeza mudaram pouco ou nada na sua vida quotidiana depois de ouvirem aquilo e saírem da sala, terão talvez mudado na convição e determinação de  exigir que se faça mais.

Já desde o tempo do Al Gore que ouço dizer , com dados e argumentos férreos, que acabou o tempo. Que alterações dramáticas estão à porta e são irreversíveis, salvo alguma acção conjunta e revolucionária, que obviamente nunca vai acontecer, por mais manifestações e exigências que se façam. Não costumo precisar que me digam seis vezes a mesma coisa para perceber.

E o que é que eu faço, já que não acredito em ir para a rua gritar contra o governo e o capitalismo global e exigir ? Reduzo os meus consumos ao máximo que sou capaz e tento empurrar esses limites. Mantenho o meu pedaço do planeta o mais limpo e produtivo que consigo. Reconheço as minhas contradições e tento melhorar. Tento alertar os outros sem ser muito chato nem muito hipócrita e tento adaptar-me às mudanças que já estão aí e vão aumentar. Para mim até é fácil, não tenho filhos, não quero impressionar ninguém  e levo muitos anos a preparar-me para isto.

Químicos e Paraísos Perdidos

Aqui há uns tempos  fiz um negócio de ovelhas com uma família franco alemã de semi trogloditas  anti sistema que vivia aí atrás de uns montes. Era gente simpática , trabalhadora e honesta mas tinham a mania  do “sistema” e a sua vida era construída em volta de lutar contra o sistema,  escapar ao sistema, denunciar o sistema. Isto cansa, nas outras pessoas todas gera fadiga, neles gera paranóia.

Quando concluímos o negócio e fui lá levar as ovelhas perguntei por mensagem se queriam que levasse mais alguma coisa, já que eles pouco desciam à vila. “Sim, pasta de dentes da ilha, se faz favor!”. Fiquei surpreendido, perguntei onde é que isso se vendia e o que era , responderam que se vendia na farmácia , era “pasta de dentes natural”. Lá fui,  e perguntei ao farmacêutico se tinha pasta de dentes natural, dizendo  que me tinham pedido assim e nem sabia bem o que era isso.

“Só se for a Couto”, sugeriu ele.

“Isso, deve ser isso”

“Há muitas pessoas que preferem esta, continua o farmacêutico, porque não tem químicos. 

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Há muitos anos que convivo com níveis enormes de iliteracia científica,  eu não sou nenhum cientista mas pelo menos sei o que é um químico, as enormidades que ouço regularmente da parte de conhecidos meus “anti sistema” nem me incomoda muito, na medida em que não tenho filhos que vão conviver com os filhos não vacinados deles, e porque tenho sentido de humor. Ouvir um farmacêutico a descrever-me esse produto como “não tendo químicos” já me incomoda, mas pouco, porque adoptei a posição  o mais neutra possível, convencido de que o futuro é estúpido e isto é tudo para arder.

Uma vez ainda tentei fazer ver que pelo raciocínio que estavam a aplicar a determinado produto, alarmados porque se tinha demonstrado que era cancerígeno e venenoso, podiam dizer o mesmo das laranjas ou do chocolate, tentei fazer perceber aquela verdade vetusta que diz que é a dose que faz o veneno. Não passou, também não insisti muito porque creio que não vale a pena prosseguir discussões com quem não entende uma coisa tão básica, não tenho espírito nem conhecimentos nem paciência para ser missionário ou apóstolo de seja o que for.

A mulher de um bom amigo meu está nesta altura no hospital em S.Miguel. Passou os últimos 20 anos numa cruzada contra os químicos. Vive num sítio virtualmente livre de poluição atmosférica como é esta ilha, cultiva a sua própria comida, não come carne e só come o peixe que pesca e ovos de galinhas alimentadas a cereais biológicos, que vêm de uma loja biológica no continente, tal como a farinha para o pão. Come ervas, frutos  e tubérculos que cultiva consoante as fases da lua e bebe beberragens obnóxias só porque as particularidades de determinada planta são conhecidas desde a idade média. Não compra nada nas lojas excepto talvez sal e azeite,  uma dieta que leva o meu amigo quase às lágrimas mas ele não tem outro remédio. Aquilo para mim é violência doméstica, ainda por cima ela tem várias características do que é vulgarmente descrito como  harpia mas o amor não só é cego como precisa de sustento, sustento físico, e o meu amigo tem zero de seu, logo, mais incentivo para amar.

Uma dieta radical é uma coisa, mas ela não se fica por aí, todos os produtos que nós comemos são veneno, somos todos parvos por comer o que se vende nas mercearias , as companhias que fabricam e distribuem comida querem-nos matar, a medicina moderna é uma fraude total, as farmacêuticas estão em liga com os médicos e as produtoras de comida e os governos, todos no fundo nos querem doentes ou mortos. Bons , sãos , autênticos e saudáveis são os saberes ancestrais, de quando a esperança média de vida ia pelos 38, a mortalidade infantil era de uns 30%  e se morria de cólicas.  Ah, os bons velhos tempos antes do sabonete e dos antibióticos,  da dieta composta por 6 géneros  alimentares, todos biológicos.

Vi-a na semana passada, regressava do centro de saúde daqui, tinha sofrido imenso com problemas da tiróide, sofreu a ponto de se resignar a ir ao médico, tinha sido medicada mas não correu bem.

-Então, estás melhor?

-Muito melhor, mas só quando deixei de tomar os medicamentos!

-Pronto, nunca mais tomes medicamentos! disse eu com a veemência possível. Adoro o marido dela mas mal a suporto. Então o que se passou foi que a terapia prescrita aqui não teve efeito nenhum, ela telefonou ao pai de uma amiga que é médico em França (a medicina é uma fraude mas a medicina francesa é menos fraudulenta que a portuguesa) que lhe disse que o que ela estava a tomar não era adequado para os sintomas, estava a causar outros problemas. Parou de tomar os medicamentos, melhorou, nunca em momento nenhum lhe ocorrendo a possibilidade de que falando mal português como ela fala um médico pode ter dificuldade em percebê-la e que existem médicos menos competentes que outros, não é por isso que a medicina é uma fraude.

Tão cedo melhorou por deixar de tomar os medicamentos como tornou a piorar do problema original e foi agora a S.Miguel fazer uma TAC num  aparelho operado por um xamã e recuperado da antiga sabedoria Maia que utilizamos em noites de quarto crescente para ver dentro dos corpos das pessoas. Depois desse e outros exames complementares , depois de finalmente ter ido a um hospital central  para ser diagnosticada em vez de se tentar fazer entender em português miserável a um médico que talvez  não esteja no centro de saúde da Ilha das Flores por simples acaso, vai regressar.

Não sei se quando ela regressar vou resistir à tentação de lhe perguntar : Então, 20 anos de tudo o que é bom e faz bem, sempre a uma distância segura de tudo o que nos faz mal, e acontece-te isto? Tanta coisa e afinal ficas doente como os outros? Aprendeste alguma coisa com isto ou não?

O mais provável é não dizer nada, sou capaz de lhe recomendar a aromaterapia e os cristais,  não deve ter aprendido nada e vai continuar a comer erva e raízes do quintal e a ralhar contra o mundo moderno e as suas fraudes, na ilusão de que o modo como vive e o que come a protegem do inevitável.

Há vantagens claras (e documentadas  por essa ciência e medicina “fraudulentas”)  numa alimentação equilibrada que privilegie o fresco em detrimento do processado e os produtos de uma agricultura menos intensiva em vez dos produtos da agricultura industrial,  dependente de pesticidas, herbicidas e fertilizantes. Isso está fora de questão. Também está provado que a carne e o peixe não são essenciais ao funcionamento do corpo humano, para os veganos isto é uma revelação filosófica  mas é um simples facto  implícito na nossa condição de omnívoros. Não comer carne, além de nos livrar  (aqui não é sarcasmo) de contradições éticas e morais contribui, ainda que muito pouco, para menos desmatamento, menos emissões de metano e melhor  utilização dos cereais e água.

Para observar isto e cuidarmos mais da saúde e do ambiente não temos que embarcar em radicalismos, explicações binárias, cruzadas pessoais ou conflitos com o próximo e a sociedade em geral. Não temos que ser paranóicos, diabolizar o que não percebemos bem  nem meter na nossa vida níveis de stress enormes, como no caso da mulher do meu amigo que vive obcecada com aquilo e esse stress e tensão permanente contribuíram, tenho quase a certeza, para a mandar para o hospital. Tal como esse stress, paranóia, activismo e radicalismo contribuíram para que a família a que me referi no início deste texto tivesse abandonado a ilha no mês passado, em guerra com todos, sem amigos, antagonizando vizinhos e autoridades e finalmente saindo em desgraça e revolta por o Paraíso não ser como o imaginavam. Nunca é.

 

Perdido na Tradução

Estou a meio do que é, para mim e até ver, o livro mais importante dos últimos anos, “Sapiens”, de Yuval Noah Harari. Ando fascinado, não por ler revelações assombrosas mas porque tem desafiado alguns dos meus preconceitos e me tem obrigado a pensar. Há  livros de que gosto porque me informam ou abrem perspectivas novas mas não me lembro do último que me obrigou a repensar conceitos e fazer um esforço para perceber as implicações da informação que estava a receber. Considero-o já um dos livros mais importantes do século, lamento ter deixado passar 8 anos desde a sua publicação e recomendo-o com toda a força possível.

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Começo a escrever sobre ele antes de o terminar por causa de um problema em que encravei desde o princípio mas que hoje rebentou, a tradução. Ora,  um dos privilégios que tenho é saber inglês. Não tenho falsas modéstias, é mesmo assim, e tenho esse privilégio  porque não me canso de trabalhar nele, todos os dias leio e muitos dias escrevo em inglês, ouço programas ingleses , o inglês foi a língua de trabalho durante quase duas décadas e isso tem vantagens. Essas vantagens vão além daquelas que são confirmadas nos poliglotas, estudou-se que têm num grau maior o  que pode ser definido como “agilidade mental”, por conseguir recorrer a duas estruturas linguísticas diferentes para exprimir e conceptualizar. Na prática confere-me, entre outras,  a vantagem de ter acesso a cerca de o dobro da informação pelo simples facto de ser mais ou menos essa a proporção entre falantes de português e de inglês, isto torna-se aparente nas buscas na internet, por exemplo. Quando a maior parte dos falantes de português usa a variedade brasileira, com a qual eu tenho alguns problemas, isto ainda e mais importante.

Há muitos anos que decidi deixar de ler traduções, não compensa, tal como não compensa comprar uma edição de capa dura havendo edição de bolso. Tradutor é das profissões mais  difíceis e ingratas que há, fico com um nó na cabeça quando penso em pessoas que conseguem traduzir poesia, é sabido que há sempre alguma coisa que se perde, excepto, creio, em livros técnicos sem margem para nuances , ambiguidades , localismos ou expressões idiomáticas. Se conseguimos ler o original não há  razão  para ler uma tradução. Comprava muitos livros em viagem e quando as viagens abrandaram até quase parar passei a comprar online  (aqui, por exemplo, recomendo muito, portes gratis) .

Da última vez que passei numa livraria foi no aeroporto, até tinha algum dinheiro e nada para ler na viagem, já tinha ouvido falar no Sapiens e comprei a edição portuguesa. Andando, andando, uma coisita ou outra sem importância me começou a dizer que a tradutora não era nada por aí além. Ontem comentei com um amigo sobre a tradução errada que ela faz de “glass ceiling” ,  sei que era isso pelo contexto, ela escolheu “telhado de vidro”. Ora, tecto de vidro não se usa em português, mas em inglês significa um limite superior que não é visível mas que existe, até ser quebrado. Exemplo, Hillary Clinton quase quebrou esse tecto de vidro, se fosse eleita quebrava essa barreira invisível mas real entre as mulheres e a presidência dos EUA. Já “telhado de vidro” tem o mesmo sentido que lhe damos, quando os temos não convém atirar pedras. O autor referia-se a um , os leitores portugueses têm lá o outro.

Não será grave mas grave a sério considero o erro que aparece na contra capa da edição portuguesa , porque se refere a um tema crucial e estruturante da tese  do autor, que  é resumida assim :  “O fogo deu-nos poder , o boato ajudou-nos a saber cooperar, a agricultura aumentou o nosso apetite, a mitologia manteve a lei e a ordem, o dinheiro deu-nos algo em que confiar, as contradições geraram a cultura, a ciência fez-nos letais”. O livro é a explicação e desenvolvimento destes pontos, só que há um problema. O autor não diz “boato” , no original diz “gossip” (fui confirmar) e são duas coisas diferentes.

“Boato” é algo  genericamente falso. Segundo o   dicionário Priberam, é isto : 1. Notícia anónima e não confirmada que é divulgada no domínio público. = ATOARDARUMOR. 

“Gossip” não significa boato, é melhor traduzido por “bisbilhotice” ou  “mexerico” , que é definido no mesmo dicionário  assim: 1 Acto de querer saber para ir contar a outrem.2. Facto ou coisa contada em segredo ou ssem conhecimento do(svisado(s).

Se forem ao tradutor do google  e puserem lá “gossip” ele oferece-vos 12 hipóteses, nenhuma delas “boato”.

Se não veem a diferença ou se não a acham significativa, peço desculpa por  ter desperdiçado o vosso tempo com isto. A tese de que a circulação de informação sob a forma de mexericos e cuscuvilhices foi crucial na criação dos mecanismos de cooperação humana é central no livro, não foi a disseminação de boatos, foi a disseminação e partilha de informação sobre os outros, pelo que me parece  um erro de monta.

De cada vez que me deparo com uma coisa destas, já para não falar nos massacres que são as traduções para televisão e cinema, penso sempre  na quantidade de coisas que passam , a quantidade de erros,  desinformação e enganos que todos os dias circulam por via de traduções deficientes, isto tem que fazer  algum mal ao mundo.

 

O Ministro e o gasóleo

Durante muitos anos fomos incentivados a evitar comprar carros a diesel porque são mais poluentes que os carros a gasolina e aceitámos isso como certo. São estudos e até dá na televisão.  Não é bem assim , ou pelo menos isso não está demonstrado para lá de qualquer dúvida, muito porque os motores a gasóleo funcionam de modo diferente, apesar de  serem de combustão interna como os a gasolina, e a composição do gasóleo é diferente. Nunca foram recolhidos e analisados dados suficientes para chegar a uma conclusão sobre qual polui mais, em termos absolutos, se um carro de 1300cc a gasóleo se  outro a gasolina, e  não podemos afirmá-lo com certeza. Têm eficiências diferentes, os processos de produção do gasóleo e da gasolina são diferentes, é uma conta diabólica de fazer mas não é feita pela dificuldade, não é feita porque ao fim e ao cabo não interessa a ninguém fazê-la.

Nestas coisas de causa e lutas é sempre preciso ter um inimigo bem identificado e o diesel serve o propósito lindamente. Os fabricantes de automóveis vendem igualmente carros a gasolina, tal como os vendedores, pelo que é  difícil organizar a defesa do diesel, não é uma causa popular, sobretudo nos centros urbanos, onde estão as pessoas que votam e que interessa convencer, agradar e dar a ilusão de acção.”Estão a ser tomadas medidas”.

Um facto que gosto e referir é que os 15 maiores navios de carga do mundo poluem mais do que todos os automóveis do mundo.  Leiam outra vez a frase, por favor, e se quiserem aprofundem com os artigos disponíveis nesse link. “Poluição”, como na comparação entre gasóleo e gasolina, não é uma categoria fixa , no caso dos navios, que queimam fuel muito mais pesado que gasóleo e gasolina , estes níveis de poluição referem-se sobretydo a óxido de enxofre e óxido de nitrogénio, podemos ir esmuiçar os compostos diferentes emitidos por carros e navios e o seu nível de perigosidade mas está estabelecido que, se definirmos “poluição” como “nível de compostos químicos venenosos libertados para a atmosfera”, os tais 15 maiores navios são uma das maiores ameaças que temos.

Vamos admitir que o óxido de nitrogénio e o óxido de enxofre nem são assim tão maus, comparados com o que soltam os motores dos automóveis que queimam combustíveis refinados. Vamos reduzir a proporção para metade e admitir que os 30 maiores navios poluem tanto como metade dos carros do mundo. Isto já é seguro de dizer, com os dados que temos, e  mais interessante se torna quando reparamos que no mundo existem cerca de 52 000 navios mercantes, óbvio que nem todos são semelhantes aos 15 maiores mas todos queimam fuel pesado. Ao pé das emissões destes navios todos, globalmente, as dos automóveis mal registam.

Lembremo-nos disto quando por exemplo a Câmara Municipal de Lisboa quiser banir os carros a diesel do centro da cidade e depois se congratular com o número de navios de cruzeiro que aportam na cidade.

Com essa imagem passemos para o actual ministro do Ambiente, que aqui há uns meses chegou às páginas dos jornais por sugerir por outras palavras que uma boa maneira de sofrer menos com os  preços elevados da electricidade era consumir menos electricidade. Não deixa de ser verdade mas é um raciocínio perigoso da parte de um ministro, que pela mesma ordem de ideia pode aconselhar as pessoas a viver em casas mais pequenas e mais longe dos centros, comer menos, circular menos e por além, como forma a não sofrer com o aumento dos preços. No tempo do Passos um ministro dizer isto daria direito a linchamento imediato, hoje as sensibilidades estão menos apuradas. Além disso o senhor afirmou que na sua casa tinha contratada a potência mínima, 3,5kw. Só se for na casa de férias , disseram os cínicos, “vamos confirmar isso”, diriam os jornalistas num país com jornalismo digno do nome habituado a confrontar o poder. Eu acredito que a maneira de sofrer menos com os preços altos é consumir menos, mas esforço-me por ser coerente com esse raciocínio, o ministro não, de tal maneira que negou logo essa interpretação das suas palavras.

Voltou recentemente às primeiras páginas , com a  questão do diesel, que continua o arqui inimigo do ambiente. Entre outras coisas o ministro diz que quem comprar um carro a diesel hoje , daqui a 4 anos não terá valor de troca. 

Quatro anos é muito tempo, não sei o ministro disse aquilo assim de repente porque lhe saiu ou se foi uma declaração ponderada, nesse caso devia por exemplo ter ido ver o que se previa há quatro anos. Em 2014  pensadores e decisores como o  ministro diziam que por 2018 o uso dos carros electricos estaria generalizado. Tendo a palavra  “generalizado” o sentido que lhe é dado pela maioria das pessoas, noto que isso não se verificou nem está nada perto disso, pelo que esta afirmação do ministro não vale muito. Muita coisa muda em 4 anos e creio que a única maneira de se garantir que isso ia acontecer seria ficando este governo no poder e criando esse facto por via fiscal, taxando os carros a gasóleo até à extinção, o que não é impossível.

Também noto que o ministro acha que um automóvel novo hoje perde o seu  valor em 4 anos, é o mesmo quando me dizem casualmente que o meu carro não vale nada. Vale sim, vale mil euros , compreendo que felizmente num país rico como o nosso para a maioria das pessoas mil euros não são  nada mas para mim e para mais alguns ainda é bastante. Dá para comprar um carro.

E por fim a outra afirmação do ministro, que infelizmente não tenho link para ela mas posso encontrar : “o tempo de vida de um carro são 4 anos”. Aqui temos a demonstração de como esta gente  (uso o termo com  plena consciência de que é depreciativo) olha para o mundo,  do seu nível superior e sem fazer a mínima ideia de como se vive cá em baixo. Ele acha que um carro dura quatro anos porque toda a sua vida (fui verificar) ocupou altos cargos do Estado, que trazem invariavelmente “carro de serviço”. Quanto mais alto se sobre na escala, melhores são os carros, e mais importante, renova-se a frota a cada quatro anos, aqui sim, plenamente em regime SCUT, sem custos para o utilizador.  Arrisco dizer que o ministro do ambiente nunca comprou um carro para si desde que começou a trabalhar, nem comprou combustível, nunca pagou portagens nem estacionamento nem seguro, pelo que é esta a ideia que tem dos automóveis: duram quatro anos e os a gasóleo são terríveis para o ambiente.

Para mim um automóvel é um meio para nos levar de A a B  permitindo transportar o que precisamos. O meu carro é de 1996, tenho-o há uns 15 anos, é a gasóleo e espero ficar com ele até ele deixar de cumprir a sua função de meio de transporte. Compreendo que para muitas pessoas o carro seja um meio de afirmação de qualquer coisa e que a maior parte engula vorazmente a publicidade que faz com que as pessoas pensem que uma coisa está “desactualizada” e tem que ser trocada. Igualmente compreedne que para muitas pessoas o carro seja uma paixão que lhes consome tempo e rendimentos e gostam de ter carros potentes e recentes. Eu provavelmente também tinha se pudesse,  mas como não posso não tenho e isso não me tira sono, além disso há várias vantagens nos carros velhos além do preço mas não vale a pena agora falar delas.

O que é absolutamente falso é afirmar que a vida de um carro sejam 4 anos, nem sequer  são 12 como dizem os vendedores e fabricantes, é a mesma história com os telemóveis que as pessoas compram como topos de gama para dois anos depois se convencerem de que já não servem. Um Ministro do Ambiente em condições devia combater este género de consumismo daninho e incentivar as pessoas a comprar menos coisas e a usar o que têm ao máximo, mas isso acho eu, que sou um bocado maluco. A maior parte dos políticos, seja de que pelouro for, quer é manter a máquina em andamento.

Ministros do Ambiente que estivessem seriamente preocupados com a poluição atmosférica deviam apertar os calos à indústria da navegação e em vez de forçar os cidadãos automobilistas a largar o diesel  deviam forçar a Maersk, Hapag Lloyd , CSC e todas essas comapanhias a trabalhar a sério para reformar os seus sistemas de propulsão.

O Ministro do Ambiente de Portugal podia por exemplo denunciar e acusar os crimes contra o ordenamento do território ou multar pesadamente a Celtejo que leva anos a conspurcar e contaminar o rio Tejo sem consequências, em vez de participar em plantações de sobreiros em areais à beira mar ou tentar coagir o cidadão a trocar de automóvel frequentemente.

 

A Influencer de Deus

O nosso presidente é católico apostólico romano e crê na Igreja Una e Santa, como sem dúvida afirma todos os Domingos. Tudo bem , felizmente  todos os portugueses podem afirmar e praticar a crença religiosa que lhes calhou no berço, ou aquela a que se converteram, ou nenhuma, e o presidente não é excepção.

A  questão é que , também felizmente, pela nossa Constituição, o Estado é laico, o que creio que significa que toda a gente tem liberdade de professar uma religião mas o Estado não tem nenhuma, só tem a obrigação de assegurar essa liberdade. Sendo assim, as pessoas que não são religiosas ou que têm outra religião que não o catolicismo podem justamente ter objecções quando vêm o presidente embarcar com uma comitiva considerável para o Panamá, para participar de festividade católicas em representação dos portugueses , à conta do orçamento geral do Estado.

Essa representação, sem dúvida importante para os católicos, devia ter ficado a cargo de um quadro superior da instituição. Ia um bispo , a expensas da sua diocese, e levava quem quisesse. Se o cidadão Marcelo quisesse ir ver o Papa ao Panamá e agitar lencinhos coloridos em nome da esperança ou lá o que é que lá se faz, pegava no seu cartãozinho de crédito, tirava uns dias de férias e lá ia, mas não, temos que pagar todos.

Não está em causa que a esmagadora maioria dos portugueses seja católica e goste de ver o festival do Panamá e de lá ver portugueses a marcar presença, o que está em causa é um princípio constitucional, o da laicidade do Estado que o presidente  representa, e representa cada vez pior.

O que se passa no Panamá é um festival religioso internacional, juntam-se crentes de todos os países para ouvir a mensagem, recarregar baterias e sair de lá com as suas convicções reforçadas pelo facto de confirmarem ao vivo que há milhares de pessoas em todo o mundo a pensar como eles. A mensagem ouvida ao vivo é outra coisa, as palavras soam diferente se as ouvirmos proferidas num palco rodeados de correligionários entusiásticos, é a mesma diferença entre ouvir um disco em casa ou ao vivo. A música não deixa de ser a mesma mas a intepretação entusiasma mais.

Como a maior parte das pessoas, herdei a fé dos meus pais sem ninguém me perguntar nada. Cresci católico como teria crescido muçulmano se tivesse nascido no Egipto ou Baptista se tivesse nascido no Sul dos Estados Unidos. Lembro-me muito bem do papa João Paulo II, ou melhor, de ouvir falar nele, porque além de católica a minha família era muito ligada a Fátima, e ele também. Também presto atenção a política desde pequeno, e lembro-me perfeitamente de ouvir falar no General Jaruselsky, da resistência e desafio do sindicato Solidariedade em Gdansk e do apoio fortíssimo de João Paulo II a quem lutava contra as ditaduras comunistas.  Também me lembro de aprender que o Papa era o Vigário de Cristo na Terra, o que quer dizer que o Papa fala por Cristo, logo, fala pelo Filho de Deus que é  igualmente Deus por via do mistério da Santíssima Trindade. Existe o dogma da infalibilidade do Papa em matéria de fé ou moral ,  e há aqui alguma margem de manobra porque esta infalibilidade é ex cathedra , ou seja , pode haver duas categorias de pronunciamentos papais, os que são , vá lá, oficiais, feitos a partir do Trono de S.Pedro, e o resto, pelo que o papa tanto pode ser infalível como não ser .

 João Paulo II não apreciava o socialismo , passo a citar , traduzido daqui:

“O erro fundamental do socialismo é de natureza antropológica. O Socialismo considera o indivíduo simplesmente como um elemento, uma molécula no organismo social, pelo que o bem do indivíduo é completamente subordinado ao funcionamento do mecanismo socio-económico. Do mesmo modo o socialismo mantém que o bem do indivíduo pode ser realizado sem referência à sua livre escolha (…)

Este é um simples exemplo de entre muitos, e não tendo que ir buscar encíclicas ou pronunciamentos ex cathedra ou fora da cátedra, toda a gente se lembra da importância que o Papa teve não só na queda do socialismo na Polónia como na Alemanha, e por extensão, no fim da Guerra Fria. Infalível falando do trono ou falível falando do palanque, o Vigário de Cristo da Terra nos anos 80 criticava  o socialismo. A Igreja fez dele um santo mas o Vigário dos nossos dias é muito diferente. No tempo intermédio houve outro, do qual sinceramente só lembro a figura um tanto sinistra e alguma ideias retrógradas até para um Papa , e hoje temos aquele a que os católicos mais novos se referem , num querido esforço de familiaridade, como Papa Chico.

Até eu, que me tresmalhei do rebanho mas vou vendo o que se passa, o considerei, e considero uma lufada de ar fresco depois do anterior que era uma lufada de incenso e mofo. Trato afável, expressão de bonomia e uma tentativa de conduzir  a sua igreja à defesa dos mais fracos e oprimidos. Ninguém que tenha a noção do que é a Igreja Católica pode esperar que esta se reforme por acção de um homem, vigário escolhido ou não, é apenas um homem. Apesar disso podia esperar-se mais alguma coisinha sobre dramas, opressões e injustiças do nosso mundo, mas está visto que não, ou só sobre algumas. O Vigário de Cristo hoje, ao contrário de há 30 anos, é um homem de esquerda e tem os mesmo reflexos de todas as pessoas de esquerda, que não são maus nem bons mas não são de estimar em alguém que fala por centenas de milhões e , mais importante do que isso, em nome de Deus, que ao que sei e do modo como mo representam, não é de esquerda nem de direita.

Sobre a desgraça que se desenrola na Venezuela o Papa não consegue ter uma posição forte contra a tirania como o seu antecessor JP II teve quanto à Polónia. O máximo que consegue é pedir que se reze pela Venezuela e apelar à paz e à justiça, é mais ou menos o que faz  a Miss Universo. Ou ninguém tem rezado nada pela Venezuela ou não está a resultar, mas resultados nunca foram maneira de avaliar a eficácia das preces.

O Papa Chico, nas sua modernidade , também usa o Twitter e hoje escreveu isto:

Com o seu sim Maria é a mulher que maior influência teve na história. Sem redes sociais foi a primeira influencer, a influencer de Deus.” 

Não sei se Maria é a mulher com mais influência na História, creio que alguns Chineses ou Indianos podem apresentar objecções mas aqui o Papa está apenas a prolongar a velha tradição de fazer equivaler a História com a História do Ocidente. Além do mais o papel de Maria foi ser impregnada pelo Espírito Santo e parir Jesus Cristo, corrijam-me se estou errado, e isto é mais uma vez o relegar da importância da mulher a veículo de gerar pessoas. Não consta que haja declarações de Maria nem acções notáveis de Maria (à excepção de reparar que se tinha acabado o vinho nas bodas de Canaan, é sempre uma observação meritória e que alguém tem que fazer) , o que a fez então ser a mulher mais influente da História foi ser a mãe de Cristo. E nem sequer foi escolha sua , porque presumo que este “sim” a que se refere o Papa seja o “sim” que Maria disse quando o Arcanjo Gabriel  lhe veio comunicar que ela ia ter uma criança especial, ou seja, foi um sim que equivaleu a um “que remédio”, não é fácil de imaginar que outra hipótese teria Maria nem consta que o arcanjo lhe tivesse dado uns dias para aceitar ou não.

Mas o que me fez começar a escrever isto quando vi o tweet foi a referência aos “influencers” pelo Vigário de Cristo na Terra. Para quem não sabe , um “influencer” é uma pessoa invariavelmente jovem, bonita e bem apresentada cujo principal atributo é ter muitos seguidores nas redes sociais, e esse influenciar relaciona-se sobretudo com influenciar hábitos de consumo. Não há no instagram “influencers” de correntes filosóficas nem científicas mas há centenas e centenas de influencers de moda, comida , viagens e entretenimento, é uma espécie de nicho em que os mal preparados e falsos  mostram vidas artificiais e influenciam os pobres de espírito a seguir indicações que eles são pagos para dar. No fundo não são mais do que publicitários.

Claro que Maria não foi a primeira “influencer” de nada, ainda Maria era pequenina e já estavam velhas as dançarinas , actores , poetas ou atletas  que apregoavam isto ou aquilo às massas, que os queriam copiar nem que fosse num pequeno ponto. Também o uso desta imagem pelo Papa mostra a concepção de uma História que começou  há cerca de 2000 anos no Médio Oriente. Pior , muito pior que isso é o uso do termo “influencer de Deus”, que é ao mesmo tempo um legitimar da cultura dos influencers que devia ser contrariada pela igreja , pela toxicidade que deve ser aparente a qualquer pessoa de bom senso que preze a vida espiritual, e uma tentativa triste de parecer jovem e actual, escolhendo uma das vertentes mais assustadoras e vazias da cultura das redes sociais.

Já agora, Deus , apesar de omnipotente, omnipresente e omnisciente continua sem conseguir fazer chegar a sua mensagem directamente a cada um, continua a precisar de influencers. Não sou eu que o digo, é o Vigário de Cristo na Terra.

 

Vício Social Virtual

Costumo levantar-me às 6.30, a única razão para isso é que dessa hora em diante os cães já não me deixam dormir. Não sei se é aceitável hoje  em dia dizer “os cães” referindo-me a um cão e uma cadela, talvez haja uma maneira mais correcta de dizer isso em sociedade  mas eu cada vez vivo menos em sociedade, e não vivo menos ainda porque não posso.

Estou viciado nas redes sociais, como com os alcoólicos o primeiro passo para a recuperação é admitir que temos um problema, eu gostava muito de reduzir o meu uso da coisa para aí nuns 3/4 mas não é fácil. No caso do facebook, cada vez mais um veículo de publicidade e de exposição confrangedora de níveis de ignorância épicos, a questão maior é que se abandono aquilo perco contacto com dezenas de amigos que me são queridos e não quero isso. Por outro lado entrsitece-me ver que caí na armadilha de apreciar a exposição e os “likes”, a mania de dizer coisinhas espirituosas ou pretensamente espirituosas e inteligentes e ficar a apreciar as reacções.

Não tiro fotos só para mim, tiro para as mostrar, não caí na doença das selfies e as fotos muito raramente, quase nunca, são de mim, mas ainda assim há um impulso para a “publicação” que não havia dantes e isso incomoda-me um bocado.  O instagram é um pouco diferente, só me serve mesmo para partilhar fotos dos meus animais sem dizer nada, não vejo mal nenhum nisso, não me estou a tentar “promover” nem ser engraçadinho, estou só a mostrar coisas que acho bonitas a pessoas que gostam do mesmo que eu, nomeadamente animais. Não gasto lá tempo nenhum.

Já o twitter é outra doença porque há um sem fim de pessoas interessantes a dizer coisas interessantes, inteligentes e com piada, é possível filtrar o esgoto e participar no debate, e mandar o comentariozinho ou laracha, seja a que nível for. Mas isto vicia e consome demasiado tempo e no fundo o retorno, para quem não leva aquilo muito a sério, é quase nulo. Há algum porque permite seguirmos uma quantidade de pessoas bem informadas e posicionadas que nos permitem saber coisas importantes sobre temas que nos interessam e que não chegam à imprensa, e permite ver contraditório, discussão e troca de argumentos, coisa que ao que sei está ausente das televisões sem ser pela rama , às doses de dois minutos e levada a cabo pelos profissionais da coisa que já levam argumentos enlatados e prontos a consumir e o discurso é formatado para o telespectador médio, que não é muito exigente.

Dantes sentia-me muito bem comigo próprio por não ver televisão, mas se trocamos a televisão pela internet e acabamos  por passar o mesmo tempo naquilo o ganho não é assim muito grande, excepto talvez na qualidade do que consumimos e no facto de que as redes nos permitirem de certa maneira curar e seleccionar a informação.

Noto um aumento enorme de publicidade no FB e um aumento igualmente enorme de posts de extrema direita como nunca vi antes.Não gosto do que estou a ver, porque tenho uma boa ideia  das características  do meu concidadão  típico e do seu nível de educação e informação e sei que há terreno fértil para a expansão da extrema direita. Isto só me faz  execrar ainda mais a extrema esquerda que tem tido rédea solta nos últimos anos, eu acredito que também na política se aplica a Terceira Lei de Newton e para cada acção podemos esperar uma reacção.

Este é ano de eleições, creio que é muito possível o PS  ganhar a maioria absoluta, o que teria como única vantagem a perda de influência e controlo dos comunistas. também creio que o partido do Ventura vai chocar muita gente pelo seu desempenho, felizmente, e tal como a extrema esquerda, a extrema direita divide-se em facções e também há o PNR que irá agrupar os mais grunhos. O A.Ventura convencerá os menos radicais, a demagogia de todas as cores vai chegar a novos máximos. Pela minha parte conto votar e mesmo “fazer campanha” pela Iniciativa Liberal, não só porque me identifico com o programa deles, coisa que nunca me aconteceu com partido nenhum,  mas também porque adoro ver os nervos e as tentativas de desvalorização e obfuscação pela parte da esquerda, e as de menorização da parte da direita. Se Portugal tem alguma tradição política não é certamente o liberalismo, pelo que 2% de votos para a causa já seriam uma vitória enorme.

Está um dia lindo, tenho centenas de coisas para fazer e metade da manhã já foi consumida frente ao computador, é isto que tem que acabar.