O Armistício

Tenho nesta altura em espera uma pilha de 9 livros na tábua que funciona como mesa de cabeceira, isto porque encontrei um site de venda de livros com envio à borla que tem uma infinidade de títulos que me interessam e não resisti a um impulso consumista. Além desses tenho uma lista de desejos bastante grande, e dela faz parte este livro, The Sleepwalkers , “Os Sonâmbulos” , largamente considerado uma obra definitiva sobre as razões que mergulharam a Europa e o Mundo na Primeira Guerra Mundial, o fim da qual se celebra hoje. Como esse título indica, a Europa mergulhou na guerra sem estar acordada nem saber para onde ia.

Ainda não li esse  mas já li outros sobre o tema e tenho um fascínio assim um bocado mórbido por processos históricos nos quais as coisas ganham vida própria, o controlo escapa das mãos de quem acha que tem tudo controlado, a realidade contradiz os discursos e a loucura humana vem ao de cima. Ensinam-nos que a Grande Guerra começou por causa do assassinato do Franz Ferdinand em Belgrado mas isso foi apenas a faísca, os montes e montes de acendalha e lenha já se estavam a juntar há muito tempo. Quando se junta um monte enorme de lenha seca a única coisa que vai acontecer é uma fogueira.

Quero dizer umas coisas rápidas sobre estas comemorações do Armistício.

1 – Por cá comemorou-se na semana passada com uma grande parada militar em Lisboa. Não foi oferecida nem existe nenhuma razão válida para assinalar uma efeméride na semana anterior à data, a única razão para isto foi que o Presidente da República queria estar em  Paris hoje para as comemorações internacionais por isso tivemos que nos despachar a semana passada.

2- A mesma pessoa disse na ocasião que os soldados lutaram   “pela compreensão contra o ódio, pela liberdade, contra a opressão, pela justiça, contra a iniquidade, pela Europa aberta contra a Europa fechada, o mundo solidário contra o mundo dos egoísmos, das xenofobias, das exclusões” . Isto é um absurdo de uma vacuidade e demagogia atroz, para não falar da ignorância, se um aluno do primeiro ano de História respondesse assim a uma pergunta sobre as razões que levaram à guerra, chumbava.

Os homens que se estavam a homenagear e lembrar, de ambos os lados, lutaram por duas razões, como lutam desde que há guerra : a maior parte porque os mandaram , outros porque era a sua profissão. Quando saltavam das trincheiras para a morte quase certa não o faziam com um hurrah contra a exclusão e a xenofobia, faziam-no por causa do camarada que estava ao lado e a quem nunca podiam deixar ficar mal,  como de resto podia ter explicado ao sr presidente qualquer militar. O resto são tretas de políticos, e ainda me perguntam porque é que eu não suporto o Marcelo.

3- A participação portuguesa na guerra só não foi uma vergonha total por causa do brio e coragem dos soldados, porque como decisão política foi miserável e inútil e como operação militar, da parte da preparação e logística e treino, e dos resultados, foi o que se podia esperar de um país como o nosso a querer ir fazer figura para os campos da Flandres. Mais uma vez a vaidade, ignorância e indiferença de políticos asquerosos a mandar para a morte dezenas de milhar . Uma  curiosidade, nessa altura aconteceu o “Milagre de Tancos”, os recrutas do CEP foram lá treinados e por intervenção da senhora de Fátima foram dados como aptos para combate em tempo record e foram despachados para as trincheiras. Isto é verdade, andaram a dizer às pessoas que as tropas estavam prontas e preparadas, e tinha sido milagre. Claro que como estávamos em 1917 as pessoas acreditaram, e é curioso verificar que 100 anos depois deu-se outro fenómeno paranormal em Tancos e hoje as pessoas também parece que aceitam uma explicação que é tão válida como dizer que foi milagre, incluindo quem devia saber melhor, o tipo que acha que a guerra foi “contra a injustiça”.

4- Nas comemorações deste ano em França está a faltar, que eu veja, a primeira ministra do Reino Unido. Mais uma prova da distância que continua a ser cavada entre a Grã Bretanha e o Continente. Também está a faltar o presidente dos EUA que não foi às cerimónias no cemitério onde estão enterrados os soldados americanos mortos na Flandres porque estava a chover . Mais uma prova da estatura do senhor, que ou é uma florinha de estufa que não pode estar um bocadinho à chuva ou fez birra por outra coisa qualquer e lembrou-se dessa desculpa. Estadista.

5- A Primeira Guerra Mundial foi vendida como a guerra para acabar com as guerras. Não foi bem assim, nunca será assim e em vez de os políticos continuarem a debitar mentiras e efabulações deviam fazer um esforço para perceber e comunicar às pessoas que a ameaça não desaparece, a possibilidade mantém-se real. Em 1912 não faltava quem dissesse que o conflito era inconcebível.

 

Anúncios

Intercalares

Hoje são as eleições intercalares nos EUA . Tal como com o aquecimento global, com isto dos populismos e novos autoritarismos, já passou a fase de nos preocuparmos com o que aí vem e devíamos focar-nos em lidar com o que já cá está. Não faço prognósticos nenhuns e só falo sobre isso porque li uma das coisas mais interessantes dos últimos tempos sobre demagogia e populismos, vai mais ou menos assim:

– As democracias não arriscam começar a morrer quando um demagogo é eleito mas sim na segunda eleição, em que ou é rejeitado pelos eleitores ou as instituições são co-optadas e o demagogo aceite como normal.

É isso que está em causa hoje nos EUA. A única coisa que tenho a ver com o caso é uma noção de decência humana, de inteligência e de respeito pelos factos que o Trump espezinha diariamente, e ainda uma réstia de confiança nas instituições do que chamamos democracia liberal. Se os republicanos mantiverem hoje as maiorias, é desistir.

Sonho com um Border Collie há muitos anos, uma das razões pelas quais crio ovelhas é um certo fascínio com os cães pastores, e acho  um pastor a controlar um rebanho com um ou dois cães uma coisa linda, intemporal, a ancestral parceria entre homem e animal. Se isto vos interessa vagamente e dispõem de um tempinho, vejam este vídeo, mesmo sem perceberem o que homem diz percebe-se bem o que se passa.

Este senhor deve ter uns cinquenta anos de treinar cães pastores e isto é o nível supremo, mas mesmo sem se almejar alguma coisa parecida com o que ele faz, um cão moderadamente bem treinado, com quatro ou cinco movimentos básicos bem estabelecidos, já seria uma ajuda enorme para mim, para nem falar da satisfação disto tudo para quem gosta de animais.

Tenho um cão, tem agora 7 anos, é principalmente Labrador preto e tem um toquezinho de Rotweiller , é lindo mas falhei muita coisa na adolescência dele e hoje é um toleirão que não posso levar a lado nenhum, agora mais do que nunca estou contente por ter terras vedadas à volta de casa onde ele pode correr e andar à vontade sem aterrorizar ninguém. Ainda assim, se não houver ninguém por perto, ele fica  e vem e deita-se, sai e entra de casa  e  é um bom cão, o meu  Rofe. Mesmo não tendo conseguido fazer dele o que ambicionava, permitiu-me aprender muito sobre cães e o seu treino, e agora sei o que implica ter um cão em condições, e também sei o que implica ter um cão disciplinado.

O que os cães pastores  fazem melhor que os outros é uma espécie de afinação dos tais movimentos, ou ordens básicas que todos os cães bem ensinados sabem, como  fica, vem, deita e vai . Chegar a essa afinação, em que o “vai” tem que chegar a “rodeia devagar pela direita” dá muito trabalho e exige muita persistência e paciência, e eu já tenho que ter persistência e paciência em coisas que me cheguem para tomar esse compromisso. Além do mais um Border Collie é caro e dá trabalho a encontrar, porque tem que vir de um criador com ovelhas e idealmente descender de uma linha de pastores, porque há muitos Border Collies mas poucos são  pastores. O ano passado cheguei a entrar em contacto com um criador de S.Jorge e reservei-lhe um da próxima ninhada mas tive que cancelar mais tarde , o tempo não estava ( nem está…) para dispor assim de 350€ para dar por um cão, mesmo um cão “especial”.

Outro obstáculo era a condição das ovelhas, para treinar é precisa uma cerca boa de uma dimensão que permita às ovelhas correr sem se escaparem e uma meia dúzia sempre à mão para os treinos, coisas que só tenho desde hoje mesmo, o que é interessante.

Interessante porque ontem um lavrador daqui veio saldar um negócio que fizemos e disse que tinha outro a propôr-me: uma cachorra Border Collie com menos de um ano, veio do tal criador de S.Jorge e o dono não tem paciência nem vida nem conhecimento nem interesse nem jeito (isto sou eu a dizer, ele só me disse que o outro não queria ficar com ela). Trocava-ma por quatro ovelhas. Tive que aceitar, sei lá quando é que estou em condições de dar 350€ por um cão, agora tenho 30 ovelhas que mudam de pasto regularmente, divididas em grupos mais pequenos, ou seja, tenho condições para o treinar e posso dar-lhe a vida mais feliz para estes cães: trabalhar e ajudar.

As 4 ovelhas já foram esta tarde para a sua nova terra, e a cadela vem assim que eu lhe fizer uma casota. Há  dois grandes desafios, o primeiro é que já não é cachorra, eu sempre “fiz questão” de que o cão viesse com 3 ou 4 meses no máximo , sobretudo porque são as lições aprendidas e a ligação com o dono que nunca mais se esquecem quando nessa idade. O segundo é o Rofe, que não precisa de falar para eu saber que se lhe perguntasse o que achava de vir agora para aqui uma cadela ele ia dizer que era contra , sobretudo porque não faço tenção nenhuma de alguma vez o deixar saltar-lhe para cima. Se o Border Collie vive para o trabalho este vive para a  atenção, e vai ter que a dividir com uma recém chegada. Esta introdução e primeiro convívio não vai ser fácil, porque tal como o Rofe a cadela não é socializada e viveu este primeiro ano de vida amarrada num cubículo de betão, miserável para um cão que é hiperactivo por natureza. Nesse aspecto isto também é um bocado um resgate de um bicho. Vai ter que se habituar a mim e ao Rofe. Não deve haver muitas pessoas que comprem um cão, seja com  dinheiro seja com ovelhas, sem nunca o terem visto, mas eu sou assim , o que é que  hei-de fazer.  Chama-se Bruma.

 

 

Ele, que remédio.

Quando quero saber qual candidato escolher numa eleição estrangeira e no caso de nenhum se declarar ou manifestar como comunista, vou ver quem é que os evangélicos apoiam e sou contra esse. Isto parte já do princípio que faz sentido “apoiar” ou “ser contra” um candidato numas eleições estrangeiras, coisa que está por demonstrar.

Os evangélicos são um cancro global, uma organização criminosa que vai muito além de espalhar mitos e patranhas bíblicas, e surpreende-me como é que nenhum poder judicial de um dos países que eles contaminam lhes abriu caça, no sentido legal do termo, claro está. Com o que se soube por cá dos esquemas vis de raptos de crianças não percebo com é que nem foi aberto um processo. Que fosse arquivado, vá, já estamos habituados, é assim que vai ser por exemplo com o Benfica mas ao menos, como seria no caso de um processo à IURD, a podridão viria cá para fora e seria exposta.

Voltando às eleições, no caso em apreciação, as brasileiras,  em 2014 a IURD apoiou o PT e Lula. De 2014 para cá muita roubalheira e muito crime aconteceu , não sei se por essas razões se por outras a IURD largou o PT e apoiou o Bolsonaro, talvez por este falar muito em Deus.

Nunca  ouvi o Bolsonaro a falar mas sei que além de ser apoiado pelos evangélicos é um indivíduo que defende que a polícia serve para matar bandidos, que os homossexuais são aberrações e que havia muita coisa boa na ditadura, que devia ter matado mais gente do que matou, e que torturar é positivo. Ora isto devia servir para encerrar o caso do homem mas estamos em 2018 e as coisas já não são bem assim, vide Trump.

Bolsonaro vai ser presidente do Brasil muito por culpa do PT, que achou que podia tudo e rebentou com a economia do país. Depois de décadas em que o poder era da oligarquia que se forrava e punha e dispunha, quando o PT chegou ao poder foi aquela coisa do “agora nós!” e foi o que se viu. A oligarquia e a sua miríade de partidos/veículos pessoais continua a mesma, não se pode dizer que haja um partido “de confiança”, mas não tenho grandes dúvidas de que o PT permitiu a ascensão do Bolsonaro e a facilitou. Dado que o seu ícone (um presidiário semi analfabeto que compensou à grande na corrupção os seus anos de clandestinidade e oposição) não podia concorrer, o PT, se o princípio orientador fosse mesmo “ele não”, devia ter desistido em favor por exemplo do Ciro Gomes, pessoa em que votariam milhões de pessoas que não apreciam protofascistas mas gostam menos ainda de socialistas corruptos e incompetentes. Não lhes deram outra escolha, o resultado é este.

Vi alguns  vídeos interessantes, um era de uma centena ou mais de apoiantes do Bolsonaro a fazer uma dança coreografada numa rua, que coisa ridícula, pensei logo, mas esta gente não sabe fazer nada sem puxar um sambinha? Não, logo a seguir  noutro vídeo desceram a avenida os petistas a sambar “vira o voto, vira” em grande animação. Fazem de tudo um carnaval, querem o quê?  Bom , antes a sambar do que aos tiros, mas como acção política acho que manifestações dançantes não são grande coisa, mas o Brasil é assim. Da próxima vez que uma eleição for decidida ou um regime cair por causa de manifestações artísticas e folclóricas avisem-me, será uma novidade grandiosa. Vi outra que meteu nervos, já tentei encontrar o clip mas não sou capaz, vi neste episódio do John Oliver, era um anúncio de campanha eleitoral em que apresentavam um cartaz que ia rodando, de uma lado tinha escrito Lula do outro Haddad, e o texto do anúncio era “haddad lula, lula haddad” a um ritmo que parecia mesmo querer hipnotizar as pessoas. Não houve souplesse nenhuma, o PT não reconheceu erros nem defeitos e além disso apresentou um candidato sobre qual o mais forte que tinha a dizer era : “este é o  mesmo que o outro, são intercambiáveis, é um só”. Ora isto tem dois problemas: um atestado de nulidade ao Haddad, que não vale nada por si e só vai a eleições porque o outro está preso, e a admissão clara e sem desculpas de que se o Haddad ganhar quem continua a mandar é o Lula, situação que deve estar lá nos manuais da democracia tal como a entende o PT.

Por cá o pouco que vi foi confrangedor, e não vejo televisão.Vi um grupo de deputadas nacionais a fazer campanha para umas eleições noutro país, nas escadas do nosso parlamento. Vi ameaças aos brasileiros residentes cá, quer de um lado quer de outro. Vi sem surpresas a inteligentsia, por assim dizer , da esquerda a prever o colapso, um grupo muito sagaz que infelizmente não descortinou o que se ia passar na Venezuela mas agora vê com clareza o descalabro iminente do Brasil,  todos muito perspicazes. Vi sobretudo  muitos cidadãos consternados com o possível resultado, e hoje , com o resultado de facto, como se o Bolsonaro fosse mandar cá, como se a sua indignação tivesse alguma consequência e como se nós não tivéssemos razões de sobra para nos inquietar com que cá temos antes de morrermos de véspera com o que vai acontecer num país do outro lado do oceano. Também vi outra coisa, também sintomática: toda a gente sabe das ideias “sociais” do Bolsonaro, que é um retrógrado da extrema direita. Agora, sobre as ideias económicas, se é que as tem, não vi nem curiosidade nem debate. Porque é que isto é sintomático? Porque o infernal Politicamente Correcto exige que se siga a cartilha da Pós Modernidade e se persiga o que sai fora, que se foque no acessório e desvalorize o essencial. Isto cria aversões em muita gente, gente com os mesmo direitos e deveres dos outros todos e cujo voto conta como os outros todos. Acabo de passar os olhos por este ensaio: “A Identidade Não Binária é uma Posição Radical contra a Segregação de Género”. É muito por causa de pessoas destas, que falam uma língua que ninguém percebe e teorizam densamente , com dinheiro público, sobre temas que só lhes interessam a eles e aos amigos, que depois há reacções fortes, tão fortes que mudam a paisagem política de um ano para o outro.  Quando se vê um indivíduo , aparentemente professor, na televisão a defender que é uma violência obrigar uma criança a beijar os avós, sabe-se que já se passou o limite e que há uma minoria agitadora, progressista, que vai muito à frente do eleitorado em geral e tem preocupações e valores muito diferentes. Os outros que ficaram para trás votam, e votam assim, e depois os progressistas escandalizam-se e queixam-se muito.

Isto vai chegar a Portugal, com o atraso que nos caracteriza não será para já mas creio que não vai falhar, e o gajo já aí anda e tudo. Que fique já registado que temos o mesmo apelido mas não tenho nada a ver com ele.  Continuem a procurar ofensas em cartoons, a exigir que se reconheçam de cor todas as variantes  LGBTQWDT, a encorajar o crédito e consumo, a defender a noção de que toda a gente tem direito a tudo, a dar atenção a toda a teoria abstruza saída dos Departamentos de Ciencias Sociais e Humanas e a transformar a política num arraial de semi analfabetos corruptos se querem ver a mão forte a chegar .

Epílogozinho

Sem uma ressaca muito pronunciada a manhã foi dedicada a recolher papéis, pagar contas e levar o barco para o pontão da alfândega, onde ficou até termos ido mostrar-nos em pessoa à Imigração e receber o primeiro carimbo do meu passaporte novo. Esperámos perto de uma hora pelo regresso do agente com o resto da papelada e depois lá atravessámos a baía para esta marina. 

O Steve foi-se embora com o filho ao fim da tarde e o Miguel foi na manhã seguinte, pouco depois de ele se ter ido embora chegou o dono do barco e o filho, radiantes. A primeira razão para o barco ter ido para a Turquia era a renovação da teca do convés, trabalho enorme que pede que se procure mão de obra experiente mas barata como na Turquia, e acesso à matéria prima. Era também uma espécie de “regresso a casa” ou fechar um círculo, porque o barco foi comprado a um alemão na Turquia, por um turco, depois disso atravessou a Atlântico e parou em Cuba onde o fui buscar quando o turco o vendeu a este inglês, e agora ao fim de tantos anos e tantas aventuras, regressa à Turquia,  eu também gosto dessas histórias.

Só ficámos na marina o tempo suficiente para receber a visita de pessoas  com propostas para o trabalho, a primeira de um alemão estabelecido ali há muitos anos que ficou incomodado quando o dono do barco lhe disse que ainda ia ouvir outras pessoas. Achei curioso, o homem não tem noção de concorrência ou de tentar conhecer os preços do mercado, tinha uma lengalenga que era “nós também somos marinheiros, os nosso clientes são nossos amigos” e aparentemente  achava que isso servia para lhe garantir contratos. A seguir a isso, voltar a mudar o barco para outra marina noutro canto da baía, eu já não lhe queria pegar mais e fiquei satisfeito quando o filho dono pegou no leme , só tive que fazer de marinheiro e o moço manobra o barco muito melhor do que eu. Na outra marina esperava-nos um inglês que lá vive há uns quinze anos, também tem um Halberg Rassy e gere uma companhia de charter. Além dos preços para organizar a renovação do convés, que ele não chegou a especificar, gerou logo uma sensação de confiança e afinidade que o alemão nem podia sonhar, não só por ser alemão mas por ser um bocado bruto. Apesar de ter certas dificuldades em calar-se por mais do que 5 segundos o homem mostrou-se a pessoa certa não só para organizar o trabalho mas para tomar conta do barco no entretanto, entretanto esse medido em meses.

Nessa mesma tarde estávamos a tratar dos bilhetes para o meu regresso, eu tinha dito ao dono que tinha que ser ele a comprá-los porque eu já tinha esgotado o cartão de crédito, e não andava muito longe da verdade. À mesa do restaurante íamos vendo aqui e ali até que  apareceu o mais barato e menos longo: Dalaman para Istambul, Istanbul para Chisinau na Moldávia e daí para Lisboa. Olha que curioso, vou ver Moldávia, nem que seja o aeroporto, e disse-lhe que sim , que marcasse esse.  Daí fomos jantar, com o inglês da marina, a um restaurante no meio da cidade, bem longe da marginal, em que não se via um turista e os menus eram todos em Turco.

Aproveito para referir outras das minhas coisas preferidas na Turquia: as pessoas adoram gatos (e cães, em menor grau) e “toda a gente” trata bem os gatos e os deixa andar por todo o lado, como por exemplo nesse restaurante. Este era o gato mais famoso de Istambul e quando morreu fizeram-lhe uma estátua, nesta mesma posição de suprema gatitude:

laid-back-cat-statue-tombili-istanbul-2

Há um prato muito comum em muitos restaurantes do género que eu frequento, em Portugal ou fora, e que é a minha escolha automática, até ver nunca me desiludiu, mesmo sendo eu difícil de desiludir com comida: a infalível grelhada mista, até é um prato que eu faço em casa para mim só que aí costuma ser só “grelhada”, nunca tenho paciência para a parte da “mista”. Foi isso que jantei, o resto perdeu-se em pratos de nome impronunciável e componentes que permaneceram misteriosos mas que toda a gente adorou, mais uma garrafa de tinto turco que eu achei excelente e esse jantar para 5 pessoas saiu por cerca de metade do jantar para 4 no outro dia na marginal de Marmaris. Não me estou só a lamentar , estou também a apontar o facto, que me parece que é muito esquecido, de que quanto mais nos afastamos dos centros e beira mar das cidades mais barato se come, e este mais barato raramente é igual a pior.

Na madrugada seguinte o James foi-me levar à estação de autocarros a Marmaris, onde começava uma viagem de hora e meia para o aeroporto de Dalaman. Despedidas, garantias de que nos vamos ver no futuro, desejos de sorte e tudo isso,  lá embarquei no autocarro e fui apreciando a paisagem, que é grandiosa. Lembrei-me de outra coisa boa que me aconteceu na Turquia, uma vez ia num passeio  num  land rover 110 aberto com  uma data de turistas, eu ia no banco da frente e vi que mais à frente na beira da estrada estava meia dúzia de miúdos, todos de uns 10 anos e com a farda da escola. Estavam de punhos fechados e com a expressão de quem se prepara para fazer alguma, vi-os levantar as mãos e encolhi-me, a pensar que vinha aí algum ovo ou balão de agua ou pior, pedras como já me mandaram uns selvagenzinhos num pseudo país.

Foram mãos cheias de pétalas de flores que os miúdos turcos mandaram ao carro dos turistas que passava, e por anos que viva nunca me vou esquecer dessa, é sempre das imagens que vem logo à cabeça quando me falam de Turquia, essa e outra “revelação” que tive em Istambul na mesma altura. Tinha tirado uma semana para ser turista na cidade, só me faltou ter comprado o Lonely Planet e ter tido paciência para esperar mais de cinco minutos numa fila para um monumento. Andava quilómetros, a maior parte das vezes perdido, andava sem rumo nenhum até me estafar e depois metia-me num taxi e voltava ao hotel. Nessa tarde andava perdido num bairro miserável, já na fase de andar à procura do taxi, e vejo ao fundo de umas escadas de madeira um turco gordo, sujo hirsuto, feio e seboso, aquele gajo que  os políticos que querem meter medo às pessoas escolheriam para nos meter medo dos turcos. No cimo das escadas estava uma criancinha com uns 3 anos a tentar descer, mas com medo. Fiquei ali a ver o modo como o turco horrível a encorajava e depois amparava, com uma doçura e uma paciência enorme, como a abraçou quando finalmente desceu e como depois se foi embora com a criança agarrada às calças. Isto foi há mais de 15 anos e foi outra de que nunca me esqueci. Como lembrava o Sting sobre os Russos, é bom lembrarmo-nos de que os turcos amam os seus filhos como os outros, é esta a Humanidade comum que nos une e nos deve fazer pensar um bocado.

Lá chegámos ao aeroporto de Dalaman, uma construção gigantesca com uma boa metade que fecha na estação baixa. Saquei da minha reserva e fui consultar o quadro de partidas.

– Olha que interessante, quem diria que há 2 aeroportos que servem Istambul.

Passou-me despercebido, outra daquelas coisas que me acontecem por não prestar atenção suficiente. O bilhete para Istambul era para Sabyah Gokcen, o bilhete para a Moldávia saía do Ataturk. Tive um ligeiro arrepio e como já não tinha internet fui perguntar quanto distavam os dois aeroportos e quanto demorava, ouvi entre a hora e meia e as três horas. Se o meu voo não atrasasse nada dispunha de hora e meia  para recuperar a mala , mudar de aeroporto e fazer o check in no Ataturk, o aeroporto com mais controlos de segurança que conheço. Estas duas horas de intervalo não bastavam para chegar a horas, bastavam para não perder o avião, não é bem a mesma coisa. Perdendo o avião…noite em Istambul e novo bilhete, lá ia boa parte do rendimento por água abaixo. Decidi que de qualquer maneira tinha que ir para o Ataturk o mais rápido possível, sentei-me no avião e tirei o relógio do pulso, o tempo não estica por estar a olhar para ele, até parece que encolhe.

Passei o voo de uma hora a rogar-me pragas por ser tão estúpido que começo uma viagem a aperceber-me de que tenho o passaporte caducado e acabo-a comprando um bilhete de avião para o aeroporto errado e depois acho-me um grande viajante. Aterrar no Sabyah Gokcen, as malas no tapete com uma rapidez de fazer corar a Groundforce e arranco desencabrestado para a rua à procura dos taxis, ainda nem tinha parado um ao pé de mim já lhe tinha metido a mala no banco de trás, sentado à frente e dito:

-Ataturk, o mais depressa que conseguir

Vi logo que me tinha calhado o motorista ideal quando ia atropelando duas pessoas na passadeira e saiu da fila do aeroporto pela berma a ultrapassar pela direita. Entrámos numa autoestrada novíssima e ele perguntou

-Quando é o voo?

-Uma hora

-Insha’Allah

Pensei que seria mesmo bom que o Alá inchasse, também não tinha sido mal que o carro fosse um nadinha nada mais potente que este dacia 1200 que mal dava 140 mas o que é certo é que o motorista compensava a insuficiência do carro com a sua perícia e, sobretudo, ausência de medo, quer de medo de se entalar entre dois camiões quer de medo da polícia que o podia bem prender por conduzir como um possesso. Felizmente que nenhum dos painéis da auto estrada indicava distâncias em quilómetros, além de já não saber que horas eram não sabia quanto faltava, o que ajuda a reduzir os nervos. Está a ser feito tudo o que pode ser feito.

Passámos uma ponte novísssima sobre o Bósforo e entrámos em Istambul mesmo. Conduzir depressa numa autoestrada não é difícil, as bermas são grandes e cabe sempre, agora numa cidade congestionada a coisa é diferente.Já via aviões a descolar pelo que já tinha ideia da localização do aeroporto mas ainda era longe e mau caminho. Meia dúzia de manobras daquelas que nos fazem gritar “olha-me esta besta!” e “os taxistas são todos a mesma merda” e que naquela situaqção em que estava aplaudi, e lá chegámos ao aeroporto. A corrida, pela minha conta de câmbio, ficava em €40, e eu que sou o forreta anti gorjetas dei-lhe €60 mais o molho de liras que me sobravam,  o homem protestou genuinamente mas deixei-o a falar sozinho, se alguém merecia um boa gorjeta era ele.

Logo à entrado do terminal, controlo de segurança. Uma pessoa pode chegar ali com 50kg de bombas numa mochila e carregar no botão que ninguém pode fazer nada, mas vinte metros mais à frente já não pode, a utilidade de revistar tudo e todos à entrada do aeroporto é para mim muito duvidosa , mas é assim. Lá se arrastou a fila, lá passei, lá encontrei  o balcão da Air Moldávia ao qual cheguei sem fôlego.

-Devia estar aqui há duas horas, porque é que se atrasou? , começou assim a minha relação com a Air Moldávia, que deve gastar fortunas a treinar o pessoal para interagir com os clientes.

-Enganei-me no aeroporto

Pus o saco no tapete e o passporte no balcão e respirei, ou tentei respirar, fundo. Tinha chegado. Do check in para a frente ainda há outros dois controlos de segurança, e pude finalmente perceber como funcionava algo que sempre me tinha deixado curioso: como é que as mulheres que andam enfiadas nos sacos do lixo nas burkas e abbayas, e que estavam ali às dezenas na fila, passavam o controle de identidade? Bem , afinal é simples, chegam-se ao guichet com um homem (sempre com um homem, as mulheres no Islão não valem nada sozinhas) , e levantam o véu de repente, o suficiente para a oficial do outro lado confirmar que é a mesma pessoa, e seguem. A mim mandam-me tirar o cinto e o boné, aquelas nunca mais a partir desse momento saem debaixo da coberta, é interessante.

O voo para Chisinau foi num avião de 70 lugares como os que a SATA tem, e a Moldávia vista do ar é uma grande planície pontuada de explorações agrícolas  e pequenas aldeias. Tenho que referir que à chegada subiram a bordo nove senhoras da limpeza,contei-as,  nos Açores a um avião daquele tamanho geralmente vão duas depois de um voo. É curioso, não sei como não se estorvam umas às outras. Nem pus o pé fora do aeroporto, pequenino e de interior moderníssimo, a maior parte ocupada pela loja dos perfumes, chocolates, alcool e tabaco. A Moldávia é daqueles países que vou riscar na lista porque tecnicamente estive lá mas que não precisava nada de ter estado nem tenho razão nenhuma para voltar a ver. Tive no entanto uma experiência nova e interessante: pela primeira vez em mais de 20 anos e dezenas e dezenas de aviões de regresso a Lisboa de várias partes do mundo embarquei num avião em que não seguia nem um português. Ah, sabes lá se não, as pessoas não têm escrito na cara… Têm , muitas vezes têm e eu prezo-me de ser bom fisionomista e aposto que de uma amostra aleatória identifico 7 em 10 portugueses. Além disso não se ouvia uma única palavra de português, excepto de uma menina que ia fazendo perguntas em português e os pais respondiam em Romeno, muito engraçado. A conclusão de só haver moldavos e um tuga acidental no voo para Lisboa é que não há portugueses na Moldávia.É uma conclusão forçada e discutível, mas é a que eu tirei lá.

Voo sem história, são os melhores, e aterrar em Lisboa já tarde mas ainda assim na confusão do aeroporto, dá-me logo vontade é de nem sair de lá até ao voo para casa. Recuperar sonos e forças em casa da minha irmã, sem a qual as minhas viagens (e por extensão, a minha vida) teria sido muito mais difícil para não dizer impossível, e acompanhar a chegada do furacão Leslie, nesse dia ainda pensei que ia haver ironia da boa e o meu voo da SATA ia ser cancelado por causa do mau tempo…em Lisboa.

O regresso ao arquipélago foi tranquilo, excepto por ir demasiado perto de um casal cujo homem, além de não se calar, falava a um volume que podia ser ouvido no avião todo.Não sei se as pessoas que falam assim têm a noção ou se nem reparam , é muito estranho. E incomodativo. No banco ao lado do meu ia uma avó com uma neta, “americanas” das ilhas, a neta teria uns 12 anos e já era redonda mas a avó não estava satisfeita e ia-lhe dando mais opções. A miúda coitada, ria-se, dizia “ok” e lá enfardava mais um pacote de oreos. Acho que é um absurdo dizer-se como o outro que obrigar os miúdos a beijar os avós é  uma violência, violência é a maneira como a maior parte dos avós alimenta os netos.

O meu carro estava onde o deixei, a 30 metros da porta do aeroporto, aberto como sempre (até porque já nem fecha), a diferença é que se for para o deixar mais de uma semana tiro a chave da ignição. Encontrei tudo em ordem relativa e agora ainda estou a recuperar o trabalho atrasado. O rendimento desta viagem dividiu-se em dois: metade foi para acabar de pagar uma terra que comprei o ano passado, a outra para pagar um empréstimo que fiz para comprar 16 ovelhas. Nunca levem a sério nada do que eu escrevo sobre economia.

 

 

Pequena Odisseia III

Uma das razões pelas quais aceitei fazer esta viagem foi poder fazê-la com tripulantes que não só são competentes como são amigos há muitos anos, eliminando assim uma das coisas para as quais me faltava mais paciência: conhecer gente nova, orientá-los na parte da marinharia e viver com eles 24/24 no espaço pequeno do barco durante períodos relativamente longos de tempo. Com amigos que sabem o que estão a fazer é um descanso.

Fui-me deitar ainda antes de entrarmos no Golfo de Patras com a instrução “chamem-me quando chegarmos à frente do Canal”, instrução vaga que nunca servia com outra tripulação mas  neste caso bastou, e seriam oito da manhã quando o Steve me chamou, estávamos mesmo à frente da entrada Oeste do Canal de Corinto. 

O Canal é daquelas ideias milenares que levam tanto tempo a ser executadas que quando finalmente se concretizam já perderam a  maior parte do interesse e utilidade. A primeira ideia para um canal no istmo tem mais de 2500 anos mas o promotor, depois de fazer umas contas, decidiu criar antes um caminho em que os barcos eram transportados por terra , coisa só possível quando temos milhares de escravos à disposição. O imperador Nero deve ter inventado aqui algo que os políticos hoje em dia ainda fazem : uma cerimónia em que pegou numa picareta e deu a primeira cavadela no que seria o canal…mas não foi. Só no século XIX finalmente se construiu o canal, depois das peripécias sempre associadas a uma obra destas , especialmente por ser na Grécia e envolver franceses, e assim que ficou terminado começou logo a decair e perder importância. Navios maiores , com mais autonomia e mais velozes, fizeram cair o interesse no canal, que hoje é mais uma atracção turística que outra coisa.

Chamei pelo canal 11, disseram-me para  ancorar fora do porto e esperar até às 1400, como ainda eram 8 perguntei se podia antes amarrar no porto de Corinto, sem problemas, lá fomos ver mais uma cidade grega. O Steve foi procurar outro hospital, eu e o Miguel fomos beber um café. Parámos num café de esquina, super moderno e tecnológico, que também tinha um serviço de entregas. Fiquei maravilhado com aquilo, um espaço de uns 20m2 comportava 8 empregados activos e ainda andavam pelo menos 3 estafetas que entregavam cafés ao domicílio. O café nem era nada caro e não percebo como é que numa cidadezinha de província com 40 mil pessoas num país, diziam-nos “devastado pela austeridade”, um negócio que emprega 12 pessoas ao domingo de manhã a tirar cafés é rentável. Há muita coisa que eu não percebo, como é bom de ver.

Faltava um quarto para as duas quando o Miguel me vem perguntar se não devíamos ir andando. Eu pensava que era um quarto para a uma, ainda estava com a hora croata e seguiu-se uma corrida para deixar a doca e voltar à entrada do porto, onde já estava  mais meia dúzia de iates à espera para fazer o trânsito.Passado pouco tempo o operador começou a fazer a chamada e como nos tínhamos “inscrito” de manhã cedo fomos logo o primeiro veleiro atrás de um iate a motor grego que deve fazer aquilo todas as semanas.  Por falar em iates a motor gregos, um amigo meu trabalhou num, propriedade de milionários gregos, que também fazia “charter”. De cada vez que chegavam turistas  eram inscritos como tripulantes e não como passageiros, evitando assim a taxa turística. Um armador podre de rico a fazer isso para evitar pagar uns trocos é muito grego.

Bom , o canal é uma vala profunda, nada mais, é isto, numa foto que obviamente não fui eu que tirei:

GettyImages-901011466-5a5e7bd2494ec900376d9cee

Uma curiosade turística e uma vantagem para a náutica de recreio. Como éramos os segundos do comboio e o iate a motor à nossa frente devia ter “via verde” , amarrámos logo no pontão de espera à saída e corri para o escritório. Nem sei muito bem porque é que corri, é aquela sensação permanente de pressa. O homem à secretária mandou-me sentar e passou-me um grande impresso em triplicado, eu saquei dos documentos do barco e comecei a preencher mas ele apontou para a linha final:

-É só assinar e pagar , explicou com um grande sorriso, que eu retribuí.  Zarpar outra vez e já estávamos no Mar Egeu, com uma brisa muito ligeira e seguindo a motor. Ao fim do dia via-se bem a luz e o manto de poluição de Atenas, cidade que espero nunca mais visitar, o país tem sítios lindos mas Atenas não é um deles.

A parte mais difícil estava feita, a previsão meteorológica dizia que nos tínhamos finalmente visto livres das bolinas cerradas e agora era a um largo até Marmaris, velas rizadas que a brisa refrescou e uma navegação fácil sempre à vista de uma ilhota ou outra. Logo na primeira noite no Egeu o motor parou, os sintomas eram claros, falta de combustível, eu tinha-me esquecido de que o manómetro do gasóleo não lê correctamente e deixei o tanque principal secar. Houve que sangrar e voltar a ferrar o motor, tendo mesmo que abrir os injectores, mas não foi nada de mais, só tive um ligeiro arrepio a pensar no que teria sido se acontecesse seis horas antes, a meio do Canal de Corinto, com 10 iates atrás de mim e sem espaço  para parar , desviar ou dar a volta, havia de ter sido lindo.

Calor, brisa boa , boa companhia e uma velejada que muita gente paga bom dinheiro para fazer, os últimos dois dias de viagem foram um consolo, e a entrada na baía de Marmaris uma coisa bastante dramática, no sentido de espectacular, por ser uma baía com uma entrada relativamente estreita e cercada de montanhas altas.

mararmis2

Direitos à marina , de onde nos informam que o pontão da alfândega é na outra ponta do porto, numa zona fechada onde param os ferrys para Rhodes e companhia. Lá amarrámos, lá veio um tipo que nos informou  que precisamos de um agente.

-E há aqui um agente?

-Vou ver

E lá vai o homem, daí por quinze minutos volta um tipo novo que me pede os documentos do barco e os passaportes. Num cálculo que levou dois segundos a fazer disse-lhe que não , voltámos à marina e amarrámos no sítio que nos indicaram.  Não tive a sensação de “desacarga” porque sabia que o tinha que levar o barco para outra marina no dia seguinte e a coisa ainda estava longe de estar feita. Escritório da marina, escritório do agente e uma espécie de catch 22 em que a marina precisa do registo da alfândega para nos aceitar e o agente precisa da entrada na marina para nos registar, mas não há nada que não se resolva com muita paciência, dinheiro e, sempre que possível, sorrisos. Paciência às vezes escorregava e os moços repararam cedo numa espécie de tique que eu tenho de esfregar a cara  com a mão direita quando me começo a enervar, e riram-se bastante à conta disso o resto do tempo.

Com o processo em andamento e os documentos deixados com pessoas credíveis passámos à próxima fase, um duche e uma visita à cidade.  A marginal é como uma marginal de uma cidade turística, cheia de restaurantes caros, depois há um castelo, a única construção antiga que resistiu a tremores de terra e invasões, um bazar por detrás e depois  a cidade em si. No primeiro bar quis saber onde é que se podiam ver os espectáculos de dança do ventre, que tinha visto em visitas anteriores e me tinham deixado muito impressionado. O google tinha sugerido uma sala de espectáculos chamada Karavansarai mas dizia que estava fechada, o homem do bar confirmou: há quatro anos as autoridades proibiram os espectáculos de dança do ventre.

Ora, uma das várias coisas de que gosto na Turquia é de nas cidades ver passar uma mulher de abbaya, ou de simples lenço na cabeça e vestido comprido, e logo atrás outra de top com os ombros à mostra e calções curtos e apertados, como manda esta abençoada moda. Ou seja, as mulheres podem vestir-se como quiserem e eu acho isso importante. Acontece que o Erdogan, o actual presidente, quer manter-se o actual presidente para sempre e para isso precisa do apoio dos clérigos, raça daninha que está no seu mais feliz quando está a oprimir e condicionar as mulheres e a ditar moral aos outros. Isso explica o fim das actuações das dançarinas e outras medidas puritanas que se fazem sentir mais longe da costa, onde está a maior base de apoio do homem.

Sem espectáculo de bailarinas passei a outra coisa que gosto de fazer quando viajo, seja para a Turquia seja para destinos exóticos tipo Praia da Vitória na Terceira, é procurar um barbeiro à moda antiga para cortar o cabelo e fazer a barba à navalha, e lá fomos visitar o bazar onde se encontra um monte deles. Outra coisa que queria era um hamam, o verdadeiro banho turco que é uma das melhores coisas que pode haver mesmo quando não se chega de 10 dias der viagem, mas  não houve tempo. Recomendo vivamente, não a interpretação ocidental que lhe chama spa e multiplica o preço por dez, a coisa genuína onde por 5€ podemos ter uma experiência física inesquecível. Eu pelo menos nunca mais me esqueci, mas é verdade que para isso é preciso ir à Turquia e afastarmo-nos um pouco do litoral.

Jantámos na marginal, eu sou forreta por natureza e um kebab numa tasca tinha bastado mas há que observar certas convenções, entre elas o capitão à chegada oferece um jantar num restaurante bom. Já me estava a enervar, se eu sou forreta é porque tenha razões muito claras e vivas para isso e não gosto de ser gozado por querer gastar pouco dinheiro e por não ligar muito a comida, acabámos num restaurante na marginal a comer uma refeição de qualidade… marginal, por preços que só não eram exorbitantes porque a lira turca tem caído muito nos últimos meses, 20% em 3 meses para ser mais exacto, o que aliviou a coisa.

Paralela à marginal há uma ruela forrada de bares e discotecas e frequentada por turistas e predadores locais. “Isto é um degredo, parece Albufeira”, comentou o Miguel, e foi nesse degredo que passámos o resto da noite. Inglesas bêbadas a arriscarem-se a sair nas notícias, Zezés Camarinhas turcos, música a fazer estremecer as paredes, bar após bar meio vazio com gorilas medonhos à porta. Enfim, é um mistério mas ali ficámos até já ninguém saber as horas e o que é certo é que no dia seguinte ninguém dizia “é pá noite espectacular, temos que voltar àquela rua”. Fazem lá festas da espuma, outra coisa que se pensava ter acabado nos anos 90 e ninguém falava mais disso por vergonha, mas lá está, o que está a acabar nuns sítios está a começar noutros.

Na manhã seguinte havia que terminar e pagar as formalidades e levar o barco para a outra marina na outra ponta da baía, já andávamos a ver voos para casa, estava quase feito.