Expressões populares

Sempre gostei de provérbios, ditados, adágios e outras expressões que no fundo são o mesmo : concentração de sabedoria numa frase ou a expressão de uma verdade, explicação  ou observação. Há muitos que são comuns a vários países, há outros que são contraditórios ( quem espera desespera/quem espera sempre alcança) e há outros que não pretendem explicar nada , apenas ilustrar uma realidade. Há uns que querem dizer o mesmo mas variam de região, por exemplo no continente diz-se “um olho no burro outro no cigano” aqui diz-se “um olho na faca outro na lapa” para exprimir a mesma ideia.

Há dois que me andam na cabeça há uns meses, o primeiro é um bocado bruto e cínico e usei-o há pouco tempo quando uns amigos , certamente preocupados ou pelo menos interessados no meu bem estar emocional  me sugeriram e encorajaram a , digamos, conhecer melhor uma certa pessoa que para aí andava e que pelos vistos toda a gente acha espectacular menos eu. Uma das  vantagens de estar a ficar velho , ter visto muito e estar satisfeito e em paz com a vida é que não sinto aquela pressão de ver o tempo a passar e pensar que me escapou alguma coisa , que a vida está incompleta e que é tempo de me acomodar , aceitar , esquecer os padrões , encolher os ombros e dizer “é melhor do que nada” . Não, nada disso , e o provérbio que usei para explicar isso mesmo está no topo da minha lista de favoritos : quem comeu a carne que roa os ossos.

O segundo é ainda mais simples e curto, já andava há que tempos na minha cabeça mas anteontem fui a um funeral e passei o dia todo a pensar nele. Foi a primeira vez que fui a um funeral aqui, já tinham  morrido algumas pessoas mas não as conhecia pelo que  não me sentia na obrigação de lá ir. O senhor que morreu na semana passada era meu amigo, era simpático e alegre para todos, bem disposto, trabalhador , sempre pronto a ajudar, com dois filhos criados, homens às direitas com a vida feita e suas famílias. Morreu no mar, estava sozinho à pesca no calhau como gostava de fazer e ainda não se sabe , ou eu não sei, porquê, apareceu morto a boiar.

O ditado em causa é muito regional, já o ouvi da boca de pessoas de educação superior e de  pessoas analfabetas, em várias ilhas e com algumas variações, é uma expressão que se utiliza em várias circunstancias diferentes e  à primeira vista , ou mesmo à segunda , pode parecer banal , óbvia e básica , uma evidência que não sugere nem provoca nada mas a mim faz-me pensar muito e é filosofia pura.

A gente morre e fica tudo aí.

Adeus América

Antes do Trump ser eleito presidente já tinha decidido que nunca mais voltava à América, não por ter medo ou me sentir menos bem vindo, ainda tenho mais 8 anos de visto válido se ele não se lembrar de os revogar todos, era mesmo por  já não estar lá muito à vontade e estar cada vez mais desiludido com o país. Por isso e também   porque tenho tudo o que preciso aqui, a minha terra basta-me, as minhas ambições são a esta medida.

Depois do que se passou no fim de semana passado ficou ainda mais claro, no caso de ainda haver quem não percebesse, o caminho que a América  está a tomar. Para quem não sabe, versão curta:

-Decidiu-se retirar uma estátua de um general confederado em Charlotsville, VA

-Os confederados, na guerra civil americana, lutaram pela manutenção da escravatura.Perderam a guerra e contra a sua vontade os escravos foram libertados.Durante mais 100 anos depois disso os pretos foram discriminados e maltratados nas terras da Confederação. Há quem continue a celebrar a Confederação.

– A maior parte dos americanos acha que a História começou em 1776 e muitos acreditaram que retirar uma estátua era apagar a História, como se por não haver estátuas do Hitler ou do Estaline nós não soubéssemos quem eles foram. Ignoram , ou fingem ignorar , que um monumento é uma celebração e que há coisas que não devem ser celebradas.

-A extrema direita convocou uma manifestação contra a retirada da estátua, chegando lá às centenas com bandeiras confederadas , bandeiras nazis, archotes, armas de fogo e a cantar slogans de gelar o sangue como “os Judeus não nos substituirão”. Além da brutalidade destes grunhos sobressai a sua ignorância épica, se alguém está para substituir os wasps certamente que não são os judeus, mas eles são bestas impermeáveis à realidade.

-Houve uma contra manifestação , confrontos,  mortos e feridos.

-O presidente, depois de muita insistência, condenou aquilo mas disse que “houve violência de ambas  as partes” e “havia muita gente boa dos dois lados”, entre outras declarações que terminaram com “tenho uma das maiores vinhas dos EUA, sabiam?”. Este homem    defendeu que se pode marchar ao lado de nazis e ser boa pessoa. Não pode. Uma boa pessoa pode gostar de História, levar a sério monumentos e ser contra a sua remoção, mas no momento em que entram em cena os nazis, uma boa pessoa no mínimo vai-se embora.

Não nos equivoquemos, eles levavam as bandeiras, as fardas, os slogans, não estavam ali para serem discretos ou ambíguos, e quando há nazis e pessoas a lutar contra eles não há dois lados equivalentes. Não há. Os outros podem ser comunistas , anarquistas , hippies seja o que for, mas não estavam lá para promover o socialismo, estavam lá para lutar contra os nazis, que é o que toda a pessoa decente deve fazer.

O Trump mostrou  a sua verdadeira face a quem ainda não sabia e  a quem é estúpido e leva seis meses a perceber uma evidência. Não foi capaz de condenar inequivocamente a extrema direita, mesmo em face de mortos , racismo aberto e violência nas ruas. É este o presidente dos EUA, que agora nomeou para director de comunicações da Casa Branca uma relações públicas ex modelo de 28 anos com um curso de uma universidade religiosa  . Como referências profissionais, a senhora trabalhou a promover a fashion da filhinha do presidente e os seus resorts turísticos, pelo que a aptidão para as mais altas esferas da política é evidente.  A linha do tweeter do homem é um festival de declarações confusas, provocações, meios raciocínios, mentiras claras, ataques mesquinhos, ameaças e basófias, é o preciso inverso do que se esperaria de um estadista.

Tudo isto mete nojo e o homem , que recebe diariamente um dossier de notícias positivas sobre si para o “manter calmo” e não se consegue concentrar num documento de mais de uma página, está claramente numa realidade alternativa, acredita-se formidável quando a parte do mundo que não tem medo dele goza com ele.

Há uma América longe dos noticiários e jornais, uma América pacífica, tolerante, honesta e inteligente, mas com este homem ao leme cada dia essa América está mais sob ataque. Há mais protestos marcados contra retiradas de estátuas, e a aposta certa é que vai haver mais sangue. É de lembrar que o ano passado quando os índios do Dakota protestavam desarmados contra a contaminação da sua água o Estado respondeu com tropas e carros de assalto.Os nazis levam armas , bandeiras do III Reich e fazem a saudação nazi e o Estado manda um cordãozinho policial.

Há nesta falência  moral explícita do Trump uma vantagem: quem o apoia já não tem mais nenhuma desculpa, ele já assumiu as suas convicções mesmo que não percebesse o alcance e significado do que estava a dizer, como acontece frequentemente. Para ele os nazis são tão maus como os anti nazis. Quem o apoia pensa o mesmo, era bom que tivesse a coragem de o dizer  sem vergonha nem ambiguidade , para sabermos com que linhas nos cosemos.

Da minha parte não há mais desculpas, qualquer pessoa que apoie o Donald Trump é ou simpatizante da extrema direita ou um idiota.

 

PS: antes que me venham com os comunistas, espécie que também está na minha lista negra : assim que houver uma marcha de comunistas, lá ou cá,  a gritar insultos raciais e a incitar e defender a violência , trazemos os comunistas ao barulho. Até lá, há que não misturar as coisas e combater um totalitarismo de cada vez.

 

Regata

Saímos com o S.Pedro na Sexta  para treinar, correu bem lá fora da baía mas o vento estava fresco e de Sul , não consegui voltar a entrar no porto à bolina , perdi a calma e desisti de tentar, entrámos a reboque, humilhação. Da parte da tarde saí no Formosa para completar a tripulação. O  Formosa é o segundo bote das Flores e levou ao leme e na genoa gente do Faial com mais de vinte anos de botes. Voltei para terra a pensar que ia mesmo ficar em último e a esperar que os moços não me levassem a mal.

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No dia seguinte tinha os nervos em franja.De manhã chegaram os  botes do Pico a reboque de duas lanchas e a rampa era uma coisa linda, 23 botes a prepararem-se para arriar.Nos Açores há 43 botes em maior ou menor condição de navegação. Nas ilhas pequenas há cada vez mais dificuldade em mantê-los e tripulá-los e  S.Miguel nunca contou muito para isto.

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Um bote baleeiro mede 11 metros, pesa 700 quilos, tem uma tripulação  de 7 homens (ou mulheres) e uma velocidade de casco de cerca de 8 nós mas já se marcaram a 16. Todos os botes são aparelhados como antigamente e há muito poucos ou nenhuns materiais modernos. Um turista veio dizer-me “barcos tão lindos e fizeram tanto mal…” , eu disse-lhe  barcos tão lindos que deram de comer a muitas famílias e salvaram as ilhas de uma miséria ainda maior. Gente que  avalia 1950 pelos padrões de 2017 pode ir bardamerda.

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Arriámos o bote , remámos para fora do porto interior , içámos a vela grande para ver se estava tudo em ordem , saímos disparados pelo meio da frota à popa arrasada, a retranca tem quase dez metros e ultrapassámos   outros barcos com distâncias de centímetros , não sei como é que fiz isso e quando voltámos a baixar a vela para tomarmos o nosso lugar na linha de reboque da largada ia a tremer.

Este é um vídeo da largada , especial atenção para o minuto 3.30 , quem ficar indiferente a uma coisa destas não pode ser bom.

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A regata é um percurso à volta de três boias , uma de bolina , uma de largo e outra de bolina à entrada no porto, e depois meia milha de bolina , mais ou menos, para  a meta mesmo em frente à cidade. Partimos em 15º da linha.

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Há festivais de velas clássicas em sítios de alto snobismo tipo St.Tropez , já lá vi muita coisa bonita e digo sem problema nenhum que um bote baleeiro bem pintadinho passa por eles e vira cabeças e causa admiração de quem sabe, não andam aí muitas embarcações  mais elegantes e rápidas que estas.

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Aqui já estávamos a rondar a última bóia, nesta altura devíamos ir em décimo segundo mas quase todos esses atrás de nós acabaram por nos passar. Bordos grandes com brisa constante e todo o espaço são uma coisa , bordos pequenos com brisas variáveis dentro de um porto com outros barcos à nossa volta são outra muito diferente, é aí que vem ao de cima a experiência,e  falhei muito. Nessa foto já se podem ver barcos atrás muito mais orçados que nós:IMG_20170812_161105

Mesmo assim demos os bordos precisos para cortar a meta, apitou a nossa buzina e tocámos na bóia , um segundo mais tarde e éramos desclassificados. Doze segundos atrás de nós cortou a meta o Formosa , e isso para mim foi vencer . Terminámos em 16º de 23, os moços ficaram contentes, eu fiquei radiante, para primeira prova foi bem bom, para não falar da beleza enorme do cenário e do dia.

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Com o bote varado fomos celebrar , e mais tarde na noite encontrei-me sozinho sentado a um balcão e achei graça porque que me sentia exactamente como me costumava sentir de cada vez que atravessava o Atlântico, uma satisfação  que me percorria o corpo todo e me deixava um sorriso fixo. Acabei  por reencontrar a tripulação na festa, não há como ter vinte anos, aqueles moços conseguiram todos os dias voltar ao alojamento de manhã clara e cheios de cerveja até aos olhos. Ah, a juventude.

No dia seguinte subimos os botes para os atrelados e arrumámos a palamenta aqui:

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É a casa dos botes do Clube Naval da Horta, um armazém de pausar  a respiração a quem gosta destas coisas e que ainda nos vincou mais a diferença abismal que vai deles para nós. Não interessa muito. Fizemos boa figura, aprendemos, ganhámos confiança e já nunca mais vou para uma prova a pensar em terminá-la , vou a pensar em classificar-me bem. Tenho o privilégio incrível de ser oficial de um bote baleeiro três  meses depois de ter subido pela primeira vez a um , há muitas pessoas que sonham com isto e passam anos e anos até  lá chegarem , quando chegam .

Agora estamos para aqui à espera que regressem os botes, vai levar uns quinze dias. Antes de os guardarmos para o Inverno e começarmos a lixar e pintar queríamos ainda navegar mais um bocado, não falta vontade nem ideias de coisas giras que podemos fazer aqui, incluindo levar turistas a navegar por uma quantia, juntar dinheiro para termos material melhor e podermos ir mais vezes ao Triângulo para o ano, para provas no Faial e no Pico. Fala-se nas “altas esferas” da possibilidade de mantermos um bote no Faial para não termos que o andar a carregar para a frente e para trás, isto claro que está dependente de haver uma tripulação de prontidão para ir para lá competir em condições, coisa que nunca houve antes. Agora há.

Semana do Mar & Turismo

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A Semana do Mar já começou , há nestes dias na Horta mais actividades do que é possível uma pessoa ver ou participar, incluindo dezenas de concertos de musica ao vivo e outros eventos, do lado do mar há dezenas de provas numa variedade enorme de modalidades. Só me interessam duas coisas, a regata de botes baleeiros  no Sábado, na qual vou levar o bote  S.Pedro, e os barcos para o Pico para onde espero ir assim que puder.  Quanto à preparação para a regata, está tudo dito aí mais atrás. Se não ficar em último já não fico triste e  se ficar em último não é  vergonha nenhuma. Chama-se Regata da Casa do Pessoal da RTP pelo que suponho que  parte dela vá ser transmitida pela RTP Açores, quem tem curiosidade pode tentar ver, começa às duas da tarde de Sábado, 15:00 no continente.

Não conheço a ilha do Faial toda mas quase, e estou fartinho da Horta, em condições normais não é uma cidade que me encante, se lhe juntarmos a multidão que para lá vai andar nestes dias, pior. Por isso assim que estiver feito o trabalho relativo aos botes e a menos que aconteça algum imprevisto (há que guardar sempre espaço para imprevistos) , passo o canal para o Pico, onde nunca estive e que estou há tempo demais para conhecer. Tenho lá um amigo novo e outro mais antigo  e tenho sítios e coisas que quero ver.

Vamos uma semana para competir uma tarde, vamos ter muito tempo livre por causa dos turistas. Tinha escrito uma página inteira a dizer mal dos turistas ressalvando que esta ilha precisa muito deles para não acabarmos todos funcionários públicos, eu em particular preciso deles para lhes vender cerveja artesanal, por isso são uma coisa a tolerar e acolher nem que seja de sorriso amarelo, mas mais uma vez encravam-nos a vida e estorvam-nos.  Parte das tripulações foi na segunda de madrugada com os botes no navio de passageiros, o resto era para ir na Sexta mas estava tudo em lista de espera e nada nos garantia estar na Horta no Sábado, pelo que mudei os bilhetes para amanhã, quando nos podiam confirmar a viagem. Pouco a pouco começo a tomar iniciativas e responsabilidades, mais do que gostaria mas há coisas em que ou sou eu ou não é ninguém . Para o regresso estamos à mesma em lista de espera, possivelmente até quarta feira, e uma semana fora não é fácil, especialmente para quem não quer , não precisava nem planeava gastar dinheiro com umas férias. Enquanto durarem as provas náuticas somos acolhidos e alimentados pelo Clube Naval da Horta mas a festa acaba no Domingo e não é legítimo esperar que nos sustentem até Quarta, alguma despesa vai sempre acontecer.

Os voos estão repletos, o pessoal da SATA aqui é cinco estrelas mas andam a  aturar muito problema e reclamação, não pára a enchente de turistas e há viagens canceladas e atrasadas constantemente, no Sábado passado foram os Xutos que vinham cá tocar mas tiveram que voltar para trás, o pessoal não gosta dessas coisas.  Parece que pariu aqui a galega e esta história dos voos todos cheios é um bocado má, agora no nosso caso concreto é uma  viagem “desportiva” mas aqui na ilha já há muitas pessoas com dificuldades em comparecer a consultas médicas e exames , e isso é muito mais sério. Caso não saibam , daqui ao médico especialista vai-se de avião, tal como para análises e exames, e no meu entender seriam os turistas a ficar em lista de espera sempre que houvesse um residente  a querer ou precisar de viajar.

É um tema muito falado na imprensa e um debate actual, muita gente pensa que o turismo está descontrolado e em níveis exagerados, principalmente as pessoas que não beneficiam directamente do turismo  e os que se pelam por taxar e controlar tudo o que mexa. Eu cresci numa casa de Turismo de Habitação, das primeiras do país, e o dia em que os meus pais a decidiram vender foi dos mais felizes da minha vida, quase que me traumatizaram uns 20 anos de estranhos e entrarem-me pela casa dentro. Dada a loucura da procura aqui um amigo propôs-me no outro dia ir ficar com ele e alugar a minha casa , parece que a  minha reacção foi como se me tivesse proposto comprar-me o cão . Tolero os turistas mas há limites e a minha propriedade está para lá desses limites.

Mesmo que não contasse lucrar com o turismo  vendendo  a cerveja artesanal, nunca seria completamente contra porque compreendo o valor que trazem à economia toda . Além do mais todos nos devíamos sentir elogiados e orgulhosos por tantos estrangeiros quererem vir visitar e apreciar a nossa terra. Vejo que o Bloco e o PC estão muito preocupados, mas eles ficam sempre preocupados por ver pessoas a ganhar dinheiro com as suas propriedades e o seu engenho sem terem que se sindicalizar ou dar metade ao Estado e inventam logo oito problemas laterais para animar a rapaziada, passando se for preciso por cima de  contradições engraçadas como : cinco mil somalis desempregados para sustentar, bom , cinco mil ingleses para gastar dinheiro, mau. Entretêm-se com questões de lana caprina como a distinção entre turismo e turistificação mas no fundo  o que os apoquenta é haver gente a ganhar dinheiro sem sofrer carga fiscal e regulamentação adequada.Como de costume, têm  uma imagem ideal do turismo como o aceitam, o que ande fora disso tem que ser combatido e vão lutar para adaptar a realidade à sua ideia e não o contrário.

Por aqui só vejo benefícios (não obstante a impreparação da SATA) e estou preparado para perder algum do meu  sossego  e tranquilidade , que para muitas pessoas é pasmaceira desértica. Duvido de que apareçam  construções tipo Algarve, as estradas são as que há, o aeroporto não pode crescer e há aí muito mato e muitos trilhos para o pessoal andar com espaço bastante.Os turistas que para aqui vêem não largam lixo nem andam bêbados em público, não há barulho e em geral têm uma atitude muito respeitosa, de apreciação e paciência . Espero ver mais empregos, mais trabalho, mais actividades, mais ofertas, mais serviços. Idealmente apareceria uma “mini easyjet” privada com meia dúzia de avionetas para fazer voos inter ilhas, concorrer com a SATA e dar mais uso aos aeroportos do arquipélago.

Não duvido de que vai haver muito em breve quem se queixe também aqui dos turistas, mas o Verão está a acabar, daqui a dois meses já quase ninguém vem para aqui e o turismo volta a ser um problema exclusivo dos lisboetas e dos jornalistas.

 

PS: Já tinha escrito e publicado isto quando vi no twitter um cartaz do PNR contra o turismo. É muito raro lembrar-me de que o PNR existe por isso nunca falo nele. É normal que a extrema direita partilhe preocupações e proponha soluções semelhantes à extrema esquerda, neste caso partilham a xenofobia, que para o PNR é mais natural, nos outros vem mais disfarçada. Espero que o PNR não desapareça porque mesmo os malucos devem podem ter voz e liberdade de expressão.

 

 

O Busílis

bu·sí·lis 
(origem duvidosa)

substantivo masculino 

Parte mais importantemais central ou mais difícil de algo.

CERNEDIFICULDADE

 As touradas e a Venezuela são duas discussões  que me têm ocupado algum tempo, não parece à primeira vista mas são discussões com coisas em comum, nomeadamente o problema de não se ir  ao cerne, ao fundamental , ao busílis da questão.

Quanto às touradas, partilhei uma peça sobre touros de fogo , uma prática milenar no país vizinho que consiste em pegar fogo aos cornos de um touro e largá-lo a correr pelas ruas. Como é à noite o efeito visual é mais forte, e faz sempre parte de alguma festa em honra de um santinho qualquer. Deve vir lá nos escritos ancestrais do cristianismo que não só o Homem deve dominar as outras espécies como está autorizado a atormentá-las à vontade. Um dos santos , um italiano chamado Francisco , era muito amigo dos animais e consta que andava por todo a lado a dizer que éramos todos criaturas de Deus e devíamos ter compaixão mas ainda há muito católico que não lhe passa cartucho. Tem uma ordem em seu nome e  o actual líder mundial dos católicos adoptou o seu nome mas em religião a  coerência dos fiéis é uma coisa um pouco rara. As mesmas pessoas que vão a uma missinha no Domingo de manhã à tarde são capazes de ralhar  contra os pretos e os gays e os refugiados e à noite vão ver touros a correr com os cornos a arder.

O Papa Francisco disse num tweet (e num encíclica, calculo) : É contrário à dignidade humana fazer animais sofrer ou morrer desnecessariamente”. Sucede que os católicos são especialistas em escolher as partes que lhes interessam e descartar as que não lhes agradam ou não lhes dão jeito. Se houvesse moral nisto e se essa gente tivesse integridade na Fé ouvia o que diz o Papa e bania imediatamente touradas e outras brincadeiras que consistem em atazanar animais para diversão, e falo no Papa porque por alguma razão todos os países onde há “tauromaquia” são católicos e aposto o que quiserem que a esmagadora maioria dos aficionados se define como católico.

A verdade que eu vejo é esta : qualquer espectáculo tauromáquico consiste em atazanar o touro para lhe provocar comportamentos que divertem as pessoas . Já pedi várias vezes a pessoas que gostam de touradas que me digam se estou errado, que me corrijam , que me iluminem, mas até hoje ainda não ouvi nem li nem vi  ninguém honesto que possa negar isto.Os argumentos em defesa da tauromaquia são sempre os mesmos:

-É uma tradição cultural milenar

-Há muitas pessoas que gostam

-Envolve muito dinheiro

– É para isso que se criam touros bravos

Dão-me estes argumentos e esperam que por isso se continue a tolerar e promover o que são sem sombra  de dúvida  maus tratos a animais como espectáculo. A escravatura, o tráfico de droga,a prostituição infantil, a caça a espécies protegidas e até a guerra pode ser defendida com os 3 primeiros argumentos, quanto ao último, desculpem lá mas entre criar uma raça só para a atormentar e não a criar…a escolha não me parece complicada.

Na Idade Média  e até ao início do século XIX, atiçavam-se cães a touros e ursos e a populaça aplaudia. Há uma  noção fantástica , negada pela Igreja até lhe ser possível, que é a Evolução, e a Evolução não é só um conceito biológico, é também social e cultural. Começou a olhar-se de modo diferente para os cães e hoje em dia em qualquer país civilizado se alguém quiser  promover uma luta de cães ou de cães contra touros vai  preso. Para os touros ainda se olha como em 1600, bestas bravas que devem e podem ser “lidadas” e enfernizadas para diversão.

Ainda espero ver  e ouvir um aficionado a admitir honestamente : é verdade, os touros sofrem e são afligidos, é essa aflição do touro que provoca o espectáculo, e eu não me importo com isso, não me importo e até gosto de ver um touro a ser atazanado e a reagir. É esse o busílis da questão, admitam.

 

O outro tema é a Venezuela e o caos que lá grassa. Ouço e leio muitos argumentos , dizem-me que dantes era  pior, nos governos da oligarquia. Para os comunistas e pessoas que são comunistas mas têm uma certa vergonha de se designarem como tal apesar de não apresentarem designação alternativa (tipo o Sousa Santos), a minha questão  é esta, e bem simples  : Se Chavez foi eleito em 1999, se o chavismo governa a Venezuela há 18 anos, como é que a responsabilidade da situação é da oposição ou do estrangeiro?

18 anos de poder , incluindo uma nova constituição que foi saudada como triunfo do socialismo, e o que há  para  mostrar é isto? Os nossos socialistas mandam há dois, aceito sem problemas que muitos dos falhanços e fracassos se devam ao que vem de trás, mas 18 anos? Mas estão a brincar com isto? Se 18 anos de poder quase absoluto não chega para criar alguma coisa que se veja, se em 18 anos 75% das pessoas estão contra o governo e um maço de notas não compra um pão, quando há pão, a culpa é dos outros? Quanto tempo é preciso a um projecto socialista para se impor e resultar? 30 anos? 40?

E a oposição, e aqui é que está o busílis desta questão, a oposição tem direito a existir ou não? É que na Venezuela, ainda no tempo do Chavez, fechavam-se jornais e TVs que fossem do contra, metiam-se políticos na cadeia e correligionários nas empresas, censuravam-se as notícias, desfavoreciam-se oponentes políticos, cerceavam-se liberdades e , tal como hoje, perseguia-se , insultava-se e prendia-se a oposição. Queria ouvir de uma vez por todas um comunista, bolivarianista ou parecido a admitir que a oposição não se pode permitir, porque é isso que é evidente: não se dá espaço, não se dá voz , não se admite que haja quem seja contra.

Dos portugueses adeptos deste marxismo tropical que deixou a Venezuela como está, só se ouve que a oposição e os protestos são  manipulados (gostava de saber como é que se manipulam 75% da população de um país para ser contra um governo benevolente e competente mas essa parte já não explicam)  e chamam democracia a um regime que não tolera oposição. Esse é que é o busílis.

Tal como no caso das touradas, gostava de ver um comunista ter a coragem de admitir o cerne na questão:  não se pode dar espaço nem representação nem poder a quem é contra o governo, só pode haver um partido .

É uma tristeza e uma vergonha.

Preparados…

Devia ser Maio, devíamos estar a começar era agora, que temos uma tripulação completa, que já se entende e se conhece um pouco, que já brinca e se diverte na água , que já faz as manobras e  aparece nos dias combinados e que o oficial, neste caso eu, começa a ganhar alguma confiança e a perceber alguma coisinha.

Em vez disso acabaram anteontem os treinos, devíamos ter arriado o bote  hoje pela última vez mas sem barco de apoio não, mesmo que alguns dos moços com mais sangue na guelra não se importassem. Está uma aragem fresca, estes botes mesmo com especialistas ao leme podem virar por um descuido, e se viram sem que ande por perto um apoio para nos vir pescar e endireitar o bote arriscamos uma situação muito desconfortável, eu já não tenho paciência nem tenho saúde para esses números. O Clube Naval, com a atenção e dedicação que tem mostrado à nossa participação na Semana do Mar , fecha a porta depois do almoço e lá dentro fica o equipamento do semi-rígido de apoio, para o qual eu tive sempre que encontrar tripulante por mim, recorrendo a amigos de boa vontade. Da parte de outras pessoas envolvidas está tudo bem porque desde que os botes estejam na rampa na Horta no dia 12 o subsídio bate na conta , mesmo que não cheguem a arriar.

Ontem estavam cá três picarotos a trabalhar num veleiro que compraram aí, um deles  um veterano conhecido dos botes da baleia, fui falar com ele e  perguntar umas coisas, entre elas o que é que era preciso para ele vir cá passar uma semana ou duas a ensinar-nos, já que cá parece-me que ninguém sabe e  pouca gente se interessa ou  quer saber. Os mais antigos que andaram na baleação que me desculpem mas podem saber muito de mar e de trancar baleias mas de vela sabem pouco, nos antigos baleeiros a vela era quase um  acessório , ninguém andava atrás das baleias a dar bordos à vela, iam a remos ou usavam a vela quando a baleia estava a sotavento e voltavam a remos ou a reboque das lanchas a motor, e muitos que hoje falam  das velas já têm memórias muito romantizadas da coisa.

O picaroto disse-me que bastava escrever uma carta para a Direcção Geral do Património  ou coisa que o valha , já não me lembro bem, a pedir para destacar os serviços dele para aqui; pagar a alguém que lhe tomasse conta das vacas nesse período e alojá-lo e alimentá-lo cá. Que já tinha corrido as ilhas todas a treinar e ensinar e que já tinha inclusivamente falado sobre isso com um dos presidentes do clube de cá , que disse que sim, que se ia fazer e isso foi a última coisa que lhe disse. Sabendo que é muito improvável isso acontecer perguntei se eu fosse ao Pico tinha lugar num dos botes  deles durante uns dias, claro que sim , sem problema nenhum. Ficou registado , e como ainda não estou a ponto de perder completamente o interesse pelos botes nem acredito que o nosso clube naval se chegue a organizar e ser liderado em condições, sou capaz de me meter num avião e ir ao Pico passar a Semana dos Baleeiros, eu arrumo-me em qualquer canto, sou de baixa manutenção, não chateio ninguém e gostava de ter a oportunidade de navegar com quem sabe. O que me enerva  mais nesta história é que não somos ridículos  por falta de recursos, o Estado investe dezenas de milhar na preservação e navegação dos botes, é só pedir e há dinheiro para manutenção, formação e competição. Somos assim por desorganização e falta de interesse.

Já ao fim da tarde voltei a encontrar no bar os picarotos , vinham do porto.

-Você é que é o responsável por aquele bote que ali está na água? -perguntou-me o tal veterano.

Hesitei um bocado em responder mas se bem que ninguém mo disse nesses termos nem me formalizou a responsabilidade, a verdade é que nesta altura sou mesmo eu.

-Se não o varar já fo#e-se todo, já está a criar cabelo na junta, mais um dia na água e  vai  começar a apodrecer por dentro.

Fiquei confuso e alarmado, tinha sido eu a dizer que o devíamos deixar na água em vez de varado na rampa por me ter sido dado a entender que ficar ao sol fazia a madeira secar demasiado, as juntas dilatarem e as tábuas deformarem, pelo que ficando na água mantinha-se “fresco” e nunca chegava a “estalar”. Sucede que na água vai começando a criar algas minúsculas que se infiltram nas juntas e em pouco tempo começam a apodrecer a madeira, as juntas não são calafetadas. Um bote baleeiro nunca pode ficar mais do que um dia na água.  Ajudaram-me a vará-lo , felizmente apareceram alguns moços da tripulação, um deles com um  jipe que o puxou  para cima , é  daquelas ocasiões em que me estou  nas tintas para os recursos naturais globais que acabaram ontem , para as emissões poluentes e para a maneira tradicional de fazer as coisas, dêem-me um motor  potente e vantagem mecânica , quem quiser viver em 1920 tem bom remédio. Sou  adepto dos motores de combustão interna , dos aviões a jacto, dos químicos  e do plástico. Não gosto  é que mandem o plástico ao mar  ou que larguem por todo o lado, são problemas diferentes. Assim que os motores eléctricos fizerem o que fazem os de combustão interna pelo mesmo custo, lixo com os motores poluentes. Até lá, haja gasóleo.Sobre este tema só aceito críticas de quem só  anda a pé ou de bicicleta, o resto devia deixar-se de hipocrisias.

De volta à rampa, onde o homem até encontrou um banco (peça de madeira que serve para assentar a quilha) dele que ficou cá das provas do ano passado e ele reconhecia por uma  marca.

-Olhe aqui, passe aqui o dedo.Vocês é que não sabem mas nós olhamos para isto ao longe e vimos logo!

O “cabelo” a que ele se referia eram as algas que em dois dias já tinham começado a crescer ao longo da junta.

-Tem que ir buscar um pulverizador , desses de sulfatar, encha-o de lixívia e dê-lhe no casco .Já viu isto?

E começou a apontar-me defeitos e particularidades do casco que eu nunca mais tinha descortinado sozinho, e depois no bar estive a ouvir  e perguntar mais sobre como se tratam, guardam e navegam os botes baleeiros em condições. Idealmente até a construção em que se guardam no Inverno tem particularidades, paredes de pedra, telha de barro e chão de bagacina ou de “areão” , tudo ao contrário do barracão onde ficam os nossos, cimento e cimento sobre cimento. Isto por causa das temperaturas, humidades e suas variações. Ouvi sobre os botes do Pico, tantos nas Lajes , tantos nas Ribeiras, tantos na Calheta de Nesquim (adoro este nome) , tantos na Madalena,  e como correm todos contra todos , de Maio a Outubro, e contra os do Faial onde há outros tantos, com rivalidades ferozes no mar e belas  festas em terra. Como os cais e muros ao longo do porto e da praia ficam cheios de gente de cada vez que se arreiam os botes.

Vamos amanhã meter o botes nos seus atrelados.O Formosa chegou de Santa Maria há quinze dias e está onde o deixámos quando o tirámos do contentor, não foi arriado uma única vez e uma pessoa pergunta-se “se era para isto não  valia mais ter ido directamente para o Faial…?”. Recebemos “ordem” para carregar seis remos, o que é estranho dado que ninguém remou aqui este ano nem  ninguém está inscrito nas provas de remo, calculo que seja para emprestar, bote e remos, a alguém do Faial. Há muita coisa que se trata entre amigos. Os nossos bilhetes de avião são para dia 11 mas estamos em lista de espera , os bilhetes foram marcados tarde , todos os voos pelo arquipélago estão sobrelotados porque a SATA, coitada, não tinha maneira nenhuma de prever que o turismo ia aumentar tanto e que a procura ia explodir, é normal que tenham sido apanhados desprevenidos pela chegada da Easyjet e Ryanair , há quase 3 anos, e ao que parece ainda estão desprevenidos. Também dá ideia que foram apanhados desprevenidos pelas campanhas publicitárias do governo, chamam para cá pessoas aos milhares e depois não as conseguem transportar todas , boa sorte a quem quer voar inter ilhas neste Verão. Por isso existe a possibilidade de não termos lugar no voo dia 11, a regata é às duas da tarde do dia 12.

Não é grave, os botes chegam lá e vão estar na rampa com os outros no Sábado pelo que o subsídio está garantido, e como ouvi eu pessoalmente, não custa nada arranjar uma companha no Faial para competir  nos nossos botes. A minha motivação e  entusiasmo correm um certo  risco de ir tão depressa como vieram.